quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Paulo Freire - Para Educadores




Às educadoras e educadores
populares que atuam na escola ou
fora dela porque no dizer de Paulo
Freire são os mais aptos a entendê- lo.


S U M Á R I O
Introdução
1 1
Paulo Freire: uma vida comprometida com os oprimidos
1 3
Paulo Freire: um pensamento nascido da vida
5 1
As bases do pensamento de Paulo Freire
5 4
Humanização e desumanização
5 6
O sentido da educação
5 8
A educação é um ato de conhecimento
5 9
A educação é sempre política
6 1
A educação se faz através do diálogo
6 3
O papel do educador
6 6
Alfabetização: ler o mundo para escrever a história
7 3
Para que alfabetizar?
7 5
Paulo Freire e a alfabetização de adultos
7 9
O nascimento da metodologia Paulo Freire
8 3
O processo da alfabetização
9 9
O Círculo de Cultura
116
As re-criações de Paulo Freire
119
Bibliografia
135


10


I N T R O D U Ç Ã O
Na última viagem que fez aos Estados Unidos, poucas
semanas antes de morrer, Paulo Freire foi convidado para um
encontro com amigos na casa de um jornalista brasileiro. Lá,
uma educadora norte-americana perguntou para Paulo qual era
a qualidade que considerava fundamental num educador. Sem
muita demora, Paulo afirmou que, para ele, era gostar da vida.
Esta resposta poderia soar estranha partindo de um dos
maiores pedagogos do nosso século. Entretanto, em se tratando
de Paulo Freire não há nada a admirar. Afinal, Paulo viveu
apaixonadamente o seu tempo e construiu uma pedagogia que
brota da luta pela vida, pela vida em abundância.
Mesmo que a resposta à educadora norte-americana,
dificilmente, seja encontrada nos compêndios de didática, o gosto
pela vida foi um princípio educativo para este nosso principal
educador brasileiro.
Em outra situação, Paulo já afirmara o poder da vida:
"É exatamente a vida, que aguçando nossa curiosidade,
nos leva ao conhecimento; é o direito de todos à vida que nos
faz solidários; é a opção pela vida que nos torna éticos."
Vida, curiosidade, conhecimento, solidariedade, ética são
algumas das palavras geradoras da educação, na visão de Paulo
Freire.
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PAULO FREIRE:
UMA VIDA COMPROMETIDA
COM OS OPRIMIDOS
foto: Julio Wainer - 1995


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Certamente você conhece alguns destes pensamentos:
Ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo, os
Homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.
Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os
Homens se libertam em comunhão.
Não há educação neutra. Toda neutralidade afirmada é uma
opção escondida.
Mesmo que não percebamos, nossa práxis, como educadores,
é para a libertação dos seres humanos, sua humanização ou
para a domesticação, sua dominação.
Eles expressam idéias que vêm influenciando as práticas
educativas de um grande número de educadores, em todas as
partes do mundo.
É difícil saber até onde elas chegam e que práticas
influenciam. Consideradas como obviedades por quem as
formulou, elas alimentam grupos de revolucionários em El
Salvador
, jovens artistas no Japão, militantes negros nos Estados
Unidos, sindicalistas na Itália, teólogos da libertação, professores
nos mais variados contextos da terra e uma infinidade de trabalhos
de educação popular, desenvolvidos por pessoas comprometidas
com alguma forma de libertação.
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Paulo Freire, como bem dizia um dos seus estudiosos, "é
um educador multicultural que tem todo o mundo como sua sala
de aula, apesar do sabor completamente brasileiro de suas
emoções, sua linguagem e seu universo de pensamento."
De fato, Paulo realizou esta façanha: reuniu as questões
locais com as universais, o professor de Recife com o pedagogo
universal, a intuição nascida na prática cotidiana com a reflexão
original que desafiava a epistemologia e a antropologia modernas.
Para acompanhar o pensamento de Paulo Freire é de
grande importância seguir a linha mestra de sua vida porque,
coerentemente com o que dizia sobre a relação dialética entre o
ser humano e o seu mundo, ele usou a vida e as coisas do dia a
dia para, a partir delas, construir o seu pensamento.
Em Paulo Freire vida, pensamento e obra se juntam,
formando um só tecido.
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O nascimento e a infância
Paulo Freire nasceu em Recife, na rua do Encanamento,
n° 724, no dia 19 de setembro de 1921. Seu nome completo:
Paulo Reglus Neves Freire.
"Reglus, foi invenção de meu pai. Não sei qual foi a
influência latina que ele teve, quando foi me registrar. O fato é
que Reglus deveria ser Re-gu-lus, mas o sujeito do cartório errou
e escreveu Reglus. Comecei a ser conhecido como Paulo Freire
desde a minha adolescência. O nome por extenso, na verdade,
nunca pegou."
Seu pai, Joaquim Temístocles Freire, foi oficial da Polícia
Militar de Pernambuco e sua mãe, Edeltrudes Neves Freire, uma
zelosa dona de casa.
Quando dedicou aos pais seu primeiro livro: Educação
como prática da liberdade, Paulo diz que foi com eles que
aprendeu o diálogo que "tratei de manter com o mundo, com os
homens, com Deus, com minha mulher e meus filhos."
As lembranças da infância
Por muitas vezes, em conferências e escritos, Paulo se
referiu a sua infância. Sempre com lembranças mescladas de
saudades e emoções.
Em Campinas (SP), abrindo o Congresso Brasileiro de
Leitura, em 1981, comentou:
"Me vejo na casa mediana em que nasci, rodeada de
árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade
entre nós ­ à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis
à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me
preparavam para riscos e aventuras maiores.
A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu
terraço ­ o sítio das avencas de minha mãe ­ o quintal amplo em
que se achava, tudo isto foi o meu primeiro mundo."
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Tela: Jandira Vidal
"Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à
sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do
mundo maior dos meus pais.
O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz."
A crise de 29
Em 1929, a euforia que havia tomado conta da Europa
e da América, com o final da Primeira Guerra Mundial,
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redundou em uma especulação desenfreada nas Bolsas de
Valores, especialmente na de Nova York, elevando
assustadoramente os preços das ações de empresas reais ou
inventadas para atender à forte demanda de ações. A falta de
sustentação econômica destes preços acabou produzindo, em
1929, um ajustamento traumático.
Esta crise, que abalou o mundo, repercutiu no Brasil,
afetando a nossa economia. Este fato interferiu profundamente
na vida do menino Paulo Freire.
"Minha família, que era de classe média, foi obrigada a
deixar a casa em Recife para morar em Jaboatão, com a idéia
mágica de que saindo de lá as coisas melhorariam.
No entanto, elas pioraram. Este fato provocou uma
mudança fundamental na minha vida."
Jaboatão, município vizinho de Recife, foi de grande
importância na vida de Paulo Freire. Foi lá que ele perdeu o pai
e conheceu o significado da pobreza.
"Em Jaboatão me tornei homem, graças à dor e ao
sofrimento que não me submergiram nas sombras do
desespero."
Nascido numa família de classe média empobrecida com
a crise, Paulo participou de dois diferentes mundos: de um lado,
o status social dado "pela gravata do pai e o piano da tia e, do
outro lado, o coleguismo com os meninos pobres".
"Participando do mundo dos que comiam, mesmo que
pouco comêssemos, participávamos também do mundo dos que
não comiam, mesmo que comêssemos mais do que eles -- o
mundo dos meninos e das meninas dos córregos, dos mocambos,
dos morros. Ao primeiro, estávamos ligados por nossa posição
de classe; ao segundo, por nossa fome."
Esta situação levou Paulo a se auto ­ denominar "menino
conectivo"
São muitas as histórias, lembradas por Paulo, relativas a
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este período sofrido, mas rico de aprendizagens. Esta é uma
deslas:
"Eu tinha possivelmente onze, doze anos, um pouco
faminto, mas não tanto quanto dos meninos deste país, desde
continente.
Lembro-me de uma manhã de domingo, uma manhã sem
chuva. Estávamos, meus irmãos mais velhos e eu, no fundo do
quintal, num gramado em que minha mãe plantara algumas
roseiras para enfeitar a vida difícil. Eis que uma galinha pedrês
se aproxima de nós distraída, acompanhando com seu pescoço
ondulante os pulos de um gafanhoto incauto. Em certo momento,
a galinha apanhou o gafanhoto. E nós apanhamos a galinha.
Pegamos a galinha num salto, sem haver um acerto prévio.
A mediação da nossa ação era a fome dos três, era a razão de ser
da prática, e quando minha mãe ouviu os gritos
da galinha e correu até nós no quintal, ela já não
gritava mais porque entrava nos estertores.
Nós havíamos estrangulado a galinha.
E eu não esqueço que minha mãe, cristã,
católica, séria, bem-comportada, com uma
consciência ética bastante aguçada,
agarrou a galinha pedrês nas mãos e deve
ter dito a ela mesma: o que
fazer? Devolver esta
galinha ao proprietário
pedindo desculpa pelo
ato dos seus filhos, como
possivelmente a sua
consciência ética sugeriria,
ou, pelo contrário, fazer com
aquela galinha o lauto almoço
que há tempo não tínhamos?
Claro que ela nunca me disse
isto, eu apenas traduzo a sua
hesitação. De repente, sem dizer
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palavra, vira para o terraço e encaminha-se para a cozinha, com
o corpo quente da galinha do vizinho. Uma ou duas horas depois,
comíamos uma excelente refeição.
No dia seguinte, não há dúvida nenhuma que o dono sentiu
falta da galinha e deve ter estrebuchado de raiva contra o ladrão.
Possivelmente ele jamais poderia ter pensado que junto
dele, na casa do vizinho, estavam os autores do sumiço. Mas ele
não podia fazer esta conjectura porque os autores do sumiço
eram os filhos do capitão Temístocles, meu pai, e os filhos do
capitão Temístocles não podiam ser ladrões de galinha.
O meu vizinho não podia pensar que nós éramos os autores
daquele furto porque a classe social à que nós pertencíamos não
possibilitava que ele fizesse esta conjectura. No máximo, se
viesse a descobrir que éramos nós os autores, o vizinho iria dar
uma riso discreto e dizer à minha mãe: não se preocupe, isto é
trela das crianças. Se fossem, porém, meninos de um operário,
teriam sido considerados delinqüentes infantis. Na verdade, não
éramos e nem fomos delinqüentes, matamos a galinha pedrês
do vizinho para comer. Tínhamos fome.
Inclusive, naquela época, eu não furtei dinheiro porque
não houve chance, senão teria furtado. Mas açúcar de uma venda
que tinha próxima da nossa casa eu quase canso de roubar.
Descobri na infância que o açúcar era energético, e era meu
corpo que ia aos torrões de açúcar bruto e não a minha mente, se
eu posso fazer esta dicotomia inviável.
Penso nos meninos com fome, nos meninos traídos, nas
meninas vilipendiadas nas ruas deste país, deste e de outros
continentes. Meninos e meninas que estão inventando outro país.
E nós, mais velhos, temos que ajudar essas meninas e esses
meninos a refazer o Brasil."
As dificuldades enfrentadas levaram Paulo a perceber que
havia algo de errado num mundo onde algumas pessoas eram
submetidas a tantas carências e que estas injustiças podiam ser
mudadas.
21


Esta atitude de fé nas possibilidades de mudança, que mais
tarde ele chamou de "otimismo crítico", tornou-se uma das
marcas da sua pedagogia: indignação frente à realidade injusta,
mas também luta pela sua transformação.
"Uma das fundamentais diferenças entre mim e intelectuais
fatalistas que não sonham, não crêem em utopias, está no
otimismo crítico e nada ingênuo que me anima.
A esperança é exigência ontológica dos seres humanos."
Foi, portanto, em Jaboatão, na convivência com a pobreza,
que Paulo se preparou para o compromisso com os oprimidos.
O estudante
Foi também em Jaboatão que Paulo completou o curso
primário. Para continuar os estudos teria que ir até Recife, o que
só poderia acontecer se não tivesse que pagar a escola.
D. Tutinha, como era conhecida a mãe de Paulo, procurou
durante algum tempo uma escola que oferecesse uma bolsa de
estudo para o filho.
"Ainda me lembro do rosto de minha mãe, em forma de
riso, me dizendo da conversa que tivera com Dr. Aluízio, diretor
do Colégio Oswaldo Cruz, e da sua decisão em oferecer-me a
oportunidade de estudar."
Do Colégio Oswaldo Cruz, Paulo Freire só saiu para cursar
Direito. Mesmo assim, voltou ao mesmo colégio como professor
de português, durante o tempo em que cursava a faculdade.
O casamento com Elza
Foi nesta época, que Paulo conheceu Elza Maia Costa
Oliveira, uma professora de pré-escola que marcaria,
definitivamente, a sua vida pessoal e profissional.
"Um dia encontrei Elza numa esquina da rua. Eu sempre
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digo que ninguém marca encontro com o amor. Esse negócio de
amor acontece, tem sua razão. A gente se encontra numa esquina,
numa esquina qualquer da existência. Mas ninguém encontra
apenas, porque é encontrado. Numa esquina qualquer da vida
eu encontrei Elza e ela me encontrou. E deu certo o encontro"
Aos 23 anos, Paulo casou-se com Elza. Viveram 42 anos
de amor, com os filhos: Maria Madalena, Maria Cristina, Maria
de Fátima, Joaquim e Lutgardes.
Elza
23


Paulo, Elza, filhas e primos - Recife, 1951
Elza, Paulo, filhos, genros e nora - S.P., 1983
24


A vida profissional
Embora tenha se formado advogado, Paulo apenas
ensaiou ingressar na profissão, Tendo uma única experiência
nesta área:
"Numa tarde, chegando em casa, fui logo me dirigindo à
Elza dizendo: Me emocionei muito esta tarde. Já não serei
advogado. Não é a advocacia o que quero."
Foi assim que Paulo começou a contar para Elza o desfecho
do seu primeiro trabalho como advogado: a cobrança a um jovem
dentista que, tendo se endividado com a montagem de seu
consultório, propunha entregar os móveis de sua casa como parte
do pagamento do débito.
"Por enquanto você poderá ficar com seus móveis porque
na próxima semana devolverei a causa a seu credor. Ele levará
algum tempo até conseguir outro necessitado para ser seu
advogado. Com você, encerro minha passagem pela carreira que
nem iniciei."
No final, Elza só comentou: "Eu já esperava por isto, você
é um educador".
O tempo do SESI
Pouco depois de deixar a advocacia, Paulo começou a
trabalhar no SESI (Serviço Social da Indústria).
Os dez anos que passou nesta instituição foram tão
importantes para a sua formação pedagógica que ele se referia a
este período como "tempo fundante", porque via nele o começo
de sua compreensão do pensamento, da linguagem e
aprendizagem dos grupos populares.
Foi no SESI, convivendo com diretores e professores de
escolas primárias, coordenadores e participantes de programas
culturais, que Paulo se convenceu do peso do autoritarismo na
cultura brasileira.
25


Claudius (cuidados escola)
Autoritarismo que, mais tarde, ele criticaria de forma incisiva
no tocante ao nosso sistema educacional.
Foi também nesta época que Paulo aprendeu o quanto é
diferente falar "com alguém" e falar "para alguém". Como
buscava uma efetiva integração entre professores e pais das
escolas mantidas pelo SESI, ele criou o Círculo de Pais e
Mestres.Realizavam-se encontros periódicos durante os quais era
tratado um tema educativo de suposto interesse do grupo. A
equipe do SESI escolhia o assunto e se preparava para apresentá-
lo no Círculo. Era patente o predomínio do grupo de especialistas
sobre os pais, cansados operários e exauridas mães. Enquanto
os professores falavam, os pais permaneciam mudos.
Uma noite, depois de uma longa exposição em que Paulo
descreveu o desenvolvimento do julgamento moral na criança,
um pai, criando coragem, ensaiou um comentário: "O doutor
fala muito bonito, a gente até gosta de fica ouvindo. Só que a
gente tem outros problemas, com os meninos, lá em casa. A
gente vem aqui e num vê chegá a hora de tratar dos problemas
que a gente tem."
Contava Paulo que, naquele exato momento, descobriu o
quanto é diferente falar "para alguém" e falar "com alguém".
Ficava evidente a importância de se levar em conta os interesses
dos educandos nas ações educativas.
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Quando diretor do SESI - Pernambuco
O professor universitário
Saindo do SESI e seguindo sua vocação de educador, Paulo
Freire se tornou professor universitário. Numa entrevista à revista
Teoria e Debate, Freire referiu-se a esta passagem.
"Chegou um momento em que eu comecei a ser conhecido
na cidade do Recife como educador. Havia um dispositivo no
Estatuto da Universidade pelo qual, antes de fazer a tese, a
Universidade reconhecia em alguém o que ela chamava de saber
notório. Eu requeri à Universidade o "saber notório" no campo
da educação. Para mim era fácil provar essa minha presença
pedagógica no Recife, antes mesmo de ter aparecido
nacionalmente com a questão da alfabetização. Em 1959, fiz
concurso, fui contratado pela Universidade interinamente para
ser professor de História e Filosofia da Educação no curso de
Professorado de Desenho da Escola de Belas Artes."
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O MCP
Em 1960, Miguel Arraes, prefeito da cidade de Recife,
mostrou-se interessado em ampliar os trabalhos de educação de
crianças e adultos nas amplas áreas da pobreza. Para isto, convi-
dou intelectuais, sindicalistas e o povo em geral a se engajarem
num movimento de divulgação cultural de caráter autônomo, o
Movimento de Cultura Popular de Pernambuco (MCP).
Paulo foi um dos intelectuais que se engajaram no MCP.
"O MCP trabalhava com educação popular das crianças,
dos adultos, e trabalhava, também, com teatro popular.
Os projetos do MCP se entrelaçavam, não havia
departamentos estanques. Naquela época nós fizemos um circo
que era um teatro ambulante. Nós fazíamos um levantamento
nos bairros periféricos do Recife para saber em que terrenos
colocar o circo, sem pagar imposto. Pesquisávamos o custo do
cinema mais barato da área para igualar ao preço do ingresso.
Lotávamos os circos e o povo adorava.
Levávamos peças muito progressistas, provocávamos os
grupos populares a também fazer peças e propor artistas para
serem trabalhados pela equipe de teatro. Outra coisa linda era
que, durante a peça, o povo participava, gritava, entrava na peça."
Sítio da Trindade - sede do MCP - Recife
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Foi também no MCP que Paulo fez suas primeiras
experiências no campo da alfabetização de adultos, que via como
um processo mais amplo, chamado de conscientização.
A pedagogia de Freire aplicada à alfabetização provocou
profunda raiva nas classes dominantes, reação que Paulo
explicava da seguinte forma:
"É que às classes dominantes não importava que eu não
tivesse um rótulo porque elas davam um. Para elas eu era
comunista, inimigo de Deus e delas. E não importava que eu
não fosse. Perfila quem tem poder. Quem não tem é perfilado. A
classe dominante tinha poder suficiente para dizer que eu era
comunista.
É claro que havia um mínimo de condições objetivas para
que eles pudessem fazer estas acusações. A fundamentação básica
para que eu fosse chamado comunista eu dava. Eu pregava uma
pedagogia desveladora das injustiças; desocultadora da mentira
ideológica. Dizia que o trabalhador, enquanto educando, tinha o
dever de brigar pelo direito de participar da escolha dos conteúdos
ensinados a ele. Eu defendia uma pedagogia democrática que
partia das ansiedades, dos desejos, dos sonhos, das carências
das classes populares."
O golpe de 64
Depois da renúncia intempestiva de Jânio Quadros à
presidência da república, os setores conservadores só
conformaram-se com a posse do vice-presidente João Goulart
depois de mudar o sistema de presidencial para parlamentar. Não
confiavam em Goulart, ex-ministro do trabalho de Getúlio Vargas,
com forte apoio político dos sindicatos. Temiam que ele, estando
na presidência, favorecesse mudanças estruturais significativas
em favor das camadas populares.
O parlamentarismo durou pouco e um plebiscito trouxe
de volta o presidencialismo. Os conservadores começaram a
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conspirar contra o governo. Para obter o apoio da classe média,
os meios de comunicação de massa, controlados por eles,
passaram a alardear o risco que o Brasil corria de tornar-se
comunista no governo Goulart. Obtiveram com isto a simpatia
de grande parte da hierarquia católica e, em plena Guerra Fria, o
apoio velado norte-americano.
Em 31 de março, a conspiração culminou com uma
movimentação militar a partir de Minas Gerais. Consciente da
sua fragilidade frente aos adversários e da inutilidade de uma
resistência armada, o presidente João Goulart abandonou o
governo. A junta militar que assumiu decidiu não entregar o poder
aos civís; iniciou-se, desse modo, um período de vinte anos de
ditadura militar.
Com o golpe vieram as perseguições políticas.
"O golpe de Estado de 1964 não somente deteve o esforço
que fazia no campo da educação de adultos e da cultura popular,
como me levou à prisão por cerca de 70 dias. Fui submetido,
durante quatro dias, a interrogatórios que continuaram depois
do IPM1 do Rio de Janeiro.
Livrei-me procurando refúgio na Embaixada da Bolívia,
em setembro.
Na maioria dos interrogatórios a que fui submetido, o que
se queria provar ­ além da minha `ignorância absoluta' era o
perigo que eu representava.
Fui considerado como `subversivo internacional', como
um `traidor de Cristo e do povo brasileiro'. Um dos juízes
perguntou-me: `Você nega que seu método é semelhante ao de
Stalin, Hitler, Perón e Mussolini? Você nega que com seu pretenso
método você quer mesmo é bolchevizar o país?'...
O que ficava muito claro em toda esta experiência, da qual
saí sem ódio e sem desespero, era que uma onda ameaçadora de
irracionalismo estendia-se sobre nós: era uma forma ou distorção
patológica da consciência ingênua, extremamente perigosa por
1 Inquérito Policial Militar
30


causa da falta de amor que a alimenta, por causa da mística que
a anima."
O Estado de S. Paulo - 29/09/64
O exílio
Diante de uma situação de total insegurança, o único
caminho era o do exílio.
Primeiro, o asilo na Embaixada da Bolívia para, em
seguida, deixar o país. Um momento muito difícil, principalmente
porque Paulo foi sozinho, deixando aqui Elza e os filhos.
31


O tempo na Bolívia foi bem pequeno. Problemas de saúde
ligados à altitude e problemas políticos com o golpe que depôs
o presidente Estensoro tornaram poucos os dias naquele país.
O Chile
Uma nova porta estava se abrindo o Chile que, naquele
momento, comemorava a vitória da social-democracia.
Com a ajuda de amigos, Paulo conseguiu sua ida para
aquele país, onde chegou em novembro de 1964. Elza e os filhos
só chegariam meses depois.
O Chile proporcionou a Paulo um período muito fértil do
ponto de vista da consolidação do seu pensamento.
"Os saberes que foram criticamente se constituindo desde
o tempo do SESI se consolidaram na experiência do Chile e nas
reflexões feitas sobre eles.
As leituras também contribuíram no sentido de oferecerem
a explicação ou a confirmação da minha prática."
O Chile significou para Paulo, como para muitos outros
exilados brasileiros, a descoberta da América Latina: "o Chile
nos ensinou a América Latina, rompeu com o nosso
paroquialismo. Antes dele, apenas sobrevoávamos a realidade
latino-americana pois nosso polo de atração eram mais os Estados
Unidos e a Europa. Este é um aspecto fundamental que
obviamente me fez crescer muito, me deu condições de
aperfeiçoar os instrumentos de compreensão e análise da
realidade."
Foi também no Chile que Paulo começou, de fato, a
conhecer o significado do exílio, experiência que viveu durante
16 longos anos e que, como não poderia deixar de ser, marcou-
o profundamente.
Muitas vezes Paulo comentou sobre esta sua expe-
riência:
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Paulo Freire - Santiago - Chile
"O exílio muda o exilado. E, em geral, a prática do exílio
acrescenta sua própria existência. No momento em que chega à
terra de empréstimo, o exilado ganha uma distância de seu
contexto original, daquele pedaço de mundo que ele conheceu.
E logo começa a viver essa ambigüidade: de um lado, está sendo
desafiado por algo novo diante dele; do outro lado, está amarrado
ao que ele viveu.
Essa distância que ele toma do seu país é, ao mesmo tempo,
uma distância geográfica e uma distância no tempo. Esse é um
dos riscos graves que o exilado corre. O risco de se perder num
tempo que ele, emocionalmente, imobiliza."
No Chile, Paulo trabalhou com Jacques Chonchol, o
idealizador da reforma agrária no ICIRA (Instituto de Capacitação
e Investigação em Reforma Agrária).
Pouco mais de um ano após sua chegada ao Instituto, foi
33


publicado o Manual del Método Psico-Social para la Enseñanza
de Adultos, uma adaptação das idéias e da metodologia de Freire
para a alfabetização em espanhol.
Material de alfabetização - Chile
O autor Paulo Freire
Além dos trabalhos no Instituto, os anos passados no Chile
foram férteis na produção escrita de Paulo. Lá, revisou e publicou
o livro Educação como Prática da Liberdade, escreveu os
artigos que depois formaram o "Ação cultural para a liberdade"
além de escrever seu livro mais famoso: Pedagogia do
Oprimido.
"Passei um ano discutindo a Pedagogia do Oprimido antes
de escrevê-lo. Tinha até o título, mas o livro mesmo não estava
escrito.
À medida que ia debatendo o tema e ampliando minha
compreensão dele, ia fazendo registros em fichas que me foram
fundamentais no momento de escrever.
Quando comecei a escrever, ia até a madrugada. Em 15
dias tinha os 3 primeiros capítulos.
34


Durante todo o tempo em que falei da Pedagogia do
Oprimido a outras pessoas e a Elza, ela sempre foi uma ouvinte
atenciosa e crítica e se tornou minha primeira leitora, quando
comecei a fase de redação do texto.
De manhã, muito cedo, lia as páginas que eu escrevera até
a madrugada. Às vezes, não se continha. Me acordava e, com
humor, me dizia: Espero que este livro não nos torne mais
vulneráveis a novos exílios."
Depois de pronto, o livro foi entregue a uma editora norte-
americana que o editou, pela primeira vez, em 1970.
Curiosamente, o livro, escrito em português, foi publicado,
inicialmente, em inglês.
Hoje, Pedagogia do Oprimido é obra clássica na educação
e está traduzida em mais de trinta idiomas.
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Os Estados Unidos
Através de contatos feitos por Ivan Illich, o incentivador
da desescolarização, Paulo começou a manter relações com
grupos norte-americanos que desenvolviam atividades educativas
nas áreas de população negra e porto-riquenha. Estes contatos o
levaram aos Estados Unidos.
"Chegar aos Estados Unidos foi um susto. Cheguei em
Nova York
, aquela cidade subindo e ao mesmo tempo se
espraiando.
Minha primeira sensação foi de ficar inibido. Tudo era
muito grande e a isso se juntava a minha impossibilidade de
falar inglês. O medo de perder-se esta sempre presente.
Lembrei-me de ter ouvido depoimentos de analfabetos no
Chile que me retrataram uma situação praticamente igual à minha,
quando cheguei a Nova York e depois em Paris. Nesses
depoimentos os chilenos diziam que quando iam a Santiago,
mesmo falando espanhol, ficavam perdidos, com medo de pegar
ônibus errado, de ser roubado numa loja, medo de tudo. Tudo
como eu sentia."
Paulo deixa o Chile. Aeroporto de Santiago com a equipe do ICIRA
36


"Quando eu voltei ao Chile, depois da primeira viagem
aos Estados Unidos, comecei a receber convites para voltar lá.
Houve uma coisa engraçada, porque recebo a carta de Harvard,
me propondo dois anos lá e oito dias depois recebo a de Genebra
do Conselho Mundial de Igrejas.
Resolvemos então fazer uma contra-proposta aos dois. A
Harvard para ficar até fins de 69 e ao Conselho para ir no começo
de 70. Os dois aceitaram e foi bom porque eu queria muito ter
uma experiência nos Estados Unidos."
O Conselho Mundial de Igrejas
"Preferi ir para o Conselho, em Genebra, porque o
problema de ser professor para mim não se coloca. Eu me
acho professor mesmo numa esquina de rua. Eu não preciso
do contexto da universidade para ser um educador. Não é
o título que a universidade vai me dar que me interessa,
mas a possibilidade de trabalho. E naquela época eu sabia
que o Conselho ia me dar a margem que a universidade
não me daria. Eu temia, ao deixar a América Latina, perder
o contato com a realidade concreta e começar a me meter
dentro de biblioteca e a operar sobre livros, o que não me
satisfaria."
Em 1970, a família Freire cruzou o Atlântico para morar
na Suíça, sede do Conselho.
Em diversas oportunidades, Paulo realçou a importância
que a passagem pelo Conselho Mundial de Igrejas teve no
desenvolvimento do seu pensamento. O Conselho fez com
que "andarilhasse", como gostava de dizer, pelo mundo.
Durante este período teve contato com a África, colaborou
com a Nicarágua, participou de seminários e encontros com
educadores, estudantes e intelectuais na Ásia, em toda a
América, com exceção do Brasil, e chegou até a distante
Oceania.
37


A África
O contato com a
África foi de grande sig-
nificação para Paulo.
"Meu primeiro en-
contro com a África se deu
com a Tanzânia, em 1971.
Para mim, foi muito
importante pisar o chão
africano e sentir-me nele
como quem voltava e não
como quem chegava.
Quando deixava o
aeroporto de Dar es Salaan
e atravessava a cidade, ela
ia se desdobrando diante
de mim como algo que
revia.
A cor do céu, o
verde-azul do mar, as
mangueiras, os coqueiros,
os cajueiros, o perfume das
flores, as bananas, entre
elas a minha bem amada
banana-maçã, o peixe ao
leite de coco, o gingar do
corpo das gentes andando
nas ruas, tudo isto me
tomou e me fez perceber
que era mais africano do
que pensava."
Foram muitos os
ensinamentos na terra
africana.
Dar es Salaan
38


São Tomé - 1976
"Um ensinamento fascinante está ligado ao uso do corpo,
tal como se faz na África, bem como à importância da linguagem,
tomada como expressividade total e não apenas estritamente
linguístico.
Salvo entre os intelectuais que se desafricanizaram, a
palavra não é apenas para ser ouvida, mas também para ser vista,
envolvida no gesto necessário. É assim que o africano fala, você
vê a palavra. Num texto sobre a Guiné, descrevo a reunião com
que os chefes da aldeia nos receberam à sombra de uma árvore.
Os discursos que fizeram se acompanhavam do uso do corpo,
enquanto descreviam os maus-tratos do colonialismo. Um deles
ia para lá e para cá, dentro do círculo da sombra, curvando-se e
recurvando-se, encenando tudo o que dizia.
A linguagem não é estática, na África. Há uma integração
entre gesto, palavra e realidade."
39


A luta pelo passaporte
Ultima Hora fev. de 1979,
Folha 21 de julho - Freire terá seu passaporte
40


A volta
Com as questões oficiais resolvidas, em agosto de 79, a
família Freire chegava ao Brasil.
"Teve problema com o governo brasileiro? Perguntou
delicadamente o policial com o meu passaporte na mão.
"Tenho", respondi manso. Com um riso simpático outro
policial se aproximou com um dos meus livros. Entendi o seu
gesto e autografei. Atravessamos o controle de passaporte.
Terminava, de fato e de direito, um exílio para o qual fora
com 43 anos e do qual voltava com 58.
Voltava vivido, amadurecido, disposto a reaprender o
Brasil.
Voltava jovem, apesar da aparência, da barba branca e da
escassez dos cabelos."
Chegada em Viracopos - 1979
41


As aprendizagens do exílio
"Nos 16 anos de exílio, em que vivi andarilhando pelo
mundo, meu tempo se desdobrou em múltiplos espaços. E
durante todo esse tempo eu tentei sempre caminhar muito
curiosamente e, ao mesmo tempo, ser fiel às minhas marcas de
brasileiro. E a Elza, minha mulher, esteve sempre junto comigo
nesse aprendizado."
"Eu faço diferença entre saudade e nostalgia. Saudade é
exatamente a falta da presença. Saudade era a falta da minha rua, a
falta das esquinas brasileiras, era a falta do céu, da cor do céu, da
cor do chão, o chão quando chove, o chão quando não chove, da
poeira que levanta no Nordeste quando a água cai em cima da areia,
da água morna do mar... Eu não tinha que reprimir essa saudade. E
mesmo para criar, eu precisava ter essa saudade comportada.
Com isso a gente aprendeu uma coisa fundamental: jamais
transformar a saudade numa enfermidade que nos acabasse.
Senão, nós teríamos necessariamente de começar a ter raiva do
lugar em que a gente estava, como se ele fosse o culpado de
estarmos longe do nosso meio. Por isso nunca tive raiva dos
diversos lugares e comecei a querer bem a eles também."
De volta à Universidade Brasileira
No Brasil, a família Freire passou a morar em São Paulo.
Aind
a na Europa, Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São
Paulo, fez a Paulo um convite para lecionar na Universidade Católica.
O convite se concretizou pouco tempo após a volta ao país.
Um ano depois, Paulo tornou-se também professor da
UNICAMP, a Universidade Estadual de Campinas.
A educação popular
Paulo e Elza retomaram o contato com os grupos populares
42


preocupados com o fortalecimento do povo, no rumo de um
país menos desigual. Eram grupos de alfabetização de adultos e
de catequese, movimentos de moradia e de saúde, organizações
de direitos humanos, sindicatos de professores, de químicos e
outros mais.
Muitos destes trabalhos foram feitos através do IDAC,
Instituto de Ação Cultural, e depois do VEREDA, instituições
criadas por Paulo e Elza com o objetivo de assessorar práticas
educativas relacionadas à educação popular.
Boa parte destes trabalhos estive ligada às ações das
Comunidades de Base da Igreja Católica. Alguns materiais
educativos foram produzidos dentro deste enfoque.
(alguns materiais)
A falta de Elza
1984
43


Em outubro de 86, morreu Elza, companheira constante e
inspiração de Paulo.
Foi uma grande tristeza para todos que a conheceram e
uma perda imensa para Paulo.
Os amigos temeram pela vida de Paulo Freire com a morte de
Elza. Todos os que testemunharam o carinho e o respeito mútuo
que havia entre os dois acreditavam que seria muito difícil para ele
superar perda tão grande. Presenciaram toda a dor que se seguiu.
Mas o amor à vida, que sempre foi uma marca do educador,
acabou triunfando. Depois de um período de grande prostração,
Paulo começou o que ele chamava de período das primeiras
vezes. A primeira vez que leu um artigo depois da morte de
Elza, a primeira vez que foi fazer compras, que fez uma visita,
que deu uma aula, que escreveu um texto...
Entre estas primeiras vezes, houve também a primeira vez
que se percebeu como capaz de amar novamente. Pouco a pouco
o educador foi renascendo para a vida.
Nita
Na qualidade de professor da PUC, Paulo era o orientador
de Ana Maria Araújo, sua conhecida desde menina, dos tempos
em que era professor de português no colégio Oswaldo Cruz.
Ana Maria era, coincidentemente, uma das filhas do diretor de
escola que, muitos anos antes, havia dado a Paulo a oportunidade
de continuar seus estudos.
Paulo gostava de falar sobre o momento em que, ouvindo
Nita discorrer sobre algum ponto da sua dissertação, começou a
vê-la não mais apenas como orientanda, mas também como
mulher...
Desta descoberta ao desabrochar do amor entre eles, não
se passou muito tempo. E os amigos puderam assistir ao
renascimento de Paulo e à dedicação de Nita, numa relação que
perdurou por dez anos.
44


"Nita é filha de um homem e uma mulher extraordinários
que deram a mim, quando adolescente, a possibilidade de estudar.
Eu conheci Nita quando cheguei ao Colégio Oswaldo Cruz, ela
tinha 4 anos, depois ela foi minha aluna. Anos depois, se casou
com um moço de SP, mudou, veio o golpe e eu fui para o exílio.
No retorno do exílio, nós refizemos a nossa convivência,
continuamos a nossa amizade. A Elza morre, Nita já era viúva, e
eu entro numa quase morte, sem amanhã.
Eu era orientador da dissertação de mestrado de Nita e de
repente descubro que ela começa a ser para mim uma presença
revitalizadora.
Eu descubro que tinha diante de mim não a ex-menina, a
ex-aluna da PUC, não a grande amiga, mas uma mulher nova e
bonita que dizia para mim que eu estava vivo."
Em agosto de 1988, Paulo se casou com Ana Maria Araujo.
"Eu não tive medo, aos 66 anos de refazer minha vida.
Não me casei de novo para substituir Elza, nem para prolongar
Elza.
Casei-me de novo para continuar vivo e porque amei de
novo."
Paulo Freire e Nita
45


A Secretaria Municipal da Educação
Em outubro de 1988, Luiza Erundina, uma paraibana, do
Partido dos Trabalhadores, se elege prefeita da maior cidade
nordestina do país, São Paulo.
Paulo foi escolhido para Secretário Municipal da Educação.
"Aceitei o convite que a Erundina me fez porque eu não
tinha o direito de dizer não depois de toda a vida que tinha vivido,
depois das denúncias que fiz, de ter escrito o que escrevi. Para
dizer não, teria que tirar os livros que escrevi do prelo e não
escrever mais. Era um preço muito caro. Eu precisava continuar
escrevendo e falando."
Posse na Secretaria Municipal de São Paulo - 1989
46


O projeto político-pedagógico de Freire apoiou-se na
construção de uma Escola Pública e Democrática, surgindo daí
os quatro objetivos buscados em toda a sua gestão:
1- Democratização da Gestão -- Fortalecer os colegiados
enquanto fóruns de decisão.
2- Democratização do Acesso -- Ampliar o atendimento à
demanda.
3- Nova Qualidade de Ensino -- Garantir a Permanência
do Aluno na Escola.
4- Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos
Perguntado sobre quais as mudanças mais importantes
introduzidas nas escolas da rede municipal, Paulo respondeu:
"As mudanças mais importantes introduzidas na escola
incidiram sobre a autonomia da escola. (Foram restabelecidos
os conselhos de escola e os grêmios estudantis).
O avanço maior ao nível da autonomia da escola foi o de
permitir no seio da escola a gestação de projetos pedagógicos
próprios que, com apoio da administração, pudessem acelerar a
mudança da escola."
O projeto de formação permanente dos professores, a
prática da interdisciplinaridade, a reorganização curricular foram
três dos muitos projetos desenvolvidos neste período.
Em maio de 1991, Paulo deixou a Secretaria da Educação
anunciando seu projeto futuro.
"Não estou deixando a luta, mas mudando, simplesmente,
de frente. A briga continua a mesma. Onde quer que esteja, estarei
me empenhando em favor da escola pública, popular e
democrática".
"As pessoas gostam e têm o direito de gostar de coisas
diferentes. Gosto de escrever e de ler. Escrever e ler fazem parte,
como momentos importantes, da minha luta. Coloquei este gosto
a serviço de um certo desenho de sociedade, para cuja realização
47


venho, com um sem-número de companheiros e companheiras,
participando na medida das minhas possibilidades. O
fundamental neste gosto de que falo é saber a favor de quê e de
quem ele se exerce.
Meu gosto de ler e de escrever se dirige a uma certa utopia
que envolve uma certa causa, um certo tipo de gente nossa. É
um gosto que tem a ver com a criação de uma sociedade menos
perversa, menos discriminatória, menos racista, menos machista
que esta.
Por tudo isso, escrever a crítica, não malvada, mas lúcida
e corajosa das classes dominantes continuará a ser uma das
minhas frentes de briga."
Os novos livros
A promessa de escrever foi cumprida fielmente. A partir
do momento em que deixou a secretaria, Paulo escreveu: A
educação na cidade (1991), Pedagogia da esperança (1992),
Política e educação (1993), Professora sim, tia não (1993), Cartas
a Cristina (1994), À sombra desta mangueira (1995) e, por último,
Pedagogia da autonomia (1997).
Em todos estas obras, Paulo continuou pensador e poeta,
profético e esperançoso.
"Sem sequer poder negar a desesperança como algo
concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e
sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a
necessária luta para fazê-la melhor, sem esperança e sem sonho.
A esperança é necessidade ontológica; a desesperança, esperança
que, perdendo o endereço, se torna distorção da necessidade
ontológica.
Como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz
sucumbir no fatalismo onde não é possível juntar as forças
indispensáveis ao embate recriador do mundo. Não sou
48


esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e
histórico."
A morte
No dia 2 de maio de 97, cheio de planos e contando o
tempo para ver a virada do século, Paulo encerrou a sua passagem
por este mundo.
Com este bonito texto, Frei Beto se referiu ao amigo que
partia, sintetizando importantes pontos do seu pensamento:
"Pedro viu a uva, ensinavam os manuais de alfabetização.
Mas o professor Paulo Freire, com seu método de alfabetizar
conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e na Guiné-
Bissau, na Índia e na Nicarágua, descobrirem que Pedro não viu
apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou
se uva é natureza ou cultura.
Pedro viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É
Criação, é natureza. Paulo Freire ensinou a Pedro que semear
uva é ação humana na e sobre a natureza. É a mão,
multiferramenta, despertando as potencialidades do fruto. Assim
como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos
de evolução do Cosmo.
Colher uma uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é
cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza e, ao realizá-
lo, o homem e a mulher se humanizam.
Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças
ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com os
operários de SESI de Pernambuco, Pedro viu também que a uva
é colhida por bóias-frias, que ganham pouco, e comercializada
por atravessadores que ganham melhor.
Pedro aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber
ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras,
Pedro sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado
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ou o dentista, com todo seu estudo, não eram capazes de construir
como Pedro. Paulo Freire ensinou a Pedro que não existe ninguém
mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas,
que se complementam na vida social.
Pedro viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhe os cachos, a
parreira, a plantação inteira. Ensinou a Pedro que a leitura de um
texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto
no contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre
o texto no contexto que Pedro extrai o pretexto para agir. No
início e no fim do aprendizado é a práxis de Pedro que importa.
Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando
sujeito histórico.
Pedro viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a
parreira e não vê a uva. O que Pedro vê é diferente do que vê a
ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Pedro um princípio
fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam.
O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela
ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra
como entre a visão de Ptolomeu, ao observar o sistema solar
com os pés na terra, e a de Copérnico, ao imaginar-se com os
pés no Sol.
Agora Pedro vê a uva, a parreira e todas as relações sociais
que fazem do fruto festa no cálice de vinho, mas já não vê Paulo
Freire, que mergulhou no Amor na manhã de 2 de maio. Deixa-
nos uma obra inestimável de competência e coerência.
Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de
doutor honoris causa, da Universidade de Havana. Ao sentir
dolorido seu coração que tanto amou, pediu que eu fosse
representá-lo. De passagem marcada para Israel, não me foi
possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar em torno
de seu semblante tranqïilo: Paulo via Deus."
50


PAULO FREIRE:
UM PENSAMENTO NASCIDO
DA VIDA
51


52


São muitas as marcas do pensamento de Paulo Freire.
Uma delas é ser um pensamento que nasce da prática. Paulo não
pensava as idéias, mas pensava a própria vida. Assim, as
experiências, surpresas, alegrias e tristezas do dia-a-dia foram
as fontes do seu pensamento.
Outra marca do pensamento de Paulo está na sua
universalidade. Nordestino típico, Paulo entendeu a opressão
presente no mundo e propôs uma educação na ótica dos
oprimidos, onde quer que eles estejam. No seu último livro, ele
diz: "Em tempo algum pude ser um observador `acinzentado'
imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição
rigorosamente ética. Quem observa o faz de um certo ponto de
vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade
não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer
que, mesmo do acerto de seu ponto de vista, é possível que a
razão ética nem sempre esteja com ele.
O meu ponto de vista é o dos `condenados da Terra', o
dos excluídos.
Daí a crítica permanente presente em mim à malvadez
neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e à sua recusa
inflexível ao sonho e à utopia."
Mantendo uma forte coerência com o que escreveu e disse,
Paulo sempre pensou a educação como decorrência de uma fé
no significado e no destino da pessoa humana.
53


As bases do pensamento de Paulo Freire
O pensamento de Paulo nasce de uma visão de ser humano
e de mundo. Para ele a pessoa deve ser vista como:
Um ser de relação
Ninguém está só no mundo. Cada um de nós é um ser no
mundo e com o mundo.
"Para o Homem e a Mulher, o mundo é uma realidade
objetiva, independente dele, possível de ser conhecida, em que
não apenas está, mas com a qual se defronta. Daí, o ser de relações
que ele é, e não só de contatos. Porque está com a realidade, na
qual se acha, é que se relaciona com ela."
Diferentemente dos animais, os seres humanos respondem
aos desafios do mundo em que vivem e usam esse mundo natural,
já existente, para criar e recriar o mundo da cultura.
Desta forma, mulheres e homens vão mudando o mundo
para torná-lo mais adequado a suas necessidades.
Os animais, como apenas estão no mundo, não percebem
a realidade como desafiadora e mantêm com ela uma relação de
outro tipo. Guiados pelo instinto, apenas se adaptam ao mundo
em que vivem.
Um ser em busca de sua "completude"
A ação dos seres humanos sobre o mundo não só muda o
mundo, muda também os sujeitos desta ação.
Ao construir o mundo, homens e mulheres se completam,
se humanizam.
"Na verdade, o inacabamento do ser humano ou a sua
inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há
54


inacabamento. Mas só entre os homens e as mulheres o
inacabamento se tornou consciente."
"A consciência de ser inacabado dá às pessoas a
possibilidade de irem além delas" e esta é uma das marcas dos
seres humanos.
Um ser capaz de transcender
A partir da consciência que têm de sua finidade, os seres
humanos são capazes de perceber o infinito. Assim, podem
transcender e ligar-se ao Criador.
Na visão de Freire, o ser humano é também um ser
religioso, no sentido de que se liga a seu Criador numa relação
libertadora.
"A transcendência do ser humano está na raiz da sua
finitude. Na consciência que tem desta finitude. Do ser inacabado
que é e cuja plenitude se acha na ligação com seu Criador.
Ligação que, pela própria essência, jamais será de dominação
ou de domesticação, mas sempre de libertação."
O sujeito da sua história
Ao contrário do animal, o ser humano pode tridimensionar o
tempo, reconhecendo, desta forma, o passado, o presente e o futuro.
"O homem existe no tempo. Está dentro. Está fora. Herda.
Incorpora. Modifica. Porque não está preso a um tempo reduzido
a um hoje permanente."
"Ao perceber o ontem, o hoje e o amanhã, o ser humano
percebe a conseqüência da sua ação sobre o mundo, nas
diferentes épocas históricas. Se torna o sujeito da sua história e
por isso responsável por ela.
Faz hoje o que se tornou possível pelo ontem. Fará amanhã
o que está semeando hoje."
55


Humanização e desumanização
A vocação de ser mais, isto é, ser mais humano, comum a
todos homens e mulheres, se realiza pela Educação. Mas esta
vocação de ser mais deixa de concretizar-se quando as relações
entre os homens se desumanizam. Isto se deu historicamente,
quando os que detinham o poder passaram a abusar dele e obter
privilégios para si e para seus iguais, em prejuízo dos outros.
A partir daí, estas relações deixaram de ser de cooperação
para torna-se relações de dominação. Nelas, os poderosos já não
viam os outros como seus iguais, mas como objetos necessários
para a satisfação de seus interesses. Tornaram-se opressores da
maioria impondo-lhe sacrifícios e restrições para aumentar seus
próprios privilégios. Gradativamente, estas relações opressoras
foram se institucionalizando de tal maneira que passaram a ser
consideradas naturais. Apareceu uma "Ordem" que legitima esta
situação de opressão e reage contra todos que ameaçarem os
privilégios para restaurar a humanidade de todos.
Aos oprimidos restou conformar-se com a situação e
adaptar-se a ela. Nasceu a educação domesticadora, destinada a
contribuir para perpetuar esta ordem injusta e desumanizante,
favorável a minorias, educação que deixou de ser instrumento
para ser mais para tornar-se agente de ser menos.
Mais do que isto, os oprimidos passaram a introjetar esta
ordem injusta, como se fosse natural, e a considerar os opressores
como modelos bem sucedidos de seres humanos. Modelos que
procurarão imitar sempre que tiverem poder para isto. Cada
oprimido passou a trazer em si a semente do opressor,
fortalecendo a estrutura social vigente, injusta e castradora.
Esta estrutura social de dominação desumanizou os
oprimidos, pois os transformou em objetos negando-lhes a
condição de sujeitos que lhes é própria. Mas também
desumanizou os opressores, já que não é próprio dos seres
humanos tratar como coisas ou objetos outros seres humanos.
56


Todavia, só os oprimidos poderão romper esta estrutura
que desumaniza opressores e oprimidos. Só eles poderão acabar
com esta ordem injusta buscando romper a opressão e
reconquistando a sua liberdade de ser mais. Os opressores não
têm este poder, uma vez que implicaria na renúncia de privilégios
que consideram justos e necessários à sua realização pessoal e
de classe.
Chris Hodzi - Material para formação de educadores comunitários - Zimbabwe - África
57


O sentido da educação
Para Paulo Freire a Educação decorre do fato de as pessoas
serem incompletas e estarem em relação com o mundo e com as
outras pessoas. São incompletas desde que nascem, quando é
mais fácil perceber isto. Não falam, não andam, não reconhecem
as pessoas e são totalmente dependentes...
Gradativamente estas "incompletudes" vão sendo
superadas. Mas ainda assim, os seres humanos não ficarão
totalmente completos na infância, juventude, maturidade ou
velhice. Passam a vida toda modificando-se na busca de
completar-se como pessoas, realizando, como diz Paulo Freire,
a sua vocação de "ser mais" humano. Reconhecem, porém,
que esta vocação de "ser mais" não exclui a possibilidade de
"ser menos", decorrente da liberdade que as pessoas têm de
optar por valores, hábitos, atitudes e comportamentos
desumanizantes.
Este processo pelo qual as pessoas vão se completando
durante toda a vida na busca de serem mais é o que constitui
para Paulo a Educação.
Chris Hodzi - Zimbabwe
58


É interessante observar que, para ele, este processo ocorre
nas relações que os seres humanos mantêm entre si e com o
mundo. Relação que se diferencia do simples contato, que é
próprio dos outros seres vivos, por ser consciente e implicar em
mútua transformação. O contato é passivo enquanto a relação é
ativa.
É na relação que mantêm entre si e com o mundo que os
seres humanos, sem deixar de ser sujeitos, vão se completando
e ajudando os outros a se completarem. Igualmente na relação
com o mundo eles se completam e contribuem para transformar
o mundo. É célebre a frase de Paulo que afirma: "Ninguém educa
ninguém, mas ninguém se educa sozinho".
A educação é um ato de conhecimento
Paulo Freire costumava dizer que a educação nada mais é
do que uma Teoria do Conhecimento posta em prática. Com isto
ele destacava não só a importância do conhecimento na educação,
como salientava que a visão de conhecimento que o educador
tem repercute diretamente na sua prática pedagógica.
Amilton Santana - Para ler e escrever - AJA Bahia
59


Na visão de Paulo Freire, o Conhecimento é produto das
relações dos seres humanos entre si e com o mundo. Nestas
relações, homens e mulheres são desafiados a encontrar soluções
para situações para as quais é preciso dar respostas adequadas.
Para isto, precisam reconhecer a situação, compreendê-la,
imaginar formas alternativas de responder e selecionar a resposta
mais adequada.
A cada resposta, novas situações se apresentam e outros
desafios vão se sucedendo. Estas respostas e suas consequências
representam experiência adquirida e constituem o conhecimento
das pessoas. São registradas na memória e ajudarão a construir
novas respostas. Por isso, Paulo Freire, embora reconhecesse a
importância da memória, afirmava que a simples memorização,
desvinculada deste esforço de compreender, imaginar respostas
e selecionar a mais adequada, não é Conhecimento.
Educação bancária - Chris Hodzi - Zimbabwe
60


Portanto as pessoas são sujeitos e não objetos neste
processo. Elas realizarão este esforço de aprendizagem para
construir o seu saber, estimuladas por outros, mas de acordo
com o que já sabem, porque o conhecimento é social. Conhecer,
porém, é uma aventura pessoal, impossível de ser transferida de
uma pessoa para outra.
Nesta concepção, o Conhecimento nasce da ação. É agindo
que homens e mulheres se confrontam com a necessidade de
aprender e constroem Conhecimento. Portanto, sendo próprio
dos seres humanos agir no mundo, todas as pessoas têm
Conhecimentos. Ninguém é vazio dele. Embora seja verdade
que as pessoas não conhecem de modo igual e que isto as torna
diferentes umas das outras, esta diferença não justifica nenhuma
superioridade, já que sempre será possível conhecer mais e
melhor qualquer objeto do Conhecimento.
A educação é sempre política
Paulo Freire foi, provavelmente, o primeiro educador a
proclamar que não existe educação que seja politicamente neutra.
Em outras palavras, que numa sociedade em que convivem
segmentos da população com interesses opostos e contraditórios,
é impossível a existência de uma única educação que sirva, da
mesma maneira, a todos estes grupos sociais. Ela estará sempre
a favor de alguém e, por conseqüência, contra alguém. Numa
sociedade de classes não é possível um tipo de educação que
seja a favor de todos.
Um exemplo muito citado por Paulo é que a educação pode
contribuir para que as pessoas se acomodem ao mundo em que
vivem ou se envolvam na transformação dele.
É impossível imaginar-se uma educação que contribua para
que as pessoas se acomodem e, ao mesmo tempo, busquem trans-
formações. A educação ou será conservadora ou transformadora.
61


libertação
domesticação
Chris Hodzi - Zimbabwe
Ao ser transformadora, estará contra os grupos que se
beneficiam com a situação e a favor dos que são prejudicados
por ela. Ao ser conservadora, estará a favor dos grupos
beneficiados e contra os prejudicados.
Esta constatação da politicidade da educação traz para o
educador a necessidade de perguntar-se a quem está servindo
com a educação que pratica. A negação de servir a algum grupo,
isto é, a crença na neutralidade, é uma atitude conservadora que
serve os que se beneficiam da situação.
Mas, ao afirmar que toda educação é política, Paulo
Freire fazia absoluta questão de dizer que ela não é partidária.
Partidos políticos são organizações transitórias com propostas
particulares para solução de problemas específicos. Partidos
diferentes propõem formas diferentes de transformar ou
conservar os privilégios na sociedade. Reduzir a educação
aos limites partidários seria empobrecê-la, não atendendo ao
objetivo de "ser mais" que os seres humanos buscam ao se
educarem.
Nascendo de visões antagônicas, a educação domesticadora
e a educação libertadora têm suas próprias metodologias.
62


Educação
è
è
Ação conformista
Ação cultural
ou
ou
domesticadora
libertadora
è
è
Metodologia
Quem educar? Educandos vistos como
Educandos ativos
pessoas isoladas e como
construtores do seu
"recipentes a serem
objeto de conhecimento
enchidos"
Para que
Adaptar o indivíduo ao
Desenvolver a pessoa
educar?
sistema vigente: a
crítica em relação ao
Pessoa se submete a
sistema vigente: a
História
Pessoa faz a História
O que ensinar? Sistema de conhecimen-
Sistema de conhecimen-
tos já organizado:
tos por construir e
"pacotes prontos"
organizar: "sob medida"
Como ensinar? Por uma transferência
Pela descoberta dos
de conhecimentos
conhecimentos e de suas
Recursos: repetição
funções
e memorização
Recursos: observação,
análise, síntese
Discussion sur I 'Alphafetisation (1974) - Iran
A educação se faz através do diálogo
Tendo nascido numa sociedade fortemente marcada pelo
autoritarismo, Paulo se tornou, desde o começo de sua vida de
educador, um crítico veemente desta atitude que impede que as
pessoas a ela submetidas se assumam como sujeito da sua história.
Paulo, também, percebia o quanto o modelo autoritário
63


dificultava a produção do conhecimento, sendo, portanto, um
empecilho para o processo educativo.
"A educação autêntica não se faz de A para B sobre A,
mas de A com B, mediatizados pelo mundo. Mundo que
impressiona e desafia a uns e a outros, originando visões ou
pontos de vista sobre ele."
A
Educador
A B
è
è
è
Educador Educando
Educando
B
Chris Hodzi - Zimbabwe
64


Na visão de Paulo, o diálogo mais que um instrumento do
educador é uma exigência da natureza humana.
Assim sendo, "o papel do educador não é propriamente
falar ao educando, sobre sua visão de mundo ou lhe impor esta
visão, mas dialogar com ele sobre a sua visão e a dele. Sua tarefa
não é falar, dissertar, mas problematizar a realidade concreta do
educando, problematizando-se ao mesmo tempo".
Muitas vezes, a defesa do diálogo feita por Paulo foi
interpretada como um falar por falar, sem desafio para a
construção de novos conhecimentos. Outras vezes, esta defesa
do diálogo deu origem à idéia de que o educador democrático
não pode se valer de uma exposição narrativa. O próprio Paulo
respondeu a esta falsa compreensão: "Pode haver diálogo na
exposição crítica, metódica, de um educador a quem os educandos
assistem não como quem `come' a fala, mas como quem aprende
sua intelecção. É que há um diálogo invisível, em que não
necessito de inventar perguntas ou fabricar respostas. Os
educadores democráticos não estão ­ são dialógicos.
Mas o diálogo proposto por Paulo é exigente, tem suas
condições:
- O amor ao mundo e às pessoas
"Sendo fundamento do diálogo, o amor é, também,
diálogo. Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo as
pessoas, não me é possível o diálogo."
- A humildade
"O diálogo, como encontro das pessoas para a tarefa
comum de saber agir, se rompe se seus pólos (ou um deles)
perdem a humildade. Como posso dialogar, se me fecho à
contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto
ofendido com ela?"
- A fé nas pessoas
"A fé nos seres humanos é um dado a priori do diálogo. O
Homem dialógico tem fé nas outras pessoas antes de encontrar-
65


se frente a frente com elas. Sem esta fé o diálogo é uma farsa.
Transforma-se, na melhor das hipóteses, em manipulação
paternalista."
- A esperança
" A esperança está na própria essência da imperfeição dos
Homens, levando-os a uma eterna busca. Uma tal busca não se
faz no isolamento, mas na comunicação entre os Homens.
Se o diálogo é o encontro das pessoas para ser mais, não
pode fazer-se na desesperança. Se os sujeitos do diálogo nada
esperam do seu quefazer, já não pode haver diálogo."
- Um pensar verdadeiro
" Não há o diálogo verdadeiro se não há nos sujeitos um
pensar verdadeiro. Pensar crítico. Pensar que, não aceitando a
dicotomia mundo / Homem, reconhece entre eles uma
inquebrantável solidariedade. É um pensar que percebe a
realidade como processo que se capta em constante devenir e
não como algo estático.
Para o pensar ingênuo, o importante é a acomodação a
este hoje normalizado. Para o crítico, a transformação permanente
da realidade, para a permanente humanização dos Homens.
Somente o diálogo, que implica um pensar crítico, é capaz,
também, de gerá-lo."
O papel do educador
Falando e escrevendo freqüentemente para educadoras e
educadores, Paulo, por muitas vezes, se referiu ao que se espera
do educador. Em 1986, fazendo o prefácio de um livro de Ira
Shor, um educador norte americano e seu grande amigo, Paulo
apontou aspectos do papel do educador, pontos que via como
de grande importância para que a prática educativa contribuísse
para o processo de libertação.
66


Nesta ocasião escreveu:
"Tendo a educação uma natureza social, histórica e política,
não podemos falar de um papel universal, imutável, do professor.
Basta pensarmos um pouco sobre o que tem sido esperado do
professor em diferentes tempos e espaços para perceber sem
dificuldade a afirmação feita."
67


Opção e coerência
"A politicidade da educação exige do educador, de um
lado, que eleja a serviço de quem quer estar, de outro, que diminua
a distância entre a expressão verbal de sua opção e sua prática.
É uma contradição proclamar uma opção progressista e
ter uma prática autoritária ou espontaneista. A opção progressista
demanda uma prática democrática, em que a autoridade jamais
se alonga em autoritarismo, mas que, por sua vez, jamais se
amofina no clima irresponsável da licenciosidade.
Um papel igual para todos os professores só pode ser aceito
por quem, ingênua ou astutamente, afirma a neutralidade da
educação, concebendo a escola como uma espécie de parêntese
imune às questões ligadas às classes sociais, ao sexo e à raça. O
que me parece impossível é aceitar que um professor de história,
racista, reacionário, tenha o mesmo desempenho de um outro,
democrático. Daí a necessidade que tem o professor de,
constatando a politicidade de sua prática, assumi-la, em lugar de
negá-la."
Competência científica
"Há uma dimensão, de que participa todo professor, que
diz respeito a seu papel, independentemente de sua opção política.
Um fazer comum ao professor progressista e ao professor
reacionário. Este fazer é o ato de ensinar o que tem de ser
ensinado.
Mas, se os dois se identificam na obrigação de ensinar, os
dois se distinguem quanto à compreensão de ensinar e se
separam, se coerentes consigo mesmos, na prática de ensinar.
A competência científica necessária, indispensável ao ato
de ensinar, jamais é entendida pelo professor progressista como
algo neutro. Temos de nos indagar a favor de quem e de que se
acha nossa competência científica e técnica.
68


Se o professor progressista, ao contrário do reacionário,
deve esforçar-se por `desopacisar' a realidade e `desmiopisar'
os alunos, ele não pode, jamais, deixar de lado o ensino do
conteúdo em favor apenas da politização dos alunos. Do ponto
de vista do professor progressista, nem a compreensão mágica
do conteúdo segundo a qual, em si mesmo, ele é libertador, nem
tampouco o descaso por ele como se a claridade política
trabalhasse sozinha. A claridade política é necessária,
indispensável mesmo, mas não é suficiente."
Ensinar e aprender
"Ensinar, numa perspectiva progressista, não é a simples
transmissão do conhecimento em torno do conteúdo, transmissão
que se faz muito mais através da descrição do conceito do objeto
a ser mecanicamente memorizada pelos alunos.
Ensinar, do ponto de vista progressista, não pode reduzir-
se a um puro ensinar os alunos a aprender através de uma
operação em que o objeto do conhecimento fosse o ato mesmo
de aprender.
Ensinar só é válido quando os educandos aprendem a
aprender ao apreender a razão de ser do objeto ou do conteúdo.
É ensinando biologia ou outra disciplina qualquer que o professor
ensina os alunos a aprender.
Do ponto de vista progressista, ensinar implica, pois, que
os educandos, em certo sentido, `penetrando' o discurso do
professor, se apropriem da significação profunda do conteúdo
que está sendo ensinado. O ato de ensinar, de responsabilidade
indiscutível do professor, vai desdobrando-se, da parte dos
educandos, no seu ato de conhecer o ensinado."
"O professor só ensina verdadeiramente, na medida em
que conhece o conteúdo que ensina, quer dizer, na medida em
que se aproxima dele, em que o apreende. Neste caso, ao ensinar,
o professor re-conhece o objeto conhecido. Em outras palavras,
69


re-faz sua cognoscitividade na cognoscitividade dos educandos.
Ensinar é, assim, a forma que toma o ato de conhecer que o
professor necessariamente faz na busca de saber o que ensina,
para provocar nos alunos seu ato de conhecimento também. Por
isso, ensinar é um ato criador, um ato crítico. A curiosidade do
professor e dos alunos, em ação, se encontra na base do
ensinaprender."
Promover a disciplina
"Ensinar um conteúdo pela apreensão deste por parte dos
educandos implica criação e o exercício de uma séria disciplina
intelectual. Pretender a inserção crítica dos educandos na situação
educativa, enquanto situação de conhecimento, sem esta
disciplina é espera vã. Mas, assim como não é possível ensinar a
70


aprender sem ensinar um certo conteúdo através de cujo
conhecimento se aprende a aprender, não se ensina igualmente
a disciplina de que estou falando a não ser na e pela prática
cognoscente de que os educandos vão se tornando sujeitos cada
vez mais críticos.
O papel testemunhal do professor na gestação desta
disciplina é enorme. Mais uma vez, aí, sua autoridade, de que
sua competência faz parte, joga uma importante função. Um
professor que não leva a sério sua prática docente, que não
estuda e ensina mal o que mal sabe, que não luta para dispor
das condições materiais indispensáveis à sua prática docente,
se proíbe de participar para a formação da imprescindível
disciplina intelectual dos estudantes. Se anula, pois, como
professor.
Mas esta disciplina não pode resultar de um trabalho feito
nos alunos pelo professor. Requerendo a presença do professor,
sua orientação, esta disciplina tem de ser construída e assumida
pelos alunos.
Por isso mesmo é que o professor, a quem se condiciona
para usar sua autoridade no sentido de inibir a liberdade dos
alunos através do cumprimento rotineiro do que está dito nos
manuais, não tem liberdade de criar e não pode, assim, ajudar os
alunos a serem criativos e curiosos."
Descobrir a alegria
"Na constituição desta necessária disciplina não há lugar,
na perspectiva progressista, nem para a identificação do ato de
estudar com uma espécie de brinquedo com regras frouxas ou
sem elas, nem tampouco com um que fazer insosso, desgostoso,
enfadonho. O ato de estudar, de conhecer é difícil, sobretudo
exigente. É preciso, porém, que os educandos descubram e
sintam a alegria nele embutida, que dele faz parte, sempre disposta
a tomar todos quantos a ele se entreguem."
71


72


ALFABETIZAÇÃO:
LER O MUNDO PARA
ESCREVER A HISTÓRIA
73


74


Para que alfabetizar?
Certa vez uma alfabetizadora fez a Paulo Freire a pergunta
com que começamos este capítulo. Paulo, de uma forma simples
e objetiva, respondeu com uma carta, de onde retiramos o trecho
abaixo
É bom começar chamando a atenção para o poder que têm as
perguntas de provocar a gente. Veja bem, agora mesmo, ao
me preparar para iniciar a minha resposta à pergunta, me vejo
obrigado a pensar, a ficar olhando o papel em que repeti sua
pergunta: "Para que alfabetizar?"
Ao ficar assim aparentemente parado, pensando, percebo que,
para responder à sua pergunta, devo entender a relação que
ela tem com outras perguntas que, embora não tenham sido
pronunciadas, se acham presentes. Assim, o para que
alfabetizar? Tem que ver com o que é alfabetizar? Como
alfabetizar? Quando? Por que? etc.
Para que? É a pergunta que a gente faz quando a curiosidade
da gente se assanha para saber a finalidade da ação ou da
coisa de que a gente está falando.
75


A gente pergunta o que é? Quando quer saber ou compreender
o que é que faz que pedra seja pedra e não pau; que flor seja
flor e não passarinho.
Como? É a pergunta que a gente faz pra saber os caminhos
que a gente percorre, os métodos que a gente usa pra obter o
que se pretende.
Por que? é a indagação pela qual a gente procura a razão de
ser, a causa das coisas, e quando? Tem que ver com o tempo
delas.
É interessante observar como há uma certa solidariedade entre
as diferentes perguntas, não importa qual seja aquela pela
qual começamos a indagar da coisa ou da ação.
Agora, quando você me pergunta para que alfabetizar?, me
sinto levado a dizer algo sobre o que é alfabetizar. Para fazer
isso vou tentar um caminho simples e muito concreto. Veja
bem, neste momento, tenho algo na minha mão. Pego a coisa
que tenho nos dedos, apalpo-a, sinto-a. Ganho a sensibilidade
da coisa, percebo-a, falo o nome da coisa e escrevo o nome
da coisa. Assim sinto a caneta nos dedos, percebo a caneta,
pronuncio o nome caneta e depois escrevo ca ­ ne ­ ta.
O mesmo, quase, se dá quando falamos palavras abstratas, só
que não pegamos a significação delas. Eu não pego a saudade
do Recife com as mãos. Eu sinto a saudade inteira no meu
corpo. Eu falo e escrevo saudade.
Veja, a pessoa chamada analfabeta, que não sabe ler nem
escrever, sente como nós, a coisa, pegando-a ou não, percebe
e fala, só não escreve, portanto não lê também. Alfabetizar,
num sentido bem direto, é possibilitar que as pessoas a quem
falta o domínio desta operação criem este domínio. Por mais
importante -- e é muito importante -- o papel da educadora
ou do educador na montagem deste domínio, o educador não
pode fazer isto em lugar do alfabetizando. A alfabetização é
76


um ato de criação de que fazem parte o alfabetizando e o
educador. O educador é fundamental. Ele tem mesmo que
ensinar desde porém que jamais anule o esforço criador do
alfabetizando.
É interessante observar como não podemos falar de
analfabetismo em culturas que desconhecem o alfabeto, as
letras. Numa cultura iletrada não há analfabetos. O "analfabeto
-- e isto me foi dito há mais de vinte anos por um culto
alfabetizando, num Círculo de Cultura ­ é a pessoa que,
vivendo numa cultura que conhece as letras, não sabe ler nem
escrever."
Para que alfabetizar? Numa primeira aproximação ao
problema e seguindo aquele alfabetizando nordestino a quem
me referi acima, poderia dizer a você: para que as pessoas
que vivem numa cultura que conhece as letras não continuem
roubadas de um direito -- o de somar à "leitura" que já fazem
do mundo a leitura da palavra, que ainda não fazem.
Nesta carta, Paulo faz referência a importantes pontos da
forma como compreende a alfabetização:
! O ato de aprender a ler e a escrever começa a partir de uma
compreensão abrangente do ato de ler o mundo, coisa que
os seres humanos fazem antes de ler a palavra.
! Teria sido impossível escrever se antes não tivesse havido a
fala. Não é possível ler sem falar, do ponto de vista de uma
compreensão filosófica, global do ato de ler.
! A leitura da palavra foi precedida de um passado sem palavra
oral e um passado depois da oralidade.
77


Campanha de alfabetização da Nicarágua
! A leitura da palavra escrita implica a fala, implica a oralidade.
A capacidade de falar, por sua vez, demandou antes o
transformar a realidade. É isso que eu chamo de `escrever o
mundo'.
! Ninguém é analfabeto porque quer, mas como conseqüência
das condições de onde vive. Há casos, onde "o analfabeto é
o homem ou mulher que não necessita ler e escrever", em
outros é a mulher ou o homem a quem foi negado o direito de
ler e escrever.
! Enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo da
alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito.
78


Paulo Freire e a alfabetização de adultos
A alfabetização de adultos foi o campo da educação
privilegiado na prática teórica de Paulo Freire.
Muitas foram as razões para isto. O Nordeste apresenta
uma quantidade tão grande de analfabetos que era impossível
para um educador nordestino, como Freire, ignorar esta dura
realidade.
Na época em que Paulo começou a buscar respostas para
a questão do analfabetismo, os analfabetos eram impedidos de
votar. Isto afastava uma parte considerável de brasileiros de uma
das formas mais elementares de participação política e fragilizava,
ainda mais, a democracia brasileira.
Havia a esperança de que, com o aumento significativo do
voto popular, fosse possível ter no poder políticos mais
comprometidos com a parte mais sofrida da população.
Entretanto, desde esta época, Paulo afirmava que "o nosso
grande desafio prosseguia e transcendia a superação do
analfabetismo e se situava na necessidade de superarmos também
a nossa inexperiência democrática. Ou tentarmos simultanea-
mente as duas coisas".
A partir dos trabalhos iniciados em Recife, Paulo Freire
marcou definitivamente o pensamento relativo à alfabetização.
Nesta área introduziu idéias e fez afirmações extremamente
importantes, que permanecem de grande atualidade, tais como:
- Tomar a alfabetização como consequência de uma ordem
social injusta e, portanto, uma questão de natureza social e
educacional.
Ainda hoje, muitas vezes o analfabetismo é considerado
como um mal que precisamos erradicar tal como o tifo, a varíola
e outros mais.
79


25.000.000 de analfabetos nos Estados Unidos
"Os verdadeiros americanos
não são analfabetos"
Londres
Afirmando que não é "nem chaga, nem erva daninha a ser
erradicada, nem enfermidade, mas uma das expressões concretas
de uma realidade social injusta", Paulo Freire colocou,
definitivamente, o problema do domínio da escrita num contexto
mais amplo, no qual a escrita aparece como um bem social
desigualmente distribuído, como a terra e o alimento.
Resgatando a dimensão social do analfabetismo, Freire
resgata o caráter de vítima daqueles que não tiveram acesso à
escrita. Ao mesmo tempo retira do analfabeto a condição de
"cego" e "incapaz".
80


- Compreender que o aprendizado da leitura e da escrita
não pode ser feito como algo paralelo à realidade concreta dos
alfabetizandos.
Na alfabetização proposta por Freire, a análise da realidade
e o aprendizado da escrita formam uma unidade tal qual a teoria
e a prática são inseparáveis.
Neste sentido, "há uma diferença fundamental entre a
alfabetização na perspectiva progressista e na perspectiva
tecnicista.
Na última se dá ênfase ao domínio puramente técnico ­
que é fundamental ­ da leitura e da grafia fonêmica da palavra.
Assim, estimulam os alfabetizandos a ler e escrever MESA sem
perguntar como e em que implica produzir a MESA. É como
tomar a palavra desconectada do mundo.
Mas não existem palavras no ar, a linguagem está
absolutamente conectada, dialeticamente ligada à realidade.
Se mostramos algo e os alfabetizandos começam a descrever
o que é, estão fazendo a leitura do concreto da realidade.
Depois chegam à leitura da escrita. Há um ir e vir constante
da leitura do mundo à da palavra e da leitura da palavra à
releitura do mundo."
-Tomar a alfabetização como prática de uma teoria do
conhecimento.
A alfabetização, na perspectiva de Paulo Freire, não é
entendida como uma memorização de ba - be - bi - bo - bu e
nem como uma transferência de conhecimento da escrita do
alfabetizador para o alfabetizando.
Como ato de conhecimento que tem como objeto a ser
conhecido a língua escrita, a alfabetização é um processo de
busca e tentativas de revolução, portanto, nunca uma recepção
passiva.
Em primeiro lugar, o processo de alfabetização é um ato
com o qual se reconhece que o povo já possui conhecimentos.
81


Xavier - Exercitação
Assim, "é preciso propor um texto, um pensamento ligado
ao contexto social e histórico como objeto da curiosidade e do
conhecimento do alfabetizando e, na apreensão desta totalidade,
apreender a parcialidade que é a escrita da palavra."
Para Freire, nesta teoria do conhecimento, não é possível:
a) separar prática de teoria;
b) separar o ato de conhecer o conhecimento hoje existente
do ato de criar o novo conhecimento;
c) separar ensinar de aprender; educar de educar-se.
- Conceber a alfabetização como um ato criador.
"Todas as vezes em que tenho discutido o problema da
alfabetização de adultos, tenho sublinhado que, numa perspectiva
82


libertadora, ela há de ser sempre um ato criador, em que o
conhecimento livresco cede lugar a uma forma de conhecimento
que provém da reflexão crítica sobre uma prática concreta de
trabalho. Daí a insistência com que falo da relação dialética entre
o contexto concreto (realidade vivida pelos alfabetizando), em
que tal prática se dá, e o contexto teórico (sala de aula), em que
a reflexão crítica sobre aquele se faz."
"Pensávamos numa alfabetização que fosse em si um ato
de criação, capaz de desencadear outros atos criadores. Numa
alfabetização em que o homem e a mulher, porque não fossem
seus pacientes, seus objetos, desenvolvessem a impaciência, a
vivacidade, característica dos estados de procura, de invenção e
reivindicação."
A relação alfabetizador-alfabetizando é uma relação em
que o que conhece a escrita provoca, estimula o outro para que,
através da prática de ler e escrever, chegue a este conhecimento.
O nascimento da metodologia Paulo Freire
O Brasil das primeiras experiências de alfabetização
Os anos 50, que sucederam o final da ditadura de Vargas,
se beneficiaram do clima de liberdade de manifestação política
garantido pela constituição de 46. Neste clima, as tensões
geradas pela disputa de poder não se limitavam aos centros
decisórios tradicionais, mas extravasavam para outros
segmentos da sociedade. A imprensa falada e escrita, sem o
fantasma da censura e o advento da televisão, fez da mídia
um poderoso instrumento de formação da opinião pública.
Isto tornou a década de 50 extremamente rica quanto ao debate
político, um debate que, embora fosse muitas vezes limitado
a um moralismo mesquinho, centrado quase sempre em
interesses eleitoreiros, suscitou uma discussão de que
emergiam os problemas nacionais.
83


O governo Juscelino, na segunda metade da década,
introduziu o desenvolvimentismo como bandeira de governo.
Sua promessa eleitoral de fazer com que durante o seu governo
o Brasil crescesse "cinqüenta anos em cinco" empolgou a nação.
As elites encararam a construção de Brasília e a implantação da
indústria automobilística como oportunidades para negócios e
sustentaram o governo.
A fundamentação ideológica para este projeto de governo
foi dada pelo ISEB2 , que aglutinava uma parcela significativa
da intelectualidade progressista da época. Universitários, clero e
sindicalistas, entre outros, estiveram fortemente influenciados
por esta visão.
O país falava em reformas de base e as entidades estudantis
buscavam estabelecer alianças populares. O país vivia um clima
de mudanças e a educação começava a ser vista como
instrumento importante destas transformações. Álvaro Vieira
Pinto, membro do ISEB, revela no seu livro, Consciência e
realidade nacional, esta nova forma de pensar a educação:
"Educar para o desenvolvimento não é tanto transmitir
conteúdos particulares de conhecimento, reduzir o ensino a
determinadas matérias, nem restringir o saber exclusivamente a
assuntos de natureza técnica; é muito mais do que isto, despertar
no educando novo modo de pensar e de sentir a existência, em
face das condições nacionais com que se defronta; é dar-lhe a
consciência de sua constante relação a um país que precisa de
seu trabalho pessoal para modificar o estado de atraso; fazê-lo
receber tudo quanto lhe é ensinado por um novo ângulo de
percepção, o de que todo o seu saber deve contribuir para o
empenho coletivo de transformação da realidade."3
Embora se acreditasse no desenvolvimento como forma
de superação da miséria, era fácil perceber que profundas
2 ISEB- Instituto Superior de Estudos Brasileiros.
3 Álvaro Vieira Pinto. Consciência e realidade nacional. Rio de Janeiro: MEC / ISEB,
1960.
84


modificações políticas eram fundamentais para que o
crescimento econômico não beneficiasse apenas os mesmos de
sempre. Para isto, setores progressistas aspiravam à ampliação
do poder popular. Os organismos estudantis (UNE, UBES, UEEs,
etc) começaram a desenvolver uma política de alianças com
sindicatos de operários, trabalhadores rurais, organizações de
cabos e sargentos, etc.
O governo de Juscelino Kubitschek terminou em 1961,
substituído por Jânio Quadros, candidato da oposição. Figura
messiânica e carismática, o novo presidente não conseguiu
conviver com as negociações necessárias em um regime
democrático e, poucos meses depois de empossado, renunciou
à Presidência.
O vice-presidente João Goulart assume o poder tendo
Tancredo Neves como primeiro ministro. O Presidencialismo
retorna dois anos depois, através de um plebiscito, restabelecendo
as prerrogativas anteriores do chefe da nação e trazendo com
ele as conspirações que redundariam no golpe de 64.
O governo João Goulart, desde seu começo contou com a
repulsa da classe dominante e de setores das Forças Armadas.
Isto levou o governo a buscar o apoio das bases populares. Uma
das saídas encontradas para a manutenção do poder foi
desenvolver programas de mobilização popular com o objetivo
de fortalecer estas bases.
Com o mesmo objetivo adotou-se uma política de educação
popular capaz de levar o povo a participar dos destinos do
país. Foi assim que o governo recorreu ao sistema de
alfabetização de adultos desenvolvido por Paulo Freire, que
naquele momento já tinha a sua eficiência comprovada através
de experiências em várias partes do país.
Recife
Foi nesse contexto de início dos anos 60 e a partir do
85


Movimento de Cultura Popular de Recife que Paulo Freire
começou a praticar suas idéias no campo da alfabetização de
adultos.
O Centro de Cultura de Dona Olegarina, no "Poço da
Panela", já contava com diversas atividades educativas quando
se percebeu que havia também um grande interesse por "uma
escola para os adultos".
Paulo Freire foi convidado a desenvolver, naquele lugar,
o trabalho de alfabetização que há algum tempo vinha
pensando.
Uma pequena turma de alfabetizandos foi organizada e,
num curto espaço de tempo, já havia aluno se valendo da escrita.
Logo depois, veio nova turma e os resultados foram bem
semelhantes.
Paralelamente ao trabalho da alfabetização e por sugestão
do próprio Paulo Freire, o Centro de Cultura passou a manter
"clubes de leitura" para os adultos já alfabetizados. Estes clubes
eram espaços onde eram lidos e discutidos poemas, contos,
crônicas... Os participantes eram educandos saídos do curso de
alfabetização e moradores da redondeza, que ganhavam aí maior
intimidade com o mundo da escrita.
As primeiras novidades trazidas por Freire
Havia muita coisa nova na alfabetização que Paulo Freire
propunha.
Uma destas novidades era o uso de recurso audiovisual.
Um epidiascópio, aparelho capaz de projetar imagens
impressas em papel, foi levado para a sala de alfabetização do
"Poço da Panela" onde servia para projetar imagens de desenhos
e palavras relativos aos assuntos tratados. Naquela época, os
audiovisuais começavam a ser usados na educação e a eles se
creditava o poder de influenciar positivamente nos processos de
aprendizagem.
86


No caso de Paulo Freire, esta crença era reforçada pela
impressão que lhe causava ver a rapidez com que seu filho
pequeno guardava e reconhecia a escrita de nomes e marcas
veiculados pela publicidade.
Educação como prática de liberdade - Chile
Observar e experimentar a reação dos analfabetos frente a
estes recursos já vinha sendo seu objeto de estudo.
Animava-o, ainda, saber da existência de um trabalho de
alfabetização feito por um padre haitiano, na África, onde o
uso de recursos audiovisuais foi considerado de grande valia.
87


Chris Hodzi - Zimbabwe
Outra novidade estava no estímulo à participação dos
educandos.
Para Freire, mulheres e homens se caracterizam como
pessoas capazes de captar e responder aos desafios do mundo
onde se encontram. Agir sobre a natureza, produzindo cultura e
conhecimento, é marca fundamental dos seres humanos. Coerente
com estas idéias, Paulo não poderia desenvolver uma
metodologia que tirasse o papel ativo dos educandos e do
educador.
O diálogo entre educador, educando e objeto do
conhecimento foi um dos pontos fortes desta nova alfabetização.
88


Para que o diálogo realmente se efetivasse, Paulo
desenvolveu um trabalho onde o conhecido dos educandos se
transformava em palavras geradoras, que possibilitavam a
participação de todos.
As carteiras em círculos ao invés de enfileiradas e a
apresentação de imagens relacionadas com os temas estudados
eram recursos facilitadores do diálogo.
Xavier
Outra novidade estava no papel de problematizador dado
ao educador.
Paulo sabia o quanto o modelo tradicional de educação
colocava o educador no papel de alguém que "fala para os
educandos ouvirem", porque via o educador como aquele que
detém o conhecimento e os educandos como pessoas marcadas
pelo "não saber".
Diante de tal situação só era possível ao educador agir sobre
os educandos, esforçando-se para preencher neles o vazio de
conhecimentos.
89


Educação bancária - O conhecimento sai do educador e preenche o vazio dos educandos -
Nepal
Diferentemente, a proposta de Paulo via educador e
educandos como pessoas possuidoras de conhecimentos e
capazes de aprender mais e melhor numa relação dialógica.
Na alfabetização que Paulo defendia, o educador deixava
de lado o comunicado pronto, para, com o educando e através
do diálogo, chegar ao conhecimento.
Educação democrática - Educador e educando têm conhecimentos e
a relação entre eles é provocadora de novos conhecimentos
As primeiras experiências com a metodologia de Paulo Freire
Os primeiros trabalhos de alfabetização inspirados em Paulo
Freire
surgiram a partir de 62. Nos dois anos seguintes até o trágico
90


abril de 64, estes trabalhos ganharam força e se expandiram
consideravelmente. Diversas experiências foram sistematizadas. A
alfabetização desenhada por Freire chegou a lugares distantes do
Nordeste e estava prestes a envolver todo o país através do Plano
Nacional de Alfabetização do Ministério de Educação.
A CEPLAR
No Nordeste, além dos trabalhos realizados pela equipe
de Freire no SEC (Serviço de Extensão Cultural) de Recife, foram
significativos os trabalhos da CEPLAR ­ Campanha de Educação
Popular da Paraíba, e o de Angicos, no Rio Grande do Norte.
A Campanha da Paraíba começou ainda em 62, logo depois
das experiências de "Poço da Panela". A própria equipe do SEC4
capacitou as lideranças da CEPLAR para a realização dos grupos
de alfabetização. A Campanha, tal como sempre desejou Freire,
introduziu novos e significativos aspectos nos trabalhos que já
vinham sendo desenvolvidos. Um destes acréscimos foi a criação
de uma pós- alfabetização que acabou redundando no projeto de
um ensino equivalente ao antigo primário, com a duração de 2 anos.
A CEPLAR atuou, principalmente, nas áreas onde se davam
os conflitos entre as Ligas Camponesas e os proprietários rurais
paraibanos. Foi, ao todo, um trabalho bastante intenso, que
chegou a atingir mais de 4.000 alfabetizandos deste a sua criação,
em 62, até sua extinção com o golpe de 64.
Angicos
As idéias ligadas à alfabetização desenvolvidas por Paulo
Freire serviram de base para a experiência de Angicos, pequena
cidade do interior do Rio Grande do Norte.
4 SEC- Serviço de Extensão Cultural. Ligado à Universidade Federal de Recife, este
centro sob a direção de Paulo Freire teve importante papel na gestação e sistematização
dos primeiros trabalhos de alfabetização desenvolvidos na visão freireana.
91


Esta experiência se tornou de grande importância porque
foi o primeiro trabalho sistematizado neste novo enfoque, além
de contar com a participação, num mesmo tempo, de
aproximadamente 300 alfabetizandos.
Tal como aconteceu nas experiências de Recife, a
alfabetização em Angicos durou aproximadamente 2 meses e
seus resultados foram superiores aos conseguidos
tradicionalmente na alfabetização de adultos.
A ampla cobertura jornalística dada à experiência de
Angicos acabou por tornar Paulo Freire e o seu trabalho
conhecidos em todo o Brasil.
Folha de S. Paulo 19/04/63
92


Paulo Freire fora do Nordeste
Em 63, as idéias de Freire começaram a se transformar em
práticas de alfabetização, fora do Nordeste. Vila Helena Maria,
um bairro pobre da periferia de Osasco, foi o local escolhido
pela UEE para a realização de uma experiência piloto com a
metodologia de Paulo Freire. Belo Horizonte e Brasília também
entraram no mapa destes trabalhos.
Vila Helena Maria
O trabalho de alfabetização de Vila Helena Maria, do qual
participamos, foi realizado pela UEE /SP (União Estadual dos
Estudantes) e deveria servir de início a uma ampla campanha de
alfabetização a ser desenvolvida pelos universitários paulistas.
O bairro de Vila Helena Maria era, em 1963, um dos mais
pobres e afastados de Osasco, importante município da Grande
São Paulo. Sua população, constituída em grande parte por
migrantes de Minas Gerais, apresentava um alto índice de
analfabetismo. O bairro não dispunha de rede de luz nem de
esgoto. A água era retirada de cisternas (daí, a palavra geradora:
sarilho) e nem sempre em condições de ser bebida ou utilizada
no preparo de alimentos.
Um texto-memória desta experiência nos conta:
"Naquele tempo começava a circular a notícia de que um
professor nordestino estava desenvolvendo um trabalho de
alfabetização de adultos no Recife e em Angicos. Dizia-se que
ele conseguia uma alfabetização extremamente rápida, partindo
de palavras extraídas do vocabulário popular. Falava- se, também,
que este trabalho ampliava o nível de consciência dos
alfabetizandos. O nome deste desconhecido professor: Paulo
Freire."
A capacitação inicial da equipe que trabalhou em Vila
Helena Maria
foi feita pela equipe de Paulo Freire. Jomard de
Brito, Elza, mulher e colaboradora de Paulo, e Aurenice Cardoso,
93


além do próprio Paulo, estiveram em São Paulo durante uma
semana na qual se discutiu a realidade brasileira, o modelo de
educação vigente, o autoritarismo sempre presente na nossa
história.
Tal como aconteceu com os educadores da CEPLAR, o
grupo de São Paulo, também, deixou sua marca na história das
experiências freireanas. As palavras geradoras, até então
apresentadas sob a forma de desenhos, passaram a ser
representadas por fotografias. As "fichas de cultura" ganharam
situações próprias de centro urbano, para se adequarem melhor
ao novo contexto.
Este relato memória diz que "os resultados obtidos em
Vila Helena Maria
foram bastante positivos. Apesar de não
termos realizado um estudo mais rigoroso em relação aos
resultados, um breve trabalho de avaliação no final da
experiência mostrou que 69% dos alfabetizandos foram
considerados alfabetizados (capazes de se comunicarem por
escrito). A evasão foi muito pequena e sempre motivada por
mudança de moradia."
Material de alfabetização - Senegal
94


O mesmo relato-memória estabelece possíveis motivos para
os resultados obtidos, apontando entre eles:
1. As condições de vida dos educandos de Vila Helena
Maria.
Os adultos analfabetos sempre fizeram parte da população
mais pobre e explorada. Esta afirmação é também válida em
relação aos educandos de Vila Helena Maria. Mas os
alfabetizandos exerciam trabalhos que lhes garantia o essencial
para viver. A situação de desemprego era rara. Todos moravam
em casa de alvenaria, por eles chamada de "casa de material" e
que ia crescendo de acordo com o dinheiro que a família
conseguia economizar. O salário pequeno dava para a
alimentação básica. Os apelos do consumo não tinham adquirido
as sofisticações dos nossos dias, o que, sem dúvida, ajudava a
tornar um pouco maiores os salários.
Poderíamos dizer que os alfabetizandos de Vila Helena
Maria tinham o "espaço na cabeça", de que uma alfabetizanda
de hoje (1992) nos diz, ao desabafar: "Venho aqui mais prá
discansá. Minha cabeça tá cheia: desemprego dos filhos,
doença do velho, diabrura dos meninos, confusão com os
vizinhos, falta de dinheiro prá tudo. Eu acho que só quando
esvaziá um pouco a minha cabeça é que vai tê lugar pras
letras entrá."
2. Uma alfabetização centrada no pensar.
A experiência de Vila Helena Maria teve sucesso porque
entendeu a proposta de Paulo Freire como ato de conhecer
algo maior que a memorização de numerosos "ba, be, bi, bo,
bu."
A certeza de que os alfabetizandos eram capazes de
aprender porque, como nós, eram capazes de pensar, foi um
ponto de honra do projeto. Esta certeza, que nos vinha do
reconhecimento da produção cultural dos grupos populares, nos
animava a desafiá-los na descoberta dos "segredos" da escrita.
Sabíamos, também, que o caminho do conhecer passava pelo
95


observar, comparar, diferenciar, concluir, operações intelectuais
nem sempre estimuladas na nossa sociedade.
Com Freire aprendemos que a leitura da palavra não podia
estar dissociada da leitura do mundo.
No trabalho de Vila Helena Maria não tínhamos cartilha,
comportamento muito enfatizado, naquela época, nas
experiências inspiradas em Paulo Freire, e vivíamos numa época
em que os mimeógrafos eram poucos. A Xerox ainda não havia
descoberto o Brasil. Esta aparente carência de material acabou
nos levando a centrar nossas ações em textos que não foram
feitos para ensinar a ler, mas, sim, para ler. Nos valemos de jornais
e revistas. Sem ter grande clareza da importância do que
estávamos fazendo, centramos nosso trabalho na própria ação
sobre a escrita, o que foi muito positivo.
3. A motivação política formou e manteve o grupo de
alfabetizadores.
O trabalho de alfabetização de Vila Helena Maria foi um
típico produto de universitários politicamente engajados. A
motivação que sustentava o grupo, e que permitiu uma dedicação
ampla e duradoura ao projeto, não se esgotava na tentativa de
apropriação de uma nova metodologia de alfabetização. Era, antes
de tudo, um esforço de participação num processo mais amplo
de transformação social.
Esta motivação política sustentou o longo e árduo trabalho
preparatório que antecedeu os 2 meses da alfabetização. Serviu
como elo de ligação entre os participantes, impedindo que os
conflitos desintegrassem o grupo.
Brasília
"A experiência de Brasília teve uma especial importância
devido a duas características principais:
-- a primeira, por se dar na capital política e administrativa
do país;
96


-- a segunda, porque Brasília, segundo seus idealizadores,
deveria ser `elemento catalisador da economia regional, fulcro
do desenvolvimento nacional e centro de irradiação político-
social', pensamento este que refletia a euforia desenvolvimentista
da época de sua construção."5
A experiência de alfabetização teve início quando Paulo
de Tarso, ministro da Educação e Cultura, instituiu junto ao seu
gabinete a Comissão Nacional de Cultura Popular, com o objetivo
de "implantar em âmbito nacional novos sistemas educacionais
de cunho eminentemente popular, de modo a abranger áreas não
atingidas pelos benefícios da educação" (Portaria Ministerial n°
195, de 8/7/63). Essa comissão presidida por Paulo Freire seria
o passo inicial dado pelo MEC para a implantação do Plano
Nacional de Alfabetização.
Dias depois, outra portaria criou a Comissão Regional de
Cultura Popular do Distrito Federal, com o propósito de
desenvolver e avaliar experiências de alfabetização em Brasília
pelo método Paulo Freire, para verificação da conveniência de
adoção deste método em nível nacional.
A experiência, que se estendeu até o dia 31 de março de
64, foi desenvolvida nas cidades-satélites do Gama, Sobradinho,
Candangolândia, Núcleo Bandeirante e no Setor de Limpeza
Pública. Em todos estes locais foram instalados os círculos de
cultura em igrejas, galpões ou escolas, com o auxílio do próprio
grupo interessado. Muitos funcionaram à luz de lampiões e com
mobiliário improvisado com recursos da própria comunidade.
A divulgação dos cursos era feita através de alto-falantes,
instalados em veículos, que percorriam as cidades-satélites.
Por várias vezes, Paulo Freire referiu-se de forma bastante
positiva à idéia de criação de um comício, realizado em
Sobradinho, para a divulgação dos grupos de alfabetização. Neste
comício foi feita uma demonstração do funcionamento do
5 Texto seminário: Paulo Freire e a Educação Brasileira, pela Frente Cultural de
Brasília ­ setembro de 1982.
97


Círculo de Cultura. Um animador projetava slides com palavras
geradoras e mantinha com a platéia uma discussão em torno da
importância de saber ler e escrever e da metodologia que seria
usada no trabalho, prestes a começar.
Círculo de Cultura - Brasília, 1964
Os coordenadores dos grupos foram capacitados pelo MEC
que já havia se incumbido da inscrição e seleção destes futuros
alfabetizadores.
Acontecendo em Brasília, vários grupos foram visitados
tanto pelo ministro Paulo de Tarso como por Paulo Freire. Numa
destas visitas, o ministro assistiu o momento em que, após a
discussão da palavra geradora tijolo, o educador chamou a
atenção dos educandos para o estudo das famílias silábicas do
ti, do jo e do lo. Rapidamente, um dos alfabetizandos,
demonstrando já ter apreendido o mecanismo da leitura, juntou
as sílabas e formou, numa linguagem bem popular, a frase: "tu
já le".
98


Paulo Freire (terno escuro) visita Círculo de Cultura - Brasília, 1964
Infelizmente, o vendaval que assolou o país a partir de 64,
espalhou, apreendeu e destruiu a maior partes dos registros e
materiais utilizados tanto na experiência de Brasília, como nas
demais que se deram antes.
O processo da alfabetização
Fase preparatória ­ ( anos 60 )
O processo de alfabetização proposto por Paulo Freire partia
do pressuposto de que toda pessoa, alfabetizada ou não, trazia
conhecimentos nascidos das diferentes relações travadas por esta
pessoa durante a sua vida. Estes conhecimentos constituíam a
matéria prima para o aprendizado da escrita. Assim, era necessário
saber qual o universo de conhecimentos dos alfabetizandos.
Trabalhando com assuntos do interesse dos aprendizes
Paulo garantia o diálogo como instrumento pedagógico. Todos
99


têm o que dizer quanto o tema mexe com a gente, com a nossa
curiosidade.
Para a realização desta alfabetização era necessário um
trabalho de preparação que compreendia 5 etapas:
-- Levantamento do universo vocabular dos grupos com
que se ia trabalhar.
-- Seleção das palavras geradoras do universo vocabular
pesquisado.
-- Criação de situações existenciais do grupo, situações
que abrem possibilidade de análise das questões pessoais,
regionais, nacionais.
-- Elaboração de fichas- roteiros.
-- Confecção das fichas com as famílias silábicas das
palavras geradoras.
1. Levantamento do universo vocabular
Freire sempre insistiu que as palavras a serem estudadas
na alfabetização ou "palavras geradoras" deveriam sair "de uma
pesquisa feita na área onde se daria a alfabetização e nunca de
uma biblioteca".
Dizia que não se tratava de uma pesquisa de alto rigor
científico, mas de uma forma de se obter as palavras mais
significativas para a população a ser alfabetizada.
Um relato da época diz que:
Fomos muito bem recebidos nas entrevistas, para o
levantamento do universo vocabular. Íamos de casa em casa,
nos apresentávamos como estudantes que iriam realizar um
trabalho de alfabetização de adultos no bairro. Dizíamos que
estávamos interessados em conhecer melhor o lugar e as pessoas
que moravam lá. Perguntávamos, então, há quanto tempo
morava em Vila Helena Maria, se conhecia algum analfabeto
adulto por ali, quais as oportunidades de trabalho existentes por
lá ... Logo, a conversa ficava animada e as pessoas iam falando
100


e contando fatos de sua vida, a vida dos vizinhos e do bairro.
Tínhamos o cuidado de não ir escrevendo nada na frente do
entrevistado, mas apenas ir guardando na memória os assuntos,
o jeito de falar, as palavras e expressões usadas. Logo em seguida,
fazíamos as anotações.6
Erma Stultz - Los manos del saber - CEAAL - Chile
2. Seleção de palavras geradoras
Com o material pesquisado, chegava a hora de escolher as
palavras que seriam utilizadas no trabalho de alfabetização.
Uma palavra é geradora quando possibilita um processo
de conhecimento, quando constitui um estímulo intelectual e
6 Dois alfabetizadores antes do golpe de 1964 ­Vila Helena Maria, Osasco (mimeo).
101


afetivo. Usadas no Círculo de Cultura, deveriam ser fonte de
motivação porque lembravam situações existenciais da realidade
e da própria vida dos alfabetizandos.
Para esta seleção havia diferentes critérios:
-- riqueza fonética ­ as palavras deveriam conter todos
os fonemas da língua portuguesa;
-- dificuldades fonéticas ­ as palavras escolhidas
deveriam responder às dificuldades fonéticas da língua, colocadas
numa seqüência gradativa;
-- aspecto pragmático da palavra ­ as palavras deveriam
possuir forte entrosamento com a realidade social, política e
cultural.
Ter uma longa lista de palavras usadas pela população do
lugar onde ia se dar a alfabetização era fundamental, mas
não o suficiente. Era preciso escolher desta lista as que
poderiam servir como geradoras. Decidimos usar como
critério: a palavra deveria estar relacionada com situações
muito significativas para os moradores analfabetos; a
possibilidade de esta palavras gerar várias outras pela
combinação de suas famílias silábicas; ser possível
representar num slide (foto) o seu significado; o conjunto
das palavras selecionadas deveria conter os fonemas da
nossa língua.
E, no final, chegamos às nossas 16 palavras geradoras: tijolo,
povo -- voto, feira, barraco, máquina, sarilho, escola, salário,
classe, cozinheira, enxada, cachaça, prestação, emprego --
bicicleta.
3. Criação de situações existenciais do grupo, que abrem
possibilidade de análise das questões pessoais, regionais,
nacionais
As palavras geradoras, já selecionadas, serviam de
referência para criação de situações que permitissem o seu debate.
102


A cada situação correspondia uma palavra, exatamente aquela
que aparecia com ela.
Freire se referia a estas situações como "situações-
problemas codificadas que guardam em si informações que serão
descodificadas pelo grupo com a colaboração do educador."
As experiências de Angicos e de Recife tiveram suas palavras
geradoras representadas por desenhos. Mas achávamos que
ficaria melhor se usássemos fotografias. Procuramos um
amigo comum a várias pessoas do nosso grupo e excelente
fotógrafo profissional. O fato de ser amigo era importante
porque até aquele momento não existiam recursos financeiros
para bancar a experiência. O Xavier foi convencido da
importância do trabalho e "levado" a colaborar.
A idéia de usar a fotografia se revelou acertada mas deu
bastante trabalho até resolver todas as dificuldades surgidas
como, por exemplo, a forma de colar a palavra dentro da
fotografia, a relação entre as letras e fundo ...
Material de alfabetização - Vereda, 1980
103


Material de alfabetização - Vereda, 1980
4. Elaboração de fichas-roteiros
Por se tratar de uma metodologia diferente da
experimentada no modelo escolar, era importante elaborar
"roteiros" para ajudar o educador. Neles havia indicações de
possíveis subtemas ligados às palavras geradoras e sugestões de
encaminhamentos para a análise dos temas selecionados. Embora
fossem apenas sugestões, estes roteiros eram de grande valia,
principalmente no início do trabalho quando o alfabetizador era
também iniciante.
5. Confecção das fichas com as famílias silábicas das
palavras geradoras
Palavras selecionadas, situações sociológicas criadas, havia
ainda a necessidade da construção de fichas para o estudo das
famílias fonéticas.
Estas fichas formavam uma série onde se via:
1- a palavra sozinha:
N O V E L A
104


2 - a palavra separada em sílabas:
NO VE LA
3 - as famílias fonéticas, uma a uma:
NA NE NI NO NU VA VE VI VO VU LA LE LI LO LU
4 - quadro com o conjunto das famílias trabalhadas: a ficha
da descoberta, nome dado por Aurenice Cardoso a esta ficha
porque permitia descobrir o mecanismo da formação das palavras
escritas:
NA NE NI NO NU
VA VE VI VO VU
LA LE LI LO LU
A E I O U
As Fichas de Culturas
Os alfabetizandos adultos possuem, fortemente introjetada
pela ideologia, a idéia de que não têm Cultura. Para eles, apenas
as pessoas que estudaram é que são produtoras e portadoras de
Cultura.
Para superar esta visão restrita que alimenta uma atitude
de inferioridade, Paulo Freire sistematizou e codificou em
algumas imagens o conceito antropológico de Cultura. Nele a
Cultura é conceituada como toda a produção humana.
O conjunto destes códigos, que recebeu o nome de Fichas
105


de Cultura, era apresentado aos alfabetizandos para que,
estimulados pelos alfabetizadores, eles as descodificassem.
O uso das Fichas de Cultura
As Fichas de Cultura não eram ilustrações para a fala do
educador. Pelo contrário, eram codificações, em forma de
gravura, de idéias que deveriam ser descodificadas pelos
educandos.
Os alfabetizandos, vendo e discutindo cada uma das
gravuras, iam tirando suas conclusões sobre o significado delas.
Mais do que isto, as gravuras eram o elemento detonador do
processo de análise da realidade. O educador que acompanhava
o processo de descodificação fazia perguntas e estimulava os
alfabetizandos a trazer para a conversa as suas próprias
experiências pessoais sobre o que se discutia.
Em pouco tempo, não eram mais as gravuras, mas os
conhecimentos e experiências que se tornavam o eixo da reflexão.
O processo de descodificação das Fichas de Cultura
O educador iniciava a discussão apresentando a gravura
ou o slide e fazendo perguntas do tipo "O que estamos vendo
aí?" No primeiro momento surgia a descrição da gravura,
estimulada com novas indagações: "E o que mais?"
Frequentemente, espontaneamente ou por sugestão do
educador, o grupo passava a relacionar o visto no desenho com
situações concretas da experiência diária.
Esgotada a descrição, o grupo era convidado pelo educador
a trazer contribuições próprias, perguntando: "Vocês sabem de
outras coisas iguais ou parecidas com estas?" ou "Vocês sabem
de outras coisas como estas?" Pouco a pouco os participantes
começavam a trazer suas contribuições pessoais. O educador
também estimulava a discussão e o aprofundamento com
106


perguntas do tipo: "O que vocês acham do que ele disse?" ou
perguntas estimuladoras do pensar como "Por que?", "Como
foi?", "Explique melhor?" etc. Finalmente, cabia ao educador
evitar que as discussões fugissem do tema bem como ordenar,
no final, as conclusões do grupo.
As Fichas de Cultura nunca eram discutidas todas em
um só dia, ou com mais acerto, em uma só noite, uma vez
que quase todos os cursos eram no período noturno.
Costumeiramente as discussões levavam uma semana. Muitas
vezes, a pedido dos alfabetizandos, eram reprisadas algum
tempo depois.
1a ficha: Os Seres Humanos no Mundo e com o Mundo.
Natureza e Cultura
F. Brennand - 1963
Esta primeira codificação apresentava elementos (objetos)
da Natureza e elementos (objetos) da Cultura.
Com sua descodificação, sempre estimulada pelo educador,
se pretendia que os educandos percebessem ou reconhecessem que:
-- existe uma distinção entre a Natureza e a Cultura; a
107


Natureza é o mundo que os seres humanos não fazem e a Cultura
é o mundo feito pelas mulheres e homens;
-- os seres humanos utilizam a natureza para fazer Cultura;
-- ao agir sobre a Natureza, os homens e mulheres
aprendem e produzem conhecimentos;
-- tudo o que os seres humanos produzem, inclusive os
conhecimentos, leva o nome de Cultura;
-- todas as mulheres e homens produzem e têm Cultura.
2a ficha - A Transformação da Natureza pelas Mulheres e
Homens
F. Brennand - 1963
Esta segunda ficha é um detalhamento do primeira. Nela
reaparece o homem com algumas das suas obras. Seu objetivo é
discutir a causa e o processo pelo qual o seres humanos fazem
Cultura.
Com perguntas do tipo: "Por que foi feito o poço? Quem
plantou a árvore? Para que plantou? Por que plantou naquele
lugar? Como escolheu qual árvore plantar? Que materiais foram
108


usados para construir a casa?Por que?", se analisava o quanto a
satisfação das necessidades impulsionava a produção de Cultura.
3a, 4a e 5a fichas - A Historicidade da Cultura
F. Brennand - 1963
109


F. Brennand - 1963
Nestas três codificações a idéia é permitir a discussão do
caráter histórico da Cultura.
A codificação mais frequente desta idéia deu-se tendo como
elemento de comparação cenas de caça.
Na primeira codificação, um índio caçava com seu arco e
flecha. Na segunda, um caçador mais moderno com uma
espingarda e, na terceira, um gato com seu eterno e constante
jeito de caçar ratos.
A descodificação com os alfabetizandos permite estabelecer
que:
· a Cultura modifica-se no tempo, ou seja, é histórica;
· as ações humanas estão num contínuo processo de
mudança, diferentemente das formas de agir dos outros animais;
· os seres humanos, por serem históricos, possuem um
ontem, um hoje e um amanhã.
Muitas vezes a discussão fazia perceber a possibilidade
110


humana de usar sua criatividade e seu trabalho para transformar
cada vez mais a natureza. Permitia também a reflexão ética sobre
estas transformações.
6a ficha - O Trabalho como Elemento da Transformação
da Natureza
F. Brennand - 1963
Esta ficha de cultura procurava resgatar a importância do
trabalho como elemento de transformação da natureza e produção
cultural. Em várias das primeiras experiências de alfabetização
usou-se a expressão "Cultura Material" para indicar o tipo de
cultura aqui apresentado, a cultura que se concretizava em
objetos palpáveis.
O educador propunha questões do tipo: "Como foi feito?
Para que foi feito? Por quem foi feito?", para ajudar o processo
de descodificação.
111


7a ficha - A Arte e a Beleza como Elementos Culturais
F. Brennand - 1963
A ficha de cultura anterior destacava que o trabalho
modifica a natureza produzindo objetos necessários à vida. Esta
nova ficha pretende pôr em discussão uma das características
do fazer humano: a intenção de fazer de forma bonita. A estética
é, também, produção cultural. O ceramista ao fazer o jarro escolhe
a forma que dará a ele, suas cores, etc. Não faz apenas um depósito
de flores. Isto também é Cultura.
O alfabetizador se valia de perguntas do tipo: "Para que
esta pessoa trabalha o barro? Por que faz vaso de diferentes
formados e cores? Como escolhe a forma que vai dar ao vaso?
No que pensa ao escolher as cores ou a desenho que colocará n
sua produção? Por que as pessoas pintam suas casas, enfeitam
suas roupas...?"
112


8a ficha - A Literatura como Elemento Cultural
F. Brennand - 1963
Ampliando a discussão sobre o tema, esta ficha apresenta
uma poesia para destacar a escrita e a literatura também como
manifestação cultural, como construção humana que foi se dando
ao longo do tempo para possibilitar o registro das ações,
reflexões e sentimentos.
Para a descodificação o educador, depois de ler a poesia,
perguntava ao grupo se a poesia era ou não cultura e por que
assim consideravam. Na discussão torna-se presente que a poesia
responde a uma necessidade diferente daquela que levou à
construção do poço ou do vaso.
Depois de colocar na discussão vários aspectos da criação
artística, não só na área da poesia, o educador voltava a ler o
texto que se tornava, também, objeto de análise.
113


9a - Os Padrões de Comportamento como Produção
Cultural
F. Brennand - 1963
Um dos objetivos desta ficha é caracterizar os padrões de
comportamento como manifestação cultural. O jeito de vestir,
de falar, a forma de pensar, os costumes ligados à alimentação,
moradia, são alguns aspectos destes padrões.
O educador, depois de estimular o grupo a identificar
algumas destas variações de comportamento, propõe a busca de
explicações para elas. Os participantes estabelecem relações entre
estes padrões e o tipo de trabalho desenvolvido, o clima e os
produtos de cada região.
A codificação mais freqüente mostrava um vaqueiro do
Nordeste e um gaúcho do Sul. Com perguntas como: "Por que
vestem assim? Podemos imaginar o que fazem? De que forma?..."
Paulo, no livro Educação como prática da liberdade, conta
114


ter escutado de um alfabetizando o comentário: "Vemos aí
tradições de duas regiões brasileiras. Tradições de vestir. Mas,
antes de se formar as tradições, houve uma necessidade de vestir
assim -- um, com roupa quente, outro, com roupa grossa de
couro. Às vezes, passa a necessidade, mas fica a tradição."
10a ficha ­ O Círculo de Cultura : um Momento de
Produção Cultural
F. Brennand - 1963
Esta ficha destaca o Círculo de Cultura, isto é, o próprio
trabalho de alfabetização em que o grupo está envolvido. O
objetivo é o de analisar a cultura como aquisição sistemática de
conhecimento.
O funcionamento do Círculo de Cultura é colocado em
discussão, enfatizando-se o trabalho de reflexão como motor do
trabalho de alfabetização, a importância do diálogo e o caráter
dinâmico dado a esta nova forma de alfabetização.
Por serem capazes de pensar sobre o mundo feito para
refazê-lo melhor, os participantes do Círculo de Cultura se
percebiam capazes de dominar a escrita, adquirindo nova e
poderosa forma de comunicação.
115


O Círculo de Cultura
O processo da alfabetização (anos 60)
Inscrições feitas, grupo formado, local preparado, chegava
a hora da ação. A discussão em torno das fichas de cultura iniciava
as atividades nos Círculos de Cultura.7
1 ­ Apresentação e discussão das fichas de cultura
O trabalho de alfabetização come-
çava com a apresentação e discussão das
fichas de cultura, que codificavam de mo-
do objetivo idéias importantes para quem
começava a aprender a ler e escrever:
-- a idéia de que eram cultos, porque faziam cultura;
-- que eram capazes de aprender;
-- que não eram inferiores aos educadores.
No Círculo de Cultura, o maior impacto foi causado pela
descoberta de quantos conhecimentos cada um trazia. Havia
também susto em relação ao valor deste saber.8
2 ­ Apresentação da situação relativa à palavra geradora
Com a projeção da foto do tema gerador
(tijolo), começamos a conversar sobre a
realidade ligada a ela.
-- O que estamos vendo, nesta fotografia?
E sempre começavam a surgir nomes de
coisas que apareciam no foto. De repente, alguém arriscava
um comentário, ou mesmo, uma história, um caso.
7 Nome dado por Freire ao grupo de alfabetização. A denominação diferenciada da
usual no sistema escolar reforçava as diferenças que a nova metodologia trazia.
8 Dois alfabetizadores antes do golpe de 1964 ­Vila Helena Maria, Osasco (mimeo).
116


-- É um home qui tá ajudando fazê a casa da prima dele.
Pronto. Bastava um comentário como este para que todos
esquecessem os detalhes da fotografia para trazer o assunto
para a situação e a experiência deles: o preço alto da
construção, do terreno, do material; a vida de pedreiro; a
marmita que a mulher do pedreiro faz de madrugada; a
construtora onde muitos querem conseguir trabalho porque
trata melhor seus empregados; a fabricação doméstica de
tijolos.
A participação nas discussões foi num crescendo. Desde
o começo, algumas pessoas mostravam facilidades para
dizer suas idéias e sentimentos. Os mais tímidos
começavam dizendo apenas o que tinham mais segurança.
Acredito que a penumbra criada pelo projetor ajudou a
vencer o medo de falar.
3 ­ Apresentação da palavra na situação temática
Quando se esgotava a discussão em
torno da situação temática, o educador
chamava a atenção dos educandos para
a palavra inserida na foto, desenho ou
outro código que serviu para discussão.
T I J O L O
Ele buscava estabelecer o vínculo entre
a palavra e o objeto ao qual faz
referência.
" Nossa! Como numa palavrinha de tão pouca letra pode
cabe tanto assunto dentro!"
Ver a palavra e descobrir o seu significado sempre instigou
os educandos, do Círculo de Cultura em que estava. Alguns
já conheciam algumas palavras e ficavam admirados de
encontrar as mesmas letras em diferentes palavras.
Rapidamente iam marcando as iniciais e por elas iam
reconhecendo as palavras já estudadas.
117


4 ­ Apresentação da palavra dividida em sílabas
Continuando
o trabalho com a escrita da

palavra geradora, pedíamos aos
TI - JO - LO
educandos que observassem o movimento
que a nossa boca fazia quando falávamos,
por exemplo, tijolo. Que notassem como
pronunciávamos a palavra em três partes: ti ­ jo ­ lo. A
partir daí, fazíamos a relação entre a sílaba falada e sua
escrita apresentada na projeção.
Perceber as divisões na hora de falar era uma atividade
bastante simples, praticamente ninguém se enganava.
Entretanto, apontar ou ler, no escrito, aquelas sílabas era
uma outra história. Para muitos educandos, só com o
conhecimento de várias palavras geradoras esta questão
da divisão silábica foi se tornando mais fácil.
5 ­ Apresentação das famílias silábicas que compõem a
palavra geradora
TA TE TI TO TU
JA JE JI JO JU
LA LE LI LO LU
A tentativa de memorizar mecanicamente estas sequências
era muito grande, parecia uma obsessão. Mas, imbuídos que
estávamos dos ensinamentos de Paulo Freire, lutávamos por
realizar atividades relacionadas ao pensar: observar, perceber
semelhanças e diferenças entre as famílias para estabelecer
princípios, descobrir regularidades ou mesmo irregularidades.
6 ­ Apresentação da "ficha da descoberta"
TA TE TI TO TU
Formada pelo conjunto das famílias
silábicas estudadas a partir de uma dada
JA JE JI JO JU palavra geradora, a "ficha da descoberta"
LA LE LI LO LU permitia aos educandos a formação de
118


novas palavras, descobrindo desta forma, o mecanismo pelo qual
se escreve.
Os cuidados com a "ficha da descoberta" eram grandes:
as palavras formadas deveriam ser criações dos educandos,
nunca indução do educador. Só deveriam ser criadas `palavras
vivas', isto é, que tinham significação.
Era um grande momento. Diante da ficha muitos olhares
atentos. De repente um grito: "Tô vendo aí a palavra tijolo. O
`ti' está ali, o `jo' está aqui..."
"Tem também a palavra lata. É só juntá o ` la' com o `ta'."
"E, tem a `laji' que eu faço lá no trabalho."
E a nossa dúvida: laje ou laji? Comento a diferença ou
deixo para depois?
As re­criações de Paulo Freire
Hoje são muitos os alfabetizadores que se sentem
influenciados pelas idéias de Paulo Freire.
Esta presença nas atuais práticas alfabetizadoras não
significa um "engessamento" nos procedimentos utilizados nos
anos 60.
A marca freireana aparece quando estes educadores tomam
como ponto de partida a realidade vivida pelo educando, usam
a discussão como instrumento pedagógico, consideram o
educando como alguém que tem um saber, trazem o conteúdo a
ser estudado através de um código, muitas vezes dramatização
ou gravuras, enfatizam o pensar e o criar como elementos do
processo de conhecer, buscam o conhecimento para melhor
intervir na realidade...
Paulo Freire também se faz presente nos comentários dos
educadores quando dizem: "sem a participação ativa do aluno
119


não há ensino", " a gente aprende muito enquanto ensina", "tudo
ficou diferente quando passei a ouvir, com atenção, as perguntas
dos alunos".
O próprio Paulo Freire sempre enfatizou a necessidade de
que suas idéias fossem recriadas e sempre aplaudiu com
entusiasmo quando viu isto acontecer.
Foi o que se deu, por exemplo, neste caso contado por
ele, em relação a uma nova forma de selecionar as palavras
geradoras:
"É interessante contar algumas mudanças que ocorreram
em minha práxis. Mudanças que não foram feitas propriamente
por mim. No México, jovens que faziam um trabalho de
alfabetização me disseram: `Olhe, Paulo, gostaríamos de falar
com você para lhe mostrar algo que fazemos e que é diferente
do que você faz.' Disse-lhes: `Fantástico!', quando me
explicaram que tinham, pelo menos, uma coisa diferente da
minha prática e que julguei melhor que a minha. Eu sempre disse
que se escolhemos o processo de alfabetização que liberta e
humaniza, não podemos começar usando as nossas palavras
como palavras geradoras e que, fazendo um estudo junto às
pessoas a serem alfabetizadas, partiríamos das palavras usadas
por elas. Porém, eles fizeram algo melhor. Em vez de fazer uma
pesquisa para descobrir as palavras com as pessoas (antes do
processo de alfabetização), eles começaram com o processo sem
investigação. Colocaram os desenhos das "fichas de cultura"
diante dos analfabetos e, através da discussão em torno do
primeiro desenho, eles escolheram a primeira palavra geradora.
Da discussão da primeira palavra foi escolhida a segunda e,
assim, sucessivamente."
Uma outra recriação que contou com a anuência de Paulo
está relacionada com o uso da expressão "palavra geradora".
Nos anos 60, quando Paulo sistematizou uma nova forma
de se trabalhar na alfabetização de adultos, era comum começar
a aprender a ler e escrever pela memorização do alfabeto. A
preocupação em manter a escrita sempre colada a seu significado
120


fez com que Paulo escolhesse uma palavra e não letras ou sílabas
para a partir dela alfabetizar.
Mas à palavra escolhida para a alfabetização se dava um
sentido que ia além do nome do objeto ou da situação que ela
representava. O que importava era a palavra no seu contexto.
Isto se tornava evidente na descodificação desta palavra, quando
dela brotava um leque de questões interligadas.
Num encontro com militantes negros, em Nova York, um
dos participantes chamou a atenção de Paulo para o quanto a
discussão feita com a palavra geradora a transformava em algo
maior, que abrangia toda uma temática. A partir desta observação,
a expressão "tema gerador" foi ocupando gradualmente o lugar
da " palavra geradora".
Hoje, lançando um olhar para as práticas de alfabetização
identificadas pelo pensamento de Paulo Freire, é possível perceber
um caminho construído por elas ao longo destes quase 40 anos.
Para tornar claro este desenvolvimento, vamos exemplificar
usando um tema que sempre esteve presente nas salas de
alfabetização, a migração.
O Brasil viveu nas últimas décadas uma verdadeira
revolução. De país agrário, com 70 % da população no campo,
passamos para um país urbano com 70 % de moradores nas
cidades. Este fenômeno vem, durante este tempo, aparecendo
fora e dentro das salas de alfabetização através das vozes e escritas
dos alfabetizandos, com expressões como: " minha família veio
todinha embora porque não dá mais para viver da roça", "na
fazenda onde eu nasci, agora só tem cana e cobra", "vou prá
Brasília vê se trabalho na construção de prédio", "se desse eu
voltava prá minha Alagoas", "quero escrever para mandar uma
carta pros parentes que ficaram na Bahia".
Anos 60
Na alfabetização dos anos 60, a migração começava a ser
121


percebida como aspecto importante na vida dos alfabetizandos
no momento do levantamento vocabular que precedia o início
dos círculos de cultura. Aparecia através das palavras: cidade,
roça, lavoura, trabalho, saudade, passagem, ônibus, viagem...
O processo de seleção escolhia a mais indicada que era
transformada em slide, como o que aparece abaixo:
A descodificação da situação representada pela fotografia
trazia para o círculo de cultura um amplo repertório de assuntos
nascidos da experiência vivida pelos alfabetizandos em relação
à temática apresentada.
Assim, a discussão em torno da palavra VIAGEM, num
grupo de alfabetização, significava falar da vida difícil no cidade
de origem, das esperanças em se dar melhor no lugar para onde
se vai, do trabalho que dá entender a nova realidade, da
solidariedade dos familiares, das dificuldades encontradas na
busca de novo emprego, das diferenças de vida, hábitos entre os
dois lugares...
122


á vida na roça
á
vida na cidade
á
dificuldade de emprego
VIAGEM
á
solidariedade dos parentes
á
adaptação à nova vida
á novos costumes
A discussão, enquanto "leitura do mundo" e exercício da
oralidade, preparava o momento de escrever VIAGEM e de, a
partir dela, criar novas palavras.
Nesta época, anos 60, a maior parte dos alfabetizadores
que buscavam as idéias de Paulo Freire era formada por
estudantes de classe média, principalmente universitários
preocupados com a valorização da cultura popular.
Os alfabetizandos eram, na sua maioria, adultos, nascidos
em zonas rurais, que nunca haviam ido à escola ou nela ficaram
por curto espaço de tempo.
Saber ler e escrever ampliava significativamente as
possibilidades de ingresso no mundo do trabalho.
Anos 80
Nos anos 80 algumas mudanças ganharam visibilidade nos
trabalhos de alfabetização de linha freireana.
Vamos destacar duas novidades: o surgimento de
"cadernos" preparados para uso dos educandos e a introdução
de pequenos textos onde antes aparecia apenas a "palavra
geradora".
A crítica às cartilhas justificada pela sua origem escritorial
e pelo uso de palavras e temas distantes do mundo dos analfabetos
123


tirou este tipo de material dos trabalhos de alfabetização. A
metodologia criada por Paulo Freire chegou mesmo a ser
conhecida como a "alfabetização sem cartilha".
Entretanto esta atitude foi se constituindo num problema.
Os educandos analfabetos viam com desconfiança um curso sem
livros e os educadores sentiam falta de um material que ajudasse
a sistematizar o que estava sendo estudado.
O medo de repetir as "cartilhas" instigou a criatividade
dos alfabetizadores e vários "cadernos de cultura" começaram a
nascer. Neles apareciam os temas geradores, as "fichas da
descoberta", além de bastante espaço para uso dos educandos.
Nosso exemplo mostra uma página destes "cadernos de
cultura" onde o tema migração ganha nova roupagem.
Joana veio do Piauí.
Ela quer trabalhar em São Paulo
Material
de alfabetização - Diadema - São Paulo
124


A novidade em relação ao aparecimento do texto não era
nada tão radical. A qualidade dele era discutível porque eram
grandes as preocupações com supostas dificuldades dos
educandos. No final, revelando a timidez da mudança, se acabava
elegendo uma palavra para o exercício de análise e síntese, tal
como se fazia anteriormente.
Vale ainda lembrar que nesta época o Brasil começava a
sair de uma ditadura. As entidades estudantis não se sentiam
mais comprometidas com a população mais pobre.
O interesse pela metodologia de Paulo Freire encontrou
guarida junto aos movimentos populares que começam a se
articular em prol de melhores condições de moradia, saúde,
educação.
Os alfabetizadores passaram a ser, em grande parte, agentes
de pastorais sociais e lideranças comunitárias. Eram pessoas que
viviam bem próximos dos alfabetizandos, experimentando como
eles as durezas da vida.
Entre os alfabetizandos cresceu o número de mulheres.
Ler e escrever para efetiva participação na comunidade de
base da Igreja, na associação de moradores ou no movimento
por creche, posto de saúde, escola... era o grande atrativo dos
que buscavam as idéias de Paulo Freire.
Anos 90
O aumento do uso e prestígio da escrita, a partir dos anos
80, tornou vital a necessidade de ler e escrever e levou para a
escola uma população que até então nunca tinha sido
escolarizada: a dos mais pobres.
A busca da universalização da alfabetização, aliada às
dificuldades frente às metodologias tradicionais, provocou
estudos e pesquisas nesta área.
A nova linguística, o aparecimento da sócio-linguística e
principalmente, a pesquisa da psicogênese da língua escrita
125


realizada por Emília Ferreiro e Ana Teberosky trouxeram uma
compreensão maior do processo da aprendizagem da escrita.
Muitas das novas contribuições reforçaram e confirmaram
aspectos já apontados por Paulo ou revelaram outros coerentes
com ele. Entre estes aspectos estão :
-- Os analfabetos adultos produzem conhecimentos a partir
das ações que desenvolvem no seu dia-a-dia. Assim, chegam
aos grupos de alfabetização com conhecimentos até mesmo
relativos à escrita.
-- A alfabetização é uma aprendizagem conceitual,
portanto, o seu sucesso está ligado à capacidade do educando
em estabelecer relações com o que aprende. Desta forma, o motor
da alfabetização é a capacidade de pensar dos educandos e não
a memorização mecânica de letras e sílabas.
-- Não há leitura nem escrita sem uma compreensão do
lido ou escrito. Esta compreensão depende da "leitura de mundo"
que o educando é capaz de fazer.
-- A alfabetização deve se dar a partir de textos com função
social e não de textos feitos para ensinar a ler e escrever.
Em grande parte dos grupos de alfabetização dos anos 90,
o texto passou a ser a unidade linguística a ser estudada
permitindo de forma melhor a "leitura do mundo" e a escrita das
palavras que Paulo Freire sempre buscou.
Assim o tema migração pode chegar aos educandos através
da poesia "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias.
No relato da alfabetizadora Marli Cerqueira, as idéias de
Paulo Freire estão vivas, animando uma nova prática educativa.
São Paulo, 14 de abril de 1996
Estou trabalhando com o tema gerador: migração ou a vida
longe da terra da gente.
Levei para todos os alfabetizandos a poesia de Gonçalves
126


Dias: Canção do exílio. Já sabia que quase todos eram
migrantes, viviam longe do lugar onde nasceram, passaram a
infância e têm parentes. Portanto, viviam uma situação
parecida com a do poeta exilado, apesar de estarem no seu
próprio país.
Distribui o texto e li a poesia em voz alta. Mirna pediu que eu
lesse outra vez. Todos disseram que isto seria bom. Quando
acabei a leitura todos queriam dizer alguma coisa, era uma
briga para falar. Depois da confusão chegou a calma e foi
possível ouvir todos.
127


Muitos queriam dizer do quanto se identificaram com a
situação de Gonçalves Dias que queria voltar para a sua terra
e não podia:
"Este aí, é da nossa turma. Não conseguiu ficar no lugar onde
nasceu!"
"Pelo que estou vendo, nós somos exilados! Estamos
proibidos de voltar pelo desemprego e falta de oportunidade".
"A gente sempre sente falta de alguma coisa que ficou na
terra da gente!"
"Esse homem viveu igual à gente longe da terra dele. Mas
exilado é coisa de político e a gente não é isso não. A gente é
`baiano sem rumo'."
Procurei buscar o sentido da palavra exílio e até aproveitei
para usar o dicionário. Lá, entre as explicações aparecia uma,
figurada, que dizia:
"Lugar afastado, solitário, ou desagradável de habitar."
Quase todos acharam que era com eles, que era o lugar onde
moram.
Mas todos achavam que viver fora do país era ainda pior do
que enfrentavam porque "no estrangeiro as letras e as palavras
são outras".
Joana protestou com voz alta porque, quando chegou em São
Paulo
, não entendia o que a patroa dela falava.

Formamos grupos misturando os que sabiam escrever melhor
com os iniciantes. Havia muita coisa para ser escrita.
Começamos com os versos: "Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá"
128


Pedi que modificassem o que estava escrito para falar da terra
deles. Assim:
Minha terra tem...........................
Onde ...........................................
Um burburinho e foi saindo: Minha terra tem um rio
Onde o povo vai passear
Minha terra tem um morro
Minha terra tem umas fazendas
Onde é gostoso namora
onde ninguém vai trabalha
As dificuldades não foram muitas e todos pareceram muito
animados com os versinhos que faziam.
Depois voltamos para a poesia para descobrir do que
Gonçalves Dias sentia saudades. Pedi, então, que fizessem
uma lista com coisas da terra natal que deixaram saudades.
Muita consulta, muito escreve e apaga, e as listas começaram
a aparecer. Eu ia escrevendo no quadro e pedindo que
comparassem com o que escreveram.
Saudades
A festa da padroeira
A cabidela da minha tia
A praça da igreja
Minha prima Odete
José Lindolfo ­ Gavião (Bahia)
A festa de São João
A corrida dos sacos
O céu bem escuro e com muitas estrelas
Joel Lima ­ Cipó ( Pernambuco)
129


Pedi que escrevessem a lista do que não deixou saudades.
O cansaço da roça,
A roça
A fome,
A água salgada
Tudo era dificuldade.
A falta de trabalho
Lizete Santos ­ Gavião (Bahia)
O sol nas costas queimando
Cícero ­ (Datas) Bahia
Observei algumas das escritas presentes nas listagens, fui
anotando no quadro e fizemos as correções com a participação
de todos.
Fiquei feliz porque D. Rosa começou a ter coragem de falar e
o Nelson escreveu várias palavras sem perguntar se estava
certo.
Lizete está ótima e ajuda muito os outros sem fazer por eles,
mas perguntando e deixando que pensem. Antônia faltou
novamente e escrevemos um bilhete para ela: Celina ditou,
José escreveu e todos assinaram sem precisar conferir no
crachá.
Combinamos fazer um folheto com dicas para quem chega
em São Paulo. Pensamos em lembrar da própria experiência
e conversar com pessoas que chegaram há pouco tempo.
Depois de pronto a irmã do Joel vai levar para a escola e
digitar no computador. Ainda vamos decidir o destino do
nosso folheto, mas já temos muitas idéias. Será uma
oportunidade de selecionar nossas idéias e colocá-las
no papel.
A autora do relato é professora de uma escola do estado e,
à noite, alfabetiza jovens e adultos num projeto mantido pela
Igreja do bairro de periferia onde mora.
Como Marli, muitas das alfabetizadoras e dos alfabeti-
130


zadores influenciados pelo ideário de Freire são jovens
envolvidos com trabalhos comunitários. A maioria completou o
1° grau e muitos cursam o 2°. A presença das mulheres ganha
em muito a dos homens.
A educação na visão de Paulo Freire, que nasceu e se
fortaleceu fora da escola oficial, tem hoje uma significativa
entrada na escola pública, principalmente entre jovens e adultos.
Hoje os alfabetizandos não são mais os adultos "maturos"
dos anos anteriores. Agora, em grande parte, são adolescentes e
jovens nascidos em centros urbanos. Muitos deles já passaram
pela escola, embora tenham permanecido analfabetos.
AJA Bahia - Núcleo de Aporá - Secretaria do Estado da Educação da Bahia
131


132


Os desenhos que ilustram este livro fazem parte de materiais
educativos influenciados pela prática pedagôgica de Paulo
Freire, nos países:
Argentina - Sílvia Lungo
Brasil - Francisco Brennand; Claudius Ceccon; Sebastião Xavier;
Amilton Santana
Chile - Vicente de Abreu
Colombia
Costa Rica - E.S
Estados Unidos - Texas Bill
Guiné Bissau
Índia ­ Mulher / Alimentação
Inglaterra
México
Nepal
Nicarágua
Senegal
Bangladesh
Zinbabwe - Chris Hodzi
133


134


Bibliografia
Aguirre, Samuel Escobar (1989) Paulo Freire: Outra Pedagogia
Política - Tese de doutoramento - Universidad Complutense
de Madrid - Espanha
Beisiegel, Celso de Rui (1979) Cultura do povo e educação po-
pular. Revista da Faculdade de Educação da USP, nº 5 - São
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Vereda - São Paulo
Freire, Paulo (1981) Congresso Brasileiro de Leitura - Campinas
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São Paulo
Freire, Paulo (1997) Pedagogia da esperança - Ed. Paz e Terra -
São Paulo
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São Paulo
135


Freire, Paulo (1990) Virtudes do educador - Vereda - São Paulo
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Freire, Paulo; Vannucchi, Aldo e Santos, Wlademir (1983) Paulo
Freire ao vivo - Ed. Loyola - São Paulo
Gadotti, Moacir e outros Paulo Freire: uma bibliografia - Ed.
Cortez, Unesco e Inst. Paulo Freire - São Paulo
Lyra, Carlos (1996) As quarentas horas de Angicos - Ed. Cortes
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Monclús, Antonio (1988) Pedagogia de la contradicción: Paulo
Freire - Nuevos planteamientos en educacion de adultos - Ed.
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(set. 1982) - Frente Cultural de Brasília - Brasília
Revista: Discussion sur l'alphabetisation (1974) Unesco - Iran
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- Ed. Loyola - São Paulo
Vieira Pinto, Álvaro (1960) Consciência e realidade nacional -
MEC/ISEB - Rio de Janeiro
Entrevistas
Entrevista: Paulo Freire, no exílio, ficou mais brasileiro ainda. O
Pasquim (ed. Especial) nº 462 - maio (1978), concecida a
Claudius Ceccon e Miguel Paiva - Rio de Janeiro
Entrevista: Quem tem medo de Paulo Freire? O Pasquim, nº 498
- 12/18 janeiro (1979), concedida a Claudius Ceccon - Rio de
Janeiro
136


Entrevista: Paulo Freire. Revista Vozes - jan. 1982
Entrevista: Paulo Freire: Revista Lua Nova (1984) vol. I - nº 3 -
Cedec - São Paulo
Entrevista: Diálogo com Paulo Freire. Revista Tarea - mar. 1988
- Cusco - Peru
Entrevista: Paulo Freire. Teoria & Debate, nº 17 - trim. 1992,
concedida a Mário Sérgio Cortela e Paulo de Tarso Venceslau
137


C
O
L
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Ç
Ã
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UNIVERSIDADE ABERTA
A coleção Universidade Aberta dedica-se à
publicação de ensaios e teses universitárias,
coletânea de artigos, antologias e similares.
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1 -
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(LITERATURA)
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(SOCIOLOGIA)
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5
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(SOCIOLOGIA)
6
12 - POESIA E ENSINO (ANTOLOGIA
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COMENTADA).
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PORTUGUÊS E REALIDADE
(LITERATURA E ENSINO)
PORTUGUESA)
AUTORA: ROSANE GAZOLLA
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13 - (DES) VELAR A ARTE
(LITERATURA)
AUTORA: NEIDE MARCONDES
7
(HISTÓRIA DA ARTE)
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14
FAMÍLIA
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(PSICOLOGIA)
(HISTÓRIA)


15 -
24
O TEATRO E A ARENA
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(HISTÓRIA)
ALBUQUERQUE
16
(HISTÓRIA)
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AUTORA: CELESTE H. M.
25 - A VERDADE DA REPRESSÃO:
RIBEIRO DE SOUZA
PRÁTICAS PENAIS E OUTRAS
(LITERATURA)
ESTRATÉGIAS NA ORDEM
17
REPUBLICANA
(1890-1921)
- MOSAICOS DE BRECH: ESTUDOS
AUTOR: PAULO ALVES
DE RECEPÇÃO LITERÁRIA
(HISTÓRIA)
ORG: KATHRIN SARTINGEN
(LITERATURA)
26
18
- MEU FILHO VAI MAL NA ESCOLA.
POR QUÊ ? O TEMPO, O LUGAR E
- CYRO DOS ANJOS: MEMÓRIA E
O OLHAR NA PSICOPEDAGOGIA
HISTÓRIA
AUTORA: MARILDA MALUF
AUTORA: VERA MÁRCIA
SANSEVERINO
PARÁBOLI MILANESI
(PSICOPEDAGOGIA)
(LITERATURA)
19
27 - VALE DO RIBEIRA: A VOZ E A VEZ
- OS DIAMANTES DO BRASIL: NA
DAS COMUNIDADES NEGRAS
REGÊNCIA DE DOM JOÃO (1792-
AUTORA: MARY FRANCISCA
1816). UM ESTUDO DE
DO CARENO
DEPENDÊNCIA EXTERNA
(LINGÜÍSTICA)
AUTOR: DAVID RABELLO
(HISTÓRIA)
28 - A CRUZ, A ESPADA E A
20
SOCIEDADE MEDIEVAL
- O LEITOR E O LABIRINTO
PORTUGUESA
AUTOR: SIDINEI GALLI
AUTORA: SUELY F. V. FLORY
(HISTÓRIA)
(LITERATURA)
21 - FERNANDO PESSOA: MENSAGEM: 29 - (ESGOTADO)
HISTÓRIA, MITO, METÁFORA
AUTORA: ELÊUSIS MÍRIAN
CAMOCARDI
(LITERATURA)
30 - A EDUCAÇÃO DA MULHER NO
22
BRASIL COLÔNIA
- VOCABULÁRIO ACADÊMICO: UM
AUTORA: ARILDA INES
MIRANDA RIBEIRO
PASSO PARA LEITURA TÉCNICA
AUTORA: ANTONIETA LAFACE
(HISTÓRIA)
(LINGÜISTICA)
23
31 - ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS NA
- MANECO MÚSICO: PAI MESTRE
ADOLESCÊNCIA
AUTORA: SUELI PIRES
DE CARLOS GOMES
(LINGÜÍSTICA)
AUTORA: LENITA WALDIGE
MENDES NOGUEIRA
(MÚSICA)


32 - O MANDACARU E A FLOR:
36 - ADOLESCÊNCIA, SEXUALIDADE
AUTOBIOGRAFIA INFÂNCIA E OS
E AIDS: NA FAMÍLIA E NO
MODOS DE SER GRACILIANO
ESPAÇO ESCOLAR
AUTORA: REGINA FÁTIMA DE
CONTEMPORÂNEOS
ALMEIDA CONRADO
AUTORA: MARLENE
(LITERATURA)
CASTRO
33
WAIDEMAN MARTINEZ
(PSICOLOGIA)
- LITERATURA: ESSE CINEMA COM
CHEIRO
37
AUTOR: VALDEVINO DE
- VIOLANDO AS REGRAS
OLIVEIRA
AUTORA: ADRIANA RENNÓ
(LITERATURA)
(LITERATURA)
34
38 -
-
TEATRALIZAÇÃO DO PODER: O
DIFICULDADES DE LEITURA: A
PÚBLICO E O PUBLICITÁRIO NA
BUSCA DA CHAVE DO SEGREDO
REFORMA DE ENSINO
AUTORA: RAQUEL LAZZARI
PAULISTA
LEITE BARBOSA
AUTORA: LOURDES
(LINGÜÍSTICA)
MARCELINO MACHADO
35
(EDUCAÇÃO)
- VENTOS DE OUTONO
AUTOR: FRANCISCO
HASHIMOTO
(PSICOLOGIA)


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