domingo, 13 de abril de 2008

DIDÁTICA : Velhos e novos temas - José Carlos Libâneo

José Carlos Libâneo
DIDÁTICA
Velhos e novos temas
Edição do Autor
Maio de 2002

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INDICE

Parte I – Natureza e conteúdos da didática

I. O essencial da didática e o trabalho de professor (p.4).

II. A constituição do objeto de estudo da didática - contribuição das ciências da
educação (p.8).

III. A unidade entre a didática, as metodologias específicas das disciplinas e a
prática de ensino (p.19).

Parte II – Novos temas

IV. Para uma agenda de pesquisa em didática: velhos e novos temas (p.25)

V. As mudanças na sociedade, a reconfiguração da profissão de professor e a
emergência de novos temas na didática (p.34).

VI. Algumas abordagens contemporâneas de temas da educação e repercussão na
didática – A contribuição da pesquisa no campo do currículo. (p.43).

VII. A interdisciplinaridade e a pedagogia crítico-social – Notas prévias. (p.70).

VIII. O modo de pensar didático e a metodologia do ensino da didática (A relação
objetivo-conteúdo-método na didática crítico-social)

IX. Didática e processos do pensar - Ensinando a pensar com os processos
investigativos da ciência ensinada (em elaboração)

Parte III – Interfaces

X. Os campos contemporâneos da didática e do currículo – Aproximações e
diferenças. (p.81).

XI. Tecnologias da comunicação e da informação na formação de professores
(p.105).

XII. Didática e processos comunicacionais (em elaboração)

XIII. Didática e Organização e gestão da escola. Projeto pedagógico (em
elaboração)

XIV. A dimensão pedagógica da educação física: questões didáticas e
epistemológicas (p.113)

XV. A prática pedagógica, os conteúdos e a escolha dos livros escolares (p.121).

XVI. Didática e ética (em elaboração)

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APRESENTAÇÃO

Este livro reúne textos de conferências e palestras elaborados nos últimos 5
anos, alguns já publicados outros não. Inclui, também, textos escritos para aulas ou
discussões em grupos mais restritos, alguns deles ainda em construção. Na verdade,
não é ainda um livro, mas um esboço de livro a ser publicado oportunamente, que
estou disponibilizando aos professores de Didática e das Metodologias específicas das
matérias, e aos pesquisadores na área. Minha idéia é de que os colegas interessados
possam utilizar-se do livro para consultas pessoais ou, mesmo, em sala de aula, se
assim o desejarem. Para isso, deixo minha autorização expressa para que os textos
possam ser copiados. Obviamente, confio que quando imprimirem apenas um
capítulo, façam-me o favor de fazer referência ao livro e ao seu autor, como é o
correto.
Desde já declaro que aceitarei de bom grado sugestões que melhorem os
textos. Essa minha iniciativa tem apenas duas explicações: 1a) Vários e várias colegas
me escrevem para pedir texto de uma conferência, ou pedem indicações sobre temas
de aula sobre os quais eu já escrevi em capítulos de livro. 2a) Percebi que há uma
unidade temática entre vários textos que já havia escrito para diferentes ocasiões e
julguei que poderia reuni-los e publicá-los.
O livro é composto de 16 capítulos, sendo que 4 deles ainda estão em fase de
elaboração e não foram incluídos. São textos publicados anteriormente em livros ou
revistas, relacionados com o debate em torno dos conteúdos da Didática. Alguns
textos repetem idéias, mas isso será objeto de revisão para a publicação definitiva.
Mesmo os textos que estão completos precisam de uma revisão, talvez para enxugálos,
talvez para atualizá-los (alguns têm mais de 5 anos).
Espero que façam bom uso do material que reuni. À medida que for
produzindo os textos que faltam, avisarei aos colegas.
Agradeço à Aída Monteiro, atual coordenadora do GT – Didática da ANPEd, e
ao Silas, que possibilitaram a divulgação destes textos na Internet.

Goiânia, julho de 2002.

José Carlos Libâneo

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CAPÍTULO I

O ESSENCIAL DA DIDÁTICA E O TRABALHO DE PROFESSOR

Os alunos mais velhos comentam entre si: “Gosto dessa professora porque ela
tem didática”. Os mais novos costumam dizer que com aquela professora eles gostam
de aprender. Provavelmente, o que os alunos querem dizer é que essas professoras
têm um modo acertado de dar aula, que ensinam bem, que com eles, de fato,
aprendem. Então, o que é ter didática? A didática pode ajudar os alunos a
melhorarem seu aproveitamento escolar? O que uma professora precisa conhecer de
didática, para que possa melhorar o seu trabalho docente?
Acredito que a maioria do professorado tem como principal objetivo do seu
trabalho conseguir que seus alunos aprendam da melhor forma possível. Por mais
limitações que uma professora possa ter (falta de tempo para preparar aulas, falta
de material de consulta, insuficiente domínio da matéria e dos métodos de ensino,
desânimo por causa da desvalorização profissional etc.), quando a professora entra
na sua classe, ela tem consciência de sua responsabilidade em proporcionar aos
alunos um bom ensino. Apesar disso, saberá ela fazer um bom ensino, de modo que
os alunos aprendam melhor?
Há diversos tipos de professores no ensino fundamental. Os mais tradicionais
contentam-se em transmitir a matéria que está no livro didático. Suas aulas são
sempre iguais, o método de ensino é quase o mesmo para todas as matérias,
independentemente da idade e das características individuais e sociais dos alunos.
Pode até ser que esse método de passar a matéria, dar exercícios e depois cobrar o
conteúdo numa prova, dê alguns bons resultados. O mais comum, no entanto, é o
aluno memorizar o que o professor fala, decorar o livro didático e mecanizar
fórmulas, definições etc. Esse tipo de aprendizagem (vamos chamá-la de mecânica,
repetitiva) não é duradoura. Na verdade, aluno com uma aprendizagem de qualidade
é aquele que desenvolve raciocínio próprio, que sabe lidar com os conceitos e faz
relações entre um conceito e outro, que sabe aplicar o conhecimento em situações
novas ou diferentes, seja na sala de aula seja fora da escola, que sabe explicar uma
idéia com suas próprias palavras. Há professores tradicionais que sabem ensinar os
alunos a aprender assim, mas a maioria deles não se dá conta de que a aprendizagem
duradoura é aquela pela qual os alunos aprendem a lidar de forma independente com
os conhecimentos.
Os professores que se julgam mais atualizados (vamos chamá-los de
progressistas) variam bastante os métodos de ensino. Preocupam-se mais com as
diferenças individuais e sociais dos alunos, costumam fazer trabalho em grupo ou
estudo dirigido, tentam usar mais diálogo no relacionamento com as crianças, são
mais amorosos. Essa forma de trabalho didático é, sem dúvida, bem mais acertado do
que a tradicional. Entretanto, quase sempre acabam tendo um entendimento de
aprendizagem parecido com o tradicional. Na hora de cobrar os resultados do
processo de ensino, pedem a memorização, a repetição de fórmulas e definições.
Mesmo utilizando técnicas ativas e respeitando mais o aluno, fica a atividade pela
atividade. Ou seja, muitos professores não sabem como ajudar o aluno a, através de
uma atividade, elaborar de forma consciente e independente o conhecimento. Em
outras palavras, as atividades que organiza para os alunos não os levam a uma
atividade mental, não levam os alunos a adquirirem métodos de pensamento,
habilidades e capacidades mentais para poderem lidar de forma independente e
criativa com os conhecimentos que vão assimilando.
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Na perspectiva sócio-construtivista, o objetivo do ensino é o desenvolvimento
das capacidades intelectuais e da subjetividade dos alunos através da assimilação
consciente e ativa dos conteúdos. O professor, na sala de aula, utiliza-se dos conteúdos
da matéria para ajudar os alunos a desenvolverem competências e habilidades de
observar a realidade, perceber as propriedades e características do objeto de estudo,
estabelecer relações entre um conhecimento e outro, adquirir métodos de raciocínio,
capacidade de pensar por si próprios, fazer comparações entre fatos e acontecimentos,
formar conceitos para lidar com eles no dia-a-dia de modo que sejam instrumentos
mentais para aplicá-los em situações da vida prática.
Por que o termo sócio-construtivista? É sócio porque compreende a situação de
ensino e aprendizagem como uma atividade conjunta, compartilhada, do professor e
dos alunos, como uma relação social entre professor e alunos frente ao saber escolar.
Quer dizer: o aluno constrói, elabora, seus conhecimentos, seus métodos de estudo, sua
afetividade, com a ajuda do professor. O professor é aqui um parceiro mais experiente
na conquista do conhecimento, interagindo com a experiência do aluno. O papel do
ensino - e, portanto, do professor - é mediar a relação de conhecimento que o aluno
trava com os objetos de conhecimento e consigo mesmo, para a construção de sua
aprendizagem. O papel do ensino é possibilitar que o aluno desenvolva suas próprias
capacidades para que ele mesmo realize as tarefas de aprendizagem e chegue a um
resultado.
Em resumo, atitude sócio-construtivista significa entender que a aprendizagem é
resultado da relação ativa sujeito-objeto, sendo que a ação do sujeito sobre o objeto é
socialmente mediada. Implica, portanto, o papel do professor enquanto portador de
conhecimentos elaborados socialmente, e interações sociais entre os alunos. A sala de
aula é o lugar compartilhamento e troca de significados entre o professor e os alunos e
entre os alunos. É o local da interlocução, de levantamento de questões, dúvidas, de
desenvolver a capacidade da argumentação, do confronto de idéias. É o lugar onde,
com a ajuda indispensável do professor, o aluno aprende autonomia de pensamento.
Este é o ponto mais importante de uma atitude sócio-construtivista.
A didática e o trabalho de professores
A Didática é uma disciplina que estuda o processo de ensino no seu conjunto,
no qual os objetivos, conteúdos, métodos e formas organizativas da aula se
relacionam entre si de modo a criar as condições e os modos de garantir aos alunos
uma aprendizagem significativa. Ela ajuda o professor na direção e orientação das
tarefas do ensino e da aprendizagem, fornecendo-lhe segurança profissional. Essa
segurança ou competência profissional é muito importante, mas é insuficiente. Além
dos objetivos da disciplina, dos conteúdos, dos métodos e das formas de organização
do ensino, é preciso que o professor tenha clareza das finalidades que tem em mente
na educação das crianças. A atividade docente tem a ver diretamente com o “para
quê educar”, pois a educação se realiza numa sociedade formada por grupos sociais
que têm uma visão distinta de finalidades educativas. Os grupos que detêm o poder
político e econômico querem uma educação que forme pessoas submissas, que
aceitem como natural a desigualdade social e o atuai sistema econômico. Os grupos
que se identificam com as necessidades e aspirações do povo querem uma educação
que contribua para formar crianças e jovens capazes de compreender criticamente as
realidades sociais e de se colocarem como sujeitos ativos na tarefa de construção de
uma sociedade mais humana e mais igualitária.
A Didática, portanto, trata dos objetivos, condições e meios de realização do
processo de ensino, ligando meios pedagógico-didáticos a objetivos sócio-políticos.
Não há técnica pedagógica sem uma concepção de homem e de sociedade, como não
há concepção de homem e sociedade sem uma competência técnica para realizá-la
educacionalmente. Por isso, o planejamento do ensino deve começar com propósitos
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claros sobre as finalidades do ensino na preparação dos alunos para a vida social: que
objetivos mais amplos queremos atingir com o nosso trabalho, qual o significado
social das matéria que ensinamos, o que pretendemos fazer para que meus alunos
reais e concretos possam tirar proveito da escola etc. As finalidades ou objetivos
gerais que o professor deseja atingir vão orientar a seleção e organização de
conteúdos e métodos e das at ividades propostas aos alunos. Essa função orientadora
dos objetivos vai aparecer a cada aula, perpassando todo o ano letivo.
Dissemos que a Didática cuida dos objetivos, condições e modos de realização
do processo de ensino. Em que consiste o processo de ensino e aprendizagem? O
principio básico que define esse processo é o seguinte: o núcleo da atividade docente
é a relação ativa do aluno com a matéria de estudo, sob a direção do professor. O
processo de ensino consiste de uma combinação adequada entre o papel de direção
do professor e a atividade independente, autônoma e criativa do aluno.
O papel do professor, portanto é o de planejar, selecionar e organizar os
conteúdos, programar tarefas, criar condições de estudo dentro da classe, incentivar
os alunos, ou seja, o professor dirige as atividades de aprendizagem dos alunos a fim
de que estes se tornem sujeitos ativos da própria aprendizagem. Não há ensino
verdadeiro se os alunos não desenvolvem suas capacidades e habilidades mentais, se
não assimilam pessoal e ativamente os conhecimentos ou se não dão conta de aplicálos,
seja nos exercícios e verificações feitos em classe, seja na prática da vida.
Podemos dizer, então, que o processo didático, é o conjunto de atividades do
professor e dos alunos sob a direção do professor, visando à assimilação ativa pelos
alunos dos conhecimentos, habilidades e hábitos, atitudes, desenvolvendo suas
capacidades e habilidades intelectuais. Nessa concepção de didática, os conteúdos
escolares e o desenvolvimento mental se relacionam reciprocamente, pois o
progresso intelectual dos alunos e o desenvolvimento de suas capacidades mentais se
verifica no decorrer da assimilação ativa dos conteúdos. Portanto, o ensino e a
aprendizagem (estudo) se movem em torno dos conteúdos escolares visando o
desenvolvimento do pensamento.
Mas, qual é a dinâmica do processo de ensino? Como se garante o vínculo
entre o ensino (professor) e a aprendizagem efetiva decorrente do encontro entre o
aluno e a matéria?
A força impulsionadora do processo de ensino é um adequado ajuste entre os
objetivos/conteúdos/métodos organizados pelo professor e o nível de
conhecimentos, experiências, requisitos prévios e desenvolvimento mental presentes
no aluno. O movimento permanente que ocorre a cada aula consiste em que, por um
lado, o professor propõe problemas, desafios, perguntas, relacionados com conteúdos
significativos, instigantes e acessíveis. Por outro lado, os alunos, ao assimilar
consciente e ativamente a matéria, mobilizam sua atividade mental e desenvolvem
suas capacidades e habilidades.
Essa forma de compreender o ensino é muito diferente do que simplesmente
passar a matéria ao aluno. É diferente, também, de dar atividades aos alunos para
que fiquem “ocupados” ou aprendam fazendo, O processo de ensino é um constante
vai-e-vem entre conteúdos e problemas que são colocados e a percepção ativa e o
raciocínio dos alunos. É isto que caracteriza a dinâmica da situação didática, numa
perspectiva sócio-construtivista.
Insistimos bastante na exigência didát ica de partir do nível de conhecimentos
já alcançado, da capacidade atual de assimilação e do desenvolvimento mental do
aluno. Mas, atenção: não existe o aluno em geral, mas um aluno vivendo numa
sociedade determinada, que faz parte de um grupo social e cultural determinado,
sendo que essas circunstâncias interferem na sua capacidade de aprender, nos seus
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valores e atitudes, na sua linguagem e suas motivações. Ou seja, a experiência
sociocultural concreta dos alunos são o ponto de partida para a orientação da
aprendizagem. Professor que aspira ter uma boa didática necessita aprender a cada
dia como lidar com a subjetividade dos alunos, sua linguagem, suas percepções, sua
prática de vida. Sem essa postura, será incapaz de colocar problemas, desafios,
perguntas relacionados com os conteúdos, condição para se conseguir uma
aprendizagem significativa.
Talvez o traço mais marcante de uma didática crítico-social – numa
perspectiva sócio-construtivista, superando o caráter somente instrumental da
didática usual - seja o de atribuir ao trabalho docente o papel de mediação entre a
cultura elaborada, convertida em saber escolar, e o aluno que, para além de um
sujeito psicológico, é um sujeito portador da prática social viva.
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CAPÍTULO II

A CONSTITUIÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO DA DIDÁTICA - CONTRIBUIÇÃO DAS CIÊNCIAS
DA EDUCAÇÃO ( * )

O tema desta exposição não teria em si nada de especial, desde que se admita
a existência de uma área de estudo denominada Didática, que tenha como objeto de
estudo o ensino. Qualquer manual dessa disciplina, antigo ou recente, traz um
capitulo sobre a relação da didática com as outras ciências da educação. Tanto
quanto o fenômeno educativo, o ato didático tem uma pluridimensionalidade, de
modo que a Didática não caminha isoladamente no campo dos conhecimentos
científicos e não dá conta de resolver seus problemas sem a contribuição de outras
ciências da educação. Além disso, a interdisciplinaridade tornou-se hoje um princípio
inquestionave1 na organização do conhecimento e não há razão para que a Didática o
desconheça.
A questão entretanto, não é tão simples. O que parece óbvio de um
determinado ponto de vista pode ser descabido visto sob um outro prisma. Quem lida
mais diretamente com ensino e pesquisa na Didática vê com naturalidade as
contribuições da Psicologia. da Sociologia, da Lingüística, da Teoria do
Conhecimento, da Teoria da Educação. do Currículo etc. Fica fácil reconhecer essas
contribuições porque elas são avaliadas a partir de um enfoque pedagógico-didático
das situações do ensino. Mas a situação muda quando o didático é visto pelo olhar do
psicólogo, do sociólogo, do lingüista, do filósofo. do professor de Prática de Ensino. A
tendência. nesses casos, é a de encarar as questões de ensino na perspectiva da área
de conheci monto dessas especialidades. tal como tem acontecido, também, quando
se discute a educação como objeto de estudo. Com isso, não é muito fora do comum
que uma ou outra dessas áreas desqualifique a relevância da Didática ou até postule
ocupar seu 1 Ligar. ocupar seu lugar. Já tive oportunidade de tratar desse assunto em
publicação recente (Libâneo, 1992). Nesse artigo, discuto os entendimentos do termo
educação nas várias arcas de conhecimento que se ocupam direta ou indiretamente
do fenômeno educativo e escrevo a esse respeito:
É inevitável que ocorram entendimentos parcializados devido ao viés das
várias áreas do conhecimento que se ocupam do fenômeno educativo, das diversas
instituições que lidam com questões educacionais ou das experiências vividas na
prática. Não é de estranhar que sociólogos, psicólogas, administradores escolares,
professores, costumem abordar questões da educação apenas sob o prisma de sua
formação acadêmica ou de suas experiências em instituições especificas. Os
problemas surgem quando estes especialistas pretendem generalizar conclusões de
estudos ou suas opiniões para todas as instâncias da prática educativa.
O tema, portanto. põe questões delicadas precisamente porque o ensino é um
campo de interesse comum a vários campos do conhecimento. Não há como
desconhecer a pluridimensionalidade do fenômeno ensino. Mas nós, da Didática
dizemos: é precisamente em razão dessa pluridimensionalidade que se torna
necessário postular o enfoque propriamente didático dos fenômenos educativos para,
partindo dai, buscar a contribuição de outros campos científicos. Caso contrario, os
enfoques parciais levariam a apreender um aspecto da totalidade do fenômeno
ensino, configurando reducionismos. Mas essa afirmação, com certeza, soará
estranha aos ouvidos dos especialistas de outras áreas que dirão, por sua vez, que
nós é que reivindicamos exclusividade no tratamento das questões de ensino. E não
(*) Texto publicado nos Anais do VII ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, Goiânia, 1994,
pp.65-78.
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têm faltado posições contrárias e mesmo desqualificadoras da Didática como teoria
geral do ensino. Chega a incomodar a insistência com que alguns filósofos, sociólogos
e psicólogos da educação provocam os pedagogos, perguntando para que serve a
Pedagogia ou a Didática ou qual a especificidade dessas disciplinas.
Como lidar com essas questões? Haverá soluções para esses impasses no
diálogo entre as ciências da educação? Mais especificamente. é legitimo postular uma
especificidade científica à Didática sem perder de vista a necessária integração e
interação de conhecimentos? Será possível uma convergência dos especialistas das
varias ciências da educação — sociólogos, psicólogos. lingüistas e outros - em torno
de problemáticas especificas do ensino, da docência, da sala de aula. sem disputar
exclusividade? Qual é a relevância e utilidade da Didática na formação de
professores? Em que a Didática se distingue da Psicologia da Educação, das
Metodologias de Ensino. das Práticas de Ensino e, ao mesmo tempo. como pode
ocorrer uma integração entre essas e outras áreas de conhecimento?
Estas são as questões que pretendo tratar em seguida, problematizando o
tema da exposição.
***
Qual é o campo do didático, qual é o objeto de estudo e o conteúdo próprio
da Didática? As respostas a esta pergunta têm sido dadas em varias publicações,
sendo um assunto bastante trabalhado na produção científica da área, Vou apenas
fazer uma síntese da minha posição, para tentar em seguida buscar as áreas
fronteiriças entre a Didática e outros campos de conhecimento.
Começo trazendo algumas definições de Didática colhidas em publicações de
autores estrangeiros nas últimas décadas.
Vicente Benedito, espanhol (1987):
A didática é — está a caminho de ser - uma ciência e tecnologia que se
constrói a partir da teoria e da prática, em ambientes organizados de
relação e comunicação intencional, nos quais se desenvolvem
processos de ensino e aprendizagem para a formação do aluno.
Contreras Domingo, espanhol (990):
A Didática é a disciplina que explica os processos de ensino-aprendizagem para propor
sua realização conseqüente com as finalidades educativas.
Renzo Titone, italiano (1974):
Didática é a ciência que tem por objeto especifico e formal a direção do processo de
ensinar, tendo em vista fins imediatos e remotos de eficiência instrutiva e formativa.
Karl Stocker, alemão (1964):
Compreendemos por doutrina geral do ensino, estruturação didática ou didática, a
teoria da instrução e do ensino escolar de toda natureza em todos os níveis. (...) trata
das questões gerais de todo ensino, comuns a todas as matérias e procura expor os
princípios e postulados que se apresentam em todas as disciplinas. (...) O processo
didático (...) tem seu centro no encontro formativo do aluno com a
matéria de ensino.
Klingberg, alemão (1978):
A Didática é uma disciplina e cientifica da Pedagogia que se refere às relações
regulares entre o ato de ensinar e a aprendizagem.
Danilov, russo (1978):
A didática estuda o processo de ensino, em cujo desenvolvimento ocorre a assimilação
dos conhecimentos sistematizados, o dominio dos procedimentos para aplicar tais
conhecimentos na prática, e o desenvolvimento das forças cognoscitivas do educando.
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Estou trazendo estas definições, primeiro, para trazer um suporte da
literatura internacional para avalizar minhas próprias posições; segundo, para
mostrar que a Didática encontra-se em pleno movimento em outros países. Gostaria
de destacar dessas definições alguns pontos que a meu ver dão o balizamento do
campo do didático:
1. A didática é um ramo da ciência pedagógica. Por esta razão a didática está
voltada, intencionalmente, para a formação do aluno em função de
finalidades educativas.
2. A didática tem como objeto de estudo o processo de ensino e
aprendizagem, especificamente os nexos e relações entre o ato de ensinar e o
ato de aprender.
3. A didática aborda o ensino como atividade de mediação para promover o
encontro formativo, educativo, entre o aluno e a matéria de ensino,
explicitando o vínculo entre teoria do ensino e teoria do conhecimento.
Estes três pontos sintetizam minha concepção de Didática. Primeiro, entendo
como fundamental dizer que a didática é uma disciplina “pedagógica”. Pedagogia, na
minha concepção, é a teorização sobre finalidades e formas de intervenção na
prática educativa num determinado contexto sócio-histórico. Algo é “pedagógico” à
medida que carrega uma intencionalidade, isto é, quando traduz uma ação
intencional orientada para objetivos explícitos. Se a Didática é uma disciplina
pedagogicamente orientada. então o processo de ensino implica uma comunicação
intencional entre professor e alunos voltada para fins sociais e para ações definidas
destinadas à aprendizagem. É o que chamo de caráter ético-valorativo da Didática.
Além disso, afirmar o caráter sócio-histórico da prática educativa - e o ensino como
modalidade peculiar de prática educativa -significa dizer, também, que o processo
de ensino se realiza e se produz num marco institucional, isto é. no quadro das
necessidades e interesses vigentes na dinâmica da sociedade. Portanto, está inserido
no âmbito de outras práticas políticas, culturais, organizativas etc. - o que reforça a
dependência do ensino em relação aos objetivos sócio-políticos e pedagógicos.
O segundo ponto que extraio das definições mencionadas diz respeito ás
relações entre ensino e aprendizagem como sendo um especial foco de interesse da
Didática. Estes dois termos e - ensino e aprendizagem —. aparecem tantas vezes
junto na nossa fala cotidiana que quase não chama a atenção o fato de que os
autores mencionados põem em destaque tanto o ensino quanto a aprendizagem, um
complementando outro. Quem tem familiaridade com as tendências pedagógicas
sabe que elas se diferenciam bastante quanto ao peso que dão a um ou outro pólo do
ato didático. Minha posição sustenta a idéia de que o ensino e uma atividade
intencional destinada a assegurar a aprendizagem dos alunos. Mas não vejo ai uma
relação linear de causa-efeito, o professor ensina, o aluno aprende Vejo uma relação
dinâmica na qual o professor dirige o processo de ensinar de modo que, com a
parceria dele, o próprio aluno vai ampliando suas capacidades cognoscitivas e
realiza, ele mesmo, as tarefas de aprendizagem. Mas é preciso ter em conta que o
ensino não se reduz a estes aspectos internos. O ensino desenvolve uma relação num
determinado contexto social, expondo-se a exigências sociais, implicando outros
educadores além do professor, interagindo com aspectos externos tais como os
objetivos pedagógicos, os conteúdos, o ambiente e a estrutura organizacional da
escola etc. E importante frisar, então, que a Didática, como teoria do processo de
ensino, investiga os nexos entre o ensino e a aprendizagem, entre o trabalho docente
e o trabalho discente, entre a direção do professor e a autoformação do aluno,
relações essas que indicam os elementos comuns do ensino das diferentes matérias.
O terceiro ponto mencionado decorre do anterior. A aprendizagem é a
referência básica do ensino, de modo que o ensino atua como mediação na
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efetivação da relação ativa do aluno com os objetos de conhecimento. Aqui está o
cerne da posição que defendo: o ensino configura-se como o provimento das
condições e modos de assegurar o processo de conhecimento pelo aluno, sob a
condução pedagógica do professor. Por outras palavras, o ensino é um processo pelo
qual o aluno pode desenvolver suas forças e capacidades mentais para construir,
reconstruir, elaborar, reelaborar conhecimentos e modos de ação.
Em resumo, o campo do didático é o ensino, isto é, investigar os nexos entre
ensino e aprendizagem para propor princípios, formas, diretrizes que são comuns e
fundamentais ao ensino de todas as mat érias.
***
Com que categorias lida a Didática? Quais são os elementos constitui’ Vos do
ato didático? A análise do ato didático destaca uma relação dinâmica entre três
elementos - professor, aluno, matéria - a partir dos quais podemos fazer aquelas
clássicas perguntas Para que ensinar? O que ensinar? Quem ensina? Para quem se
ensina? Como ensinar? Sob que condições se ensina?
Estas perguntas definem os elementos constitutivos ou categorias da Didática
e formam, de fato, o seu conteúdo. Obviamente. o significado de cada um desses
elementos e a relação que se faz entre eles dependem, fundamentalmente, de uma
concepção filosófica, de uma abordagem epistemológica. Não vou deter-me nessa
questão. Quero apenas destacar que é a partir dos elementos constitutivos do ato
didático que vamos encontrar a contribuição de outros campos científicos.
Vejamos isso rapidamente. Os objetivos, gerais ou específicos. requerem
conhecimentos de Filosofia da Educação, Teoria da Educação, Teoria do
Conhecimento, Antropologia. A Didática traduz objetivos sociais e políticos da
educação em objetivos de ensino. Ela expressa a dimensão de intencionalidade da
ação docente.
A seleção e organização dos conteúdos implicam, ao menos: os conteúdos e
métodos de investigação da ciência ensinada (estrutura lógica da matéria);
adequação às idades, ao nível de desenvolvimento mental dos alunos, aos processos
internos de assimilação; processos de desenvolvimento da linguagem; significados
sociais dos conhecimentos.
Nas categorias professor e aluno entram muitas áreas fronteiriças: a Filosofia,
a Psicologia, a Sociologia, a Lingüística, a Teoria da Comunicação e as áreas
compostas como a Psicopedagogia, a Sociolingüistica, etc. A relação professor-aluno,
voltada basicamente à formação intelectual, implica aspectos gnoseológicos,
psíquicos e socioculturais. Se considerarmos não apenas o professor, mas outros
educadores, veremos que entram outras áreas de conhecimento ligadas ao ambiente
em que ocorre o processo de ensino, tais como a teoria da organização escolar, a
administração escolar, os meios de comunicação, a propaganda etc. O processo de
ensino envolve uma relação social, professor e alunos pertencem a grupos sociais, a
escola e a sala de aula são grupos sociais envolvendo uma dinâmica de relações
internas.
Os métodos, como se sabe, mantêm estreita relação com objetivos e
conteúdos, com o sujeito que aprende. implicando a Teoria do Conhecimento, a
Psicologia, a Lingüistica, a Teoria da Comunicação etc.
Esta breve referência aos conhecimentos de outras áreas que intervém na
compreensão do fenômeno ensino mostra que a Didática é uma disciplina de
integração, articulando numa (corja geral de ensino as virias ciências da educação e
compondo-se com as metodologias específicas das disciplinas curriculares. Combinase
o que é geral. elementar, básico para o ensino de todas as matérias com o que é
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específico das distintas metodologias A Didática é assim, uma disciplina de
intersecção, uma disciplina-síntese, tal como escreve Penin (1988):
No âmbito dos cursos de licenciatura, entendo a didática como sendo uma
área de intersecção e ponto de imbricação com as diversas disciplinas que compõem
tais cursos. (...) A didática se reveste de um caráter de disciplina-síntese no curso de
licenciatura pois deve provocar reflexão de conjunto sobre conceitos que introduz e
conceitos tratados em outras disciplinas. A tarefa do professor de Didática é,
portanto, facilitar para o aluno a articulação dos conhecimentos que possui e que
dizem respeito ao ensino, possibilitando-lhe explicitar sua síntese, através de uma
proposta educacional que considere o caráter politico-ideológico das decisões de
ensino de uma dada disciplina.
Tomar a Didática como disciplina de integração ou disciplina-síntese, implica
reconhecer que ela tem dois campos conexos e integrados de saber, o ensino e o
ensino de determinada matéria, Isso significa que para ensinar uma matéria não
basta dominar os conteúdos ou ter domínio da prática de ensino dessa matéria. Para
que um professor transforme as bases da ciência e que é especialista, em matéria de
ensino, e com isso oriente o ensino dessa matéria para a formação da personalidade
do aluno é preciso que ele tenha: a) formação na matéria que leciona; b) formação
pedagógico-didática na qual se ligam os princípios gerais que regem as relações entre
o ensino e a aprendizagem com problemas específicos do ensino de determinada
matéria.
Por exemplo, um professor de história ocupa-se do ensino da ciência histórica,
do método de investigação da história; quer ajudar seus alunos a desenvolverem
capacidades de pensar historicamente, que compreendam a história como processo
etc. Entretanto, a tarefa de ensinar requer do professor conhecimentos e práticas
que vão mais além do fato de ele ser um especialista em história. Quais são esses
conhecimentos e práticas? Vou mencionar alguns:
· introduz objetivos explícitos ou implícitos, de cunho ético, ideológico,
filosófico, político, que dão determinada direção ao trabalho docente;
· transforma o saber científico em conteúdos formativos, isto é, em função
de propósitos educativos;
· seleciona e organiza conteúdos. mediante critérios lógicos, ideológicos e
psicológicos, estabelecendo uma determinada seqüência conforme idade,
nível de desenvolvimento mental, experiência sociocultural dos alunos;
· utiliza métodos e procedimentos de ensino que não são dados
naturalmente apenas pelos métodos de investigação da matéria ensinada;
· trabalha numa determinada estrutura organizacional em que participa
como membro de um grupo social. compartilha de valores, opiniões,
crenças e práticas de interação e convivência.
· estabelece determinadas formas de interação social com alunos, com
implicação de elementos afetivos.
Quero mostrar que essas características da docência não são inerentes ao
conteúdo de uma matéria. Elas devem ser buscadas fora do âmbito da ciência
ensinada. Em outras palavras, para ensinar história não basta saber história, é
preciso a didática e a metodologia especifica do ensino de História para compreender
o ensino na sua totalidade. Muitos dos conceitos que integram o c corpo teórico da
Didática são objeto de estudo de disciplinas como Teoria do Conhecimento,
Psicologia, Sociologia, Filosofia, Lingüistica, Estrutura e Funcionamento do Ensino,
Teoria da Organização Escolar etc., Seria desejável que o conteúdo tratado nessas
13
disciplinas estivesse voltado de fato para a formação do professor, de modo a
fornecer os conhecimentos a serem integrados na Didática. Sabemos que isso não
acontece. Daí meu entendimento a Didática não pode deixar de ser uma disciplinasíntese,
uma disciplina de integração, planejada de modo criativo, cujo conteúdo
seja a descrição, explicação do processo de ensino e proposição de princípios de ação
didática comuns a todas as matérias.
Não se trata, portanto, de uma Didática à parte das metodologias específicas
das matérias e muito menos uma metodologia geral para todas as matérias. Ao
contrário, são áreas do saber pedagógico articuladas entre si, tal como escreve o
didata alemão Klingberg (1988:32):
Enquanto as metodologias dos diferentes ensinos destinam-se a analisar
questões do ensino de uma matéria determinada, o objeto da Didática é de natureza
geral A Didática abstrai as particularidades das distintas matérias e generaliza as
manifestações e leis especificas doe ensino e aprendizagem nas diferentes disciplinas
e formas de ensino.
***
Até agora procurei trazer meu entendimento acerca do campo teórico da
Didática e das contribuições de outros campos de conhecimento para a constituição
de seu objeto de estudo. Não creio que haja consenso em torno do que acabei de
expor. Entretanto, penso que os pesquisadores envolvidos com a Didática precisam
enfrentar as questões relacionadas com as fronteiras das varras áreas de
conhecimento que colocam a educação e o ensino como parte de suas preocupações.
Como a Didática é vista pelos vários segmentos de educadores? Quem são os
interlocutores da Didática? De onde vem a oposição a existência da Didática corno
disciplina com conteúdo próprio? Vou considerar, inicialmente, alguns
posicionamentos correntes sobre a Didática.
1. Está difundida ainda uma visão de senso comum de que a Didática é a parte
prática do ensino. Ia! como há uma idéia de que o campo do pedagógico é o
campo do metodológico, também há a idéia de que o campo do didático é o dos
métodos e técnicas de ensino. Aliás, gente de cabeça boa monta sua
argumentação anti-didática em cima do pressuposto, insustentável hoje, de que o
objeto da Didática seria os métodos de ensino. Obviamente a Didática tem muito
de métodos e técnicas, mas é um erro reduzi-la a uma teoria dos métodos de
ensino. Os que ainda insistem nessa tecla desconhecem o campo teórico da
Didática.
2. Outra idéia muito comum, mas de melhor nível, é que uma Didática chamada
geral seria dispensável. Todo o conteúdo a ser incluído na didática de uma
disciplina caberia numa disciplina chamada Prática de Ensino. Ou seja. para você
ensinar Matemática, História, Geografia, basta dominar o conteúdo e a
metodologia dessas matérias, acrescentando aí um pouco de psicologia da
aprendizagem. Acho que esta posição tem o viés, até compreensível, da
especialidade do professor de Prática de Ensino. Mas acho sumamente relevante
que o desenvolvimento dos conteúdos e métodos de investigação, bem como a
epistemologia das disciplinas, tenham penetrado o campo do ensino, gerando
uma rica diferenciação interna no campo da Pedagogia. Todavia, acho
problemática a separação entre a Metodologia/Prática de Ensino das disciplinas e
a teoria geral do ensino, especialmente por causa da desatenção ao fundamento
pedagógico-didático do ensino das disciplinas específicas.
3. Um terceiro grupo põe a Didática em cheque com base numa discussão de cunho
epistemológico. Aqui há duas tendências. Numa estão intelectuais que
questionam a especificidade epistemológica da Didática mas que estão
14
distanciados do interesse pela prática docente cotidiana, como é o caso de um
segmento de sociólogos e filósofos da educação que, via e regra, não conhece o
campo específico de investigação da Didática. Noutra tendência estão
pesquisadores ligados às questões praticas do ensino mas que negam à Didática
estatuto científico próprio e atribuem à sua área de especialização certa
supremacia no tratamento das questões do ensino. Esta tendência é ocupada
basicamente por um segmento de especialistas da Psicologia e da Lingüistica e,
mais raramente, da Sociologia da Educação.
4. Finalmente, há o grupo que reconhece a especificidade teórica da Didática sem
desconhecer seu caráter multi e interdisciplinar. Há nesse grupo uma variedade
de formulações em torno do que seria seu campo próprio de investigação. Alguns
autores vêm tratando desse assunto, especialmente Oliveira (1992).
Quais seriam os equívocos desses posicionamentos, obviamente do ponto de
vista de um especialista em Didática?
Nada tenho a dizer sobre as afirmações de senso comum sobre a Didática -
métodos e técnicas de transmissão da matéria - embora seja uma idéia muito
difundida entre professores de todos os graus de ensino. Muitos críticos da área da
filosofia, sociologia cometem a falha de olhar a didática com um olhar de senso
comum.
Em relação às outras posições, convém começar por dizer que estamos
assistindo na campo da educação a duas tendências paradoxais. De um lado, a
diferenciação das ciências humanas tem trazido maior especialização nos campos de
conhecimento, corno é o caso da Psicologia, Sociologia, Lingüística. Teoria do
Conhecimento. Teoria da Comunicação, todas com forte influência na educação. Por
outro lado tem crescido o movimento pela interdisciplinaridade, buscando a
superação da especialização excessiva. A impressão. no entanto, é que essas áreas do
conhecimento, com notáveis exceções, mantém uma disputa pela hegemonia no
campo do ensino. Desconhecendo ou negando o campo teórico da Didática, tendem a
urna postura exclusivista como se seu campo de conhecimento, incluindo seu próprio
sistema conceitual e metodologia de investigação, fosse capaz de resolver todos os
problemas didáticos. Esse posicionamento abre espaço a toda sorte de
reducionismos. Por exemplo, a teoria psicológica do construtivismo substituiria
qualquer didática, as teorias psicolingüísticas teriam o suporte necessário para
orientar práticas de ensino, a Sociologia do currículo cobriria qualquer busca de
especificidade do didático. E claro que não se está postulando o exclusivismo da
Didática para lidar com os problemas do ensino, nem de retirar sua dimensão
pluridisciplinar e nem de minimizar a importância da problemática epistemológica
que a envolve. O problema está em pulverizar o ensino como objeto de estudo
aglutinador das investigações de cunho psicológico, lingüístico. sociológico etc.
Vou considerar algumas dificuldades na busca de um diálogo interdisciplinar
entre a Didática e outros campos científicos.
1.Há um segmento de sociólogos da educação que não tem se acertado com a
Didática. Uma característica forte desse segmento tem sido a de influenciar o
professorado a optar pelo primado da análise sócio-politica da escola e da sala de
aula, minimizando os aspectos didáticos e metodológicos. Dizem que as questões da
escola não são técnicas mas políticas. Trata-se, obviamente, de uma tendência à
sociologização do pensamento pedagógico, em muitos casos responsável por boa
parte dos slogans usados pelo professorado. Atualmente alguns intelectuais
continuam a fustigar a Pedagogia, a Didática, o trabalho cotidiano das escolas, por
conta ora de uma propalada insuficiência epistemológica dessas áreas ora de serem
disciplinas e práticas retrógradas frente à pós-modernidade. Adeptos do discurso pósmoderno,
criticam os pedagogos porque o que investigam e o que fazem nas escolas
15
não resiste às exigências da pós—modernidade. Eis que encontramo-nos frente a
outro discurso imobilizante do trabalho escolar, como foi o discurso reprodutivista.
Não é que não se deva dar importância ao pensamento pós-moderno para uma
pedagogia critica, ou às análises macroestruturais da Sociologia da Educação. O
problema é que mais uma vez essas análises jogam a atividade docente ao descrédito
por conta de menosprezar o discurso pedagógico; de dizer que a escola convencional
está superada, que o professorado é incapaz de se inserir na contemporaneidade.
que o dar aula” é coisa retrógrada diante da mídia eletrônica etc. Esse segmento de
intelectuais, ao desqualificar o trabalho docente na escola, contribuem para
acentuar o desprestígio social da profissão de professor e. mi fim, a desqualificação
acadêmica de tudo que diga respeito á pedagogia e à didática. Com isso. travam uma
estranha associação com setores políticos e econômicos da sociedade que
inviabilizam uma escola pública de qualidade para o povo.
Outra questão preocupante para a educação diz respeito a uma exacerbação do
relativismo ético e do ceticismo pedagógico no pensamento pós-modernista.
Obviamente o pensamento pós-moderno é anti-pedagogia, ao menos dentro do
sentido de pedagogia que já explicitei aqui. Mas nós, pedagogos, temos um
compromisso com a prática muito mais direto que ode outros intelectuais envolvidos
com a temática educacional. Esse compromisso com a prática — com a escola,
alunos, pais envolve necessariamente intencionalidade, valorações. A recusa da
Pedagogia significa a recusa de opções ético-valorativas, a renúncia á postulação de
objetivos e metas mais específicos para o trabalho em sala de aula. A insistência do
pós-modernismo no relativismo ético, na descrença na ação política. na morte das
utopias, na crítica da razão, no esvaziamento dos ideais etc., traz uma problema
crucial ao educador que é a adoção de um ceticismo pedagógico e o enfraquecimento
de sua responsabilidade moral, o que compromete qualquer sentido educativo da
prática docente.
2. Algumas orientações teóricas da Psicologia da Educação também
atravessam as pretensões de especificidade teórica da Didática. A Psicologia há
muito luta pela hegemonia científica no campo do ensino. Mais recentemente, com a
onda do construtivismo. passou-se a dar peso às teorias do conhecimento para a
compreensão do processo de aprendizagem (que alguns chamam, a meu ver
equivocadamente, de epistemologia). Devo insistir que essas duas áreas de
conhecimento São centrais na análise da problemática do ensino. posso dizer mesmo
que são as mais centrais. A Psicologia tem uma afinidade direta Com a Didática e
uma teoria do conhecimento é a base pata a compreensão cientifica do processo de
ensino. Como escreve Klingberg:
O ensino em seu núcleo é um processo de conhecimento (...) O caráter
científico do ensino significa principalmente a condição do processo de ensino sobre a
base do conhecimento das leis do processo do conhecimento”( p. 142).
O reparo que faço é sobre o reducionismo ou, ao menos, a uma visão
excessivamente parcializante por parte de um segmento de psicólogos de variada
orientação teórica. principalmente por conta da pouca relevância que dão ás ações
de ensino no processo de aprendizagem. Entre os construtivistas mais ortodoxos, por
exemplo, há um entendimento de que é impossível uma pedagogia de base
piagetiana (Lajonquière, 1992). assim como há outros mais abertos que admitem
urna relação possível entre a aprendizagem construtiva da teoria psicogenética e o
ensino (Castorina, 1994). Evidentemente, estamos frente a distintas concepções
sobre a relação ensino-aprendizagem e não cabe simplesmente afastá-las em nome
de outras. Mas não posso deixar de apontar em algumas orientações: da Psicologia da
Educação uma postura anti-pedagogia e anti-didática e urna reincidência do
psicologismo no ensino. De fato, é comum ouvirmos afirmações assim: “o professor
não ensina, o aluno é que constrói seu conhecimento”; “a verdadeira escola é a
16
prática de vida da criança, não o saber sistematizado”; “a criança tem que lidar com
coisas concretas, não com teorias...” O professorado pode estar encontrando nas
práticas de ensino supostamente “construtivistas” ótimas justificativas para se livrar
do peso de seu despreparo teórico e profissional. Mesmo admitindo a seriedade dos
intelectuais que sugerem essas práticas, é preciso saber como os professores as
recebem. Podem estar levando a um comportamento de recusa do saber teórico. de
não intervenção do docente-adulto no processo de aprendizagem, de esvaziamento
dos conteúdos, de ausência de qualquer orientação, de anulação da necessária
autoridade moral, profissional e técnica do professor. O que, no fim das contas,
significa desqualificação da escola, do professor, do ensino e, consequentemente,
desescolarização e ensino de baixa qualidade.
3. Outro campo mais recente de intersecção com a Didática são os estudos na
área da linguagem, que vêm tendo desenvolvimento teórico significativo nos últimos
anos. Sem dúvida, o ato didático tem na linguagem um fone componente, mas
freqüentemente aparecem textos em que o didático fica reduzido a um ato de
interação verbal ou de comunicação. A linguagem, de fato, intervém na mediação
didática mas, no que se refere ao ensino, deve ser considerada uma das dimensões
do didático.
4. Há problemas, também, entre Didática e Currículo. As dificuldades
começam com o lugar ocupado por essas disciplinas no campo do conhecimento. Os
pedagogos alemães, por exemplo, situam a Didática como ramo do campo científico
da Pedagogia — termo geral empregado para designar o conjunto de conhecimentos
aplicados ao estudo do fenômeno educativo, com forte conotação ético-normativa -
sendo o currículo uma parte de seu conteúdo. Em países de origem inglesa onde
predomina uma tradição positivista, a Pedagogia perde aquele sentido e usa-se em
seu lugar o termo “educação”, e aí é o currículo que ganha destaque ficando o
pedagógico e o didático reduzidos ao terreno das prescrições metodológicas. Não é
casual que as definições mais clássicas de cada um dos termos referem-se á mesma
coisa. Diziam os norte-americanos que Currículo é conjunto de todas as experiências
da criança providas e organizadas pela escola; dizem em os didatas que a Didática
estuda o processo de ensino e aprendizagem envolvendo as atividades conjuntas do
professor e alunos. Obviamente esses diferentes enfoques determinarão distintas
concepções teóricas, linhas de pesquisa, opções na organização de uma grade
curricular.
Como se vê há evidentes dificuldades de entrosamento entre as várias
disciplinas no que se refere à investigação dos problemas do ensino, com reflexos no
sistema de formação de pedagogos e professores, na organização de currículos, nas
tentativas de trabalho inter ou multidisciplinar. Penso que seria estratégico um pacto
suprapartidário para enfrentarmos as questões relacionadas com as fronteiras de
cada área de conhecimento, tendo em vista melhores escolas, professores melhor
preparados, alunos melhor educados. Penso que a Didática pode suprir esse papel
integrador, constituindo, junto com os conhecimentos de outras áreas, uma base
teórico-prática solida para orientar os professores no seu trabalho de “dar aula”.
Finalmente, vou concluir com quatro pontos:
1. Não quero ser injusto com muitos psicólogos, sociólogos, pedagogos.
pedagogos. Lingüistas, que efetivamente estão empenhados em desenvolver a sua
área de conhecimento numa perspectiva interdisciplinar, respeitando-se mutuamente
no trabalho profissional e acadêmico, inclusive compartilhando suas preocupações
com pedagogos e didatas.
2. Entretanto, é notório o menosprezo de muitos intelectuais que circulam
pelo campo educacional pelas questões da escola básica e do ensino e, por
conseqüência, da Pedagogia e Didática, consideradas como pesquisa de segunda
17
linha. Obviamente isso tem a ver com o desprestígio social e econômico da profissão
de professor, acarretando a desqualificação acadêmica da área. Infelizmente o
posicionamento desses intelectuais soma-se ao de setores econômicos c políticos da
sociedade, acentuando o descaso pelo exercício profissional da docência e o desgaste
do ensino público. Além disso, desencoraja qualquer esforço de trabalho
interdisciplinar
3. A Didática está impregnada de multidisciplinaridade e de
interdisciplinaridade. Ela se enriquecerá mais quanto mais der conta de postular o
que lhe é específico e, a partir daí, explorar as fronteiras e zonas intermediárias do
conhecimento cientifico. A especificidade e a integração são dois movimentos que se
articulam. Quanto mais se busca a especificidade mais se destacam os limites de uma
disciplina, forçando a interdisciplinaridade e a integração. Quanto mais integração,
mais necessidade de estruturação de cada campo de conhecimento. Quero dizer com
isso que a estruturação do conteúdo próprio da Didática é um passo prévio para a
interdisciplinaridade e não uma limitação.
4. Quero deixar um recado aos pedagogos, docentes e não docentes. Para
conquistarmos maior reconhecimento social e acadêmico, precisamos ser mais
rigorosos e competentes como pesquisadores e profissionais. A falta de tradição
cientifica da Pedagogia no Brasil é em parte responsável por esse tipo de discussão
que estou trazendo. A fragilidade teórica do campo da Pedagogia leva a que seu
discurso seja invadido ou substituído pelo das demais ciências humanas que disputam
a primazia no estudo de problemas educativos. Há fracasso escolar? É que a escola
não fala a linguagem das crianças As crianças pobres enfrentam dificuldades de
aprendizagem? É que os professores não levam em conta as relações de poder
existentes na sala de aula, é um problema sociológico. Ou, é porque a escola não
respeita os sistemas de cognição próprios de cada idade, e uma questão psicológica.
A escola perdeu a qualidade? A solução é introduzir novas metodologias, vídeos,
computadores, que vão tornar as aulas mais sugestivas. O que os pedagogos têm a
dizer sobre esses reducionismos? Estamos cientificamente capacitados a postular à
Pedagogia seu papel de integrar conhecimentos das demais áreas em função de uma
aproximação global e intencional da problemática educativa? Penso que sem o
reconhecimento de um campo próprio de investigação da Pedagogia e sem a
competência para nos apropriarmos das contribuições das demais disciplinas, fica
difícil sustentar, também, a especificidade teórica da Didática. Dentro desse ponte
de vista, a pluridimensionalidade no tratamento dos problemas educacionais não
elimina a unicidade do campo do conhecimento pedagógico. É esta unicidade que
permite, no dizer do pedagogo espanhol Jaime Sarramona, “estabelecer (para a
Pedagogia) um corpo cientifico que tem o fenômeno educativo em seu conjunto
como objeto de estudo, com a finalidade expressa de dar coerência á multiplicidade
de ações parcializadas” (1985:56). A afirmação vale para a Didática. E nesse mesmo
sentido que considero a Didática unia disciplina de integração das diferentes
contribuições que as ciências da educação fornecem, a partir de seu próprio objeto
específico de estudo.
Referências bibliográficas
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18
CASTORINA, J. A. “Teoria psicogenética da aprendizagem e a prática educacional:
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PENIN, S.T.S. “A prática de ensino da disciplina didática nos cursos de licenciatura da
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SARRAMONA, J. e Marques, 5. Que es la Pedagogía? Barcelona: lAje. U%AC, WX5.
SIOCKER, K. Princípios de Didáctica moderna. Buenos Aires: Kapeslusz. 964.
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VISALBERGI A. Pedagogia e scienze de l'educazione. Milano: A. Mondadori Editore,
1983.
19

CAPITULO III

A UNIDADE ENTRE A DIDÁTICA, METODOLOGIAS ESPECÍFICAS E AS PRÁTICAS DE
ENSINO ( * )

Pretendo discutir neste texto uma questão controvertida que diz respeito à
formação de professores para o ensino de 1o e 2o graus:. a relação entre a Didática e
as Metodologias especificas das matérias e, por conseqüência, a relação entre
Didática e Prática de ensino. O assunto interessa aos cursos de habilitação ao
magistério de 1o Grau, de pedagogia e de licenciaturas.
As prescrições legais que tratam dessa questão induzem à ambigüidade na
delimitação do campos de estudos da Didática. Na organização curricular das escolas
é comum considerar a Didática, a Metodologia de ensino das matérias, a Prática de
ensino e o Estágio Supervisionado como disciplinas independentes entre si. Às vezes,
Didática se confunde com Metodologia de Ensino, e Prática de Ensino com Estágio
Supervisionado. Por exemplo, o Parecer 349/72, que regulamenta o artigo 30 da Lei
5.692/71 ao explicitar o conteúdo da disciplina Didática e Prática de ensino. diz o
seguinte: “a Didática compreenderá estudos relativos à Metodologia de Ensino, sob os
aspectos do planejamento, execução (...) e de verificação da aprendizagem,
conduzindo à Prática de Ensino. (...) Com relação à Prática de Ensino, o aluno-mestre
(...) compreenderá a estrutura, organização e funcionamento da escola de 1ºgrau e
entrará em contato com seu futuro campo de trabalho. ( ...) Poderá ser anterior,
concomitante e posterior à Didática, embora não haja dúvida de que a concomitância
tem vantagem sobre as outras duas ( ...) A Prática de ensino deverá ser realizada nas
próprias escolas da comunidade, sob a forma de Estágios Supervisionados.
A Resolução nº 9/69 que fixa os mínimos de conteúdo e duração da formação
pedagógica nos cursos de licenciatura incluem entre as matérias pedagógicas a
Didática, estabelecendo no seu art. 20: ‘‘Será obrigatória a Prática de Ensino das
matérias que sejam objeto de habilitação profissional, sob forma de estágio
supervisionado, a desenvolver-se em situação real, de preferencia em escola da
comunidade.
O ponto de vista que vou defender é simples. Primeiro: a Didática é uma
disciplina unitária, incluindo em seu campo de estudos as Metodologias Especificas de
ensino das matérias (as também denominadas “didáticas especiais)”. Segundo: a
Prática de Ensino não deve ser tratada como disciplina isolada, uma vez que é parte
integrante do conteúdo da Didática e das Metodologias específicas, o mesmo
acontecendo com o Estágio Supervisionado. Em síntese: a Didática é a teoria e a
prática do processo de ensino. As Metodologias específicas das matérias têm como
objeto de estudo as peculiaridades do processo de ensino de cada uma dessas
matérias, quanto aos objetivos, conteúdos e métodos conforme os níveis de
escolarização. A Prática de Ensino é o processo e o resultado da formação
profissional propiciada por essas duas disciplinas, pelo currículo do curso em seu
conjunto, pela unidade teórico-metodológica da instituição formadora. Há uma
unidade e um vínculo recíproco entre a Didática e as Metodologias específicas, assim
como ambas são disciplinas pedagógicas. Neste sentido, compreende-se a Didática
como campo de estudos unitário, unidade que é assegurada pela Pedagogia, que é o
campo de conhecimento que investiga finalidades e meios do processo educativo.
Com efeito, na prática educativa, em decorrência de seu caráter histórico-social,
conteúdos e formas não existem por si mesmos, mas referidos a a finalidades
(*) Texto apresentado no V ENDIPE, Belo Horizonte, 1989
20
educativas, ou seja, a propósitos pedagógicos que orientam a ação escolar dentro de
um determinado contexto de interesses sociais.
Formulado o núcleo básico da minha proposição, devo delimitar alguns
conceitos. A Didática é uma disciplina pedagó gica, é um ramo da Pedagogia, ao lado
da Teoria da Educação, da Teoria da Organização Escolar, daTeoria da Escola. A
Didática é uma matéria de estudo e um instrumento de trabalho docente que se
ocupa de investigar as relações entre o ensino e a aprendizagem. Ela faz a ponte
entre a teoria pedagógica e a prática educativa escolar. Inclui, portanto a reflexão
teórica proporcionada pela teoria pedagógica e os elementos científicos e
características do processo de ensino no seu conjunto e das suas peculiaridades
conforme cada matéria de ensino.
Ao referir-me, à fundamentação pedagógica da Didática e das Metodologias
especificas, parto de um entendimento explícito de Pedagogia. A Pedagogia, segundo
Suchodolski, investiga os fatores que concorrem para a formação do homem em seu
desenvolvimento histórico para, daí, formular conhecimentos acerca dos processos
de formação. A teoria pedagógica é uma reflexão para a prática educativa enquanto
manifestação da prática social. Isto significa conceber a educação como fenômeno
integrante do desenvolvimento social, determinada pela dinâmica das relações
sociais. Como a Pedagogia se ocupa de finalidades e processos da educação
necessariamente conectados a objetivos sócio-políticos, ela implica uma intervenção
no processo educativo. Na medida em que reflete a prática educativa socialmente
condicionada, ela força sempre uma opção, frente aos interesses antagônicos de
classe. Em poucas palavras, a pedagogia dá o rumo do processo educativo em meio às
contradições sociais. Se o processo educativo não envolvesse ações pedagógicas de
cunho eminentemente sócio-político, seria um processo natural, neutro, sempre igual
em todos os tempos e lugares.
Por outro lado, a Pedagogia não é apenas reflexão, ela não formula uma
teoria a priori; ela encara a prática educativa como um acontecimento real e
historicamente mutável, isto é, no seu desenvolvimento histórico-social e nas suas
situações específicas. A prática educativa é, pois, ponto de partida para construção
da reflexão. Com isto, quero dizer que a prática educativa escolar é uma prática.
Envolve ações específicas, envolve atos técnicos, envolve o fazer e o saber fazer.
Esse fazer pedagógico na escola, essa manifestação do pedagógico no processo de
transmissão e assimilação de conhecimentos, são a tarefa da Didática que, como
matéria pedagógica, viabiliza a realização dos componentes ideológico e técnico da
ação pedagógica escolar. A Didática é, então, a matéria que investiga os processos
que envolvem a mediação escolar de objetivos, conteúdos, métodos e os nexos
regulares entre ensino e aprendizagem, na sua vinculação a finalidades sociais,
políticas e pedagógicas. Como teoria do ensino, ela generaliza o que é comum e
fundamental no processo educativo escolar.
As tarefas da Didática incluem as Metodologias específicas, porém as
extrapola. Primeiro, porque as lógicas das ciências, que se convertem em lógica das
matérias de ensino, não é idêntica a lógica do processo didático. Segundo, porque
sendo teoria da instrução e do ensino, generaliza leis, princípios e procedimentos
obtidos na investigação das próprias disciplinas específicas e nas demais ciências que
explicam as conexões entre ensino e aprendizagem. Verifica-se, assim, que a
Didática e as Metodologias são mutuamente referidas, uma dependendo da outra,
ainda que guardem cada uma sua especialidade.
Retomando a questão inicial, cabe reafirmar, que não se justifica considerar a
Prática do ensino como disciplina isolada. Ela não pode nem reduzir-se ao Estágio
Supervisionado, conforme menciona a legislação nem, muito menos, identificar-se
21
com a Didática ou com as Metodologias Específicas, tal como aparece em alguns
currículos do curso de pedagogia e das licenciaturas.
Já procurei demonstrar que, o que temos, de fato, são duas matérias, a
Didática e as Metodologias específicas, ambas implicando a teoria e a prática,
formando a unidade constitutiva de todo processo de conhecimento. Didática não
pode ser tomada como teoria e as Metodologias como prática. Não se pode, também
dizer, que a formação dos professores se dá na Prática de ensino exclusivamente,
sobre o argumento de que o professor ensina determinada matéria e, por isso, os
conteúdos e métodos da matéria se bastam sem necessidade de se recorrer a
Didática. Há quem afirme, apressadamente, que a Didática não se constitui campo de
conhecimento porque não tem objeto próprio. Meu ponto de vista é o de que a
Prática de ensino é ingrediente tanto da Didática como das Metodologias específicas,
como das demais disciplinas do currículo.
Neste ponto preciso abordar esse tema tão controverso da unidade teoria e
prática. Unidade não é identidade. Teoria e prática são duas formas distintas de
comportamento humano frente à realidade, mas indissoluvelmente ligadas na
atividade consciente dos sujeitos. Mencionei, anteriormente, que a Didática e as
Metodologias são mediações entre teoria educativa e prática educativa escolar. Com
isso, quero dizer que a prática docente precisa da teoria, que se funda na prática,
referida à prática, mas que é teoria; por sua vez, a prática docente é prática efetiva,
ação consciente, pensada, nutrida pela teoria, mas que é prática. Entretanto, na
minha ação de sujeito ativo e prático, teoria e prática formam uma unidade efetiva,
pois ajo pensando e penso agindo. Este é, aliás, o sentido de práxis, uma atividade
prática sempre consciente e pensada, uma prática sempre teórica e uma teoria
sempre prática. Esta unidade constitutiva do ser humano consciente não exclui, no
entanto, o fato de que no processo histórico-social a teoria vai ganhando relativa
autonomia em relação prática de modo que posso apropriar-me dela enquanto objeto
de conhecimento que existe independentemente da minha consciência. Mas a teoria
está ligada à atividade prática, esta como a referência necessária à vida real e, nessa
condição, elemento orgânico da teoria.
A Didática, assim como as Metodologias, envolvem teoria enquanto um
sistema relativamente autônomo de conhecimentos reproduzidos na lógica dos
conceitos.A lógica objetiva dos fenômenos e processos da realidade envolvem a
prática como a atividade humana real, efetiva, base da ação recíproca que mantem
com a teoria. É evidente que quando falo de prática não estou me restringindo à
prática de ensino apenas, mas também à prática social em todas as suas implicações
com o processo educativo escolar.
A problemática da teoria e da prática é por demais conhecida. Vou passar
para uma outra questão: Didática é a mesma coisa que Metodologia? Encontramo-nos,
aqui frente a dois extremos. Durante muito tempo acreditou-se que a Didática seria a
ciência dos métodos de ensino. Acreditava-se que existindo um método geral e único
de ensino, as tarefas de ensinar ficariam mais fáceis, bastaria assegurar os princípios
da ordem, da seqüência entre passos formais etc., para se garantir a aprendizagem.
Esta idéia surgiu com Comênio, depois com Herbart e outros e, finalmente, com os
métodos gerais tipo Montessori, Decroly, Freinet, de projetos, de unidades didáticas
etc. Em outro extremo, entendeu-se que, por não existir um método geral para todas
as matérias, não haveria também a Didática, mas apenas as Metodologias especificas;
bastaria transpor o método da matéria que se ensina para o método de ensino. Neste
caso, desapareceria do currículo de formação profissional a Didática Geral e as
didáticas especiais (estas por se denominarem “didáticas”) e o que sobraria seriam as
Metodologias especificas, às vezes, denominadas de “prática de ensino”.
22
A primeira tendência está superada. Defender a Didática não significa
defender o método único, ainda que a Didática englobe a investigação sobre os
métodos. A segunda não está superada, ao contrário, os que a defendem não vêem
razão para se superar nada uma vez que cada matéria de ensino deve recorrer à
metodologia da ciência que lhe dá origem, e isto é suficiente.
Eu gostaria de argumentar contra esta posição. O ensino é uma atividade
específica, cuja característica é a de dirigir, organizar, estimular o processo de
transmissão ou assimilação de conhecimentos. Mas o ensino é uma tarefa socialmente
condicionada; ele envolve mais do que a transformação das bases das ciências em
matérias de ensino. Ele envolve decisões de natureza político-ideológica, de natureza
psico-pedagógica, de natureza propriamente didática, que ultrapassam o âmbito dos
conteúdos e métodos da matéria. O magistério, o ensino das matérias, é praticado
dentro de condições sociais e históricas determinadas. Além de ser uma tarefa
prática, real, definida, de natureza técnica, implicando o domínio de conteúdos,
métodos, formas de organização do ensino, é simultaneamente uma tarefa
ideológica, é um exercício político. O que explicita a natureza político-ideológico do
trabalho docente são os objetivos sociais e pedagógicos. É uma teoria pedagógica,
traduzida na Didática, que pode fornecer diretriz para opções acerca do destino do
homem e da sociedade.
Um professor de Metodologia de ensino de determinada matéria pode não se
importar com a questão dos objetivos sócio-políticos ou com a problemática dos
valores embutida na ciência ou no ensino, com a justificativa de que eles fazem
parte do domínio da metafísica ou das especulações, área em que seria impossível a
objetividade e a experimentação. Mas que fique claro que isolar as Metodologias
específicas de seus fundamentos pedagógicos, isto é, das finalidades educativas do
ensino numa sociedade marcada pelos antagonismos de classe, significa recusar uma
direção de sentido da prática educativa escolar, para reduzí-la à sua dimensão
científica e técnica. Digo mais: o processo educativo é pedagógico precisamente
porque é intencional, porque têm objetivos explícitos face aos de interesses de
classe. É porque a prática educativa acontece no seio de relações sociais entre
classes antagônicas que se ressalta a mediação pedagógica e didática.
Em resumo: colocar as Metodologias específicas separadas da Didática leva a
reduzir o ensino a uma atividade exclusivamente técnico-científica, de uma forma
muito próxima à tecnologia educacional. A exclusão do caráter finalista da prática
educativa pela afirmação da objetividade do conhecimento tende a tomar a prática
educativa como ação neutra, desprovida de aspectos valorativos. Não é outra a razão
pela qual a influência norte-americana na educação brasileira nos legou, desde o
movimento da escola nova e passando pela tecnologia educacional, a teoria de
currículo e as metodologias de ensino para substituir a teoria pedagógica e a
Didática.
Quero apresentar ainda um terceiro argumento a favor da Didática e do seu
desdobramento em Metodologias especificas. Sabemos da relação de
interdependência entre teoria do ensino e teoria do conhecimento, entre teoria do
conhecimento e teoria da aprendizagem. Dizendo em outras palavras, há uma
interdependência entre o processo didático, o processo de conhecimento científico e
o processo de assimilação ativa de conhecimentos. Se não distinguimos ciência e
matéria de ensino, método da ciência e métodos de ensino, o processo de
conhecimento científico de ensino e o processo de assimilação de conhecimentos,
tende-se a incorrer na identificação entre investigação e ensino, entre a formação de
um especialista da ciência e a formação geral dos alunos. Tais processos estão
intimamente ligados entre si, mas não são idênticos. Precisamente para articulá -los
23
no processo de ensino a partir das determinações sociais, didáticas, lógicas,
psicológicas, é que se requer a Didática.
Caso contrário, seria difícil responder estas perguntas: deve o aluno percorrer
e repetir, a cada momento do processo de aprendizagem, todas os detalhes dos
passos da investigação científica? É correto passar o conhecimento lógico-sistemático
da ciência diretamente, a qualquer aluno, de qualquer idade, com qualquer nível de
desenvolvimento? Como fazer para selecionar as bases das ciências, uma vez que não
podemos ensinar toda a ciência? O método das ciências seria suficiente para o aluno
poder assimilar as bases da ciência? A conversão ou transformação das bases da
ciência em matéria de ensino não requer critérios que sejam não apenas científicos,
mas também sociais, políticos, pedagógicos, culturais, psicológicos, didáticos? Esta é
uma problemática cuja investigação e cuja solução inclui o conteúdo da Didática,
necessariamente refletido no conteudo das Metodologias específico.
Posso, finalmente, resumir minha proposta. Existe a Didática (sem adjetivo) e
existem as Metodologias específicas das matérias. É incompatível uma disciplina
isolada chamada Prática de Ensino; a dimensão da prática e a dimensão prática do
ensino, enquanto prática social integrante de outras práticas sociais, é elemento
orgânico daquelas duas matérias de estudo. Há uma infinidade de meios didáticos de
inserir no programa dessas matérias, seja conceitualmente seja ‘praticamente’, a
dimensão da prática e da práxis de ensino. Evidentemente não estou me esquecendo
do Estágio Supervisionado. Não creio que haja incompatibilidade entre a tese da não
diferenciação entre Didática e Prática de ensino e entre Metodologias especificas e
prática de ensino, e a manutenção do Estágio como um momento específico da
formação profissional. O Estágio é tarefa tanto da Didática como das Metodologias
específicas.
O Estágio Supervisionado constitui-se de momentos na seqüência do programa
da Didática e das Metodologias específicas nos quais os futuros professores travam
um contato mais direto com o campo de trabalho profissional. Isso não exclui a
possibilidade de as demais disciplinas do currículo fazerem mesmo. Mas é naquelas
disciplinas que ele se realiza de modo mais sistematizado e estruturado, num
trabalho coordenado a nível da instituição escolar, definindo-se tarefas conexas a
cada uma dessas disciplinas.
Entretanto, cumpre fazer algumas considerações adicionais. O estágio não é a
questão central de nenhum curso de formação profissional, como não pode ser o eixo
do processo de formação. Não substitui a formação teórica e nem dá conta de
englobar todas as exigências práticas da formação. Nem pode ser considerado como
“o lado prático do curso”, mas como uma aproximação à realidade escolar nas suas
várias facetas tendo em vista a reflexão sobre essa realidade para enriquecimento da
dimensão prática da teoria. O estágio, assim, não é a prática docente enquanto tal,
não é o lugar de prover experiência de magistério, e muito menos uma prestação de
serviços à comunidade ou às escolas em que é realizado. A verdadeira prática
docente acontecerá no exercício profissional, nas situações pedagógicas concretas
das escolas. Finalmente, o estágio não pode intervir nas salas de aula de modo
abrupto, artificial, episódico. Todo recorte, toda ruptura na dinâmica do processo de
ensino é prejudicial à escola e aos alunos. A regência episódica, artificial, deve ser
evitada mesmo porque seus efeitos na formação profissional efetiva são duvidosos.
Há modalidades de observação e participação na vida da escola e da sala de aula
que, planejadas de forma criativa, podem contribuir melhor para o enriquecimento
da teoria a partir da prática docente.
As questões aqui discutidas levam a exigências do processo de formação
profissional dos professores. De um lado, cumpre que as instituições formadoras
assegurem, no seu projeto pedagógico, a unidade teórico-metodológica dos cursos.
24
Por outro, que a Didática e as Metodologias específicas sejam trabalhadas de forma
articulada. A primeira, partindo de princípios sobre o que é fundamental e comum ao
processo de ensino, esteja referida a peculiaridades de conteúdos e métodos das
matérias e às suas manifestações concretas na prática docente; as segundas, que
agreguem suas especificidades a uma teoria do ensino, vale dizer, aos seus
fundamentos pedagógico-didáticos.
25

CAPÍTULO IV

PARA UMA AGENDA DE PESQUISAS EM DIDÁTICA: VELHOS E NOVOS TEMAS ( * )

(Texto provisório)
Desde os últimos Encontros Nacional de Didática e Prática de Ensino venho me
dedicando a pensar uma agenda para a pesquisa sobre os conteúdo da Didática. No
VIII ENDIPE, fiz um levantamento dos principais temas da discussão presentes na
pesquisa em sociologia critica do currículo e em outros campos da educação. Eu
trazia os temas da cultura, do poder, da linguagem, da relativização do poder da
ciência, do multiculturalismo, do ensino com pesquisa e do ensino como pesquisa,
etc., e insinuava como a Didática deveria incorporar esses temas.
No IX ENDIPE, em Águas de Lindóia, S.Paulo, falava da emergência de novos
temas da didática e a conseqüente reconfiguração da identidade de professor. Na
ocasião, eram destacados oito temas:
· a ampliação das exigências do aprender a pensar e do aprender a
aprender, como desdobramento necessário do princípio do aluno como
sujeito da elaboração do próprio conhecimento;
· A interdisciplinaridade, no sentido metodológico, mais do que no sentido
formal;
· Integração da cultura escolar com outras culturas que perpassam a escola;
· Trabalho docente como trabalho interativo, a aula como processo
comunicacional, sempre no sentido vigotskiano, mas pensando bastante no
sentido da comunicação didática, da organização e tratamento da
informação na sua forma oral e presencial;
· ensino dos valores, formas didáticas de ajudar os alunos a pensarem sobre
valores a partir de pautas morais muito concretas, muito reais do
cotidiano;
· Os vínculos entre a organização escolar e a sala de aula, ou melhor, da
importância da cultura da escola, da cultura organizacional nas práticas
educativas cotidianas na escola e na sala de aula, o que tem sido um modo
de ver a escola e a sala de aula pouco usual entre professores de didática
e prática de ensino.
· A teoria ancorada nas práticas e a busca de um referencial de
competências profissionais de professores
· A insistência em uma didática que se preocupe com o sujeito pensante,
mas um sujeito critico, um sujeito capacitado para atribuir significado à
informação, significado não só pessoal, mas social, critico, envolvendo-se
com os problemas atuais do trabalho, da desigualdade, da vida, do
ambiente, da política, da cultura.
No terceiro texto, apresentado no X ENDIPE, realizado em maio de 2000 no
Rio de Janeiro, apresentei uma reflexão sobre minhas suspeitas e apostas sobre a
produção do saber escolar, o saber de alunos e professores. Foi um texto sobre o qual
vários colegas consideraram um tanto baixo astral, eu preferi achar que foi um texto
( * ) Texto apresentado na 23ª Reunião Anual da ANPEd, Caxambu, 2000.
26
realista de alguém que não quer perder as esperanças. O texto foi publicado em livro
organizado pela Profa. Vera Candau.
Eu queria falar hoje dessas esperanças, isto é, o que penso que precisa
acontecer, no âmbito da Didática, para que possamos ter esperanças de mexer na
qualidade de ensino. Eu tenho muito pouco tempo para isso, mas vou tentar pontuar
o que penso sobre uma agenda de pesquisa em didática.
Falarei de três coisas:
1) Premissas de uma tomada de posição sobre a especificidade da escola e da
didática;
2) Temas ou conteúdos emergentes na didática;
3) Requisitos que se põem à investigação no campo da didática.
1 - SOBRE AS PREMISSAS
As premissas, os parâmetros, que a meu ver definem a especificidade da
escola e do ensino hoje, são as seguintes:
1. A escola é o lugar da razão critica, é o lugar de se prover os meios
cognitivos de compreender o mundo e transformá-lo, a pedagogia é uma
forma de ação cultural de atribuição de significados. Acho impossível
pensar a escola sem objetivos e processos cognitivos. E a didática é a
viabilização teórica e pratica do desenvolvimento cognitivo. A Pedagogia
precisa reafirmar seu compromisso com a razão, com a busca da
emancipação, da autonomia, da liberdade intelectual e política. O
pensamento pós-moderno critica a possibilidade dessa busca de autonomia
no mundo contemporâneo. Há restrições à autonomia do sujeito face às
relações de poder, à vigilância das ações individuais, à burocratização, à
racionalidade instrumental, à subjugação da subjetividade. Todavia, uma
Pedagogia para a emancipação precisa continuar apostando na
possibilidade de desenvolvimento de uma razão crítica precisamente como
condição para desvelar as restrições à autonomia no contexto do mundo
moderno.
2. A razão pedagógica, a razão didática, está associada à aprendizagem do
pensar, isto é, a ajudar os alunos se constituírem como sujeitos
pensantes, capazes de pensar e lidar com conceitos, para argumentar,
resolver problemas, para se defrontarem com dilemas e problemas da vida
pratica. Democracia na escola hoje, justiça social na educação, chama-se
qualidade cognitiva e operativa do ensino.
3. A razão pedagógica está também, associada, inerentemente, ao valor, a
um valor intrínseco universal, que é a formação humana, ajudar os outros
a se constituírem como sujeitos, a se educarem, a serem bons, a serem
justos, a serem cultos, a serem pessoas dignas. Vou chamar isso de
intencionalidade. Retire-se isso da educação escolar, e não teremos mais
educação.
4. A escola continua sendo o caminho para a igualdade e a inclusão social.
Não é possível democracia numa sociedade precariamente desenvolvida
em termos econômicos, sociais, culturais, sem a escolarização. A escola é
a esperança da formação cultural, do progresso, da conquista da
dignidade, da emancipação.
5. Não há que duvidar: ajudar as pessoas a constituírem sua subjetividade é
encarar a diferença e a diversidade cultural. A estratégia da
individualização neoliberal, capitalista, se combate com uma educação
27
para o outro, para a presença, para a diversidade. Mas que isso não
signifique perder a universalidade, significa ver o particular e o universal
no particular. Faço meu o lema da educação obrigatória cunhado por
Gimeno Sacristan: uma escolaridade igual para sujeitos diferentes em uma
escola comum.
6. O papel da escola básica, da escola obrigatória, é a formação geral, é a
formação cultural de base, que não pode prescindir dos conteúdos numa
pedagogia do pensar, sob pena de ser uma escola excludente. Uma cultura
internalizada pelos sujeitos, um cultura que os instrumentos do pensar,
para compreender e transformar o mundo. Mas uma cultura geral. Ser
culto, hoje, é dispor de ferramentas conceituais para lidar com as coisas,
tomar decisões, resolver problemas pessoais e profissionais. Culta é aquela
pessoa que tem gosto em ampliar seus esquemas mentais de compreensão
da realidade, que tem uma atitude de curiosidade, que desconfia do que
parece normal. Uma pessoa culta está aberta a tudo o que não é ela
mesma, a aceitar e analisar tudo o que ultrapassa o círculo mais fechado
do cotidiano, do familiar, do local, ou seja, ir além das necessidades
imediatas. Mas, para isso, são necessários, sim, informação, conteúdos,
estratégias de pensamento.
Essas tarefas requerem um profissional competente. Um profissional que
tenha uma capacidade de operar com saberes. Eu falo primeiro de saberes
específicos, eu falo de conteúdos. Junto com isso, um saber-fazer e um saber sobre o
saber-fazer.

2. TEMAS E CONTEÚDOS

Primeiramente acho necessário dizer que a didática não dispensou as
categorias básicas da didática. A didática é a teoria e a prática do ensino, ela
investiga as relações entre o ensino e a aprendizagem. Ela investiga os processos de
mediações cognitivas na relação do aluno com os objetos de conhecimento. E quais
são essas mediações: para que ensinar, o que ensinar, como ensinar, em que
condições ensinar, ou, seja, os objetivos, os conteúdos, os métodos e procedimentos
e as formas organizativas do ensino. Todavia, como sabemos, essas categorias ou
elementos do campo do didático estão sofrendo realmente mudanças, especialmente
quanto a conteúdos, métodos e formas organizativas do ensino.
E aqui entram os novos temas. Vou listá-los mas comentarei apenas alguns
deles.
A pedagogia do pensar, ou o ensino do pensar e do aprender.
Há muita gente falando nisso como novidade, há gente também dizendo que
esse tema é herança da escola nova, outros o associam ao neotecnicismo etc. Para
muitos de nós esse tema é recorrente na pedagogia moderna. O que está claro para
mim é que o aluno é sujeito do conhecimento, que a aprendizagem é um processo
ativo etc. mas o domínio de saberes e modos de ação é uma aprendizagem. O aluno
precisa aprender métodos de trabalho, processos de pensamento, desenvolver
competências. É ensinar a pensar de maneira direta e sistemática.
Transversalidade de culturas –
Sabemos que o trabalho nas escolas se defronta com características culturais
dos alunos, que afetam sua participação nas aprendizagens. Também os professores
são portadores de características culturais - seus saberes, seus valores, e seus
quadros de referência, as formas com que lidam com a profissão – que marcam
fortemente as práticas docentes. Há, na escola, um intercruzamento de culturas.
28
Pérez Gómez fala da cultura critica (a cientifica-crítica), da cultura social, da cultura
institucional, da cxultura experiencial, da cultura acadêmica (1999).
No mínimo, põe-se a necessária articulação entre o cognitivo, o social e o
afetivo. O aspecto cognitivo diz respeito ao processo de aprendizagem de
conhecimentos, procedimentos, valores. Mas os alunos são, também, sujeitos
concretos, condicionados por culturas particulares e origem social, portadores de
saberes de experiências. Na sala de aula os alunos vão constituindo sua
subjetividade. O ensino envolve sentimentos, emoções. O professor precisa conhecer
e compreender motivações, interesses, necessidades de alunos diferentes entre si,
ajudá-los na capacidade de comunicação com o mundo do outro, ter sensibilidade
para situar a relação docente no contexto físico, social e cultural do aluno. É,
também, importante que o professor ajude as crianças a aumentarem sua autoestima,
sua autoconfiança, suas aspirações e, com isso, a construir sua subjetividade.
Não estou falando para deixar a coisa correr solta. Não é isso. É aprender
procedimentos, técnicas, meios, de tornar as experiências de sala de aula mais
agradáveis, mais prazerosas. Isso implica conversar mais com alunos, deixá-los falar,
expor seus sentimentos, seus desejos. Claro, temos que aprender a fazer isso de
forma organizada.
O tema da cultura da escola e da cultura na escola põe a questão do
interculturalismo que é o tema da diversidade cultural, da diferença. Como lidar
didaticamente com a diversidade cultural e com a diferença na escola e na sala de
aula? Não é um desafio novo, mas é uma tarefa que se tornou mais complexa. Não se
trata apenas de uma atitude humanista. Trata-se de enfrentar uma poderosa
contradição. Por um lado, o justo é uma educação igual para todos. Por outro lado,
também justo um ensino que contemple a diversidade dos alunos. Como promover
uma escolaridade integradora que ao mesmo tempo assegure uma qualidade de
ensino para todos? Estamos preparados para ver o particular no universal e o
universal no particular?
Trabalho docente como trabalho interativo (interação e cooperação) e processo
comunicacional
O trabalho do professor precisa cada vez mais ser interativo. Implica educar
para o diálogo e para as relações democráticas, aprender a gerir, administrar uma
sala de aula, interativamente. Como desenvolver capacidade de diálogo e
comunicação com os outros, aprender a ouvir o outro e ajudá-lo; aprender a pedir
ajuda, resolver mal-entendidos, respeitar as diferenças, domínio de valores,
procedimentos, normas, atitudes? Como desenvolver habilidades comunicativas,
aprimorar as técnicas de comunicação: formas mais eficientes de expor e explicar
conceitos e de organizar a informação, de mostrar objetos ou demonstrar processos,
domínio da linguagem informacional, postura corporal, controle da voz,
conhecimento e uso dos meios de comunicação na sala de aula? Importante, também,
considerar o ambiente ou contexto físico da comunicação educativa, como é o caso
da organização do espaço físico da sala de aula. São tarefas imprescindíveis da
formação inicial e continuada de professores.
Leitura da informação midiática, apropriação das NTCI.
A virtualidade, como sabemos, é o mundo da imagem, da representação
técnica do real. Do ponto de vista pedagógico, a questão é saber qual o papel das
imagens na formação intelectual, no desenvolvimento do pensamento, como ajudam
na conquista do conhecimento, como pode contribuir para a formação de sujeitos
pensantes. Que benefícios e que riscos as novas tecnologias da comunicação e
informação podem trazer para os processos formativos?
29
Essas tecnologias são, obviamente, um beneficio. A virtualidade, a
representação técnica do real, permite traduzir tudo em imagens. A imagem virtual
pode tornar visível um pensamento abstrato, um projeto, um conceito, um modelo
matemático ou física, como as formulas matemáticas, demonstração de fenômenos.
Tanto o que não existe na realidade quanto o que ainda não existe, inclusive aquilo
que não existirá jamais. Permite desenvolver um raciocínio, compreender fenômenos
complexos, difundir o conhecimento. Em síntese, a virtualidade nos põe informados.
As mídias, conforme já escrevi (2000), assumem, do ponto de vista
pedagógico, três formas:
· como conteúdo escolar integrante das várias disciplinas do currículo,
portanto, portadoras de informação, idéias, emoções, valores. A
justificativa dessa funcionalidade das NTCI é a de que os meios de
comunicação social, isto é, as mídias e multimídias, fazem parte
mediações culturais que caracterizam o ensino. Como intermediações
culturais, são portadoras de idéias, emoções, atitudes, habilidades, e,
portanto, traduzem-se em objetivos, conteúdos, métodos de ensino. Essa
função de mediação, tanto quanto as demais mediações do ensino, atua
no sentido de prover condições e modos de assegurar a relação cognitiva e
interativa dos alunos com os vários tipos de conteúdos (conceitos,
habilidades, valores).
· como competências e atitudes profissionais. Aqui, as NTCI cumprem o
papel de propiciar preparação tecnológica comunicacional, no sentido de
desenvolver competências, habilidades e atitudes para viver num mundo
que se “informatiza” cada vez mais.
· como meios tecnológicos de comunicação humana (visuais, cênicos,
verbais, sonoros, audiovisuais) dirigidos para o ensinar a pensar, ensinar a
aprender a aprender, implicando, portanto, efeitos didáticos como:
desenvolvimento de pensamento autônomo, estratégias cognitivas,
autonomia para organizar e dirigir seu próprio processo de aprendizagem,
facilidade de análise e resolução de problemas etc.
Cultura organizacional
O tema da cultura organizacional ou cultura da escola está diretamente ligado
ao projeto pedagógico da escola e às práticas de gestão. O que entendo por cultura
organizacional é o seguinte. Para além daquelas diretrizes, normas, procedimentos
operacionais, rotinas administrativas, há aspectos de natureza cultural que
diferenciam as escolas umas das outras, sendo que a maior parte deles não são
claramente perceptíveis nem explícitos. Esses aspectos tem sido denominados
freqüentemente de “currículo oculto” mas que, embora oculto, atua de forma
poderosa nos modos de funcionar das escolas e na prática dos professores.
Esta idéia de cultura organizacional remete à cultura da escola, expressão
essa derivada do conceito sociológico de cultura (Forquin, 1993). Mas, o que se quer
destacar aqui, é que as próprias práticas e situações escolares estão impregnadas de
uma cultura, que é a cultura da escola (como se poderia falar, também, da cultura
da prisão, da cultura da fábrica)1, afetando tanto professores quanto alunos. Segundo
Forquin:
1 Forquin distingue a cultura da escola da cultura escolar, esta definida como “o conjunto dos conteúdos
cognitivos e simbólicos que, selecionados, organizados, ‘normalizados’, ‘rotinizados’, sob efeito dos
imperativos de didatização, constituem habitualmente o objeto de uma transmissão deliberada no contexto
das escolas
30
A escola é, também, um mundo social, que tem suas características de vida
próprias, seus ritmos e seus ritos, sua linguagem, seu imaginário, seus modos próprios
de regulação e de transgressão, seu regime próprio de produção e de gestão de
símbolos.
O sentido de cultura organizacional que quero destacar é o de que a própria
organização escolar é uma cultura, que o modo de funcionar da escola, tanto nas
relações que se estabelecem no dia-a-dia quanto nas salas de aula, é construído
pelos seus próprios membros, com base nos significados que dão ao seu trabalho, aos
objetivos da escola, às decisões que são tomadas..
Em resumo: a partir da interação entre diretores, coordenadores pedagógicos
e professores, funcionários, alunos, a escola vai adquirindo, na vivência do dia-a-dia,
traços culturais próprios, vai formando crenças, valores, significados, modos de agir,
práticas. É o que estamos denominando de cultura da escola ou cultura
organizacional.
Essa cultura própria vão sendo internalizada pelas pessoas e vai gerando um
estilo coletivo de perceber as coisas, de pensar os problemas, de encontrar soluções.
É claro que isso não se dá sem conflitos, diferenças, discordâncias, podendo haver
até quem destoe dessa cultura. Mas há em cada escola uma forma dominante de a
ação e interação entre as pessoas que poderia ser resumida nesta expressão: “temos
a nossa maneira de fazer as coisas por aqui”.
Essa cultura organizacional se projeta em todos as instâncias da escola: no
tipo de reuniões, nas normas disciplinares, na relação dos professores com os alunos
na aula, na cantina, nos corredores, na confecção de alimentos e distribuição da
merenda, nas formas de tratamento com os pais, na metodologia de aula etc. Vem
daí uma constatação muito importante: a escola tem uma cultura própria que
permite entender tudo o que acontece nela, mas essa cultura pode ser modificada
pelas próprias pessoas, ela pode ser discutida, avaliada, planejada, num rumo que
responda aos propósitos da direção, da coordenação pedagógica, do corpo docente. É
isto que justifica a formulação conjunta do projeto pedagógico-curricular, da gestão
participativa, conforme veremos adiante. A cultura organizacional é elemento
condicionante do projeto pedagógico-curricular, mas este também é instituidor de
uma cultura organizacional.
O que quero destacar neste tema é a necessidade de articular a didática com
as formas de organização do trabalho na escola (gestão e organização) e, para isso, a
formação de professores precisa investir na preparação para participação da gestão e
organização da escola. A idéia é de que a escola se transforme numa comunidade de
aprendizagem, escola como comunidade educativa, cultural e intercultural.
Interdisciplinaridade: duas questões.
Faz-se necessário superar um ensino restrito à exposição oral dos conteúdos
fatuais e ao uso do livro didático, primeiro, dando ênfase ao o processo de
investigação, aos modos de pensar a que as disciplinas recorrem; segundo, colocar os
conteúdos em referência ao mundo prático, ao mundo da vida, isto é, considerar a
funcionalidade dos conteúdos.
Dominio de procedimentos de avaliação institucional e da aprendizagem.
As concepções e práticas da avaliação aparecem hoje como elementos
cruciais da didática. Para os educadores progressistas é bastante razoável supor que
a avaliação educacional, tanto do sistema escolar como da aprendizagem, é um
requisito para a melhoria das condições que afetam diretamente a qualidade do
ensino. Seria extremamente prejudicial negar aos segmentos empobrecidos da
31
população brasileira um ensino de qualidade, por mais que se considere as críticas às
orientações economicistas dos organismos financeiros intern acionais.
Processos x produtos. Serão inúteis as práticas democráticas de gestão, a
descentralização, o projeto pedagógico, a participação dos pais etc. se os alunos não
aprimorarem sua aprendizagem, se não aprenderem mais e melhor. Nesse caso, não
saberemos se o professor é competente se não soubermos se o aluno aprendeu bem,
se dominou os conceitos básicos, se desenvolveu habilidades de pensamento, se
soube usar os conhecimentos na prática. Não se trata, obviamente, de estabelecer
diagnósticos meramente a partir dos resultados de desempenho do aluno, mas de
pesquisar formas avaliavas que contemplem conjuntamente aspectos do processo e
dos resultados. Penso que a referência principal de qualidade das escolas é o que os
alunos aprendem, como aprendem, em que grau são capazes de pensar e agir com o
que aprendem.
Em razão disso, numa visão progressista, as práticas de avaliação podem
propiciar mais auto-regulação institucional, em razão da exigência de se prestar
contas de um serviço público à comunidade. A avaliação externa, em conexão com a
avaliação dos professores, pode ser uma ajuda à organização do trabalho na escola e
nas salas de aula, gerando uma “cultura da responsabilização” por parte da equipe
escolar. Os professores, em função da organização escolar e do projeto pedagógico
da escola, podem analisar conjuntamente os problemas, fazer diagnósticos mais
amplos, para além do seu trabalho isolado na sua matéria, reforçando o
entendimento da escola como local em que se pensa o trabalho escolar e onde
professores e especialistas aprendem em conjunto.
Admitindo-se que hoje a justiça social em termos de democratização do
ensino seja a qualidade cognitiva dos processos de ensino e aprendizagem e dos seus
resultados, é óbvio que as práticas de avaliação precisam ser encaradas com mais
seriedade. Para isso, é preciso que os educadores, além de tomarem a avaliação
como importante meio de diagnóstico do seu trabalho, saibam mais sobre a
elaboração de instrumentos mais diretos de aferição da qualidade da oferta dos
serviços de ensino junto com a qualidade do “aluno que se quer formar”.

III - REQUISITOS

Reafirmar a especificidade da didática no contexto de outros campos do
conhecimento pedagógico.
É preciso reconhecermos a existência de uma tensão conflituosa entre a
análise externa da escola, que pode ser filosófica, antropológica, mas que tem sido
mais sociológica, e a análise interna da escola, est6a de responsabilidade de
pedagogos, de professores, às vezes de psicólogos da educação.
Vou detalhar mais esta afirmação. Parece estar existindo no campo da
investigação educacional duas posições tensas, eu diria quase inconciliáveis. Uma,
que é o discurso externo à escola, que geralmente é um discurso de critica, que vem
do observador externo, daquele que descreve e analisa as práticas, mas que vem de
um olhar externo. Outra, que é o discurso que vem das práticas internas da escola,
da abordagem interna, que olha a escola por dentro, as relações organizacionais, as
relações de aprendizagem.
Quem lida com a escola, com aluno, com professor, quem se põe a
responsabilidade de orientação do destino de alunos, de filhos, está sempre ligando a
educação a um valor. O conceito de educar acaba sendo inseparável do valor cf.
Forquin, 1993). Temos que dirigir nossa atividade para determinada direção,
determinado rumo. Há na educação, no ensino, um valor intrínseco, que é o de
ajudar os alunos a se desenvolverem, a se educarem, a serem cultos, a serem
pessoas dignas. Ou seja, a idéia de homem educado está associada a uma
32
intencionalidade, a uma normatividade. Por isso educação e moral andam juntas,
pedagogia e ética andam juntas. É isso que caracteriza a análise interna da escola, a
abordagem prática interna da escola.
No entanto, é precisamente isso que a abordagem do observador externo põe
em questão, os sociólogos da educação, por exemplo. Essa visão normativa,
intencional, aparecerá numa abordagem externa, explicativa, como ideológica, como
suspeita de estar comprometida como alguma relação de poder. O discurso do
observador externo descreve e analisa as práticas da escola como fenômenos
inseridos numa relação de causalidade, pela ótica da determinação social dos
saberes, das praticas escolares etc. Sua características é sempre critica, sempre
denunciadora, de sempre colocar em suspeita o fato de nós, professores, estarmos a
serviço de outras causas, de que há uns poderes maiores que nos dominam.
Ir à pratica. Palavras do Perez Gomez sobre relação entre teorias da aprendizagem e
a pratica docente. Pesquisa empírica.
Resolver, dentro do campo teórico da didática, os confrontos entre didática e
currículo.
Os estudiosos da didática precisam reconhecer a positividade de muitas da
contribuições provenientes da pesquisa no campo do currículo. Embora permaneçam
as disputas entre os dois campos (Oliveira, Libâneo), a didática se enriquecerá com a
incorporação de temas do currículo.
Da minha parte, entendo que o currículo define-se como projeção do projeto
pedagógico, ou seja, o currículo é um desdobramento necessário do projeto
pedagógico, materializando intenções e propósitos em objetivos e conteúdos. Nesse
sentido, a proposta curricular é a orientação prática da ação de acordo com um
plano mais amplo, é um nível do planejamento entre o projeto pedagógico e a ação
prática. Enquanto projeção do projeto pedagógico, o currículo explicita o que
ensinar, o para que ensinar e o como ensinar, com base em decisões pedagógicas e
didáticas.
(Currículo) é a representação da cultura no cotidiano escolar (...). o
modo pelo qual se selecionam, classificam, distribuem e avaliam
conhecimentos no espaço das instituições escolares. (...) um modo
pelo qual a cultura é representada e reproduzida no cotidiano das
instituições escolares. (Pedra, 1999)
O currículo é a ligação entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à
educação; entre o conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos alunos;
entre a teoria (idéias, suposições e aspirações) e a prática possível, dadas
determinadas condições” (Gimeno Sacristan, 1999)
A primeira definição destaca a idéia de que o currículo se sustenta em
representações sociais presentes na cultura na qual se dá a teoria e a prática do
currículo. Representações, aqui, entendidas como idéias, conhecimentos, modos de
agir, que devem ser reproduzidos e produzidos para se assegurar o funcionamento de
um tipo de sociedade.
A segunda mostra que o currículo é a concretização do posicionamento da
escola face à cultura produzida pela sociedade. Existe ensino porque existe uma
cultura, e o currículo é a seleção e organização dessa cultura. Para Gimeno, o papel
social da escola se realiza através do currículo. Ou seja, o currículo representa a
seleção e organização da cultura. Quando os professores e a equipe escolar planejam
o currículo, eles realizam uma escolha para responder a estas indagações: o que
nossos alunos precisam aprender, para que aprender, em função de que aprender. Há
aí uma espécie de diálogo com a sociedade e entre a própria equipe de professores,
33
sobre o que é relevante que os alunos aprendam em função de suas necessidades
pessoais e das necessidades e exigências de interesses em jogo na sociedade.
Em síntese, o currículo reflete intenções (objetivos) e ações (conhecimentos,
procedimentos, valores, formas de gestão, de avaliação etc.), tornadas realidade
pelo trabalho dos professores e sob determinadas condições providas pela
organização escolar, tendo em vista a melhor qualidade do processo de ensino e
aprendizagem.
A dimensão técnica é o suporte da ação competente.

34

CAPÍTULO V

AS MUDANÇAS NA SOCIEDADE, A RECONFIGURAÇAO DA PROFISSÃO DE PROFESSOR E A EMERGÊNCIA DE NOVOS TEMAS NA DIDÁTICA ( * )

Dentro do tema mais geral desta mesa ¾ Didática e Prática de Ensino:
tendências investigativas, problemas e perspectivas ¾ escolhi tratar das relações
entre as transformações que estão ocorrendo na sociedade, a formação de
professores e a didática. Os colegas que me precederam trataram dessa relação no
âmbito da didática das disciplinas. Minha comunicação está mais dirigida para o
campo investigativo da didática, de uma teoria geral do ensino, alertando que são
idéias ainda em elaboração. Vou apresentar três tópicos. No primeiro, exponho
rapidamente meu ponto de vista de que há uma unidade necessária entre didática e
prática de ensino. No segundo, apresento os problemas mais recorrentes do campo
científico da didática nestes últimos anos. No terceiro, trago minha visão sobre novos
temas que vêm surgindo na didática frente às mudanças sociais e às teorias
educacionais mais recentes.
Minha proposição principal é a seguinte: as transformações que vêm
ocorrendo em âmbito mundial dizem respeito a três fenômenos associados: os
avanços científicos e tecnológicos, a globalização econômica e o neoliberalismo. Tais
fenômenos vêm repercutindo na educação por meio das reformas educativas
encetadas mundialmente a partir dos anos 70, reformas essas detonadas pela
reorganização produtiva no âmbito das instituições capitalistas. As reformas
expressam mudanças nos sistemas de ensino, a meu ver, inevitáveis, especialmente
por conta dos avanços científicos e tecnológicos que acabam por alterar as práticas
de produção e as condições de vida e de trabalho em todos os setores da atividade
humana. Um dos temas que se destacam nas reformas educativas é a
profissionalização e formação de professores. Os outros temas que compõem a
estratégia das reformas são: gestão educacional, reorganização curricular e avaliação
institucional. Estas mudanças, evidentemente, afetam o campo conceitual e
investigativo da didática.
Não vou falar sobre estas questões mais gerais, elas têm sido tratadas por
vários colegas de outras áreas. O que quero destacar é que está sendo posta, no
mundo contemporâneo, a exigência de uma formação geral de qualidade dos alunos,
o que depende de uma formação de qualidade dos professores. Os professores são os
agentes diretos da transformação dos processos pedagógico-didáticos, curriculares,
organizacionais.
Há uma exigência visível de mudança na identidade profissional e nas formas
de trabalho dos professores. O tipo de trabalho convencional do professor está
mudando em decorrência das transformações no mundo do trabalho, na tecnologia,
nos meios de comunicação e informação, nos paradigmas do conhecimento, nas
formas de exercício da cidadania, nos objetivos de formação geral que hoje incluem
com mais força a sensibilidade, a criatividade, a solidariedade social, a qualidade de
vida, o reconhecimento da diversidade cultural e das diferenças, a preservação do
meio ambiente. Isso afeta os saberes pedagógicos e didáticos, os modos de formação,
os métodos de ensino, as técnicas. É verdade que sabemos pouco hoje sobres essas
coisas, mas é preciso urgentemente que tomemos consciência delas, que comecemos
a introduzir mudanças e a controlar os fins, a direção e os modos dessas mudanças.
( * ) Texto apresentado no X ENDIPE, Águas de Lindóia – SP, 2000.
35
Na verdade, elas ocorrerão apesar de nós, ou seja, se quisermos estar ligados na
realidade, é preciso que nós, educadores e professores de didática e prática de
ensino, nos preparemos para agir.
Na formação de professores, a didática joga um papel imprescindível, em articulação
direta com as didáticas específicas. Por mais paradoxal que seja a realidade do
ensino público em nosso país, é fato que se espera dos professores o desempenho de
tarefas básicas na escolarização das crianças e jovens, na luta contra as
desigualdades sociais, contra a exclusão etc., em conexão com as mudanças sociais e
econômicas que caracterizam o mundo atual.

1 - UNIDADE ENTRE A DIDÁTICA, OS SABERES DISCIPLINARES E A PRÁTICA DE ENSINO

Há tempos defendo a unidade entre a didática, as metodologias específicas e
a prática de ensino (Libâneo, 1991). Continua sem sentido a separação ou oposição
entre didática e metodologias específicas. A didática é um campo unitário, ela
congrega a teoria do ensino e os saberes disciplinares, incluindo suas metodologias
específicas. A prática de ensino, por sua vez, é parte integrante da didática e das
didáticas específicas. Entendo que a didática é a teoria e a prática do processo de
ensino no seu conjunto, integrando as contribuições de outras ciências da educação.
As didáticas específicas têm como objeto as peculiaridades do processo de ensino em
cada uma das disciplinas escolares, no que se refere a objetivos, conteúdos,
métodos, formas de organização do ensino, conforme os vários níveis de
escolarização. A prática de ensino, incluindo o estágio, é o processo e o resultado da
formação profissional propiciada pela didática e pelas didáticas específicas, pelo
projeto pedagógico e curricular do curso de formação.
Eu sei que não há novidade nessa concepção, mas as coisas continuam não
funcionando assim. Ainda perdura nas universidades a idéia de que a formação de
professores depende apenas da posse dos saberes disciplinares. Ou seja, persiste a
velha fórmula: para ensinar física, basta você saber física. Sabemos que esta
afirmação em parte é verdadeira, a didática diz respeito ao ensino de uma disciplina.
Alguém já disse que a didática é uma espécie de transdisciplinaridade das didáticas
específicas. É uma idéia boa. Mas é boa se os especialistas no ensino de disciplinas
específicas admitirem que a didática não é mera metodologia, formas de aprender,
formas de ensinar. Metodologia é uma parte da didática , não é toda a didática. E o
que é a didática? É a teoria e prática do ensino, é o estudo dos processos de ensino e
aprendizagem referentes a um conteúdo específico. A didática estuda as condições e
os modos do ato de ensinar que favorecem e tornam eficaz o ato de aprender, dentro
de determinados contextos situacionais, políticos, culturais etc. Entendo que a
didática é um prolongamento natural da pedagogia, pois especifica os problemas
educativos num quadro estritamente disciplinar, já que a pedagogia não se restringe
ao âmbito escolar.

2 - PROBLEMAS MAIS RECORRENTES DO CAMPO CIENTÍFICO DA DIDÁTICA

A produção do conhecimento em didática tem uma história bastante rica. Bastaria
consultar os anais dos ENDIPEs anteriores e as publicações especializadas para saber
sobre suas tendências investigativas recentes (Cf., por exemplo, Oliveira, Pimenta).
Eu identifico, arbitrariamente, pelo menos cinco problemas mais recorrentes na
didática, nas duas últimas décadas: a busca da identidade epistemológica, o
intercruzamento com outras áreas do conhecimento, a relação teoria e prática na
formação profissional e no exercício docente, a integração entre a didática e as
didáticas específicas, as propostas da didática crítica.
Identidade epistemológica
Essa discussão já teve muito destaque em anos anteriores, hoje ela está
estável, embora os problemas não tenham se esgotado. Na mesma proporção em que
36
as críticas à didática feitas por colegas de outras áreas arrefeceram, houve um
aumento de publicações e uma consolidação do campo investigativo desta área.
Persiste, no entanto, a necessidade de a didática reforçar sua identidade
epistemológica dentro da seguinte lógica: construir teoria a partir da prática. Junto
com isso, é preciso investir mais no refinamento das práticas de investigação de
modo a construir um conhecimento cientificamente validado e, ao mesmo tempo,
útil aos professores. Obviamente, isso leva a uma necessidade imperiosa de ligar
didática geral e didáticas específicas.
Intercruzamento com outras áreas do conhecimento
O ensino tem sido um campo de disputas das várias áreas de conhecimento, e este é
um fato recorrente na história da pedagogia. Já tive oportunidade de tratar deste
tema outras vezes. Há a defesa de campos de trabalho, há os reducionismos. Há toda
uma história a ser contada sobre este assunto. Na Itália, por ex., um reforma
educativa implantada nos anos 20 pelo filósofo Giovanni Gentile introduziu uma
mudança em que a filosofia substituiria a pedagogia e a didática. Para ele, não havia
necessidade dos elementos técnico-científicos do ensino, nem psicologia nem
técnicas, porque para ser educador bastaria ser sábio. Quem fosse verdadeiramente
sábio, saberia ensinar. Na França, todos sabemos que durante a última metade do
séc. XIX a psicologia ocupou amplamente o espaço da didática. Foi forte, também, o
movimento vindo da França na década de 70 de sociologização da didática, ao ponto
de algumas faculdades de educação terem suprimido a didática de seu currículo.
Hoje a hegemonia acadêmica na área do ensino continua a ser fortemente disputada,
estando no páreo a sociologia crítica do currículo, a psicopedagogia, a
psicolinguística.
Eu tenho marcado posição nesse debate, argumentando que a didática é uma
disciplina de integração e síntese, dando unidade aos aportes da teoria da educação,
da psicologia, da epistemologia, da sociologia da educação. A didática é a disciplina
que ordena e estrutura teorias e práticas em função do ensino, isto é, está a serviço
do trabalho profissional do professor e, por isso, entendo que é a disciplina-chave da
profissionalidade do professor. É o instrumento, por ex., que um coordenador
pedagógico tem em mãos para exercer seu trabalho de assistência e
acompanhamento do professor na escola e na sala de aula. Para isso, ela busca
conhecimentos em outras áreas.
Recentemente, tem havido um esforço comum entre especialistas da didática
e do currículo para buscar as convergências entre um campo de conhecimento e
outro, apesar das diferenças teóricas. É de se esperar que isso ocorra com outros
campos de conhecimento.
A relação teoria-prática
Este é um tema que não saiu de cena nestas duas últimas décadas. As
contribuições teóricas recentes têm trazido mais clareza para a compreensão do
enraizamento da pesquisa nas demandas e problemas concretos da prática cotidiana
dos professores. A aproximação mais direta entre didática e formação de professores,
a partir da prática crítico-reflexiva, realça tipos de investigação que buscam saber
como os professores aprendem a ensinar no seu cotidiano de sala de aula e como
podem ser ajudados a refletir sobre sua prática e a construir sua identidade
profissional. O professor também pode produzir teoria no seu contexto de trabalho,
convertendo-se num investigador
Esse entendimento da docência como atividade teórico-prática tem
fortalecido a busca de práticas de investigação para produzir conhecimento
cientificamente validado, conforme me referi anteriormente. Nesse sentido, foi
ressuscitada em novos marcos teóricos a metodologia da investigação -ação como um
37
dos elementos da formação inicial e continuada de professores. Da mesma forma,
ressalta-se o debate entre os que propõem o ensino como pesquisa ou o ensino com
pesquisa.
A integração entre a didática e as didáticas das disciplinas
Ainda persiste a separação entre a didática geral e as disciplinas específicas e
uma tendência em algumas áreas em desenvolver a didática das disciplinas fora das
teorias do ensino. Paradoxalmente, há sensíveis esforços de conjugar a pesquisa em
didática geral e a pesquisa nas didáticas específicas na física, na química, na
matemática, mais do que em áreas como letras, geografia.
Uma coisa, tanto os didatas como os especialistas têm em comum: a didática
ocupa-se do ensino e aprendizagem de saberes. Por um lado, é verdade que cada
disciplina foi constituindo sua didática segundo sua própria história e seus métodos
específicos. Por outro, tamb ém é certo que as didáticas têm em comum os problemas
de ensino e aprendizagem que não são passíveis de ser investigados no interior de
cada disciplina. Há, pois, um campo teórico comum e esse campo é a didática geral.
É preciso reconhecer a necessidade de serem efetivadas pontes mais sólidas e
ao mesmo tempo mais flexíveis entre a didática e as disciplinas específicas, inclusive
porque isso inclui-se na exigência, hoje reconhecida, da interdisciplinaridade. Para
isso, tanto a didática quanto as didáticas precisam recorrer a três conteúdos: a
epistemologia dos saberes de cada disciplina, as condições de apropriação desses
saberes, as formas de intervenção didática.
A didática crítica
Houve um momento em que o enfoque político-sociológico se sobrepunha ao
técnico-didático, ao ponto de correr uma frase que dizia: no ensino não existem
problemas técnicos, só problemas políticos. Penso ter sido um avanço no âmbito da
didática crítica a compreensão de que um ensino crítico não é meramente a
reprodução de um conteúdo abordado criticamente. O ensino crítico supõe ajudar os
alunos a formarem um pensamento crítico mediante processos específicos de uma
teoria do ensino e de uma teoria da aprendizagem. Em outras palavras, a postulação
de uma educação crítica pressupõe o desenvolvimento de capacidades cognitivas e
operativas por meio da assimilação ativa de conteúdos escolares. O que significa
entender o papel da escola como o de proporcionar aos alunos os conhecimentos
científicos necessários para a vida, mediante um processo pessoal de investigação e
de atribuição de sentido aos conhecimentos que internaliza.

3. A EMERGÊNCIA DE NOVOS TEMAS NO CAMPO CONCEITUAL E INVESTIGATIVO DA
DIDATICA

Conforme mencionei no início, as mudanças sociais recentes afetam a escola
e, em conseqüência, a formação de professores, levando a uma reconfiguração do
conteúdo da didática. As transformações que estão ocorrendo na produção, no
trabalho, na comunicação e na informação, forçam uma revisão do papel da escola. A
inserção no trabalho e o exercício da cidadania participativa requer sujeitos
autônomos, criativos, capazes de pensar com sua própria cabeça. Destaca-se,
portanto, o investimento na formação de sujeitos pensantes (formação do pensar, de
atitudes, de valores, de habilidades) implicando estratégias interdisciplinares de
ensino para desenvolver competências do pensar e do pensar sobre o pensar.
Ora, o ensino tem a ver, basicamente, com os modos de ajudar a
aprendizagem, com as condições e modos mediante os quais se assegura a relação
ativa do aluno com a matéria, com a ajuda pedagógica do professor. Vejamos alguns
desses temas que estariam reconfigurando o campo teórico e investigativo da
didática.
38
O aluno como sujeito do conhecimento e a aprendizagem do pensar
Já não é novidade para ninguém o primeiro mandamento construtivista: o
aluno é sujeito do seu próprio conhecimento. O papel ativo do sujeito na
aprendizagem, a consideração das noções que os alunos já trazem, a colocação de
situações-problema, o provimento de oportunidades para os alunos fazerem suas
próprias tentativas, de cometerem erros, de experimentarem, são características da
didática construtivista que já estão bastante difundidas.
Atualmente há muita gente falando em sujeito epistêmico. A expressão é um
tanto polêmica, mas agora interessa saber seu conteúdo. A idéia de sujeito
epistêmico é a idéia de que todas as pessoas constróem conhecimentos no esforço de
compreender a realidade. Mas se o saber é uma construção, é também uma
aprendizagem. Para tanto, o aluno precisa aprender competências, desenvolver
métodos de trabalho, meios do pensar.
Alguns autores têm chamado isso de aprender a aprender, significando o
domínio de habilidades cognitivas do aprender ativo. A questão, do ponto de vista da
didática, é saber que experiências de aprendizagem possibilitam mais qualidade
cognitiva no processo de construção e reconstrução de conceitos, procedimentos e
valores. Em outros termos: que recursos intelectuais, que estratégias de
aprendizagem, podem ajudar os alunos a tirar proveito do seu potencial de
pensamento e tomarem consciência de seus próprios processos mentais. A aposta,
aqui, é de ensinar a pensar através de uma metodologia direta e sistemática.
A didática tem nisso um papel crucial. Ela forma professores pensantes. Se o
professor tem a tarefa de ajudar o aluno a aprender a pensar, o programa e
metodologia da didática precisam investir na ajuda aos futuros professores para
aprenderem a pensar, a desenvolverem capacidades de pensamento. Isso significa
ajudar os professores a formarem esquemas mentais de interpretação da realidade,
eu chamaria isso de saber lidar praticamente com conceitos, aprender a argumentar,
a raciocinar logicamente, concatenar idéias. O problema didático é saber como
simultaneamente ao processo de construção de conceitos o aluno constrói também
seu próprio referencial cognitivo (desenvolve seu potencial de pensamento); e de
como, utilizando esse potencial, adquire uma ferramenta indispensável à formação
de conceitos.
Um tema conexo ao ensino do pensar, é a interdisciplinaridade. A maioria das
escolas organizam seus currículos em torno de disciplinas, mas o problema não é
esse. Os problemas são, pelo menos, dois. O primeiro, é o isolamento das disciplinas
entre si, cada uma lida com o conhecimento de forma estanque, fechada,
fragmentada. O segundo problema é o de reduzir o ensino à exposição oral dos
conteúdos factuais e ao material informativo do livro didático, sem considerar o
processo de investigação, os modos de pensar a que as disciplinas recorrem, a
funcionalidade desses conteúdos para a análise de problemas e situações concretas e
para a vida prática.
O trabalho isolado de cada disciplina não possibilita a intercomunicação de
saberes, não favorece a ampliação da capacidade de argumentação, limita a
abordagem de problemas concretos, dificulta a transversalidade de outros saberes
que não o disciplinar. A interdisciplinaridade propicia o dialogo entre os saberes, a
analise mais globalizada dos objetos de conhecimento, a cooperação de várias
disciplinas para estudo de problemas sociais práticos, a introdução no estudo dos
temas dos aspectos ético-culturais.
É preciso reconhecer, no entanto, que a disciplinaridade é um passo
necessário à interdisciplinaridade. Sabemos das limitações da lógica disciplinar: trata
39
os conhecimentos de forma estanque, fragmenta o conhecimento, desvaloriza a
cultura popular e a cultura paralela. Todavia, o combate à fragmentação não retira o
valor intrínseco da visão especifica de cada disciplina, as disciplinas são o ponto de
apoio para o trabalho interdisciplinar.
Penso que a atitude interdisciplinar consiste em transitar do geral ao
particular e deste ao geral, do conhecimento integrado ao especializado e deste ao
integrado, do território da disciplina às suas fronteiras e vice-versa. A partir desse
entendimento, a inovação curricular apostaria, num primeiro estágio, em mudanças
no interior das disciplinas.
Em síntese, a interdisciplinaridade é busca da integração entre os saberes
tendo em vista lidar com questões e problemas concretos. Não se propõe desmontar
a estruturação do currículo por matérias ou de fundir diferentes matérias em uma
“grande” matéria. Nem se quer descartar a importância dos conteúdos e do
desenvolvimento dos processos cognitivos. Trata-se de estabelecer conexões,
convergências, pontes, relações de complementaridade, entre as disciplinas, em
função de um projeto formativo dos alunos. Isso leva à convicção de que a
abordagem interdisciplinar do currículo implica o projeto pedagógico da escola em
que todas as atividades estão articuladas de acordo com objetivos, conteúdos e
estratégias de formação do professor que se deseja: profissional competente e
cidadão.
Integração da cultura escolar com outras culturas que perpassam a escola;
Tem-se falado muito do tema da cultura e escola. A idéia é de que na escola
convivem simultaneamente diferentes culturas, que influenciam o currículo explícito
e o currículo oculto. O pedagogo espanhol Pérez Gomez fala de quatro culturas que
atravessa a escola: a cultura elaborada, que está nas disciplinas científicas; a cultura
acadêmica, que é o currículo explícito, as disciplinas escolares resultantes de uma
seleção da cultura científica; a cultura escolar, que são os comportamentos, as
rotinas que caracterizam as relações e as práticas organizativas entre os professores,
alunos, funcionários, dirigentes; a cultura social, que são os significados sociais e os
comportamentos dominantes numa comunidade, num grupo social, numa certa época
e que são passados espontaneamente como o individualismo, conformismo etc.; a
cultura dos alunos, que é a cultura social que se projeta individualmente, conforme
a história e o contexto de vida de cada um e que forma a diversidade escolar.
Acredito que haja um quinto tipo de cultura, a cultura de massa, que muitos
chamam de “escola paralela; é a cultura televisiva, os vídeos, o cinema, a imprensa,
as revistas populares, o rádio.. A escola paralela faz parte da educação informal e
não-formal que tem hoje um papel central na socialização e iniciação cultural dos
alunos, influindo poderosamente na nossa forma de ver o mundo
O desafio da didática é ajudar o aluno a interagir a cultura elaborada e a sua
cultura cotidiana, de modo que adquira instrumentos conceituais, formas do pensar e
de sentir, para interpretar a realidade e intervir nela. O professor precisa saber fazer
conexão entre essas culturas, entre a linguagem dos alunos e as mediações cognitivas
através da aula que dá, do livro didático que usa, dos seus métodos e técnicas etc.
Os professores de didática não podem ignorar mais que na escola convivem
diferentes culturas, diferentes identidades, diferentes percepções da realidade que
se cruzam na escola e que afetam os diferentes significados que se atribuem às
coisas, aos conteúdos.
A preocupação com a diferença não é novidade nem na didática nem na
psicologia. Os professores sabem que entre os alunos há diferenças e diferentes
ritmos de aprendizagem. Mas infelizmente ficou a idéia de que as diferenças
individuais levou a formas de discriminação, a distinguir bons e maus alunos em
40
decorrência de suas diferenças de inteligência, de aptidão. Hoje, abordar as
diferenças do ponto de vista psicológico significa assumir essas diferenças individuais,
aceitar que os alunos têm ritmos diferentes, aprendem de várias maneiras e que o
pedagogo e o professor precisam diversificar seus métodos, e que a heterogeneidade
não é uma coisa negativa mas uma riqueza.
Do ponto de vista sociológico, as diferenças a serem reconhecidas são as
culturais, vinculadas à origem social e cultural dos alunos. A tarefa da didática é
atender à diversidade cultural e respeitar as diferenças no contexto da escola e da
sala de aula. O professor precisa aprender a vincular o trabalho que se faz na sala de
aula com as vidas que os alunos levam fora da escola e com as diferentes
capacidades, motivações, formas de aprendizagem de cada um .
Trabalho docente como trabalho interativo, a aula como processo comunicacional.
Os processos de ensino e aprendizagem sustentam-se em formas de relação e
comunicação intencional entre o professor e os alunos. Não é novidade dizer que a
escola, a sala de aula são os espaços onde se possibilita a comunicação educativa. O
novo talvez seja a multiplicação e autonomia de meios de informação, para muito
além da escola, instituindo uma escola paralela mais poderosa que a sala de aula.
Isso significa que a aula e o livro didático deixaram de ser as únicas fontes do
conhecimento. É inquestionável o fato de que vem aumentando dia a dia a presença
dos meios de comunicação e a participação dos computadores na aprendizagem.
Assim como surgem facilidades de acessar, selecionar e processar informações. Entre
os meios de comunicação, a TV se destaca como prática educativa, intervindo na
construção da nossa subjetividade. Ela constrói uma imagem do mundo e produz
significados para o real, ela oculta processos de produção de sentido, de modo que a
atenção do telespectador mantém-se no que é mostrado e não no modo como é
apresentado.
A formação de professores precisa incluir no currículo a alfabetização
tecnológica e o conhecimento e utilização dos meios de comunicação. É preciso
preparar professores e alunos não só para utilizarem esses equipamentos, de modo
que usufruam de suas possibilidades mas, principalmente, que aprendam a fazer
intervir o conhecimento, a cultura elaborada, para atribuir significado à informação
vinda das mídias. Parece fundamental que tomemos consciência de que, quanto mais
se desenvolve a informação e a comunicação, mais competência cognitiva se requer.
As perguntas didáticas que devemos nos fazer são as seguintes: como o aluno pode
aprender a reordenar e reestruturar a informação que lhe chega fragmentada e em
mosaico pelos meios de comunicação de massa? Como trabalhar em sala de aula para
preencher as lacunas do que não foi apreendido, ensinar os alunos a estabelecer
distâncias críticas com o que é veiculado pelos meios de comunicação?
A par disso, os professores precisar aprimorar as técnicas de comunicação
docente: formas mais eficientes de expor e explicar conceitos e de organizar a
informação, de mostrar objetos ou demonstrar processos, postura corporal, controle
da voz, uso de meios de comunicação na sala de aula. Importante, também,
considerar o ambiente ou contexto físico da comunicação educativa, como é o caso
da organização do espaço da sala de aula.
O ensino de valores
Dizer que a escola transmite valores é tão banal como dizer que o aluno vai à
escola para aprender. O que as escolas precisam assumir é que devem ensinar
valores. A formação de atitudes e valores, perpassando as atividades de ensino,
adquire um peso substantivo na educação escolar, porque se a escola silencia sobre
valores, abre espaço para os valores dominantes no âmbito social. Certamente, a
todo momento, a escola, os professores, o ambiente, passam valores, como parte do
41
chamado currículo oculto. Mas é justamente por isso que o grupo de professores e
especialistas de uma escola precisa explicitar princípios norteadores para a vida
prática decorrentes de um consenso mínimo, a partir da busca de sentidos de sua
própria experiência. Não se trata, obviamente, de inculcar valores, de doutrinação
política ou religiosa, mas de propiciar aos alunos conhecimentos, estratégias e
procedimentos de pensar sobre valores e critérios de modos de decidir e agir.
Os vínculos entre a organização escolar e a sala de aula
Ainda está pouco clara para nós a ligação da didática com a organização
escolar. Mas a bibliografia internacional tem insistido nesta idéia: a escola como
unidade básica da mudança educativa e a organização escolar é, ela própria, um
elemento educativo. Dizendo de outro modo, as condições da prática do professor no
âmbito organizativo demarcam os caminhos de seu pensamento e de sua ação. É
preciso, portanto, um sistema de gestão e organização voltado para a participação
nas decisões e construção coletiva de práticas docentes. A participação coletiva é
uma exigência ligada à própria natureza da ação pedagógica. É daí que nasce a
proposta educacional ou o projeto pedagógico da escola.
O projeto pedagógico assim entendido é um ingrediente do potencial
formativo das situações de trabalho. Os profissionais (direção, coordenação,
professores, funcionários) aprendem através da organização, do ambiente de
trabalho. Por sua vez, as organizações também aprendem, mudando junto com seus
profissionais. Todos podemos aprender a fazer do exercício do trabalho um objeto de
reflexão e pesquisa. Os indivíduos e os grupos mudam mudando o próprio contexto
em que trabalham.
A ligação entre organização escolar e didática tem tudo a ver com o sistema
de estágios e com a formação inicial e continuada de professores. As propostas de
estágio, atualmente, buscam a articulação direta da formação inicial com as
demandas práticas das escolas, de modo que os critérios de elaboração do currículo
de formação inicial sejam buscados nas experiências de formação continuada, ou
seja, nos contextos de trabalho.
Teoria ancorada na prática e a busca de um referencial (não modelo) de
competências profissionais de professores
Praticamente todos os autores que escrevem sobre formação de professores
colocam como fundamento de sua proposta a articulação entre teorias e práticas. A
concepção que passam é a de que o professor desempenha uma profissão que precisa
combinar sistematicamente elementos teóricos com situações práticas. Isto é mais do
que conceber a prática de ensino e o estágio como ingrediente da atividade
formadora. Trata-se de colocar a prática como um dos aspectos centrais na formação
do professor, uma vez que esse enfoque traz conseqüências decisivas para a
formação profissional. Trata-se, então, de a formação inicial ter como referencia e
suporte a prática docente existente nas escolas; daí o nexo que se estabelece com a
formação continuada e a realidade das escolas. Em outras palavras, para atender
necessidades de formação inicial, há que se partir das exigências da realidade. O
futuro profissional constitui seu saber-fazer a partir do conhecimento do fazer
profissional, tal como se realiza na prática escolar cotidiana.
Isso quer dizer que os futuros professores estarão sempre em contato com as
escolas (e penso que deverias ser escolas boas, que apresentem algum tipo de
inovação, bons professores...) e ao mesmo tempo estudando as teorias. As matérias
devem ser ferramentas teóricas para compreender melhor os problemas da prática,
devem propiciar projetos de trabalho na sala de aula.
A par disso, é preciso retomar e redimensionar a dimensão técnico-científica
da didática. O discurso futurista, as propostas para o século XXI, a escola
42
emancipatória, a ampliação de objetivos (educação ecológica, sanitária, sexual, para
a paz, novas tecnologias, etc. tudo isso é muito importante, mas é preciso
considerar os meios e as condições, mudar as práticas internas na escola e na sala de
aula. Isso implica o saber-fazer, o planejamento, a manejo de classe, a capacidade
de segurar uma sala de aula, de proporcionar estímulos variados aos alunos,
diferentes formas de trabalho ter criatividade etc. Isso tudo são competências que
precisam ser aprendidas, e de alguma forma, ensinadas.
Não falo de um fazer repetitivo, mas de uma capacidade criadora de
enfrentar problemas, de descobrir soluções, de lidar com o imprevisto. A mudança
das práticas organizacionais e de gestão, junto com o projeto pedagógico, podem
produzir um impulsionamento dessa criatividade inovadora. Temos que mudar, mas
precisamos saber como fazer essa mudança.
Didática e reflexão dialética
No intento de uma educação crítica e democrática, cumpre recuperar as
possibilidades do pensamento dialético no plano epistêmico em função de formar não
apenas um sujeito com raciocínio autônomo mas também crítico.
Conforme mencionei anteriormente, o grande empenho da escola é o de ajudar o
aluno a atribuir significado à informação, aprender a pensar de modo a reordenar e
reestruturar a informação que chega a ele de forma fragmentada e superficial.
Entretanto, os objetivos da formação hoje pedem um cidadão participante, que saiba
interpretar a realidade e intervir nela, envolvendo-se com os problemas atuais em
relação à natureza, sociedade, política, cultura, trabalho e de sua própria vida.
Para isso, é preciso, a meu ver, associar o movimento do ensino do pensar, as
estratégias cognitivas, aprender a aprender, aprendizagem significativa etc., ao
processo de reflexão dialética de cunho crítico. Pensar é mais que explicar e para
isso a formação escolar precisa formar sujeitos pensantes, que desenvolvam
capacidades (competências?) básicas em termos de instrumentação conceitual que
lhes permitam, mais do que saber coisas, mais do que receber uma informação
disciplinar, poder colocar-se frente à realidade, apropriar-se do momento histórico
(pensar historicamente essa realidade) e reagir frente a ela (Zemelman, 1994)

43

CAPITULO VI

ALGUMAS ABORDAGENS CONTEMPORÂNEAS DE TEMAS DA EDUCAÇÃO E REPERCUSSÃO NA DIDÁTICA·- A CONTRIBUIÇÃO DA PESQUISA NO CAMPO DO CURRÍCULO ( * )

O atual momento histórico tem se caracterizado por intensas transformações
econômicas, sociais, culturais, filosóficas, nas quais incluem-se também mudanças
acentuadas nos paradigmas educacionais. Os temas que circulam no meio
educacional hoje são os mais variados: globalização, produção flexível, tecnologia,
paradigmas, colapso das utopias, qualidade de ensino, qualidade total, modernidade,
pós-modernidade, modernização, razão, des-razão, etc. O meu tema refere-se à
projeção dessas transformações na didática e, especialmente, no trabalho do
professor.
Várias mesas deste VIII Endipe estão ocupados com temais mais gerais das
políticas educacionais, do currículo, das novas tecnologias. Não vou nem posso
ignorar tais questões, mas desejo enfocar mais especificamente as questões de
ensino. É em relação ao ensino que gostaria de puxar questões como linguagem,
razão, conhecimento, poder, ideologia, diferenças, currículo, etc. Trata-se de uma
tentativa que considero muito modesta de avaliar de forma critica e seletiva alguns
conceitos das teorias pós-modernas e pós-estruturalistas, da teoria social crítica, das
teorias da linguagem e teorias cogni tivistas. Minha idéia é considerar contribuições e
benefícios de análises feitas em outros campos do conhecimento à didática, sem me
afastar das formulações básicas da pedagogia crítico-social.
Sou sempre adepto da idéia de que devemos dar um passo além da critica. A
crítica externa, especialmente a proveniente da análise sociológica é importante, a
denúncia, o debate, são fundamentais. Mas é preciso formular, também, a crítica
interna que seja acompanhada de propostas capazes de dar respostas às dificuldades
dos professores, de ajudar na investigação dos processos de construção do
conhecimento e nas formas da organização escolar. É preciso insistir sempre no
compromisso político do professor mas, mesmo tanto e para tanto, é preciso investir
no seu desenvolvimento profissional e prover-lhe as condições materiais e
intelectuais de exercício profissional competente. Nesse ponto estou inteiramente de
acordo com o autor norte-americano H. Giroux que pede aos pesquisadores de
esquerda que teorizem para as escolas e não só sobre as escolas (1994,p.129). É esse
o meu propósito.
A exposição tem, assim, o seguinte objetivo: selecionar e avaliar criticamente
as novidades do pensamento social crítico e das novas buscas de paradigmas para o
trabalho de sala de aula. Organizarei minha exposição em 3 tópicos:
1- Breves considerações sobre o pensamento crítico pós-moderno e a
pedagogia;
2- Temas significativos da contemporaneidade e sua ressonância na didática;
3- Novos desafios para a didática e para a escola.
( * ) Texto apresentado no VIII ENDIPE, Florianópolis(SC), 1996
44

1. O PENSAMENTO CRÍTICO PÓS-MODERNO E A PEDAGOGIA

Vou abordar este ponto muito brevemente, inclusive porque foi desenvolvido
bastante em outro artigo em que tratei das relações entre a pedagogia e o embate
modernidade/ pós-modernidade (Libâneo, 1995). Gostaria de colocar, de início,
algumas questões: o que caracteriza a condição pós-moderna? Estamos vivendo no
mundo contemporâneo uma ruptura de modo que o moderno é o antigo e o pósmoderno
é o novo? Mas, se ao menos podemos falar de uma condição pós-moderna,
em que grau isso afeta a pedagogia e a didática? Haverá lugar na condição pósmoderna
para um discurso pedagógico e didático? Em que a escola precisa modificarse
para enfrentar problemas e dilemas colocados pela pós-modernidade?
Meus colegas da mesa já anteciparam importantes elementos para a
compreensão disso que está sendo chamado de pós-modernidade ou teoria social pósmoderna.
Como se sabe, o termo parece ser ainda muito impreciso e instável. Mas eu
gostaria de assumir uma posição provisória para justificar minha argumentação. Para
isso, recorro à definição de pós-modernismo de H. Giroux (1993, p.46). Segundo esse
autor, há dois sentidos conjugados para o termo “pós-modernismo”: 1o.) como
posição intelectual, expressando uma forma de crítica cultural aos fundamentos do
modernismo (condição pós-moderna). 2o.) como o conjunto emergente de condições
sociais, culturais e econômicas que caracterizam a era do capitalismo e do
industrialismo global (teoria social pós-moderna). Ou seja, a condição pós-moderna
indicaria mudanças nas relações de produção, na natureza do Estado, no
desenvolvimento de novas tecnologias e seu impacto nas telecomunicações e no
sistema de informação, nas forças presentes no processo de globalização2.
Os autores que estudam o pós-modernismo do ponto de vista da educação
(Giroux , McLaren, Silva, Rouanet, entre outros) apresentam as características da
condição pós-moderna que vou aqui resumir bastante.
· mudanças em torno da produção, circulação e consumo da cultura,
implicando a critica de uma idéia ocidental, elitista, colonialista, de
cultura (envolvendo temas como racionalidade, totalidade, progresso,
lugar do indivíduo na história e na sociedade) e novas formas de crítica
cultural;
· modificações no funcionamento do capitalismo implicando a globalização,
internacionalização do capital e dos mercados, mudanças nos processos de
produção, no perfil da força de trabalho, declínio do número de
trabalhadores manuais e aumento do trabalho não-manual, aumento do
setor de serviços;
· desenvolvimento de novas formas de tecnologia e informação, ampliação
da difusão da informação, aparição de aparatos culturais de produção de
informações e símbolos, colapso da divisão entre realidade e imagem, arte
e vida;
· redução do peso da política, onde o fatalismo substituiria a luta, junto
com a emergência de novos movimentos e atores sociais; implicando a
2 As interpretações do pós-modernismo a partir do campo educacional têm várias procedências. Optei, na
maior parte das vezes, por autores ligados à teoria educacional crítica norte-americana que têm recebido
maior divulgação no Brasil.
É oportuno, no entanto, apresentar as “metanarrativas” que, de acordo com Lyotard, marcaram a
modernidade: “emancipação progressiva da razão e da liberdade, emancipação progressiva ou catastrófica
do trabalho (fonte do valor alienado no capitalismo), enriquecimento da humanidade inteira através dos
progressos da tecnociência capitalista, e até, se considerando o próprio cristianismo na modernidade
(opondo-se, neste caso, ao classicismo antigo), salvação das criaturas através da conversão das almas à
narrativa crística do amor mártir”(Lyotard, 1993,p.31).
45
afirmação de novos sujeitos sociais, novas identidades sociais
(multiculturalismo, diversidade cultural);
· mudanças nos paradigmas da produção do conhecimento;
São evidentes as transformações com as quais estamos convivendo na
realidade contemporânea. Nenhum de nós pode fechar os olhos à realidade. Vivemos,
de fato, um tempo de profundas transformações em todas as esferas da vida social, e
essas transformações atingem diretamente a educação e, particularmente, o ensino.
Tem-se discutido se o termo “pós-modernidade “ é adequado ou não para
caracterizar essas transformações. Ou se há uma ruptura drástica da pósmodernidade
em relação à modernidade. Tendo a concordar com alguns autores
(Giddens, Giroux, Rouanet, por exemplo) que não se trata de uma ruptura mas de
mudanças qualitativas frente a um conjunto de condições sociais nas quais muitos
elementos da modernidade estão sendo questionados e contestados. Entre essas
mudanças qualitativas poderiam ser apontadas: intelectualização do processo
produtivo, fragmentação de culturas e identidades, conceito e formação geral,
conceito de qualidade, rejeição dos sistemas totalizantes, lugar da razão e da
consciência autônoma, relativismo ético, desconfiança na política (Libâneo, 1995).
A tese, portanto, que gostaria de sugerir é a seguinte: a condição pósmoderna
põe à educação escolar problemas e desafios muito concretos. Todavia,
considerando que a pós-modernidade é um desdobramento da modernidade, ou até,
uma efetivação de características da modernidade, trata-se de continuar postulando
certos ideais da modernidade como parte de um pensamento social crítico “no
interior das condições de existência do mundo pós-moderno, e não em oposição a
elas”(Giroux, 1993).
Do meu ponto de vista, portanto , a pedagogia e a didática não podem ficar à
margem das questões contemporâneas devido, pelo menos, às suas implicações com
a produção de conhecimentos e constituição do conhecimento escolar.

2. ALGUNS TEMAS DA TEORIA SOCIAL CRÍTICA E DO PENSAMENTO PÓS-MODERNO E SUA REPERCUSSÃO NA DIDÁTICA

Conforme mencionei no inicio, vou trabalhar com algumas posições de
teóricos da educação que se alinham a uma teoria social crítica ou a novos
paradigmas de análise da educação. Essas teorias cobrem um leque bem grande. Eu
poderia citar algumas: a teoria social crítica, a teoria social pós-moderna, o pósestruturalismo,
a sociologia do currículo, o neo-tecnicismo, as teorias da linguagem,
as teorias construtivistas, teorias cognitivas Não tenho competência para fazer
análises pontuais sobre cada uma dessas correntes. Nem terei pretensão de fazer um
mapeamento completo das questões que essas correntes colocam e discutem. O que
me proponho é selecionar para análise e crítica algumas temas daquelas correntes
que têm se destacado no discurso atual sobre educação no Brasil. A seleção desses
temas é arbitrária, certamente incompleta, decorrente de leitura de alguns textos
publicados nos últimos anos. Sei que é uma tarefa difícil, ousada, mas sinto que é
necessária, e eu queria compartilhar essa tarefa e discuti-la com os colegas.
Os temas selecionados são os seguintes:
· Valores e objetivos da educação e a crise da noção de totalidade;
· Razão e consciência individual;
· Noção de ciência e conteúdo escolar;
· Sociedade do conhecimento, novas tecnologias e qualidade da
educação;
46
· Cultura, poder e currículo;
· Educação e linguagem;
· Métodos de ensino e pesquisa;
· Aprender a aprender ou Ensinar a aprender a aprender;
· Ensino crítico e questões éticas.
Valores, objetivos da educação; a crise da noção de totalidade
Desde a constituição da pedagogia a temática dos valores, dos fins, dos
objetivos, está presente na mentalidade e na ação cotidiana dos educadores. Os
escritos pedagógicos são pródigos na explicitação de ideais orientadores da ação
educativa: por exemplo: formação da personalidade integral da criança, crença no
poder da razão, formação da consciência crítica, capacidade dos indivíduos de
organizar seu próprio destino, desenvolvimento da autonomia individual, a crença
num futuro mais feliz para a humanidade etc.
Mas para algumas teorias pós-modernistas chegou ao fim a velha preocupação
com ideais e objetivos da educação. Boa parte delas se opõem à possibilidade de
serem formuladas explicações prévias para a vida, para o destino humano, para a
educação. Tais ideais precisam ser descontruídos. É ilustrativa sobre esse ponto a
seguinte afirmação:
“Para Derrida, a filosofia ocidental tem-se caracterizado precisamente pela busca
daquele significado último das coisas, um significado que as fixaria de uma vez por
todas, que permitiria sua compreensão final, um significado que serviria de referência
para todos os outros e que estaria na sua origem. Essa corrida em busca do significado
transcendental é mais do que evidente no campo educacional. (...) Embora os
significados transcendentais sejam talvez necessários, um certo reconhecimento da
ilusão da ilusão que constitui sua busca desenfreada pode constituir uma saudável
elemento na constituição de uma teoria e uma prática mais modestas e realistas. O
abandono dos significados transncendentais - como o das metanarrativas - não deve
deixar saudades”(Silva, 1994,p.241).
Contra a idéia de uma totalidade social na qual as coisas adquiririam sentido,
argumenta-se que a realidade é fragmentária, e não permite categorias prévias para
apreendê-la. Os grandes sistemas teóricos de referência falharam, seja os ligados à
ciência, à ideologia ou religião. Portanto, não há mais pressupostos, não faz mais
sentido querer buscar os fundamentos. das coisas. Descem ladeira abaixo, o
marxismo, o budismo, o socialismo, o cristianismo etc. Por exemplo, muitos de nós
sempre acreditamos que poderíamos conhecer nossos alunos indo atras de
determinantes estruturais, econômicos, políticos, e que explicariam, ao menos em
parte, seu comportamento, suas experiências de vida, suas possibilidades cognitivas.
Não é mais assim, dizem alguns dos pós-modernos. É inútil buscar explicações
universais, elas são totalitárias. Porque elas não levam em conta a experiência
particular das pessoas, a vida cotidiana, as características locais das comunidades, a
diferença entre as pessoas.
São rejeitadas como totalitárias e terroristas “as abstrações gerais que negam
a especificidade e a particularidade da vida cotidiana, que varrem da existência o
particular e o loca, que suprimem a diferença em nome da universalização das
categorias”(Giroux,1993,p.51). Recusam-se, portanto, as visões totalizantes em favor
de projetos específicos de grupos particulares envolvendo relações de classe, raça,
gênero. Isto significa que estão colocados em cheque boa parte dos ideais que
alimentaram a história da nossa cultura e da própria pedagogia que, no fim das
contas, é fiel depositária desses ideais.
Entretanto, certas teorias sociais criticas não contestam a necessidade de
objetivos mas sugerem uma mudança de enfoque. Por exemplo, alguns autores que
47
concordam com a rejeição às visões totalizantes da realidade voltam suas
preocupações para o discurso da vida cotidiana. Escrevem Giroux & Simon:
“(...) queremos defender o argumento de que as escolas são formas sociais que
ampliam as capacidades humanas a fim de habilitar as pessoas a intervir na formação
de suas próprias subjetividades (...) Queremos argumentar a favor de uma pedagogia
crítica que leve em conta como as transações simbólicas e materiais do cotidiano
fornecem a base para se repensar a forma como as pessoas dão sentido e substância
ética às suas experiências e vozes. (...) Trata-se de um apelo para que se reconheça
que, nas escolas, os significados são produzidos pela construção de formas de poder,
experiências e identidades que precisam ser analisadas em seu sentido políticocultural
mais amplo”(1994,p.96).
Ou seja, os objetivos seriam propostos no sentido de apreender as
representações através das quais os indivíduos e os grupos dão sentido ao seu mundo.
Importa, pois, muito menos os fatores determinantes e mais os ingredientes das
culturas particulares, a história de vida, as experiências do cotidiano. Em certo
sentido, passa-se da abordagem contextual para a análise textual da escola, argüindo
como os textos constróem os contextos. Como escrevem os autores, vamos buscar os
discursos, as vozes de professores, alunos, pais, ressaltando bastante o papel da
linguagem, como veremos adiante.
Também não faltam os que repõem em outras bases uma dialética entre o
universal e o particular, colocando evidentemente em destaque o particular (que
teria sido esquecido pelos educadores). Giroux, por exemplo, que é adepto de uma
teoria crítica, pede aos educadores que prestem atenção à cultura textual, às
narrativas parciais e locais dos pequenos grupos, mas alerta que não devemos nos
privar de meios de análise para a compreensão global da dinâmica social e seu papel
na manutenção de sistemas de desigualdade e injustiça social (1993, p.64)
De modo semelhante, Kramer (1994,p.114) fala da construção de novas bases
teóricas da ação pedagógica, que têm como eixo a linguagem, que dêem conta
simultaneamente da singularidade e da totalidade da vida social.
Gostaria de fazer alguns questionamentos sobre esses temas. Se é fato que os
tempos atuais não comportam mais certezas absolutizadas, é pernicioso também que
se caia no relativismo ético, excluindo quaisquer marcos de referencia teórica,
ideológica, moral. Acontece que na atividade pedagógica, esses marcos são cruciais.
A pedagogia atua no âmbito da prática,. portanto no âmbito ético. Manacorda
(1986), referindo-se à didática, escreve que “não existe talvez atividade prática que
envolva tão profundamente o destino do homem e da sociedade como esta nossa”. Os
educadores, portanto, se põem, cotidianamente, opções sobre o destino humano dos
alunos, sobre os objetivos de sua formação, sobre o futuro da sociedade. Por causa
disso, essas responsabilidades são distintas daquelas dos sociólogos, economistas,
psicólogos, que investigam a educação, porque no caso dos pedagogos, há um
comprometimento com uma atividade prática onde se travam relações que implicam
um alto grau de intencionalidade, de decisões éticas, implicando um
comprometimento moral com a prática educativa.
Objetivos, portanto, são imprescindíveis, enquanto a humanidade necessitar
de educação. Talvez devamos abandonar utopias universalizantes, certezas absolutas
sobre as coisas. Mas algumas certezas, algumas utopias, são cruciais, especialmente
as relacionadas com as condições de existência material e espiritual da humanidade,
tais como a resistência à exploração social, à opressão, à dominação e à injustiça.
Julgo, também, de fundamental importância compreender que a educação
responde a exigências externas e contextuais de natureza social, econômica,
política, cultural que vão além das necessidades e aspirações dos indivíduos e dos
grupos particulares. Para isso, poder-se-ia, talvez, apostar na sugestão de Santos:
48
“A idéia moderna da racionalidade global da vida social e pessoal acabou por se
desintegrar numa miríade de mini-racionalidades ao serviço de uma irracionalidade
global, inabarcável e incontrolável. É possível reinventar as mini-racionalidades da
vida de modo a que elas deixem de ser partes de um todo e passem a ser totalidades
presentes em múltiplas partes. É esta a lógica de uma possível pós-modernidade de
resistência” (Santos, 1995, p.102).
A razão e o desenvolvimento da consciência individual autônoma
Um dos temas mais presentes nos pós-modernistas é a rejeição da razão
universal como critério de orientação da conduta humana. Junto com isso, vem a
desconstrução da noção de subjetividade e da possibilidade de uma consciência
individual autônoma, assim como da idéia de conscientização política, caras às
pedagogias de esquerda. Silva fala de um desalojamento do sujeito do humanismo e
sua consciência do centro do mundo social:
“A filosofia da cons ciência, firmemente assentada na suposição da existência de uma
consciência humana que seria a fonte de todo significado e de toda ação, é deslocada
em favor de uma visão que coloca em seu lugar o papel das categorizações e divisões
estabelecidas pela linguagem e pelo discurso, entendido como o conjunto dos
dispositivos linguísticos pelos quais a ‘realidade’ é definida. A autonomia do sujeito e
de sua consciência cede lugar a um mundo social constituído em anterioridade e
precedentemente àquele sujeito, na linguagem e pela linguagem”(1994,p.236).
Não é que o pensamento pós-modernista ignore a razão; o que propõe é tomála
como construção histórica, isto é, produzida em circunstâncias localizadas,
particulares. Questiona-se - como gostam de dizer os críticos pós-modernos - a idéia
ocidental de razão (eurocêntrica, masculina, branca, burguesa...). Quanto à idéia de
formação de uma consciência autônoma, crítica, questiona-se que os indivíduos
possam ser capazes de autodeterminar seu destino e pautar sua vida através da
compreensão racional das coisas. A crítica pós-moderna dirá que a subjetividade não
é inata, não nasce racional; ela é socialmente construída, “produzida numa gama de
práticas discursivas - econômicas, sociais, políticas - cujos significados são um
terreno constante de luta pelo poder”(Weeden in Giroux,1993). É a linguagem que
constrói a subjetividade do indivíduo sob formas socialmente específicas.
Argumenta-se, também, que a razão deve ser considerada junto com outras
dimensões como as afetivas, estéticas etc. Além disso, tem sido freqüente, por conta
da rejeição da razão universal, abstrata, o questionamento do próprio saber, do seu
papel formativo na escola e da própria escola como instituição anacrônica . Os
críticos dizem que não se pode investir no desenvolvimento de uma criança
pensante, racional, fora do mundo textual particular da criança, fora da esfera dos
discursos particulares (Silva,1996; Kramer,1994).
É possível acatar muitas das críticas à idéia de uma razão universal,
especialmente aquela proveniente do discurso liberal em que a razão instrumental
visa estabelecer os meios de dominação técnica do mundo natural e social. Nessas
condições, a racionalidade técnica transforma-se em dominação, por onde saber e
conhecimento tornam-se sinônimos de poder. Pode-se, por outro lado, desconfiar do
deslumbramento de alguns autores por versões do pós-modernismo das quais se
deduzem críticas fáceis à escola e ao trabalho docente. Outros autores postulam, no
entanto, recuperar a dimensão da interação humana tendo em vista uma
racionalidade não-instrumental, ou seja, uma razão crítica emancipadora. Neste
caso, trata-se de defender o racionalismo do projeto iluminista, ainda válido para o
nosso tempo.
Se é verdade que a racionalidade da modernidade produziu, em nome da
razão, injustiças, desigualdades, exclusão social, é momento de resgatar sua dívida
mediante a crítica da razão instrumental e a recuperação da razão crítica como meio
49
insubstituível do conhecer. Não se trata de promover a razão instrumental, a razão
utilitarista, pragmática, nem da difusão de um saber cristalizado, neutro, à parte dos
interesses de grupos sociais
Por outro lado, é procedente a insistência dos críticos de uma razão que
desconhece a sensibilidade. Estamos já suficientemente alertados para a relevância
da dimensão afetiva no processo do conhecimento e na organização escolar,
destacando o lado subjetivo no desenvolvimento intelectual. Os teóricos da teoria
crítico-emancipatória dizem que a razão que produz o saber tem dimensões
emocionais, afetivas, irracionais e é produzido no jogo das relações objetivas e
subjetivas que envolvem o indivíduo e a sociedade ao mesmo tempo. Mas continuo
concordando com Rouanet que diz o seguinte: “o homem não é somente um ser
pensante, e a consciência neo-moderna sabe que o homem integral é uma unidade de
razão e sensibilidade; mas se quiser conhecer, não tem outro instrumento que a
razão”(1986).
Sobre a rejeição da escola e do valor do saber sistematizado por parte dos
pós-modernos, trata-se de uma evidente falta de senso de realismo. Num país onde
grassa a ignorância, onde a pobreza convive com a globalização, onde os desníveis
sociais são gritantes, não há como descartar o espaço escolar como forma de resgatar
um pedaço da dívida social com o povo pobre. Cabe dizer, contra esta idéia, que a
escola continua sendo uma instância de promoção da auto-reflexão e do
desenvolvimento das capacidades intelectuais e operativas, necessária à formação da
razão crítica. Longe de mim dizer que é a única, mas insisto em dizer continua que
sendo indispensável.
A noção de ciência e os conteúdos escolares
Conforme o pensamento pós-moderno, o modelo de racionalidade científica
desenvolvido nos princípios do séc. XVI (Descartes, Bacon...) que serviu de suporte a
áreas do conhecimento como a física, a química, a história,. teria se esgotado. Mais
que isso, como vimos, são rejeitados os grandes temas à sombra dos quais se
desenvolveu a racionalidade científica moderna - a razão, o sujeito, o progresso - não
se aceitando qualquer pensamento a priori para explicar e compreender a realidade.
Com efeito, o pensamento pós-moderno está associado a uma ruptura epistemológica
em que o sujeito e a razão não são tomados a priori, mas derivados da existência.
Veiga-Neto escreve sobre isso:
“O elemento que assume a radicalidade é o tempo, de modo que o a priori se desloca
para a história. Seria, então, dos arranjos históricos que engendraram o pensamento
de uma época que teriam se derivado as idéias iluministas de suijeito, razão,
totalidade, liberdade. Agora, esses conceitos passam a ser vistos não mais como
transcendentais, mas como constructos de um pensamento que tem origem localizada
e datada: o homem europeu, branco, colonizador, dominador, machista”(1995,p.12).
Por mais vã que possa parecer a idéia de uma total recusa de referenciais do
nosso pensar e do nosso agir, o fato é que o pós-modernismo tem uma desconfiança
da ciência, ao menos com a ciência consolidada, das aplicações técnicas do
conhecimento e da possibilidade da objetividade do conhecimento. Se essa atitude
não implica o abandono da racionalidade, certamentre representa uma resistência ao
saber sistematizado em favor de conhecimentos que emerjam de culturas
particulares. Recorro novamente a Veiga-Neto para esclarecer melhor essa questão:
“...ainda que não abandone as grandes categorias iluministas - o Sujeito, a Razão, a
Totalidade, o Progresso, etc. - o pós-mdoerno não se despede da racionalidade mas,
antes, a subordina a um a priori histórico e, assim fazendo, desloca a razão da
transcendência para a contingência. Ora, ao fazer esse deslocamento, o pós-moderno
não filosofa sobre o mundo concreto, isto é, não parte do pensamento para entender o
mundo. O que ele tenta fazer, então , é edificar um pensamento a partir do mundo ou
daquilo que entendemos como sendo o mundo”(Idem, p.14).
50
Como se vê, tanto quanto se recusam as ideologias e os grandes sistemas
teóricos prévios, também são colocados em segundo plano os conhecimentos
sistematizados, em nome da contestação do caráter absolutizado da ciência
moderna. A ordem, agora, é problematizar o mundo, no sentido de analisar como os
discursos e as práticas se constituem.
A meu ver, não se trata de postular aos resultados da ciência um caráter de
verdade absoluta. Certamente, há razões para não se conceder à ciência e ao
cientifico aquele tom de inquestionabilidade e o pensamento pós-moderno e a
sociologia do currículo têm razão nesse sentido, inclusive por re-acentuar os vínculos
entre o saber e o poder. Mas isso não pode levar à recusa de toda ciência e dos
conteúdos científicos do currículo escolar em favor de uma crença ingênua na
experiência empírica ou nas manifestações do cotidiano. É possivel um equilíbrio
crítico entre a ciência e a experiência, entre a ciência e o bom senso.
Nesse sentido a resistência à ênfase que algumas correntes pedagógicas
atribuem aos conteúdos escolares é inconsequente. É comum, inclusive, aparecerem
críticas apressadas à pedagogia crítico-social que nada têm a ver com a formulação
de seus autores. Kramer, por exemplo, escreve que as abordagens da chamada
pedagogia crítica, “dicotomizando os processos pedagógicos em tradicional ou novo,
priorizando conteúdos sobre métodos ou vice-versa e, ainda, separando a dimensão
política da técnica, (...) terminam por fragmentar o ato
pedagógico...”(Kramer,1994,p.109). Para quem, conhece a produção sobre a
pedagogia crítico-social, tal crítica não tem nenhum fundamento. Aliás, ninguém que
esteja pensando seriamente na questão dos conteúdos os tomaria como estáticos,
dados, definitivos. A concepção crítica do processo de conhecimento nos ajudou a
entender que os saberes não são verdades absolutas, pois são socialmente
construídos. Afirma a interveniência do sujeito na produção do conhecimento
acentuando, portanto, o caráter ativo da aprendizagem e da não neutralidade do
sujeito perante o processo de compreensão da realidade social. E mais: o
conhecimento está ligado, direta ou indiretamente, às condições práticas de
existência dos indivíduos, implicando a totalidade social.
Essas considerações põem de pronto que o ensino dos conteúdos escolares são
antecedidos por determinantes do contexto econômico, social, cultural. Ou seja, o
conhecimento não é algo dado e acabado, mas um produto bem determinado,
situado dentro de relações sociais bem específicas e orientado de modo consciente
ou inconsciente por uma dada concepção de mundo.
Além disso, há anos tem sido desenvolvida a idéia de que os conteúdos
escolares não se reduzem aos conhecimentos sistematizados. Em meu livro Didática,
publicado pela primeira vez em 1990, explito meu entendimento sobre os conteúdos
escolares:
“São os conhecimentos sistematizados, selecionados das bases das ciências e dos
modos de ação acumulados pela experiência social da humanidade e organizados para
serem ensinados na escola; são habilidades e hábitos, vinculados aos conhecimentos,
incluindo métodos e procedimentos de aprendizagem e de estudo; são atitudes e
convicções envolvendo modos de agir, de sentir e de enfrentar o mundo. Ta is
elementos dos conteúdos são inter-dependentes, um atuando sobre o outro;
entretanto, o elemento unificador são os conhecimentos
sistematizados”(Libâneo,1990,p.80).
Reafirmo, portanto, a importância do ensino de conteúdos escolares,
entendidos nesse sentido ampliado, abrangendo inclusive a dimensão ética. Num país
atrasado como o nosso, com uma imensa ignorância, com professores muitas vezes
semi -analfabetos, não há como negar valor ao desenvolvimento das capacidades
cognoscitivas e operativas dos alunos, através do domínio ativo dos conteúdos
escolares; alunos pensam com ciências, com matemática, com história, etc.
51
O mundo da escola é, pois, o mundo do saber: saber ciência, saber cultura,
saber experiência, saber modos de agir, saber estratégias cognitivas, saber sentir.
Mas é o mundo do conhecimento. A sala de aula, mesmo considerando as práticas de
gestão, as inovações, as relações humanas, as diferenças, o cotidiano, é lugar em
que alunos organizam-se externa e internamente para se apropriarem de
conhecimentos e modos de ação. Assmann, referindo-se à necessidade de se aliar à
crítica aos critérios mercadológicos da qualidade da educação a propostas
pedagógicas democráticas, escreve:
“Penso que devemos dar um passo além da hipocrisia de declarar-nos chocados com as
linguagens mercadol.ógicas. Os setores médios se estão tornando sumamente exigentes
quanto ao tipo de qualidade educacional que escolhem para seus filhos. (...) E o que
sobra para os filhos do povão que permenecem fora desse circuito excludente? Qual é
nossa oferta ‘tão melhor’ para eles, depois do prolongado xingatório das
características ideológicas reprodutivistas da escola? Estamos em condições de propor
algo humanamente mais rico e socialmente mais promissor do que a melhoria
qualitativa dos serviços educacionais dentro do esquema de atendimento a clientelas
com suficiente poder aquisitivo? Sabemos pensar, publica e democraticamente, os
espaços educacionais mantendo em alto, de forma coincidente e simultânea, as
bandeiras da ação históricamente eficaz e da humanização emancipadora dos
processos de aprendizagem?”(1995,p.4).
É claro que consideramos cada aluno singularmente, claro que partimos das
suas condições de origem social, que buscamos captar os sentidos que dão aos
assuntos estudados, etc. Mas quando vamos analisar a educação como produto, isto
é, quando vamos verificar se podemos chamar este aluno de um “aluno educado”
capaz de enfrentar os dilemas e situações do mundo, seja esse aluno homem,
mulher, rico ou pobre, branco, negro, gay ou desempregado, queremos saber qual é
o desempenho desse aluno em relação aos conteúdos escolares. Queremos saber se
desenvolveram suas capacidades cognoscitivas, estratégias de aprendizagem,
habilidades de pensamento, categorias de análise do real.
Se for assim, então mantém-se sumamente relevante a intervenção
pedagógico-didática. Porque a didática propõe-se prover aos alunos as melhores
condições de aprender com êxito.
Sociedade do conhecimento, novas tecnologias e qualidade da educação
Tem havido uma certa identificação do termo sociedade do conhecimento
com uma das características do mundo contemporâneo de geração de novos
conhecimentos através do desenvolvimento científico e inovação tecnológica. Os
produtos da tecnologia aparecem não só como meios de consumo, influindo
poderosamente na educação informal, como também como meios de produção,
levando mudanças qualitativas nos processos educativos de tipo formal e não -formal.
Com efeito, análises do impacto das transformações na produção na educação (por
ex. Paiva, 1993) apontam para uma intelectualização do processo produtivo e,
portanto, para uma modificação do perfil do trabalhadores. Seria esperado destes um
alto nível de escolaridade formal pautado no desenvolvimento de capacidades
intelectuais, de abstração, de rapidez de raciocínio, de visão global do processo de
trabalho. As propostas de educação influenciadas pela ênfase nas novas tecnologias,
por sua vez, teriam como objetivo desenvolver competências cognitivas e
operacionais através de uma nova racionalidade nos processos de aprendizagem
baseada na informática. Surgiria daí o paradigma da qualidade em que o
conhecimento implicaria mais o saber fazer mais do que o saber, ou seja, o pensar
eficientemente seria uma questão de “saber como se faz algo”. Isso implicaria, mais
do que o conhecimento de fatos específicos, “o de regras de atuação de tipo geral,
potencialmente úteis em situações diversas e o (conhecimento) de situações em que
tais regras são aplicáveis”(Tapia, 1988). Essa tendência, reconhecida mais
propriamente como neotecnicista, estaria anunciando a era da sociedade do
52
conhecimento, instaurando-se novos paradigmas e novas práticas educacionais onde
não haveria mais lugar para a escola convencional
Nessa mesma linha de raciocínio estaria uma tese pós-modernista da crise do
conceito de formação geral. A criança de hoje, digamos, a criança pós-moderna,
estaria envolvida num mundo técnico-informacional, alimentando-se de imagens e
textos, tornando inútil a idéia iluminista de educação integral e, portanto, todo o
ideário pedagógico da formação humana (Market, 1986,p.313).
É indubitável o impacto do desenvolvimento tecnológico atual na vida social e
em particular nos processos de formação das pessoas. Mas é uma atitude apressada
concluir daí que a instituição escolar estaria incapacitada a ser agente de produção
de conhecimento por estar despreparada para atender as exigências do mundo atual
ou, ao menos, para utilizar as tecnologias da informação. A democratização da
sociedade supõe a educação básica como necessidade imperativa de proporcionar às
crianças e jovens os meios cognitivos e operacionais que atendam tanto as
necessidades pessoais como as econômicas e sociais. A própria utilização dos meios
de comunicação e da informática implicam processos organizados de ensino e
aprendizagem propiciados pela escola.
Não há, pois, uma crise da noção de formação geral; há, sim, um contexto
concreto de transformações sociais, econômicas, políticas, que tendem a privar a
humanidade de perspectivas humanizadoras de existência individual e social. Contra
o relativismo ético, contra a exclusão social da maioria, afirma-se que a formação
geral é indispensável para desenvolver nos jovens capacidades cognitivas e afetivas
para poderem expressar -se e compreender diferentes contextos da realidade.
Por outro lado, é inevitável que as novas tecnologias (computadores,
periféricos, CD ROM, videotexto, TV a cabo, etc.) comporão cada vez mais o
ambiente escolar, implicando mudanças na didática e nas metodologias de ensino,
uma vez que tornar-se-ão aliadas dos processos cognitivos. Da mesma forma, novos
paradigmas cognitivos certamente repercutem nas concepções e práticas de ensino,
destacando-se o peso que passam a ganhar o desenvolvimento de habilidades
intelectuais, das estratégias de aprendizagem, do aprender a aprender. Voltaremos a
essas questões mais adiante.
O que é importante acentuar, além da articulação entre as Novas Tecnologias
e o ensino, é a necessidade de se ir mais adiante do que as análises generalistas de
certas tendências do pensamento crítico pós-moderno e de setores da esquerda
acerca da qualidade da escola e do ensino. Assmann é bastante incisivo sobre isso:
“As posições extremas constumam ter fãs assegurados, porque estranhamente muita
gente se sente cômoda usando viseiras que as dispensam do esforço de olhar em volta.
De modo que não é fácil navegar serenamente por entre os dois escolhos, o do
deslumbramento ingênuo e acrítico diante da retórica sobre a qualidade, por uma
parte, e o da execração ideológica e do rechaço paralisador, pela outra. (...) Se
queremos, de fato, questionar determinados aspectos da onda qualidade (...) é preciso
deslocar o debate prioritariamente para a reflexão sobre as relações comunicativas e
as formas bio-organizativas mediante as quais surge e se estrutura o conhecimento nas
corporeidades vivas de docentes e alunos. (...) Se todas as demais condições
necessárias melhorarem, mas os alunos não aprenderam mais e melhor, não há
melhoria na qualidade da educação”(1995,p.2).
O mesmo autor, recolocando a questão da qualidade da educação, recusa a
idéia de uma qualidade baseada na lógica do mercado e propõe que se dê mais
atenção às experiências de aprendizagem “que façam com que os seres humanos
possam andar de cabeça erguida lutando por sua dignidade numa sociedade onde
caibam todos”(Idem,p.4).
Cultura, poder e currículo
53
Estes temas e outros conexos como ideologia, currículo oculto, linguagem
compõe a terminologia da teoria crítica do currículo, que é uma abordagem
sociológica, uma sociologia do currículo. Ela representa uma linha de estudos na
educação que tem sido denominada nos Estados Unidos de pedagogia crítica, que
aliás forma um movimento muito vigoroso, com extensões em várias partes do
mundo. Os autores dessa orientação opõem-se às chamadas teorias do consenso,
especialmente o funcionalismo estrutural, não são muito simpáticos ao Estado e às
formas de planejamento estatal e defendem que os conflitos, as discordâncias, são
condições para a mudança social. As fontes de elaboração da sociologia do currículo
são: neomarxismo, teoria critica da Escola de Frankfurt, teorias da reprodução, Nova
sociologia da educação, psicanálise, fenomenologia, etnometodologia, interacionismo
simbólico (Moreira & Silva, 1994,p.14).
A sociologia do currículo acentua os fatores sociais e culturais na construção
do conhecimento. Não no sentido de buscar elementos determinantes mas de fazer
uma analise de sentido dos fatos, de construção de sentidos. Quando se pensa em
currículo, pensa-se como são construídos os saberes escolares, pensa-se em analisar o
saber particular daquele grupo de alunos, porque ele expressa certas maneiras de
agir, de sentir, falar e ver o mundo. Ou seja,. são essas práticas discursivas que
constróem os sujeitos em relação com as questões do poder (Idem, p.22). As
perguntas a serem feitas nessa linha seriam do tipo seguinte: “Como é que o discurso
se relaciona com a construção e a subjugação da humanidade?” Como se relacionam
conhecimento e poder? “Quais são as relações de classe, etnia, gênero, que fazem
com que o currículo seja o que é e que produza os efeitos que produz?”(Idem, p.30).
Talvez o aspecto mais nuclear dos estudos dessa corrente esteja no porquê
das formas de organização do conhecimento escolar. Ou seja, preocupa-se em
contextualizar as propostas de currículo e, ao mesmo tempo, em propor um currículo
comprometido com a emancipação humana. Segundo análises de alguns autores, a
sociologia do currículo pode ser olhada, ao menos, através de três temas: ideologia,
cultura e poder (Idem, p.20 ).
A idéia é de que a ideologia atua nos conteúdos e nas práticas escolares. A
questão posta pela investigação é “aprender sobre as formas pelas quais o
conhecimento transmutado em currículo escolar atua para produzir identidades
individuais e sociais no interior das instituições educacionais”.
A cultura é vista como terreno de produção cultural e de política cultural. Na
visão da Sociologia critica não há uma cultura unitária, homogênea; a cultura é um
terreno conflitante donde enfrentam-se diferentes concepções de vida social. O
currículo, nesse sentido, nada tem a ver com a organização de matérias cujo
conteúdo deve ser absorvido mas um terreno de luta e contestação, em que se criará
e produzirá cultura.
O currículo também está imerso em relações de poder (envolvendo relações
de classe, etnia, gênero). Mas ele próprio também constitui relações de poder. É
preciso descobrir as relações de poder não só o poder das pessoas, da legislação, mas
naquelas relações “inscritas” nas rotinas e rituais institucionais e cotidianos.
Entre os temas da sociologia do currículo destaca-se o das relações entre
linguagem e poder. Essa corrente valoriza bastante a análise dos discursos,
especialmente aqueles que, embora invisíveis, acabam por configurar realidades.
Essa análise procura situar o currículo nos discursos de dominantes e subordinados e
ver como esses discursos expressam práticas. Nesse sentido, o professor na sala de
aula pode usar seu discurso como forma de redução ou de fortalecimento do poder
dos estudantes; pode acatar ou rejeitar as vozes e experiências dos estudantes. A
questão da efetivação de um currículo democrático é: como é que você pode
54
fortalecer o poder dos estudantes? Qual é o sentido que os atores escolares (alunos,
pais, professores) atribuem à realidade? (Giroux,1994).
Dentro, ainda, do tema da cultura, destaca-se o da diversidade cultural. A
problematização da diferença no âmbito da esfera cultural é feita tanto pelos pósmodernistas
quanto pelos adeptos da teori a social crítica. Na prática, esse tema faz
ressaltar a dimensão da subjetividade e a emergência de novos movimentos sociais e
novos sujeitos sociais que afirmam sua identidade: crianças, mulheres, negros,
homossexuais e outros. Quando se pensa num currículo, é preciso começar captando
as “significações” que estes sujeitos fazem de si mesmos e dos outros num texto
cultural.
Trata-se de captar o mundo subjetivo de professores e alunos. Pode-se dizer
que estamos frente a uma transição do peso do social para o do cultural e do cultural
para o subjetivo. A idéia de uma analise textual é ver, não só a organização dos
discursos no tempo, (Giroux,1994), mas como os discursos construíram e
reconstruíram as vidas das pessoas e as realidades sociais.
A idéia de diferença está, portanto, conectada com a de valorização das
subjetividades, vale dizer, a vivência, a experiência seja de professores seja de
alunos. Isso leva a uma prática de ouvir as experiências e as vozes dos atores
educativos: alunos, professores, pais. (Nóvoa, p.9). Na prática, o discurso da
diferença e da pluralidade constitui o tema do multiculturalismo, de uma educação
multicultural. Na esfera dos sistemas de ensino, leva à políticas de integração de
minorias sociais, étnicas e culturais ao processo de escolarização. Na esfera da escola
e do currículo, ao acolhimento da diversidade, das diferenças, à diversificação da
cultura escolar, a um currículo multicultural.
A relação entre ensino e cotidiano, currículo e cotidiano, linguagem e
cotidiano tem aparecido em pesquisas de variada orientação teórica. Obviamente a
ênfase nesse tema tem a ver com aquela transição do social para o cultural,
conforme mencionei antes. É bem ilustrativa esta declaração de Giroux:
“...é imperioso que se criem métodos de análise que não partam do pressuposto de
que as experiências vividas podem ser automaticamente inferidas a partir de
determinações estruturais. (...) Uma política cultural requer o desenvolvimento de
uma pedagogia atenta às histórias, aos sonhos, e à experiências que os alunos trazem à
escola (...) começando por essas formas subjetivas , os educadores poderão
desenvolver uma linguagem e um conjunto de práticas que confirmem, acolham e
desafiem formas contraditórias de capital cultural”(Giroux, p. 147).
É nestes termos que Giroux fala da interação entre a pedagogia crítica e a
cultura popular, esta entendida não apenas a cultura mais típica do povo mas
envolvendo, também, a televisão, as revistas, e todos os meios eletrônicos ou não de
constituição de identidades individuais. Ele toma a cultura popular como um terreno
fértil de imagens, formas de conhecimento e investimentos afetivos que definem as
bases para se dar oportunidade, numa situação pedagógica, à “voz” de cada um
(Idem, p.93)
Nisto se basearia o ensinar e o aprender numa pedagogia crítica. Ou seja, um
ensino que parte da realidade concreta da diferença e da vida cotidiana como base
para se levantar questões de teoria e prática. Proclama, pois, a experiência da
diferença vivida, sua crítica e suas possibilidades. Ou como escreve Giroux: “A
pedagogia radical é uma pedagogia que problematiza constantemente o modo como
professores e alunos adquirem conhecimentos no âmbito de formas culturais mais
amplas e nos intercâmbios quer marcam a vida na sala de aula”. E ainda,
“Os professores precisam encontrar meios de criar espaço para um
mutuo engajamento das diferenças vividas, que não exija o silenciar de uma
55
multiplicidade de vozes por um único discurso dominante e que recusem as formas
de sexismo, racismo e exploração de classes.(Idem, p.50)
Na mesma linha Moreira escreve que os professores precisam ser ajudados “a
perceber como diferentes vozes podem ser constituídas em meio a relações
pedagógicas específicas que acolham e critiquem seus significados, suas histórias e
suas experiências.”(Moreira,1994,).
Os pontos levantados até aqui mostram que a sociologia do currículo oferece
alguns benefícios relevantes à didática. Esse ramo da sociologia crítica tem méritos
que precisam ser destacados: é afirmativa, pois ao mesmo tempo que denuncia o
papel da escola como reprodução da estrutura social, também quer construir uma
escola para os oprimidos. Quer fundir a linguagem da crítica com a linguagem da
possibilidade; sustenta a importância da ação dos sujeitos; os temas da ideologia, da
cultura, do poder, ainda que não sejam temas novos no discurso pedagógico de
conotação marxista, trazem também contribuições valiosas aos professores. Há,
todavia, algumas questões que eu gostaria de apontar.
(1) Basicamente a pedagogia crítico-social concorda em que o papel da
escola, do ensino, é fortalecer o poder individual e social dos alunos, especialmente
dos mais subordinados pelo sistema (Moreira, 1994,p.13). Mas convém reconhecer
que abrir espaço aos saberes e experiências do estudante não é coisa nova na
didática crítica. Sempre há um risco de as tentativas de atualizar o discurso
pedagógico repetirem idéias já consolidadas com outro palavreado, no contexto de
falas de autores de outras culturas e realidades. Eu, mesmo, escrevia:
“...o processo de transmissão/assimilação se dá pela relação dialética entre os
conteúdos culturais sistematizados e a experiência social concreta trazida pelo aluno.
Em outras palavras, trabalhar com os conteúdos culturais historicamente situados,
portanto, vivos e dinâmicos, implica partir da prática social concreta dos alunos,
reinterpretá-la e ordená-la junto com o aluno e, assim, chegar às nioções claras e
sistematizadas propiciadas pelo conhecimento científico”(Libâneo, 1985,p.71).
(2) É muito positiva a superação, por parte da sociologia crítica, da visão
reprodutivista. Giroux, por exemplo, não ignora o risco de dominação existente nas
relações entre conhecimento e poder, mas acentua o papel também determinante da
escolarização (1994,p.134). Com isso, ajuda aos educadores de esquerda a uma
atitude mais incisiva na intervenção pedagógica na escola. Entretanto, esta corrente
não facilita muito as coisas para os professores. Na verdade, o viés sociológico faz
com que o trabalho docente fique desvinculado de preocupações mais pontuais com
questões de aprendizagem, desenvolvimento, processos cognitivos. A sociologia do
currículo - Giroux por ex.(Idem,133), critica bastante a psicologia comportamental e
a cognitiva, por conta de que estariam demasiadamente voltadas para questões mais
imediatas, mais práticas, mais metodológicas. Por isso os projetos de formação de
professores estariam descuidando da ênfase na analise das relações de poder, da
ideologia, da cultura e de como isso produz determinadas experiências e práticas aos
estudantes.
Eu não posso concordar com uma posição que descarta a didática e a
psicologia no processo de ensino e aprendizagem. Aceito que o currículo é espaço de
produção de cultura, é luta. Mas não vejo como dispensar uma mediação cognitiva, a
atenção aos processos cognitivos internos. Ao se perguntar sobre como fortalecer o
poder dos estudantes, não se põem aí exigências de natureza cognitiva? Como é que
a escola e o conhecimento ajudam a desenvolver a autonomia dos sujeitos senão por
processos mediadores que implicam a ajuda cognitiva ao aluno?
Além disso, não fica suficientemente esclarecido nessa proposta a forma pela
qual os professores transformam as análises dos fundamentos sociais e culturais do
currículo em práticas de sala de aula nas suas matérias. Eu sei que os professores
56
precisam compreender as formas de como o conhecimento escolar se constitui e em
que grau as relações sociais na sala de aula estão impregnadas de relações de poder.
Mas, daí, como se realiza o trabalho efetivo de ensino? Qual é a contribuição desses
autores sobre as condições de provimento de melhores situações de aprendizagens,
de recursos eficazes de promoção de aprendizagens mais sólidas e duradouras pelos
alunos?
(3) Outra contribuição que pode ser aceita é a que sugere maior flexibilização
de nossa concepção de educação crítica. Nossa reflexão educacional herdou do
iluminismo a idéia da universalidade. Sempre acreditamos em valores universais,
destinos universais, explicações universais, globalizastes. Dentro do marxismo, a
explicação do desenvolvimento histórico estaria centrada num raciocínio social. Ou
seja, o primado da historia é dinâmica das relações sociais, e isto explicaria as
diferenças culturais, étnicas e até de gênero. Hoje não se põe o primado exclusivo do
social como determinante, e que as praticas culturais não se organizam
necessariamente segundo divisões sociais previas a partir da luta de classes,
intervindo outras contradições de raça, gênero.
(4) Quanto ao tema das relações de poder, minha tradição de investigação
sobre educação escolar me diz: equipando meu alunos de conhecimentos e recursos
cognitivos ajudo-os a desenvolver mais poder. Em resumo: conhecimento é poder. O
discurso contemporâneo quer inverter a frase: o poder produz conhecimento. Esta
idéia leva a alguns desdobramentos para a prática escolar. O discurso pósestruturalista
reedita a idéia libertária de relações organizacionais que diz: abaixo
todo o poder. Abaixo as relações assimétricas entre direção e professores, entre
professores, entre professores e alunos. Esta tendência já foi bastante forte na
década de 80, refluiu um pouco nos últimos anos e agora volta revigorada, inclusive
com o aval do pensamento social pós-moderno.
O que penso é que é preciso cautela quando se afirma a prevalência de
relações simétricas de poder na relação professor-aluno. Isso significaria condenar
toda prática que implicasse intervenção. Ora, a questão é que na relação docente há
de fato uma partilha desigual de poder entre professores e alunos. O educador
realmente intervém no processo formativo, porque seu papel é suscitar mudanças nos
alunos a partir de uma intencionalidade educativa. É isto que justifica a ação
pedagógica. Ou seja, o professor como parceiro mais experiente, mais preparado,
pode ajudar o aluno na apropriação racional da realidade, sem que isso seja tomada
sempre como inculcação ou dominação cultural.
(5) Finalmente, há a recorrência do tema do cotidiano. Evidentemente o
cotidiano é ponto de apoio pedagógico-didático. Mas, em algumas teorias, ele é mais
do que isso, é uma referência pontual para o trabalho escolar. A meu ver, a busca do
cotidiano é importante para, a partir do experiencial, se aceder ao científico, ou
seja, trata-se de interligar o processo experiencial ao processo de aquisição do saber
cientifico.
Meu ponto de vista é o de que trabalhar com o cotidiano é lidar com um
objeto de conhecimento, é investigar o real e, portanto, implica raciocínio,
habilidades de pensamento. Por um lado, é verdade que raciocinamos e aprendemos
sem necessidade de que alguém nos ensine a pensar e aprender. Mas é verdade,
também, que sem instrução especifica poucas pessoas podem desenvolver algumas
formas dessas duas habilidades humanas. Ou seja, quem esta aprendendo precisa
tomar consciência do que está fazendo e organizar suas ações mentais para conseguir
melhores resultados. Lidar com o cotidiano, portanto, não significa ficar patinando
nele, ficar no intuitivo; é preciso aceder ao conhecimento organizado. Para isso, é
preciso considerar a aprendizagem escolar como uma atividade planejada e
57
controlada pela que pessoa que aprende o que, por sua vez, implica tarefas de
ensino, que extrapolam o quadro do mundo vivido.
Educação e Linguagem
O termo “virada lingüística” ou viragem lingüística (Linguistic turn) é a
expressão que vem sendo utilizada para identificar o impacto das abordagens
estruturalistas da .linguagem em vários campos de pesquisa. Assume-se que a
linguagem é um sistema que constrói significados mais do que reflete significados.
Nesse sentido, as coisas, os fenômenos, os acontecimentos, as idéias, as teorias,
nunca são transparentes, elas sempre ocultam o real. Há um peso na idéia de que a
linguagem, as estruturas mentais são constituintes da realidade social e por isso é
que dá um peso à cultura como tal e não apenas como algo que seria mais
fundamental, como o modo de produção, por exemplo.3
A abordagem do ensino do ponto de vista dos estudos da linguagem tem
recebido contribuições da lingüística, sociologia, antropologia, psicanálise. Tais
estudos se desenvolvem no sentido de superar os paradigmas clássicos do
conhecimento, colocando no centro de tudo a linguagem, ou melhor, o sujeito como
constituinte de seu próprio discurso em meio a outros sujeitos. De acordo com
Kramer, o rompimento com os modelos positivista e interpretativo passa pela
linguagem: “o objeto das ciências humanas é um sujeito que fala” escreve. Propõe
“que se comece a agir na escola com linguagem e na linguagem, rompendo com uma
concepção de linguagem apenas como meio de, como instrumento vazio, passando a
entendê-la e exercê-la também como expressão viva de experiências vivas, do
presente e do passado (Kramer, 1993,p. 227). E ainda, falando das teorias
educacionais:
“Tanto a visão que privile gia o produto quanto a visão que privilegia o processo têm
frequentemente reduzido o saber ao conhecimento científico, deixando de lado sua
face estética e sua face ética. Para mim, o acontecer pedagógico é prática coletiva na
qual aspectos cognitivos, afetivos, sócio-econômicos, políticos e culturais interatuam;
o acontecer pedagógico é prática que se faz pela linguagem e que faz (produz)
linguagem. (...) Só consigo pensar num professor como construtor do saber se esse
saber é visto como prenhe de cultura, se é um saber humano em que temas como os
direitos humanos, os preconceitos, o prazer, o desejo,. paixão, a imaginação, o sonho
e o processo criador têm tanta importância quanto os conehecimentos
científicos”(Kramer, 1994,p.108)
A autora vai mais longe ao dizer que a didática, mais do que uma questão
epistemológica, é uma questão cultural e de linguagem. Obviamente estamos frente
a mais uma posição reducionista acrescida de resistência ao saber sistematizado.
Cumpre reconhecer a importância da linguagem enquanto mediação das
realidades pessoais e sociais. Por um lado, essa ênfase dá mais atenção à
internalidade do trabalho escolar, frente à forte tendência de sociólogos e
historiadores da educação (entre nós) pela análise da externalidade dos processos
escolares, implicando a passagem de uma abordagem contextual; para uma análise
textual, “fornecendo novas compreensões das práticas discursivas no interior do
espaço social ocupado pelos actores educativos (Nóvoa,1996,p.2). Parece, também,
aceitável a idéia da renúncia de colocar exclusivamente na totalidade social a
explicação das questões culturais na escola. Por outro, embora integrante do discurso
pedagógico, ela não é suficiente para constituir -se em solução única para os
problemas de ensino e aprendizagem, com essa pretensão de substituir a didática e a
psicologia.
3 Aproprio-me aqui de considerações de Nóvoa sobre a “viragem linguística” em texto não publicado
sobre perspectivas atuais da História da Educação (1966).
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O que é preciso contra-argumentar é que não se pode reduzir a realidade a
discursos e às analises dos discursos.. A realidade implica tensões sociais, de modo
que não é possível ao pensamento lingüistico abranger a totalidade do ser. A
linguagem é uma manifestação do indivíduo, expressa manifestações de grupos
sociais, étnicos, comunidades, mas não é suficiente para o ensino uma interpretação
lingüistica. Não se trata de substituir o contexto pelo texto ou uma interpretação
social por uma interpretação lingüística, mas compreender como estas duas
dimensões interagem (idem,p.5) e, especialmente, considerando as práticas
educativas como históricas, porttanto, intencionais.“Na verdade, o mundo não pode
ser visto apenas como linguagem, imperialismo textual, mas a linguagem também
não pode ser vista como um mero reflexo do mundo, contextualismo”, conforme um
autor citado por Nóvoa.
Para a pedagogia, trata-se de uma questão crucial porquanto lida
diretamente com a prática, portanto implicando intencionalidades, valores, os quais
não podem ser cingidos ao mundo cotidiano dos pequenos grupos, i.e, aos duscursos
de grupos particulares.
Além disso, por mais que seja verdadeiro o fato de que certas linguagens e
categorias de entendimento da realidade sejam socialmente construídas enquanto
forma de poder, isso não pode embaçar nossa visão quanto ao fato de que saber é
poder, sou seja, o conhecimento pode ser constituinte das condições de liberdade
intelectual e política. Severino escreve que “o saber, ao mesmo tempo que se propõe
como desvendamento dos nexos lógicos do real tornando-se então instrumento do
fazer, ele se propõe, também, como desvendamento dos nexos políticos do social,
tornando-se instrumento do poder” (1965,p.16). E é através do trabalho com os
conteúdos escolares e com os processos de construção do pensamento que os
professores podem ajudar a desenvolver esse poder, certamente não deixando de
ouvir as vozes e a experi6encia social concreta dos alunos. Não existe forma de
compreender o real, fazer critica política das instituições e relações de poder, sem
passar por processos de desenvolvimento cognitivo através da assimilação ativa dos
conteúdos escolares.
Métodos de ensino e pesquisa
Os métodos aparecem no ensino como um caminho para aceder aos
conteúdos, ainda que eles mesmos possam virar conteúdo. Já tive oportunidade de
explicitar em outro texto (Libâneo,1993) que os métodos de ensino supõem outros 3
tipos de métodos: métodos gerais do processo de investigação do real, métodos da
cognição e métodos particulares das ciências-objeto de ensino. Nas últimas décadas,
as investigações no campo da educação se pautaram mais freqüentemente em dois
paradigmas clássicos da metodologia cientifica: o positivismo e o marxismo. Hoje em
dia esses e outros paradigmas clássicos são postos em questão e propostos outros.
Registre-se que o que se encontra em questão não é a existência de métodos
(embora haja autores que contestam a própria existência de métodos) mas certa
obsolescência de paradigmas epistemológicos frente a novos que surgem.
As investidas de ruptura com os modelos clássicos buscam romper com o
dualismo sujeito-objeto. Nem o sujeito seria absolutamente autônomo nem o objeto
é meramente o fato objetivo. A relação sujeito-objeto seria construída e, nesse caso,
o sujeito seria menos o observador e mais o interrogador da realidade. Instaura-se,
pois, outra relação de conhecimento, distinta da tradição metafísica, em que não há
sujeitos teóricos mas sujeitos pensantes. Essa idéia não é propriamente uma
novidade mas, sem dúvida, reforça mais a crítica ao ensino meramente transmissivo
(quase sempre tomado como adestramento) em favor da autoaprendizagem. Uma das
conseqüências mais expressivas desse posicionamento para a didática é uma
crescente redução do papel do ensino. Com isso, firma-se a idéia de que metodologia
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da aprendizagem ativa se identifica com a metodologia de investigação. Ou seja, a
rigor. não haveria diferença substancial entre a metodologia da investigação que leva
ao conhecimento cientifico e à metodologia da aprendizagem pela qual se acede ao
conhecimento pela via elaboração pessoal do aprendido. É o que tem sido chamado
de “aprendizagem como pesquisa”, (diferente de aprendizagem COM pesquisa)
tendendo a tomar a pesquisa como panacéia do ensino (V.,por ex.,Demo,1995).
Sabemos dos prejuízos desse reducionismo para a didática e para a orientação
da prática docente, onde o papel do professor na orientação da aprendizagem seria
eclipsado. Não há nenhuma dúvida de que a metodologia da investigação ou a
aprendizagem como investigação constituem-se um riquíssimo procedimento de
ensino e aprendizagem. É desejável, também, tomar o ensino como atividade
reflexiva e que o professor seja um investigador no seu trabalho. O que contesto é o
reducionismo. Primeiro, porque ensino não é a mesma coisa que pesquisa, embora
implique a pesquisa. Segundo, é possível um ensino bem feito sem necessidade de
identificá-lo com investigação. Terceiro, é ilusório que se chame de pesquisa um tipo
de investigação que não requeira conhecimentos específicos sobre metodologia da
investigação. Quarto, não é possível a organização e a condução da aprendizagem
sem ensino, ou melhor, sem um processo peculiar de trabalho que se chama ensino.
Quinto, a identificação do ensino com a pesquisa pode levar a uma indiferenciação
entre teoria e prática, deixando de lado a dimensão teórica na atividade docente e,
mesmo, dispensando o saber sistematizado que como a referência para os objetivos
da aprendizagem escolar.
Autores piagetianos que trabalham com as implicações pedagógicas do
construtivismo acentuam o papel do professor e do ensino:
“(O professor) faz a mediação, transforma os conceitos científicos em noções,
conteúdos e imagens assimiláveis pelas crianças, levando em conta os limites de suas
possibilidades cognitivas. (...) os professores trabalham para que as crianças entrem
em contato com suas próprias hipóteses, com suas formas de fazer e compreender as
coisas. (...) problematizam essas formas, sistematizam os conhecimentos das crianças,
trabalham para que entrem em contato com suas contradições...”(Macedo, 1994,p.58).
“Aceitar que as crianças são intelectualmente ativas não significa de
forma alguma supor que o professor é passivo. Pelo contrário, significa assumir
modalidades de trabalho que levem em consideração os mecanismos de construção
do conhecimento. Como definir, então, o ensino a partir de uma perspectiva
construtivista? Seus traços essenciais poderiam ser enunciados da seguinte maneira:
ensinar é colocar problemas a partir dos quais seja possível reelaborar os conteúdos
escolares e também fornecer toda informação necessária para as crianças poderem
avançar na reconstrução desses conteúdos. Ensinar é promover a discussão sobre os
problemas colocados (...) é incentivar a formulação de conceitualizações necessárias
para o progresso no domínio dos objetos de conhecimento, (...) é, finalmente, fazer
com que as crianças coloquem novos problemas que não teriam levantado fora da
escola” (Lerner,1995,p.120).
Não se trata, pois, de estigmatizar o ensino ou o processo que ele representa
em nome da mudança dos paradigmas científicos. Se é verdade que acedemos ao
conhecimento organizado pela via da reflexão pessoal, da autoatividade cognitiva,
mediante processos de relação ativa com os objetos de conhecimento, isto não se faz
de forma natural e espontânea. Conteúdos, habilidades cognitivas, estratégias de
aprendizagem são ensinados. A aprendizagem de noções e habilidades dependem de
uma organização do conhecimento, das formas de apresentá-lo e discutí-lo, da
quantidade e do tipo de informação, das perguntas que são feitas, dos problemas
colocados, dos procedimentos de avaliação.
60
Aprender a aprender ou Ensinar a aprender a aprender?
Um dos temais mais destacadas da mudança de paradigmas epistemológicos
diz respeito ao desenvolvimento das estratégias cognitivas, também chamadas no
varejo de “aprender a aprender”. Essa expressão está associada, pelo menos, a duas
correntes da psicologia: o modelo tecnocrático (tecnicismo) e o modelo cognitivista.
O que há de comum das propostas do aprender a aprender é a ênfase no
desenvolvimento de técnicas e habilidades ou, mais genericamente, procedimentos,
destinados facilitar a capacidade de atuação e adaptação do aluno a situações e
informações novas. Mas creio que se pode diferenciar um modelo tecnicista e um
modelo mais propriamente cognitivo.
O modelo tecnicista é muito claro: as estratégias cognitivas não são mais que
comportamentos práticos para transformar o aluno num sujeito prático, competente.
É prevista uma sequenciação do ensino semelhante à instrução programada ou ao
planejamento curricular que adquire característica de controle do trabalho do
professor. Não importaria muito uma atividade mais autônoma por parte do aluno,
nem sua disposição de aprender.
O modelo cognitivista focaliza os processos internos de elaboração do
conhecimento. O desenvolvimento de estratégias cognitivas seria uma estratégia
geral do processo do conhecimento, ligada à aprendizagem significativa, às formas de
ajudar o aluno a desenvolver um pensamento autônomo, critico, criativo, à ativação
de processos mais complexos de pensamento e desenvolvimento dos alunos. Na
verdade, as habilidades cognitivas não seriam ações finalistas mas mediadoras do
processo de aprender. Tais estratégias cognitivas, uma vez internalizadas pelo aluno,
favoreceriam organizar seu raciocínio para lidar com a informação, fazer relações
entre conteúdos, enfim, tornar a informação conhecimento significativo, levar a uma
generalização cognitiva em outras situações e momentos de aprendizagem do
indivíduo. Outro procedimento do ensinar a pensar é a metacognição isto é, a
necessidade de o aluno tomar consciência dos objetivos da aprendizagem e dos meios
que utiliza para atingir esses objetivos podendo, com isso, organizar e dirigir seu
próprio processo de aprendizagem.
A aplicação na sala de aula de estratégias cognitivas não é novidade para
muitos de nós. Aliás, é uma idéia bastante familiar a propostas cognitivistas para as
quais o conhecimento é um processo de construção e reconstrução pelo aluno. O
importante, a meu ver, é distingui-las do modelo tecnicista que é prescritivo,
mecânico, meramente instrumental. No modelo cognitivista o papel do professor é
fundamental: 1o.) precisa acompanhar e interpretar os processos de aprendizagem
do aluno inclusive as dificuldades dele; 2o.) precisa, além disso, modificar suas
próprias estruturas de conhecimento como condição para ajudar o aluno a enfrentar
tarefas e problemas colocados. 3o.) Precisa valorizar as inter-relações comunicativas
na classe.
Após essas considerações, quero dizer que o Ensinar a aprender a aprender,
ou, ajudar o aluno a adquirir estratégias de aprendizagem, supõe considerar: (a) o
papel dos conteúdos no ensino e aprendizagem; (b) processos de ajuda pedagógica do
professor. É difícil trabalhar com estratégias de aprendizagem, habilidades
cognitivas, processos de pensamento autônomo, à margem dos conhecimentos
sistematizados (conceitos, princípios, fatos, teorias, métodos de investigação etc.).
As estratégias de aprendizagem constituem o núcleo do desenvolvimento das
capacidades cognitivas e operativas dos alunos, mas são ativadas no processo de
assimilação ativa dos conceitos e fatos de uma matéria.
“Quanto mais rica, em elementos e relações, for a estrutura cognitiva de uma pessoa,
mais possibilidades tem de atribuir significado a materiais e situações novas e,
portanto, mais possibilidade tem de aprender significativamente novos conteúdos.
61
Atribuição de significados mediante o concurso do conhecimento prévio. Para isso, a
atividade mental do aluno aparece como mediadora entre as distintas formas que pode
adotar a intervenção pedagógica e os resultados da aprendizagem” (Coll, 1989,p.18)..
Ensino crítico e questões éticas
Nossas crenças correntes vão na linha da possibilidade de desvendar o real.
Numa tradição positivista, quer-se descobrir a realidade tal qual é, ou seja, factual,
observável, palpável. Na tradição do marxismo, a idéia é de que a reflexão dialética
torna possível captar a realidade no seu movimento, para descobrir sua essência, isto
é, seu verdadeiro significado, que no fim das contas é social.
A viragem lingüistica quer justamente uma ruptura epistemológica com essas
e outras formas de entender o processo de conhecimento. Nesse sentido, uma
pedagogia crítica, um ensino crítico, adotaria um ponto de vista cultural, um ponto
de vista pela análise textual, uma análise das relações de poder. Numa posição mais
extremada, de tipo desconstrucionista, este modo de compreender o termo “crítico”
implica dizer o seguinte: nada há além do texto e é preciso desconstruir os discursos
nele presentes (Nóvoa,1996,p.5).
Autores vinculados à sociologia do currículo acentuam a natureza política do
currículo e do ensino. A educação está ligada às relações de poder, às desigualdades
sociais. Entre esses autores, M. Appel e H. Giroux são bastante incisivos sobre a
natureza política do currículo, do ensino e da educação em geral, destacando o papel
do professor como intelectual crítico, isto é, um professor capaz de articular e
desenvolver possibilidades emancipatórias em espaços mais específicos, ao invés de
apenas analisar os distintos interesses e contradições de classe (1994). Não é uma
posição muito diferente da de autores brasileiros que há uns bons 15 anos postulam
uma educação crítica, mas suas contribuições trazem sangue novo a uma pedagogia
crítica situada na problemática social e cultural contemporânea (V., por ex., Giroux,
1994).
Tudo isso, no entanto, precisa ser feito mediante procedimentos didáticos.
Com efeito, não mudar as relações internas na escola, não basta criar instâncias de
participação, não é suficiente elaborar um discurso crítico. É preciso, junto com isso,
equipar os indivíduos de instrumentais cognitivos para estarem capacitados a
proceder análises críticas, a participar. É isto que não vejo com clareza na sociologia
do currículo.
Minha posição seria de levar em conta a produção de significados no texto ,
i.e., na escola e na experiência vivida do aluno. Mas quero defender, dentro de uma
perspectiva sócio-cultural, a idéia de que as produções culturais não podem ser
tratadas independentemente das relações mais amplas, incluindo o peso do
conhecimento científico produzido socialmente. O discurso da vida cotidiana é
insuficiente para compreender o contexto, e o contexto por sua vez influi sim no
mundo cotidiano.
3. OS NOVOS DESAFIOS PARA A DIDÁTICA E A ESCOLA
A escola brasileira apresenta deficiências evidentes. As políticas de educação,
quando existem, os programas de formação em serviço, as propostas curriculares, as
inovações em material didático e metodologia etc. têm pouca eficácia porque há
questões de base não resolvidas como: falta de políticas educacionais globalizantes e
investimentos na educação, baixos salários, formação profissional precária, falta de
cultura de base do professorado, degradação da profissão docente. A maioria dos
Estados e Municípios mantêm a escola pública e os professores no limite da inanição.
A valorização da educação e do professor não passa de retórica dos governos,
preocupados em usar a educação como visibilidade política.
62
Estamos vivendo na educação grandes paradoxos. Uma intensa produção de
livros, um enriquecimento das temáticas de pesquisa, propostas curriculares
razoavelmente bem feitas. Do outro lado, uma distanciamento dos pesquisadores da
realidade das escolas, professores dando duas jornadas de trabalho, professores
semi -analfabetos, sem condições intelectuais necessárias para utilizar o livro didático
ou usufruir dos programas de formação continuada.
Não resisto à tentação de comentar reportagem da Folha de S.Paulo de
24.3.96. Entre outras informações, relata que o caso de uma professora de 3a. série
num município do sertão da Bahia, que tem apenas um ano de estudo, a 1a. série.
Ganha um salário de R$ 23,00, mas conseguiu aula nos dois turnos, e recebe R$
40,00. Seu depoimento: “Meu estudo é pouco, não nego. Não sei fazer prova nem,
preencher o diário de classe. Sei que um aluno aprendeu quando ele faz as mesmas
coisas que eu. (...) Como não sei nada da 3a. série, o jeito é aprender junto com
ele.”
É conhecida a situação do professorado brasileiro cujo salário médio é de
R$72,00 (Folha de S.Paulo, 12.5.96). As questões básicas da Didática continuam
sendo aquelas que compõem seu campo de estudo: os objetivos da educação escolar,
o que é preciso ensinar, para quem ensinar e como ensinar. Em relação a esses
pontos, é preciso investir em duas frentes ao mesmo tempo: 1) fazer propostas para
uma situação ideal, buscar formulas novas, novos achados para melhorar o ensino 2)
apresentar soluções cabíveis a curso prazo, sabendo estabelecer prioridades. Nesse
sentido, que ingredientes novos podem ser agregados à Didática e ao trabalho
docente?
Antes de tratar desses “ingredientes novos” convém fazer uma observação
sobre os reducionismos a que tem sido submetido o trabalho docente. Tenho
insistindo bastante nessa questão (Libâneo, 1994), uma vez que os prejuízos recaem
sobre a pedagogia e a didática. É antiga a postulação das várias áreas das ciências
humanas em assumir a hegemonia no campo da educação e do ensino. Quando se
acreditava que o elemento nuclear da escola era o aluno, a motivação,
aprendizagem, foi a Psicologia que se julgou a grande ciência da educação. Quando
se incorporou à temática da educação a influência do sistema econômico e político,
destacando o papel social da escola (implicando formas de reprodução, conflitos e
resistência) instalou-se a tendência de sociologização do pedagógico e do escolar.
Com o desenvolvimento de uma sociologia do currículo, ao lado de boas contribuições
ao trabalho do professor (principalmente com temas da antropologia, política,
sociologia) há uma indisfarçável tendência em recusar a didática, a psicologia e os
investimentos em metodologias do ensino. Outra força teórica atual, como vimos, é a
ênfase na linguagem e aí muitos recorrem à lingüistica para explicar os fenômenos do
processo de ensino e aprendizagem. Recentemente, resurge a tendência
economicista. Não se compreende porque essas e outras áreas do conhecimento
continuam desconhecendo o caráter multidimensional da ação didática, achando que
podem, sozinhas, indicar tudo o que um professor necessita para ter bom êxito no
seu trabalho, ainda que suas abordagens do ensino sejam parciais.
A didática não deseja nem pode recusar as contribuições de outras áreas. Ao
contrário, acolhe-as de bom grado, sem todavia descuidar de definir o que é próprio
de seu campo de investigação. É com esse intuito que serão pontuadas a seguir
algumas questões.
Os temas em debate e a didática
1) O objetivo do ensino é o desenvolvimento das capacidades cognitivas dos
alunos através dos conteúdos. Com isso, estou de acordo em que o resultado do
63
processo de aprendizagem é ajudar os alunos a tornarem-se autores de seus
discursos. Chamo isso de desenvolvimento de um pensar autônomo, crítico e criativo,
que implicam habilidades de análise, critica e elaboração pessoal. É inteiramente
válida a postulação da pedagogia crítica norte-americana de “ouvir as vozes,
experiências, histórias, pelas quais os estudantes dão sentido ao mundo”. Assim
como é relevante atentar para os processos de aprendizagem como ingrediente
necessário para a avaliação dos produtos. Com efeito, em nenhum momento a
didática crítico-social defendeu a noção de aprendizagem como transmissão pura e
simples de conhecimentos. Há que se levar em conta, portanto, que esses novos
entendimentos da aprendizagem escolar não são descobertas novas, embora sejam
contribuições que enriquecem com outros referenciais teóricos a prática docente.
Podemos dizer que estamos hoje bem mais seguros em argumentar a favor da
iniciativa do sujeito no processo de aprendizagem, da auto-sócio-construção do
conhecimento, da preocupação com o mundo sóciocultural da criança, etc.
A didática crítico-social acentua, no processo de ensino, a ligação das
dimensões gnoseológica e cognitiva, assumindo a idéia do aluno como sujeito do
próprio processo de conhecimento com a ajuda pedagógica do professor.
“O caráter de lei do processo de ensino é determinado em grande medida pelo caráter
de lei do processo do conhecimento. O caráter científico do ensino significa
principalmente: condução do processo de ensino sob a base do conhecimento das leis
do processo do conhecimento” (Klingberg, 1978, p.142).
É certo que há que se reforçar nessa corrente pedagógica, as dimensões
afetivas e estéticas do processo de conhecimento. A sócio-construção do
conhecimento implica interações e relações comunicativas em que se conjugam
outras linguagens além da analítica de modo a prover mediações entre a
transmissão/assimilação ativa de conteúdos e a realidade vivida dos alunos. Neste
ponto são muito ricas as contribuições da pedagogia crítica norte-americana quando
abordam temas como a cultura popular, a cultura de massa, as diferenças vividas no
cotidiano, ensino como forma de política cultural (Giroux e Simon, Giroux e Mclaren,
1994).
Mais especificamente, a atenção às diferenças e à diversidade cultural implica
enfrentar preconceitos, estereótipos, discriminações, como também resistências
frente as diferenças dos alunos. O estereótipo é uma atitude rígida em relação a
pessoas (negro, homossexual, pobre, mulher, ignorante, doente mental, professor,
criança, etc.), quase sempre caracterizada por simplificações e generalizações. Vê-se
que os estereótipos não são apenas decorrentes da diversidade cultural como
também de diferenças bastante reais existentes na escola. Os termos
multiculturalismo, interculturalidade, ganham importância em países onde a
resistência à presença de estrangeiros provoca o recrudescimento do racismo. No
caso concreto do nosso país, é possível identificar na escola focos pontuais de
estereótipos que não se reduzem a atitudes racistas em relação as minorias étnicas,
abrangendo comportamentos dos alunos decorrentes de diferenças de meio sóciocultural
de origem, de capacidades intelectuais, de visão de mundo, especialmente
quando relacionadas a valores de grupos sociais dominantes, (tais como os clichês
muito comuns usados por professores: aluno ignorante, sujo, apático, preguiçoso,
revoltado, desobediente, desadaptado, etc.). Certamente o enfrentamento das
diferenças precisa corresponder menos a atitudes condescendentes e mais a práticas
ativas de tratamento igualitário a todos os alunos, de problematização de conteúdos
em relação com problemas e desafios da realidade próxima dos alunos, de discussão
coletiva, de investimento em valores e atitudes de solidariedade, cooperação.
O que quero dizer em síntese é: a organização escolar se caracteriza, de fato,
se por certa rigidez: o espaço físico da sala de aula, os tempos de aprendizagem, a
hierarquização nas relações interpessoais, uma expectativa de aceitação de normas,
64
a disciplina, a obediência, uma seleção e organização de conteúdos que precisam ser
aprendidos. Além disso, valores e atitudes sociais são reproduzidos, uma vez que a
escola está inserida num contexto social específico. Todavia, são exigências do
processo de formação dos alunos que implica: educar para a responsabilidade, para a
apropriação crítica da realidade, para a democracia, para as relações solidárias, para
a aceitação da diversidade social e cultural.
2) Grande parte da minha argumentação nesta exposição esteve relacionado
com o reforço do papel do ensino na aprendizagem; melhor dizendo, da relação de
mútua dependência entre o ensino e a aprendizagem. Quando falo ensino, falo em
intervenção pedagógica ou da ajuda pedagógica, no entendimento de que o ensino é
uma atividade intencional orientada para assegurar a aprendizagem dos alunos. Há
tempos venho assinalando que algo se caracteriza como pedagógico quando se indica
uma direção de sentido para uma atividade; no caso da escola, quando o educador
ajuda e orienta os educandos para atingir objetivos, tendo em vista a participação
ativa na sua cultura. Vê a prática educativa como um processo de construção
conjunta entre professor e alunos, orientada a compartilhar universos de significados
cada vez mais amplos e complexos. O ensino, a intervenção do professor constitui
uma ajuda, à medida que é o aluno que procede a construção. O professor é o que
sabe onde deve chegar o aluno, o orienta e provê os recursos e os suportes
necessários para que os significados que constrói se aproximem paulatinamente aos
do currículo escolar.
Fica claro nessa proposta que o professor ocupa-se com assimilação dos
conteúdos pelos alunos, já que representa a cultura historicamente acumulada;
todavia, seu principal papel é possibilitar, dentro de condições específicas, que o
aluno realize por si próprio as tarefas de aprendizagem. Daí que, diferentemente de
certas concepções atuais (aquelas voltadas para o tema da linguagem, por exemplo),
importa a presença de procedimentos de intervenção pedagógica, ou seja, processos
de ensino que tornem possíveis oss processos de aprendizagem pelo aluno (Contreras,
1990,p.22; Coll e Solé, 1989, p.19).
3. Os temas do ensinar para aprender a aprender e do ensinar a pensar
criticamente (ambos quase sinônimos) dizem respeito não só aos objetivos da escola
para o mundo contemporâneo, mas também ao preparo de professores. Conforme já
mencionei, há uma variedades de propostas neste sentido, das mais tecnicistas às
mais cognitivistas. Elas têm em comum a idéia de promover um conjunto de
atividades cognitivas basicamente organizadas em estratégias de aprendizagem ou
habilidades de pensamento tais como: observar, comparar, classificarar, fazer
relações, formular hipóteses, antecipar possibilidades, raciocinar dedutiva e
indutivamente.
O cuidado que me parece essencial dentro da linha teórica em que trabalho, é
não reduzir a idéia de aprender a aprender ao mero conhecimento prático ou às
habilidades para resolver problemas imediatos. A visão tecnicista nesse assunto é de
que pensar de forma eficiente é saber como se faz algo. Nesse caso, importa pouco
os conhecimentos de fatos, conceitos, teorias; interessa mesmo o conhecimento de
regras de atuação, técnicas e habilidades a serem exercitadas para enfrentar
situações de diversos tipos.4
O ponto de vista que proponho defender é o de ensinar a aprender a
aprender, por onde processos de aprender dos alunos podem ser intencionalmente
4 O mote aprender a aprender não é novo, mas reaparece agora no contexto em que as Novas
Tecnologias promovem um tipo novo de relação entre o aluno e o saber, com a informática tendendo a
substituir o professor. Não é fora de propósito lembrar a conotação tecnicista da aprendizagem faz coro
com as posições pós-modernistas de negação das metanarrativas.
65
ensinados, em contextos socioculturais específicos. Nesse sentido, é ilusório falar do
aprender a aprender fora das mediações propostas no ensino, assim como limitá-lo
ao domínio da psicologia da aprendizagem e do desenvolvimento. Pelo seu caráter
pedagógico, o ensino tem caráter de intencionalidade implicando, portanto, opções
sócio-políticas que obrigam a discussão e a construção dos objetivos e práticas do
ensino no próprio marco institucional em que ocorre (Apple, Ideologia e curriculo
p.45-46; Contreras, p.85). Não se está negando a contribuição da Psicologia para a
compreensão dos processos internos mediadores do aprender, mas sua insuficiência
para entender a aprendizagem também como processo social e como atividade
planejada e organizada, por onde a Didática intervém ao postular valores e
intencionalidades educativas e formas específicas do ensino. Cabe, pois, conter o
entusiasmo de muitos psicólogos (e hoje, também, de psicopedagogos) que estariam
pretendendo que teorias da aprendizagem e do desenvolvimento determinasse com
exclusividade o processo a ser seguido no ensino.
No desenvolvimento dos processos de ensinar a aprender a aprender, à
medida que envolvem situações específicas em sala de aula com a intervenção
pedagógica do professor, é necessário levar em conta alguns fatores aque afetam a
motivação. Aqui tem importância considerável as pesquisas sobre cultura e
linguagem. Obviamente não se trata apenas de propor atividades que despertem
interesse no aluno. Trata-se, 1o., de que os conteúdos tenham significação e valor
dentro do contexto cultural de vida dos alunos. 2o, de criar um clima de interação
social propiciador da cooperação entre alunos e entre o professor e os alunos,
colocando as dificuldades como oportunidade para superá-las. 3o., de uma atitude do
professor que, ao lado de sua função de dirigir a classe, também é um guia da
atividade independente dos alunos, o que implica habilidades de comunicação e de
interação. 4o., de uma convicção do professor de que ele é o profissional capacitado
a orientar a atividade cognitiva do aluno, isto é, orientar os alunos naquilo que
fazem, fazê-los perceber o processo mental que estão aplicando naquela tarefa,
ensiná-los a enfrentar o fracasso como passos para o aprender a aprender.
4. O ensinar a pensar criticamente não é mais que um desdobramento do
processo de ensinar a aprender a aprender. Tenho insistindo na função instrumental
dos conteúdos para o desenvolvimento de capacidades cognoscitivas. O ensino, mais
do que promover a acumulação de conhecimentos pelo aluno, cria modos e condições
de desenvolver a capacidade de colocar-se ante a realidade para pensá-la e atuar
nela. Nesse sentido, aprender a aprender não é mais que a condição em que o aluno
assume conscientemente a construção do conhecimento e aprende como fazê-la. O
que se agrega aqui, em termos de um pensar crítico, é a capacidade de
problematizar, ou seja, de aplicar conceitos como forma de apropriação dos objetos
de conhecimento a partir de uma enfoque totalizante da realidade. Resumidamente,
é o que o que proponho como dimensão crítico-social dos conteúdos:
... a dimensão crítico-social dos conteúdos corresponde à abordagem metodológica dos
conteúdos na qual os objetos de conhecimento (fatos, conceitos, leis, habilidades,
métodos etc.) são apreendidos nas suas propriedades e características próprias e, ao
mesmo tempo, nas suas relações com outros fatos e fenômenos da realidade, incluindo
especificamente as ligações e nexos sociais que os constituem como tais (i.e., como
objetos de conhecimento). (...) Os conteúdos são apreendidos, estudados, na sua
transformação, no seu desenvolvimento, isto é, na sua historicidade. Trata-se de situar
um tema de estudo nas suas ligações com a prática humana: como os homens na sua
atividade prática coletiva nas várias esferas da vida social intervêm, modificam,
constróem, esse tema de estudo; sua importância apara atender necessidades práticas
da vida social, como os problemas sociais, o desenvolvimento da ciência e da
tecnologia, as necessidades humanas básicas, etc.”(Libâneo, 1994, p.138).
5. É preciso engrossar o movimento pela valorização profissional do professor
em termos de condições de exercício profissional e formação (inicial e continuada). A
desvalorização dos professores e da profissão docente está vindo não apenas das
66
políticas neoliberais de ajuste mas também de certos setores intelectuais que
voltaram a ironizar e vilipendiar o trabalho docente. Há um recrudescimento da
divisão entre escolas de classes sociais privilegiadas e as escolas públicas (cuja
tendência é serem transformadas em “escolas mínimas” na expressão de Appel
(p.71), com muito controle e pouca verba.
Nóvoa (1995,p.7) tem uma análise muito interessante sobre o
enfraquecimento da força do professorado, manifesto no fenômeno da
desprofissionalização. Ele mostra três triângulos. No primeiro, em cada um dos
vértices estão os professores, os alunos e o saber; estaria sendo reforçado, hoje, o
eixo saber---alunos em que a tese do aprender a aprender na conotação tecnicista,
em que se valorizaria a relação individualizada do aluno com a informação,
eclipsando o professor. Ou seja, a tecnologização exacerbada do ensino estaria
desvalorizando a mediação relacional e cognitiva dos professores. Tal tendência pode
ser encontrada, também, em alguns críticos pós-modernistas da escola e em
propostas de uso de meios tecnológicos na formação de professores (tipo programa
de educação à distância).
O 2o . triângulo mostra nos seus vértices: os professores, o Estado e os
pais/comunidade. Em função de uma reorganização dos modos de intervenção do
Estado nas políticas de educação (em que se adotaria na escola práticas de gestão da
empresa privada, como qualidade total, educação a serviço dos clientes etc.) estaria
havendo um conluio entre o Estado e a comunidade, valorizando a relação Estadopais,
levando a uma redução do poder dos professores. Tal fato pode ser constatado
em alguns sistemas estaduais de ensino como também em algumas propostas de
cooperativas de ensino.
O 3o . triângulo mostra a coexistência de três tipos de saberes: o saber da
experiência (dos professores), o saber dos especialistas (sociólo gos, psicólogos,
pedagogos) e o saber das disciplinas específicas. A tendência hoje seria de uma
ligação entre o saber dos especialistas e o saber das disciplinas, com a conseqüente
desvalorização do saber do professor. Os programas oficiais anunciados para a
qualificação do professorado em âmbito nacional estariam, de fato, tendendo a
caracterizar-se como treinamento em técnicas e habilidades. O autor escreve, ainda:
“apesar de ter insistido nas formas de exclusão dos professores, legitimadas em
processos de tecnologização, de privatização e de racionalização do ensino, não
ignoro a existência de outros movimentos que vão em sentido contrário”(idem, p.10).
Tais movimentos iriam no sentido de reforçar o papel do professor nos três níveis:
como pessoas, como agentes de decisão, como conhecedores de sua profissão.
Trata-se, pois, de atentarmos para a preparação de quadros para o trabalho
na escola, dentro de uma política de formação profissional do professorado,
envolvendo a formação inicial (licenciaturas) e a formação continuada. Nesta
estariam implicadas outras medidas como: desenvolver capacidades de atitudes
reflexivas (novas estratégias pedagógicas e novas metodologias de avaliação)
mediante práticas teórico-reflexivas no cotidiano escolar, sistema de assistência
pedagógico-didática ao professor (coordenação pedagógica), interligação no sistema
de gestão das escolas entre o trabalho docente e a cultura organizacional da escola.
Ainda quanto à relação entre formação de professores e objetivos de
aprendizagem, acho inútil a atitude dos que insistem em propostas freqüentemente
simplistas de contraposição dos conteúdos com a valorização da cultura popular, da
experiência cotidiano etc., de ficar numa postura localista e particularista. Porque
estamos, de fato, frente a uma deficiência de cultura de base, uma deficiência de
domínio de conteúdo por parte dos professorado. Não se trata de desconsiderar a
cultura popular, as culturas particulares, a experiência corrente, as diferenças. O
que afirmo é que não é uma atitude realista desvincular os conteúdos escolares das
67
demais práticas escolares tendentes a maior participação dos professores na gestão,
maior poder de decisão, etc. Há tempos atrás líamos uma frase em Snyders assim:
para ensinar Matemática a João precisamos saber Matemática e quem é João. A frase
continua boa, mas hoje em dia, de forma cada vez mais dramática, é insuficiente
instigar o professor a conhecer João, a conhecer a comunidade, a identificar as
relações de poder no ambiente escolar, a reconhecer as diferenças. É preciso que ,
como ponto de partida, como começo de conversa, recupere o domínio das matérias
que ensina e as habilidades básicas de pensamento e aprendizagem, para que possa
efetivamente ajudar o crescimento intelectual e afetivo dos alunos.
Florianópolis, maio de 1996.
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70
CAPITULO VII
A INTERDISCIPLINARIDADE E A PEDAGOGIA CRÍTICO-SOCIAL — NOTAS PRÉVIAS
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O tema desta exposição é a interdisciplinaridade. Um tema que está na
moda. Os educadores adoram estar na moda. Bastou chegar uma palavrinha nova, e
nós embarcamos nela. Assim tem sido com a alfabetização, com o ciclo básico, com
o construtivismo e até com a Pedagogia Crítico-Social. Há duas coisas negativas do
modismo: primeira, ele costuma aparecer isoladamente de outras idéias que já estão
em voga, quer dizer, o modismo aparece sempre como se fosse uma grande
novidade, mesmo não sendo; segunda, ele costuma aparecer como idéia salvadora.
Como temos mil e um problemas na educação brasileira, nossa tendência é agarrar
uma tábua de salvação. É risco que corremos: agora, sim, com a interdisciplinaridade
a gente encontrou a saída para os males do ensino, para a evasão e repetência, para
o ensino tradicional, etc.
Embora a interdisciplinaridade esteja virando modismo, não é por isso que ela
deixa de ter importância na prática docente, na prática de gestão das escolas, na
prática intelectual. Por isso, vale a pena falar sobre ela, discutir sobre ela, é isso que
farei aqui hoje.
Antes de desenvolver o tema, gostaria de adiantar, já, dois sentidos do termo
"interdisciplinaridade".
1°) Diz respeito às relações entre os campos científicos. Significa,
basicamente, interação entre duas ou mais disciplinas, para superar a fragmentação,
a compartimentalização, de conhecimentos. Uma troca entre especialistas de vários
campos do conhecimento. A reunião de vários ramos do conhecimento para discutir
um assunto, para resolver um problema. Confluência de vários conhecimentos para
compreendermos melhor a realidade.
2°) É uma atitude, um modo de proceder intelectualmente. É uma prática de
trabalho científico, profissional, de construção coletiva do conhecimento. É
desenvolver a capacidade de pensar a realidade, as coisas, os acontecimentos, na sua
globalidade.
Na escola, a interdisciplinaridade aparece de vários modos, mas
especialmente na concepção de currículo (visando superar a fragmentação do
conhecimento em matérias isoladas) e na forma de organização do trabalho escolar.
1 - UM POUCO DE HISTÓRIA
A idéia de interdisciplinaridade não é nova. Desde o início da minha atividade
profissional na educação há quase 30 anos convivo com esse tema. Entre 1967-72,
durante seis anos, fui diretor de uma escola publica experimental em São Paulo,
chamado Ginásio Experimental da Lapa, onde já se tentava implantar um currículo
integrado. Na época não falávamos no termo interdisciplinaridade, falávamos em
integração, correlação de matérias. Para vocês terem uma idéia, em l966 foi
publicado no Brasil o livro Problemas gerais de currículo de um autora chamada
Dalilla Sperb, que seguia a mesma linha de autores da escola nova norte-americana -
Tyler, Hilda Taba, Havighurst. Nesse livro, a autora critica o currículo organizado por
matérias isoladas. Ela escrevia coisas assim:
a organização curricular é "o programa de ensino desenvolvido em ordem lógica e
horários rígidos, controlado em alguns casos pelo diretor que faz tocar a sineta a cada
60 minutos..."
71
"trata-se do ensino de matérias isoladas, prevalecendo a expectativa de quem todas as
crianças aprendem da mesma maneira e no mesmo ritmo..."
"a teoria da aprendizagem implícita é a que se baseia na passividade do aluno, na sua
habilidade de ouvir, de memorizar, de reproduzir."
"O aluno deve aprender diretamente do professor e a ele deve dirigir suas perguntas.
(...) A avaliação do aproveitamento da aprendizagem visa a verificação da capacidade
de memorizar aquilo que o professor pretende ter ensinado"."
"Raramente esta organização curricular oferece oportunidades de colaboração entre a
escola e a comunidade. Os alunos em geral não encontram os problemas de sua
comunidade, de seu interesse, na sala de aula."
Como se pode constatar, essa autora faz o mesmo diagnóstico que fazemos
hoje a respeito da escola e do currículo. A mesma autora apresenta as várias
alternativas de superação da fragmentação do currículo em matérias isoladas.
1ª) Áreas de ensino - São áreas mais amplas e nós conhecemos essa
experiência. Por ex., Estudos Sociais agrupam a história, a geografia, a educação
cívica; Linguagem agrupa a leitura, a escrita, a composição. A Lei 5.692/7l, como
vocês sabem, adotou esse sistema para as classes de 5a. à 8a. séries. O objetivo é a
integração das matérias, favorecendo a aprendizagem de princípios comuns a áreas
de conhecimento similares e uma participação maior dos alunos, incluindo o estudo
da comunidade. À época já se falava no perigo de tratar os conteúdos com muita
superficialidade por causa da amplitude da área de ensino.
2ª) Áreas de vida e centros de interesse - O currículo organizado em áreas de
vida tem suas bases na idéia de tornar a vida da escola semelhante à da comunidade.
O aluno vivenciaria na escola situações planejadas que na comunidade ocorrem
naturalmente, tais como a interdependência das pessoas na comunidade, a vida em
família, a organização do Estado, do município, os cuidados com a saúde, formas de
recreação etc. Enfim, a idéia é formar hábitos democráticos, atender necessidades
da vida. Essa proposta é atribuída a um inglês chamado Herbert Spencer.
Os "centros de interesse" foram sugeridos por Ovídio Decroly, também como
reação ao currículo por matérias isoladas. Trata-se de relacionar a aprendizagem
com as necessidades do educando, tais como: necessidades de alimento, de defesa
contra o calor e o frio, de trabalhar e de agir. Esses 4 centros eram trabalhados em
torno de problemas práticos, com grande participação dos alunos inclusive na
limpeza e higiene da escola, nas refeições, no trato de animais etc.
3ª) "Core curriculum" ou Currículo nuclear - Também esta forma de
organização curricular visa a integração da aprendizagem. As matérias programáticas
se agrupam em torno de situações ou problemas da vida. O núcleo do currículo
geralmente é um amplo problema selecionado da área de Estudos Sociais, para cujo
desenvolvimento entram todas as demais matérias, sem perderem sua
especificidade.
4ª) O currículo de projetos - É também chamado método de projetos e foi
desenvolvido por um discípulo de Dewey, William Kilpatrick. Formulam-se projetos
de investigação. Propõe-se estudar, por exemplo, a granja perto da escola e em
torno desta atividade escolar se estudam muitas matérias. A idéia principal é que a
verdadeira aprendizagem implica a participação do aluno na solução de problemas
reais.
5ª) O currículo baseados em temas complexos - É uma alternativa de
organização curricular semelhante ao currículo por projetos. Consiste, também, em
agrupar conhecimentos de distintas ciências em torno de um assunto ou tópico
prático, ligado a tópicos mais abrangentes, tais como homem, natureza, sociedade.
72

2 - A PROPOSTA DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO MUNICIPAL DE S.PAUL0

Esta proposta foi implantada na gestão de Paulo Freire no período l989-92 na
Secretaria de Educação do município de São Paulo. O problema a ser enfrentado era
o mesmo das propostas anteriores: como superar a organização do currículo em
matérias isoladas de modo a tornar menos rígidas as fronteiras entre as diversas
matérias de ensino. A alternativa escolhida foi a interdisciplinaridade ou uma
proposta de ensino interdisciplinar. Os princípios desta proposta são os seguintes:
l- As várias ciências - transformadas em matérias de ensino - devem contribuir
para o estudo de temas que orientam todo o trabalho escolar.
2- Respeita-se a especificidade de cada matéria, prevendo-se a colaboração
integrada de varias matérias para a analise de um tema.
3- A seleção e organização do currículo escolar é precedida de um
levantamento da realidade vivenciada pela "comunidade", de onde surgem os temas
geradores. Os temas geradores indicam os conteúdos escolares .
4- A idéia é: partir do estudo da realidade para olhá-la segundo diferentes enfoques:
geografia, física, biologia, história etc. Isto é, as diferentes matérias contribuem
para desvelar, iluminar, os segredos da realidade.
5- Procura-se estabelecer relações entre os conteúdos das matérias em função
de uma totalização em construção.
Como se vê, a proposta adotada na gestão de Paulo Freire tem um forte peso
na pesquisa da realidade, na ligação do conhecimento com a prática, colocando o
conhecimento a serviço da transformação da realidade. Para isso, propõe a
integração das matérias em torno de um tema comum, extraído da realidade vivida
no cotidiano do aluno.
A semelhança com muitas propostas anteriores é evidente. O que destaca
nesta última é a explicitação da ligação do conhecimento com uma prática
transformadora. Vamos ver quais seriam as etapas para se chegar a um programa de
ensino de caráter interdisciplinar.
As cinco etapas para a definição do tema gerador e do programa são as
seguintes
lª) Levantamento preliminar da realidade pela equipe de educadores. Coleta
de material sobre o local: visitas, conversas com moradores, consultas aos
movimentos sociais, busca de dados estatísticos e análises já disponíveis. Formação
de um dossiê de informações.
2ª) Análise do material coletado - informações e falas da população, - pelos
professores das diferentes disciplinas, para encontrar o que é significativo para esse
grupo social (problemas a serem enfrentados) e verificar que conhecimentos
permitem compreender o contexto mais amplo da realidade levantada. Pré -temas.
3ª) Os pré-temas são codificados, isto é, reunidos em temas mais abrangentes
que expressem situações vivenciais. Por ex., moradia. Os temas sintetizam, para os
participantes desse processo, focos (pontos centrais) que possibilitam uma
compreensão de conjunto da realidade. Esses temas são apresentados para discussão
entre educandos e familiares, para "testar" se são de fato significativos para a
população.
4ª) A equipe de educadores estuda os temas sob a ótica das várias disciplinas,
buscando articulação entre as diferentes visões. Há uma troca de diferentes visões
para compreender a realidade na sua totalidade. É uma busca de relações entre as
matérias. Formula-se, daí, uma seqüência de conteúdos conforme faixa etária e nível
73
de ensino, dentro da especificidade de cada disciplina. É o que se chama de redução
temática, que leva ao programa. As questões geradoras gerais aparecem agora
detalhadas por série e por matéria, apontando os conteúdos a serem abordados.
5ª) Trabalho com os temas na sala de aula, a partir de um planejamento
conjunto de atividades pelos professores da mesma série. O programa é rediscutido
com os alunos e transforma-se num roteiro de trabalho flexível, para orientar as
decisões. O desenvolvimento das aulas inclui atividades conjuntas entre professores
da série e atividades separadas de cada professor. Por ex.: As questões geradoras da
série são comuns a todas as matérias. Portanto, a fase inicial e a fase final do
processo podem ser conjuntas. Por sua vez, questões da área apontam questões da
matéria.
Podemos assinalar algumas vantagens nessa proposta:
l- As fronteiras entre as matérias ficam diluídas, em torno de um tema
comum. Há um compartilhamento de conhecimentos.
2- Há uma negociação entre os professores para definir conteúdos mais ligados
a uma determinada matéria, provocando uma complementariedade de abordagens.
3- Os alunos vão desenvolvendo habilidades comuns a varias matérias, à
medida que os professores não trabalham mais isoladamente.
4- Assegura-se a interdisciplinaridade. O aluno vai percebendo a inter-relação
dos vários ramos que compõem o conhecimento, isto é, reconhecer os nexos
existentes entre as diversas matérias.
5- Assegura-se o equilíbrio entre o geral e o especifico, isto é, não se perde a
visão especifica de cada área.
Como se vê, temos aí um determinado entendimento de interdisciplinaridade,
baseada no tema gerador, da metodologia dialógica, no trabalho coletivo e
construção do programa, na formação permanente. Gostaria de detalhar um pouco
mais o conceito de interdisciplinaridade. De onde ele vem?

3. O QUE É INTERDISCIPLINARIDADE?

O termo vem de disciplina, ciência, ramo do conhecimento, organização dos
ramos do conhecimento, uma certa ordem na organização do conhecimento. Uma
disciplina se caracteriza por: objeto próprio de estudo, métodos de investigação, um
sistema conceitual, caracterizando um domínio próprio de estudos. É isto a
disciplinaridade. Da disciplinaridade vem a interdisciplinaridade: reciprocidade,
interação entre as disciplinas.
Portanto, do termo disciplina decorrem outros conceitos:
multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade,
transdisciplinaridade, definindo uma gradação no nível de cooperação e coordenação
entre as disciplinas.
Multidisciplinaridade - disciplinas utilizadas para o estudo de um tema
especifico, sem aparecer as relações entre elas. Especialistas autônomos e
independentes são chamados a contribuir para a solução de um problema. Por
exemplo, quer-se planejar um traçado ótimo de uma ferrovia. Pede-se a colaboração
de topógrafos, geólogos, demografias e economistas, cada um responsável por
questões bem precisas de sua área.
Pluridisciplinaridade - justaposição de disciplinas, aparecendo as relações
entre elas. Há cooperação mas não coordenação, isto é, não há um tema comum que
congregue a preocupação de todos.
74
Interdisciplinaridade - Integração e interação entre as disciplinas limítrofes
frente a um problema. Incorpora num mesmo projeto (de ensino ou pesquisa),
conceitos e métodos de várias disciplinas, que discutem juntos hipóteses,
metodologias. Por ex., para estudar as causas de um formação de um tumor,
promove-se a colaboração de fisiólogos, histólogos, imunólogos. Ou o problema é a
influencia de fatores socioculturais sobre o aproveitamento escolar e ai juntam-se o
sociólogo, o psicólogo, o pedagogo para discutir hipóteses de trabalho e metodologia.
Transdisciplinaridade - Busca de um sistema conceitual global, de um sistema
unificado para além das disciplinas convencionais.
3.1. - Interdisciplinaridade nas ciências
Interdisciplinaridade é uma necessidade na produção e construção do
conhecimento por causa do caráter de totalidade da realidade social. No objeto de
conhecimento estão implicados vários ângulos de analise. Ao mesmo tempo o
conhecimento é social, isto é, supõe trocas entre especialistas das diversas áreas do
conhecimento, produzindo um progresso no conhecimento. Seria um requisito, um
caminho, para a construção coletiva do conhecimento.
De fato, hoje nenhum campo do conhecimento, isoladamente, dá conta e
compreender e explicar a realidade. Interdisciplinaridade, portanto, é uma atitude
frente ao processo do conhecimento, seja na pesquisa seja no ensino. É confluência
de saberes para compreender melhor a complexidade do mundo. A idéia é de que
não se trata de conhecer por conhecer, mas compreender a realidade para
transformá-la. No conceito de interdisciplina está a idéia de superação da
especialização excessiva, portanto, de maior ligação teoria-prática, mais ligação da
ciência com suas aplicações.
Interdisciplinaridade diz respeito à interação entre duas ou mais disciplinas
visando trocas entre os especialistas e uma integração entre disciplinas no interior de
um projeto específico de ação ou de pesquisa. Contra a fragmentação e
compartimentalização do conhecimento.
Ela proporciona:
· diálogo entre as disciplinas para a compreensão mais ampliada de
problemas.
· superação do fechamento da ciência, da especialização excessiva.
· enriquece os vários especialistas dando mais amplitude ao exercício
profissional.
· busca estrutura de conceitos comuns ao estabelecer relações internas
entre as disciplinas (psicologia, sociologia, direito, história, por exemplo).
· propicia o trabalho em equipe
· explora fronteiras e zonas intermediárias (biologia, química)
· cria domínios novos de conhecimentos
· evidencia o caráter comum de certos problemas
· possibilita o saber "aplicado".
Portanto, trata-se de superar o currículo estruturado por disciplinas, eliminar
as barreiras entre as disciplinas, implicando também a eliminação de barreiras entre
as pessoas. Incorporar conhecimentos ao invés de tomar por empréstimo. Essa
atitude implica, segundo Ivany Fazenda:
· busca de alternativas para se conhecer mais e melhor
75
· reciprocidade, troca, diálogo com os outros e consigo mesmo
· humildade diante da limitação do próprio saber
· envolvimento e comprometimento com projetos comuns
· alteração de hábitos já estabelecimentos em relação à busca do
conhecimento
3.2. - Interdisciplinaridade na educação escolar
Primeiramente, conforme mencionei no inicio, o termo é relativamente novo
no meio educacional, mas a idéia não é nova nas preocupações dos educadores.
Quando falamos em sócio-construtivismo, em método dialético, em participação
ativa do aluno na sua aprendizagem, em desenvolvimento das capacidades
cognitivas, no desenvolvimento dos processos de pensar, em problematizar a
realidade, etc., está implícita aí a interdisciplinaridade.
Eu tenho muita preocupação com os modismos Porque temos na educação
muitos problemas, muitos quase insolúveis, problemas que são diagnosticados há
anos e que se persistem, há uma tendência incurável de abraçarmos modismos. Vira
modismo a educação libertadora, tecnicismo, a pedagogia dos conteúdos, a educação
compensatória, o construtivismo.
Quero dizer que devemos compreender a interdisciplinaridade dentro dos
quadros de referência ia que as concepções mais progressistas já desenvolveram.
Nesse sentido, a interdisciplinaridade é uma idéia, uma prática que se encaixa
nas propostas progressistas correntes. Por exemplo, quem conhece a produção da
pesquisa em nosso pais sabe perfeitamente que não basta transmitir conteúdos, não
basta mostrar com clareza os conteúdos. É preciso provocar o interesse dos alunos, é
preciso que os alunos os internalizem de modo estável para poderem operar com eles
quando necessário. É preciso que os conteúdos contribuam ara desenvolver processos
de pensamento, capacidades cognoscitivas, possibilitando a sistematização e geração
de n ovos conhecimentos e modos de ação. O processo de conhecer pressupõe
relações, ligações, interações, que constituem a realidade. E nenhum campo de
conhecimento dá conta sozinho de compreender esta trama de relações que
constituem a realidade. Ora, isto é interdisciplinaridade.
A escola, como sabemos, é o lugar onde se torna possível a construção,
reconstrução, elaboração, reelaboração do saber sistematizado. Para compreender a
realidade sob forma de conhecimento e compreender esta realidade como um todo,
é preciso uma atitude interdisciplinar.
Do ponto de vista da Pedagogia crítico-social dos conteúdos, quero falar de
dois modos de adoção da intersdisciplinaridade na escola; a) uma atitude
interdisciplinar; b) uma estrutura organizacional da escola. Uma coisa tem a ver com
a outra.
Uma atitude interdisciplinar consiste em tomar o objeto de conhecimento em
todos os seus aspectos, ligações, relações internas e externas. É o exame multilateral
do objeto de estudo. É lidar com o objeto de conhecimento no seu movimento, nas
suas contradições. É ver o objeto de conhecimento na sua relação com a vida, i.e.,
com aquilo que é necessário para a vida humana.
Isto tem a ver com o trabalho do professor na sua matéria. Tem a ver com o
domínio que tem do conteúdo, com uma prática metodológica de ajudar os alunos a
pensar, tem a ver com o grau de informação e leitura do professor. Tem a ver,
fundamentalmente, com uma postura sócio-construtivista e interdisciplinar na sala
de aula.
76
Vejam bem, o aluno não conseguirá compreender interdisciplinarmente um
conteúdo que o professor lhe oferece fragmentadamente. Quando o professor está
tratando um tema, um assunto, muja unidade de estudo, ela já deve ter um modo de
pensar interdisciplinar, porque, por suposto, ele está lidando com esse assunto com
uma realidade pensada, compreendida nas suas múltiplas relações. E vai prover os
alunos de instrumentos conceituais e cognitivos, para que sejam auxiliados a pensar
interdisciplinarmente.
A interdisciplinaridade, portanto, vai surgindo no próprio processo de ensino e
aprendizagem, nos vários momentos de desenvolvimento das aulas. Se o assunto de
ensino é “água”, vão aparecendo necessidades, questões, perguntas, que precisam
ser esclarecidas. E aí, entram outras matérias, outras informações, estudando o
objeto sob vários pontos de análise.
3.3. - Explicitando mais minha posição
Não há duvida de que a interdisciplinaridade é uma exigência de um ensino
que se quer critico. Entretanto, a proposta de ensino interdisciplinar só se justifica
se servir de instrumento de efetivação da sistematização e consolidação de
conhecimentos.
Nesse entendimento, interdisciplinaridade é principio do processo de
conhecimento e ao mesmo tempo metodologia de trabalho entre especialistas. Mas
isso não é incompatível com a organização do conhecimento por disciplinas, porque é
através dessa organização que se manifesta o conteúdo das várias ciências.
A questão é entender cada disciplina como parte de um todo maior, que é o
currículo. Vamos das partes do todo e do todo às partes, para reconhecer que as
partes são constitutivas do todo, mas não esgotam o todo se tomadas em si mesmas.
Com isso, as matérias são fontes de conteúdos mas não têm um fim em si
mesmas, são partes de um todo maior. Isto significa que cada disciplina do currículo
é ingrediente prévio necessário da interdisciplinaridade. Interdisciplinaridade supõe
a especificidade das disciplinas e não negação destas.
No meu modo de entender a interdisciplinaridade começa em cada disciplina,
no sentido de que cada objeto de conhecimento é considerado nas suas múltiplas
relações. Significa inserir um tema, um assunto, num contexto maior, isto é, numa
totalidade.
Isso não significa negar cada matéria em nome da totalidade. A totalidade da
realidade é infinita, inesgotável. Significa estudar um assunto como fazendo parte de
um todo orgânico, onde cada elemento, cada aspecto, é visto na sua relação com o
conjunto.
A compreensão de um assunto implica pensar a realidade, pensar um assunto
nas suas várias relações. Requer um trabalho planejado, intencional, a partir da
especificidade da matéria ensinada.
Com base nestas idéias, a interdisciplinaridade aparece como
principio, tendo como objetivo final a integração entre as disciplinas. A base para a
integração seria a explicitação das formas de conhecimento de cada matéria, unidas
numa perspectiva metodológica comum em relação à concepção de processo de
conhecimento.
Na prática, entendo assim:
l) Todo conhecimento precisa estar impregnado de seus nexos sociais,
partindo da premissa da natureza social do conhecimento.
77
2) Ligar o conhecimento com os problemas reais. Mas acho que centrar o
currículo em temas geradores pode enfraquecer os conhecimentos científicos de cada
disciplina, reduz o nível cientifico e a sistematicidade. O trabalho conjunto de
disciplinas seria admissível em temáticas bem definidas em temas socialmente
relevantes. Acho que não se pode esperar da interdisciplinaridade mais do que ela
pode dar. O ensino não pode ser reduzido à pesquisa, a escola não é lugar de
formular políticas de intervenção na saúde, no meio-ambiente, não lhe cabe
promover transformações imediatas na realidade.
3) Acho válida a pesquisa sobre a realidade econômica, social e cultural da
comunidade. Mas a função dessa pesquisa é fornecer a cada professor os dados para a
seleção de conteúdos. Mas acho que o núcleo do programa é a própria disciplina, os
conteúdos que os alunos precisam dominar para poder interagir com os problemas
cotidianos, regionais, nacionais.
Minha idéia é de que os dados coletados sejam discutidos pelos professores no
sentido de estabelecer objetivos gerais da escola correspondentes às necessidades
diagnosticadas. Buscam-se os conteúdos de ensino para aquela realidade, a partir dos
conhecimentos disponíveis na ciência moderna. O diagnostico, a partir desses dados,
deveria ser utilizado para definir pontos de partida comuns da equipe de professores
em relação à heterogeneidade cultural dos alunos e estabelecer resultados possíveis
a serem esperados do trabalho escolar, em termos de um mínimo de qualidade.
Em resumo, penso que uma estruturação dos planos de estudo em cima de
temas compromete a necessidade dos alunos dominarem conhecimentos
sistematizados e reduz o nível cientifico do ensino. Um plano de estudos por matéria
assegura melhor a aquisição pelos alunos de sistemas de conhecimentos científicos e
habilidades.
As relações entre as matérias refletem os vínculos reais do que se estuda em
cada matéria e das habilidades e hábitos que cada uma desenvolve. Os
conhecimentos já trazem uma relação entre si, os quais vão sendo integrados pelo
aluno. Na organização dos conteúdos de cada matéria já devem ser incluídos
conhecimentos de áreas fronteiriças. A geografia, por exemplo, deve incluir
conhecimentos de geografia física e econômica, geologia, demografia, etc.
É claro que a organização do currículo por disciplinas pode dificultar a
consciência do aluno das relações entre os conhecimentos de cada uma, e das
habilidades e hábitos que desenvolvem uma e outra. Para evitar isso, é que existem
as propostas curriculares que indicam possibilidades de integração entre as
disciplinas. Além disso, a equipe escolar pode estabelecer conhecimentos e
habilidades comuns a diversas disciplinas. Por exemplo, hábitos de estudo podem ser
objetivos de todos os professores, embora sejam tratados com mais profundidade por
uma disciplina específica.
3.4. - A dialética diferenciação/integração na interdisciplinaridade
Considerando-se a educação escolar, o aspecto essencial da formação geral é
a instrução científica e cultural básica. Assim, o papel da escola está ligado ao ensino
das bases da ciência, da técnica, das artes, e formação de habilidades cognitivas.
Basicamente, no ensino opera-se a conversão das ciências em matérias de ensino.
Para que isto ocorra, faz-se necessário definir:
· A seleção das matérias de ensino
· A seqüência da matéria de ensino
· A coordenação e integração entre as matérias de ensino
78
Quanto à seleção e seqüência da matéria de ensino - O conteúdo de uma
matéria de ensino é determinado, principalmente, pelas disciplinas cientificas,
técnicas ou artísticas. Por exemplo, as bases cientificas da matéria biologia são a
botânica, a zoologia, a antropologia.
A matéria de ensino não reproduz todo o campo cientifico. Por isso se faz uma
seleção das bases da ciência que contribuem para a formação geral de todos os
alunos, isto é, que conteúdos que tenham valor educativo. Este é o papel de uma
proposta curricular, este é o papel da equipe escolar e do professor quando
selecionam o organizam conteúdos.
A definição e escolha dos conteúdos nunca está acabada, nunca pode ser
definitiva, está sempre em mudança. Porque: a) depende do desenvolvimento da
ciência; b) depende das exigências sociais e pedagógicas; c) depende das condições
concretas da escola; d) das leis do processo de ensino e aprendizagem; e) das
peculiaridades de desenvolvimento e idade dos alunos, seu nível de conhecimentos e
capacidades, suas condições físicas, psíquicas e sócio-culturais. Para isso, existe a
Didática.
Os conteúdos já expressam necessidades sociais. É o tratamento metodológico
do conteúdo é que fará a relação entre o conhecimento sistematizado e a
experiência sócio-cultural do aluno.
Entre as questões mais importantes sobre a instrução cientifica e cultural hoje
estão as seguintes:
Por um lado,
- há um aumento acelerado de conhecimentos científicos e técnicos
- há uma tendência cada vez maior de diferenciação (especialização) e ao
mesmo tempo de integração (interdisciplinaridade)
- estão ocorrendo modificações no processo de produção por causa do avanço
tecnológico, da informática.
acentuação da formação geral em função do exercício da cidadania.
Por outro lado,
- há uma perda geral da capacidade da escola de promover a formação
cientifica
- há uma decadência generalizada na formação de professores, aliada a
baixíssima remuneração e más condições de trabalho
- há uma crise de gestão dos sistemas escolares e da escola
- persiste o fracasso escolar
- jornada escolar encurtada e ano letivo encurtado
- falta de condições físicas e materiais para o ensino: livros, materiais
didáticos, bibliotecas, laboratórios
- currículo fragmentado - não tanto pelo fato de apresentar matérias isoladas
- mas por causa do encurtamento da jornada diária, redução das aulas a Português e
Matemática, hora-aula curta: - ausência de integração entre as matérias por causa da
rotatividade de professores, descontinuidade do trabalho da escola, dificultando o
trabalho em equipe e a formulação de um projeto pedagógico.
- avaliação fragmentada
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Estas duas considerações, - por um lado, as exigências atuais postas pelo
desenvolvimento da ciência; por outro, as condições precárias de atendimento delas
por parte do sistema de ensino público -, levam-me às seguintes conclusões:
Quanto às exigências postas pelo desenvolvimento cientifico:
- É preciso resolver os extremos entre a diferenciação e a integração. Ambos
devem ser intensificados: manter a diferenciação (especificidade) ,e buscar a
integração [pela interdisciplinaridade.
- Quanto mais especificidade, mais se destacam os limites de cada disciplina,
forçando a integração, a intrerdisciplinaridade.
- Em outras palavras: quanto mais tendência à integração e
interdisciplinaridade, mais necessidade de sistematização de conhecimentos.
Repetindo, a interdisciplina não pode suprimir a especificidade das disciplinas.
Quanto ao currículo da escola pública:
- valorização das disciplinas básicas e instrumentais (leitura, escrita,
matemática, ciências e humanidades)
- estabelecer a estrutura básica de conceitos de uma mateira de ensino,
formando um núcleo estável de conhecimentos fundamentais
- ênfase no desenvolvimento das capacidades cognitivas para prover a
aquisição independente de conhecimentos
-capacitação de professores nos conteúdos básicos e nas formas metodológicas
de lidar com alunos socialmente desiguais e culturalmente heterogêneos
CONCLUSÃO
E como entra aí a interdisciplinaridade? Acho que a interdisciplinaridade não
pode aparecer como panacéia. Pode virar mais um modismo entre tantos que já
apareceram.
Vou concluir minha exposição dizendo o seguinte:
1. Não é possível ser professor hoje sem uma atitude interdisciplinar. A
interdisciplinaridade é uma exigência da atividade intelectual e profissional em
praticamente todos os campos de trabalho. Na educação, na medicina, na
engenharia, no direito.
O contrário de interdisciplinaridade é fechamento, isolamento, apego ao
velho, falta de diálogo, excesso de especialização, individualismo etc. São atitudes
que não combinam com uma visão moderna, aberta, do mundo.
2. Porque insisti numa atitude interdisciplinar?
a) hoje em dia há um aumento acelerado de conhecimentos. Há uma
tendência cada maior de diferenciação (especialização) e ao mesmo tempo de
integração (interdisciplinaridade. Necessidade de maior formação geral,
b) A escola, por sua vez, vem perdendo sua capacidade de promover a
formação científica e de ajudar os alunos a pensar, entre outras razões, pelo
despreparo generalizado de professores. Etc.
3. Mas, não tomemos a interdisciplinaridade como tábua de salvação. As
dificuldades da escola, do ensino, dos professores, não serão resolvidas apenas
adotando-se uma proposta de ensino interdisciplinar.
80
Na minha opinião, interdisciplinaridade começa em cada disciplina,
quando você dá conta de lidar com os assuntos de sua matéria de uma forma
globalizante, isto é, tratar cada assunto nas suas relações, nas suas ligações com
outros conhecimentos, quando você insere sua matéria num todo maior. Além disso,
a organização da escola deve ser interdisciplinar, ou seja, deve basear-se num
projeto pedagógico comum, contra o trabalho fragmentado na escola.
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S.Paulo, Loyola, 1995.
SANTOS, Maria E.V.M. dos. Área Escola/Escola - Desafios interdisciplinares. Lisboa,
Livros Horizonte, 1994.
81

Capítulo IX

O MODO DE PENSAR DIDÁTICO E A METODOLOGIA DO ENSINO DA DIDÁTICA (A RELAÇÃOOBJETIVO-CONTEÚDO-MÉTODO NA DIDÁTICA CRÍTICO-SOCIAL) ( * )

O tema deste painel, a relação conteúdo-forma e a Didática vem sendo
estudado por vários colegas sob diferentes ângulos. Eu gostaria de trazer minha
contribuição tratando de uma questão mais específica: as implicações da relação
conteúdo-forma nos métodos de ensino, dentro da questão central da Didática que e
a relação entre objetivos-conteúdos-métodos. As investigações no campo técnicas da
Didática têm se desenvolvido bastante nos últimos anos, especialmente na busca de
uma estruturação mais explícita de categorias e conceitos e de métodos de pesquisa.
Este texto ingere -se nessa busca, de modo que as questões trazidas aqui são matéria
de discussão e de mais investigações pelos estudiosos da área.
Para discutir a questão dos métodos de ensino frente a relação conteúdoforma,
pretendo ter como interlocutores os professores de Didática e prática de
ensino das disciplinas específicas dos cursos de licenciatura. Entre esses professores
vigoram algumas posições bem conhecidas sobre a Didática e os métodos de ensino, a
saber:
· Ensinar é transmitir o conteúdo da matéria, cabendo à Didática
proporcionar os elementos do planejamento de ensino e os métodos e
técnicas necessários.
· Para ensinar, basta conhecer bem a ciência que dá a base da matéria, ou
seja, o método de ensino decorre do conteúdo e do método de
investigação da ciência que é ensinada.
· A metodologia de ensino de uma matéria e menos uma questão de
métodos e mais de inserção do professor na prática escolar, mediante a
pesquisa-ação.
A primeira posição mostra um reducionismo do campo de estudos da Didática,
tomando-a como disciplina prescritiva de métodos e técnicas. A segunda não
distingue a matéria de ensino e a ciência que lhe serve de base, como não distingue
método da ciência e método de ensino. Meu ponto de vista de vista e o de que o
conteúdo da matéria de ensino decorre da ciência que lhe serve de base, mas a
matéria de ensino implica uma seleção de conhecimentos pautada por critérios
pedagógicos e didáticos; do mesmo modo, método da ciência e método de ensino são
conexos mas não idênticos, porque a atividade de ensino implica uma relação
pedagógica que lhe é peculiar, distinguindo-se daquela que ocorre na atividade
científica. A terceira posição também é insatisfatória porque a questão dos métodos
de ensino não pode ser resolvida apenas no âmbito da prática. O processo de ensino
guarda semelhanças com o processo de investigação, mas se distingue deste. A
prática por si se não é geradora de conhecimentos, requerendo uma teoria que
oriente sua apreensão e explicação.
Estas considerações iniciais já indicam meu entendimento da questão. A
Didática é teoria e prática do processo de ensino, incluindo a unidade entro
objetivos, conteúdos, métodos e formas organizativas do ensino, bem como as
regularidades e princípios decorrentes das conexões entre ensino e aprendizagem em
( * ) Texto apresentado no Painel “A relação conteúdo – forma e a Didática”, no VI ENCONTRO
NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO, realizado em Porto Alegre, de 2 a 6.12.1991.
82
condições específicas das situações didáticas. Os métodos de ensino constituem,
assim, uma categoria da Didática, tendo uma magnitude própria em relação a outros
tipos de métodos, tais como o método do processo do conhecimento (fundamentado
numa concepção do processo de conhecimento), os métodos da cognição científica e
os métodos particulares das ciências. Entretanto, para falarmos de métodos de
ensino, são necessárias duas referências: a relação objetivos-conteúdo-métodos e a
relação conteúdo-forma.
O entendimento da unidade objetivos-conteúdos-métodos parte da premissa
de que a finalidade da escola, a finalidade imediata, é a instrução e a formação
intelectual, mediante a transmissão e assimilação de conhecimentos científicos e o
desenvolvimento de habilidades, hábitos, capacidades, tendo em vista a
compreensão ampliada da realidade e a atuação prática nela. Nesse sentido, os
conteúdos formam a base material da atividade escolar. Como se sabe, os conteúdos
consistem de conhecimento, hábitos, habilidades e métodos de estudo e trabalho,
atitudes e convicções, conexos às matérias de ensino. Os conteúdos das matérias não
restringem à matéria em si, mas a matéria preparada pedagogicamente, ou seja, ela
remete-se a objetivos mais amplos da educação. Além disso, todas as matérias
requerem métodos de transmissão e assimilação ativa. Temos, assim, que os
conteúdos-métodos têm como referência os objetivos, pela simples razão de que os
conteúdos-métodos são um assunto pedagógico, isto é, subordinam-se a finalidades e
processos que são de natureza sócio-política, ideológica, filosófica. Resumindo: é
impossível falar em métodos de ensino fora da unidade objetivos-conteúdos-métodos.
A segunda referência para se falar de métodos de ensino é saber como estão
implicados na relação conteúdo-forma. A constatação mais evidente dessa relação é
de que não há conteúdo sem forma nem forma sem conteúdo, ainda que se possa
falar de certa autonomização da forma. O conteúdo é o conjunto dos elementos,
propriedades, características próprias de um objeto, de um processo, de um
problema e que interagem entre si; a forma é a estrutura das relações internas e
externas desse objeto, processo, ou seja, a forma revela o movimento próprio do
conteúdo, as coisas e suas relações.
A relação conteúdo-forma está presente na atividade escolar em vários níveis
interligados. Há uma relação conteúdo-forma na instituição escolar, que é a escola
como organização social que tem suas características próprias, processos próprios, e
cuja articulação e cujo movimento interno é revelado pela forma, isto é, a estrutura
e a dinâmica desse conteúdo designado escola.
Um segundo nível, interligado ao primeiro, é a relação conteúdo-forma na
atividade ensino, o ensino como objeto de estudo da Didática. Nesse caso, qual é o
conteúdo desse objeto chamado ensino? A meu ver, o conteúdo do processo de
ensino a relação professor-aluno-matéria, ou seja, a atividade que define a situação
didática e que se configura como a mediação exercida pelo professor em função do
encontro cognitivo do aluno com a matéria. Temos aí que o conteúdo do fenômeno
ensino não é o conteúdo das matérias de ensino, mas a relação professor-alunomatéria.
A forma dessa atividade ou fenômeno é a estrutura das relações internas e
externas desse fenômeno, a articulação, o movimento desses três elementos
constitutivos do conteúdo ensino. A forma do fenômeno ensino não se identifica com
método de ensino.
O terceiro nível diz respeito à relação conteúdo-forma no tratamento didático
de uma matéria de ensino determinada. Um objeto de conhecimento (fenômeno,
teoria, problema) tem como conteúdo o conjunto dos elementos, propriedades,
características, internos e externos, que lhe são próprios. Sua forma é o movimento
que indica sua lógica e suas relações, isto é, a ligação entre os elementos e
propriedades, de seus processos internos e externos.
83
Conforme já mencionei, estes três níveis encontram-se interligados,
penetram-se mutuamente. Por exemplo, a relação conteúdo-forma na organização
escolar impregna a relação conteúdo-forma no ensino e a relação conteúdo-forma no
tratamento didático de uma matéria de ensino.
Este modo de entender a relação conteúdo-forma tem uma série de
conseqüências para a concepção de Didática enquanto teoria do processo de ensino.
Esta questão está no centro da problemática da Didática, uma vez que possibilita
delinear o campo de investigação e de ação da Didática. Vou mencionar apenas
algumas dessas conseqüências, para depois detalhar mais a questão de como os
métodos de ensino estão implicados na relação conteúdo-forma do ensino das
matérias.
As derivações são as seguintes:
· a atividade de ensinar não se reduz aos conteúdos das matérias escolares
e não pode ser concebida como transmissão-assimilação da ciência que
serve de base à matéria;
· a forma de ensino não se equivale ao método de ensino e muito menos ao
método de investigação da matéria;
· a atividade de ensino não se confunde com a organização do trabalho
escolar, ela tem sua especificidade no conjunto das demais práticas
educativas.
Gostaria de me estender mais ao terceiro nível da relação forma-conteúdo
que mencionei, porque nesta relação estão implicados os demais níveis.
A abordagem crítico-social dos conteúdos refere-se a uma abordagem
metodoló gica mediante a qual trata-se de descobrir, de ir em busca da lógica e das
relações internas de um objeto do conhecimento, ou seja, desvendar a forma de
conteúdo. Lidar metodicamente com os conteúdos de ensino, isto é, cientificamente,
criticamente, é apreender, apanhar o objeto de estudo em suas propriedades e
processos e em suas múltiplas relações com outros objetos e fenômenos com os quais
interagem. É tomar as coisas, os fenômenos, os objetos do conhecimento nas suas
relações internas e externas para apanhar os nexos sociais, a prática social, as
relações sociais que constituem as coisas, os fenômenos, os objetos de
conhecimento. A dimensão crítico-social dos conteúdos implica, pois, a idéia de
totalidade, da contradição, da historicidade.
Nesse modo do entender a relação conteúdo-forma no processo de assimilação
ativa e consciente da matéria está implicada a relação fundamental da Didática, que
é a relação objetivos-conteúdos-métodos. Não vou me ocupar agora de detalhar cada
um deles elementos e sua articulação, detendo-me mais na questão dos métodos de
ensino.
Já mencionei antes que método é a via, o caminho, para descobrir a forma,
isto é, o movimento interno do conteúdo. E aqui eu diria que no tratamento didático
de uma matéria, de um conhecimento científico, os métodos de ensino incorporam
outros tipos de métodos. A apreensão científica de um objeto de conhecimento
implica um método científico, um método geral do processo de conhecimento
(positivista, fenomenológico, dialético, estruturalista...). Implica, ao mesmo tempo,
métodos da cognição que correspondem às formas de aprendizagem do aluno, tais
como a observação, a análise, a síntese, a abstração e, ainda, os métodos
particulares das ciências que servem de base à investigação e constituição do campo
científico. Somente a partir da consideração destes três tipos de métodos se pode
falar em métodos de ensino.
84
Mas quero dizer, também, que os métodos de ensino, ao incorporar outros
métodos em situações didáticas concretas, adquirem especificidade própria. Com
efeito, a função dos métodos de ensino é a de ser um caminho utilizado pelo
professor e pelos alunos para atingir objetivos de ensino, para transmissão e
assimilação de conteúdos referentes a esses objetivos. Isso significa que os métodos
de ensino não se identificam com os métodos do processo de investigação cientifica,
nem com os métodos da cognição e nem com os métodos particulares da ciência,
embora os pressuponham.
Vejamos isto mais de perto. Em qualquer desses tipos de métodos,
encontramos as características do método: são meios para atingir um objetivo,
implicando uma atividade, isto é, uma seqüência de ações, meios e procedimentos
materiais e intelectuais, e implica, evidentemente, um objeto. Estas características,
quando referidas aos métodos de ensino, tomam feições próprias à natureza do
processo de ensino.
Ora, a natureza do processo de ensino é que ele é um processo de
conhecimento da matéria pelo aluno sob a direção do professor. Ou seja, o método
de ensino propicia a mediação entre o aluno e o objeto de conhecimento. Isso
implica levar em conta as seguintes considerações:
1a) O método de ensino se determina pela relação conteúdo-forma no objeto
de conhecimento, ou seja, a utilização do um determinado método de ensino
depende da matéria e do assunto a tratar, de modo que o método de ensino reflete,
a lógica da ciência que serve de base à matéria de ensino. Podemos dizer, assim, que
o conteúdo determina o método.
2ª) O núcleo do ensino é a relação cognitiva entre o aluno e a matéria, ou
seja, a função primordial dos métodos é a de promover os meios e procedimentos de
mobilizar a atividade cognoscitiva dos alunos em relação da matéria, de modo a
assegurar a assimilação consciente, sólida e duradoura dessa matéria. Isso significa
que a referência para a escolha dos métodos ao ensino é o processo de assimilação
consciente do conhecimento pelo aluno. Nesse sentido, os métodos de ensino se
determinam pela lógica do processo de conhecimento, mas o processo de
conhecimento tal como se dá ou deve se dar com situações didáticas específicas.
3ª) O processo de ensino é um assunto pedagógico, implicando finalidades e
meios de formação humana conforme objetivos sócio-políticos que expressem
interesses sociais de classes e grupos. Os métodos de ensino, enquanto categoria do
processo de ensino, remetendo-se a objetivos sociais, políticos, ideológicos do
processo educativo. Se, por um lado, o método é determinado pelo conteúdo, por
outro, a categoria objetiva é também determinante da relação conteúdo-método.
Daí podemos dizer que os objetivos gerais e específicos referentes ao
desenvolvimento e transformação dos educandos orientam a seleção dos conteúdos,
o tratamento didático dos conteúdos, bem como a escolha dos métodos que
conduzem aos objetivos.
4ª) Na relação objetivo-conteúdo-método há uma outra relação fundamental:
o processo do ensino ocorre sob determinadas condições do ensino e da
aprendizagem. Umas são já existentes, outras são transformadas ou criadas pelo
professor. Podemos mencionar entre essas condições: o plano da escola, o projeto
pedagógico-curricular, a organização escolar, as práticas escalares, os conselhos de
classe, o conselho de escola, as organizações dos alunos, os meios de ensino e demais
recursos físicos e materiais, o plan o de ensino, o manejo de classe pelos professores,
as relações professor-aluno, a ativação das condições de aprendizagem dos alunos.
Incluem-se, pois, tudo o que o trabalho pedagógico-docente pode criar para suprir as
condições ótimas para atingir os objetivos do ensino.
85
Essas considerações convergem para a afirmação de que a linha fundamental
do processo didático é a unidade a relação entre objetivos-conteúdos-métodoscondições.
Cumpre destacar que desta relação fundamental surgem relações
derivadas. É o caso, por exemplo, da relação objetivos-organização do trabalho
escolar, ou seja, entre os objetivos educacionais e as práticas de organização e
gestão da escola. Meu ponto de vista é o de que os determinantes primeiros das
formas de organização escolar são os objetivos-conteúdos-métodos, em relação aos
quais se organiza e se gere a escola. Entretanto, não significa minimizar a
organização escolar. A organização do processo de trabalho na escola, na sala de
aula, o sistema de gestão escolar atuam sobre os objetivos-conteúdos-métodos, pois
referir-se a formas que assuma o conteúdo ensino (relação professor-aluno-matéria)
que, por sua vez, impregnam o processo de transmissão e assimilação das matérias.
Gostaria, finalmente do extrair algumas breves conclusões.
1) Minhas considerações levam ao reconhecimento da relevância da
Didática como disciplina teórica (cujo objeto é o processo do ensino na sua
globalidade) e, ao mesmo tempo, uma disciplina prática, como instrumento de
trabalho do professor de qualquer grau de ensino.
2) O ensino é um assunto pedagógico, isto é, todo trabalho docente está
orientado para finalidades educativas e a meios de ação do cunho genuinamente
educativos.
3) O professor de qualquer disciplina, sendo um profissional do ensino, precisa
conhecer e dominar conhecimentos e técnicas especificas da ação de ensinar. Se
todo profissional do ensino necessita formação pedagógico-didática, com muito mais
razão necessita dessa formação aquele professor de prática de ensino que forma
outros professores.
4) Os métodos do ensino se distinguem do método universal do processo
de conhecimento, dos métodos específicos da cognição, dos métodos particulares das
ciências, embora os incorporem. Os objetivos do ensino se distinguem dos objetivos
da investigação científica, a seqüência de atividades envolve não só o trabalho do
professor, mas o trabalho dos alunos, em vista do desenvolvimento da sua própria
atividade cognoscitiva; o objeto da ação escolar é o aluno, mas que é, também,
sujeito ativo, com características próprias, fato esse que influi na determinação e
escolha dos métodos de ensino.
Goiânia, novembro de 1991.
86

CAPÍTULO X

OS CAMPOS CONTEMPORÂNEOS DA DIDÁTICA E DO CURRÍCULO: APROXIMAÇÕES E
DIFERENÇAS ( * )

A discussão proposta neste texto sobre as relações entre os campos de
conhecimento da didática e do currículo tem por objetivo acrescentar um ponto de
vista a mais sobre o tema e sugerir outras pistas de investigação, considerando-se a
produção teórica existente. Trata-se, obviamente, de um olhar a partir da didática,
mas de uma didática que reconhece explicitamente a importância dos fins e
conteúdos do ensino em seus marcos sócio-culturais e institucionais, ou seja, do
currículo. A intenção do texto é menos a de alimentar controvérsias e mais a de
oferecer aos pedagogos e professores uma contribuição para a clarificação de
problemas, situações escolares e orientações teóricas vigentes, tendo em vista a
tomada de decisões sobre objetivos, conteúdos e métodos de ensino. O autor tem
consciência de que o texto é introdutório, incompleto, sem pretensão de ser
exaustivo, tanto em razão de existir uma produção bastante razoável nos dois
campos difícil de ser analisada em sua totalidade5, quanto pela abundância de novas
e ainda pouco exploradas questões teóricas e práticas surgidas na atualidade
relacionadas com o tema.
No primeiro tópico, examino o desenvolvimento histórico dos objetos de
investigação dos dois campos e suas diferentes tradições culturais e teóricas. Em
seguida, discuto as dificuldades que tornam problemática a articulação entre os dois
campos mas sugerindo certas condições para que possam fecundar-se mutuamente, a
despeito de suas diferenças, que não são pequenas. Concluo com a indicação de
algumas pautas comuns em que as duas áreas poderiam pôr-se a serviço das
demandas da prática docente e da formação de professores.

1. OS OBJETOS DE INVESTIGAÇÃO DA DIDÁTICA E DO CURRÍCULO E SUAS DIFERENTES
TRADIÇÕES CULTURAIS E TEÓRICAS

Proponho-me a demonstrar duas idéias. A primeira, é a de que didática e
currículo têm objetos de investigação coincidentes, isto é, abarcam a mesma
problemática e os mesmos campos de atuação prática. A segunda, por outro lado,
refere-se ao fato de que as duas áreas têm origem em diferentes tradições culturais
e teóricas, implicando diferentes percursos epistemológicos e, portanto, uma
impossibilidade de conjunção teórica.
Em relação à primeira idéia, penso que precisamos ser muito transparentes
nesta discussão e dizer que, para além das divergências teóricas, didática e currículo
são campos que envolvem decisões práticas no âmbito das escolas e das salas de
aula, ambos referidos aos fenômenos concretos do ensino e da aprendizagem. É neste
âmbito que situo a análise do tema. Nesse sentido, ver-se-á que os temas
curriculares e didáticos ora se sobrepõem ora se complementam numa espécie de
divisão de tarefas. Num caso, a didática fica subsumida no currículo ou o contrário;
noutro, o currículo (o que ensinar) se concretiza através da didática (o como
( * ) Comunicação apresentada na XX Reunião Anual da ANPEd, Caxambu-MG, 1997. Publicada no livro
Confluências e divergências entre didática e currículo, organizado por Maria Rita N.S. Oliveira, Papirus,
1998.
5 Alguns desses estudos referem-se especificamente à discussão sobre os campos científicos das duas
disciplinas no Brasil. Entre os mais recentes, destaco: Olivei ra, 1992; Santos e Oliveira, 1994; Garcia,
1994; Paraíso, 1994; Berbel, 1994; Libâneo, 1994; Veiga-Neto, 1995; Moreira, 1997; Pimenta, 1997.
87
ensinar), esta subordinada àquele, ou o currículo transforma-se numa projeção da
didática, isto é, como parte integrante dela. Dizendo de uma forma mais abreviada:
o que o especialista em didática disser sobre seu campo de estudos, o especialista
em currículo dirá que pertence ao currículo. Em contrapartida, o que este disser do
currículo, o outro requisitará para a didática. Obviamente o curriculista dirá que a
didática é uma parte do currículo e o didata dirá que o currículo é que faz parte da
didática6
Alguns podem considerar esta discussão irrelevante. Não penso assim. No
âmbito das ciências da educação, não é difícil constatar que o ensino e a
aprendizagem - tomados como objetos de estudo e como processos concretos -
constituem-se em territórios de disputa tanto em termos teóricos como profissionais.
Basta mencionar o espaço que reivindicam aí a psicologia da educação, a
psicopedagogia, as teorias da comunicação e da informação, a psicolinguística e,
obviamente, o currículo e a didática7, provocando muito frequentemente posições
reducionistas. Outro exemplo é o rebuliço que provocaria uma afirmação como “toda
teoria curricular está inscrita dentro do marco teórico de uma teoria do ensino” ou
“a base teórica da didática é a psicologia”...
Será possível delimitar as fronteiras entre os campos do currículo e da
didática? Os conceitos e proposições com que trabalham formam um todo lógicosistemático
ou cada área tem sua própria estrutura conceitual? Com o intuito de
buscar mais clareza sobre essas questões, argumentarei, primeiramente, a partir da
afirmação de que didática e currículo referem-se aos mesmos fenômenos e,
portanto, disputam o mesmo espaço de investigação para depois explicitar suas
distintas tradições culturais e teóricas.
O percurso do currículo
Há menções do aparecimento do termo currículo em 1633 para caracterizar
um plano completo de estudos para a formação de pregadores da reforma calvinista
escocesa (Pedra, 1997). Teria nascido daí a idéia de currículo de um curso, de
sequência de um curso para sistematizar processos de instrução. No linguajar comum
foi esta idéia que ficou - o programa e o conteúdo das disciplinas de um curso.
Entretanto, desde o início deste século observa-se nas definições de currículo uma
posição quase unânime de que o termo refere-se aos critérios de seleção do que se
deve ensinar e aos modos de ensinar.
As definições mais conhecidas se alternam na ênfase ou no aprender ou no
ensinar, ou nos conteúdos ou nas habilidades para viver na sociedade. Por exemplo, é
conhecida a posição de Bobbit que, por volta de 1920, definiu currículo como o
conjunto de habilidades que os alunos deveriam aprender para viver na sociedade,
6 Ao longo do texto, o leitor irá reparar a dificuldade dos especialistas em formular uma definição
consensual de currículo. Além disso, será preciso distinguir diferentes orientações teóricas na reflexão
sobre o currículo, incluindo a perspectiva crítica, que é a que interessa mais aqui. Neste último caso, há
um problema adicional decorrente do fato de, no Brasil, não serem muito claras as fronteiras entre a
sociologia crítica do currículo e a teoria curricular crítica. Todavia, a interlocução far-se-á com a teoria
curricular crítica, por mais que a relação entre estes dois campos de conhecimento seja, no mínimo,
simbióticas. Quanto à didática, cujo objeto de estudo está bem mais explicitado, são também
conhecidas suas várias orientações teóricas, mas será destacada aqui a didática crítica, sem pretender
fazer referência aos distintos entendimentos do termo “crítica”.
7 Em países que adotaram oficialmente o termo “currículo” para dar visibilidade à sua política
educacional - caso, por exemplo, da Inglaterra e Espanha, atualmente -, o currículo apresenta-se como
obejtivos de ensino, conteúdos, procedimentos metodológicos, tarefas de aprendizagem, avaliação.
“Didática” vira apenas o campo do metodológico, da técnica de ensino. No Brasil, consultores ou
especialistas em currículo que trabalham em instituições educacionais denominam a proposta
educacional da instituição de projeto curricular, onde especialistas em pedagogia e didática
denominariam projeto educacional ou projeto pedagógico. A meu ver, não seria de todo inadequado a
denominação projeto pedagógico-curricular.
88
deslocando a ênfase dada ao legado cultural e cunhando os famosos “objetivos
terminais”, i.e., o que um aluno deverá ser capaz de fazer ao final de um curso.
Taba deixa claro que o currículo inclui não apenas a seleção e organização de
objetivos e conteúdos mas também as estratégias metodológicas e prescrições de
avaliação (1974), na mesma linha da seqüência do planejamento de currículo
anteriormente proposta por Tyler em livro publicado em 1949, traduzido no Brasil em
1974. Não preciso mostrar aqui como o roteiro de Tyler se parece com um manual de
didática, ao indicar os elementos de um bom currículo: formulação de objetivos
educacionais, seleção e organização de experiências de aprendizagem e
procedimentos de avaliação.
Johnson, dentro da orientação “tecnicista” dos autores mencionados, tem
uma posição diferente sobre a relação entre currículo e ensino. Esse autor estabelece
diferença entre um termo e outro: “...currículo refere-se ao que se pretende que os
alunos aprendam e não ao que se pretende que eles façam” (1980). Isso significa que
o currículo prescreve, antecipa, os resultados do ensino mas não os meios, sendo
estes tarefa do ensino. Em razão disso, define currículo como “uma série estruturada
de resultados pretendidos de aprendizagem” nos domínios cognitivo, afetivo e
psicomotor e o planejamento de ensino viabilizaria a realização deles (id.).
Mais recentemente, um autor bastante conceituado, Stenhouse, atribui ao
currículo o papel de propor intenções e modos operacionais, isto é, intenções que
levem à prática e que sejam avaliadas. Esse autor definiu currículo como “uma
tentativa para comunicar os princípios e traços essenciais de um propósito educativo,
de forma tal que permaneça aberto à discussão crítica e possa ser trasladado
efetivamente à prática” (In Gimeno Sacristán, 1989). Ou seja, diferente de Johnson,
alia à idéia de currículo como intenção, como plano ou prescrição, a idéia de efetiválo
na prática dentro das condições dessa prática.
Dentro do enfoque sócio-crítico, destaca-se a perspectiva de colocar o
currículo como ponte entre a teoria e a prática, a partir da prática. Nessa orientação
o currículo, antes de ser algo decorrente de uma teorização, constitui-se em torno
dos problemas reais das escolas, dos professores, dos alunos, da sociedade. Trata-se
de um enfoque integrador de conteúdos e formas, não separando currículo de ensino,
ou melhor, colocando o ensino como o conjunto de atividades que transformam o
currículo na prática para produzir aprendizagem (Gimeno Sacristán, 1994). A idéia de
currículo como projeto educativo que se realiza na prática da sala de aula supera a
dicotomização entre teoria e prática sustentada pelos tecnicistas. A defi nição de
currículo proposta por Gimeno Sacristán parece atender bem às exigências de uma
teoria curricular crítica:
“... é o projeto seletivo de cultura, cultural, social, política e
administrativamente condicionado, que alimenta (rellena) a atividade escolar, e que
se faz realidade dentro das condições da escola tal como se encontra configurada”
(1989).
Moreira e Silva (1994) fazem um elucidativo percurso histórico da teoria
curricular crítica situando autores nas correntes críticas contemporâneas tais como o
neomarxismo, a fenomenologia, a sociologia crítica do currículo e a Nova Sociologia
da Educação. Recentemente Moreira atualizou este histórico, incluindo a influência
do pós-modernismo no currículo (1997). Os autores dão um expressivo destaque à
Sociologia do Currículo cujo papel é ajudar a compreender as relações entre os
processos de seleção, distribuição, organização e ensino dos conteúdos curriculares e
a estrutura de poder do contexto social. O texto desses autores, entretanto, não
permite deduzir os ingredientes de uma teoria curricular crítica para além da
sociologia do currículo, como também não compartilham da problemática que outros
autores vinham perseguindo, como as relações entre currículo e ensino, teoria e
89
prática, e principalmente a projeção e, ao mesmo tempo, a transformação do
currículo nas práticas concretas da sala de aula8.
Seja como for, o que desejo destacar com estas considerações é a tendência
das investigações em currículo de situar sua temática em paralelismo com a da
didática, ou como campos sobrepostos ou posicionando o ensino como subordinado ao
currículo. Pouco importa se ensino receba o nome de didática ou de pedagogia;
importa que currículo é o conceito abrangente e pedagógico o conceito incluso.
Também na história do currículo no Brasil o ensino aparece como atividade do
currículo, os temas da didática subsumidos no currículo. É oportuno recordar, por
exemplo, definições propostas por um dos principais introdutores da teorização sobre
currículo no Brasil, Joel Martins, que difundiu suas idéias em duas importantes
escolas públicas experimentais de S. Paulo (a dos ginásios vocacionais e dos ginásios
pluricurriculares experimentais), nos anos 1960-70.
“Currículo, como expressão educacional, constitui o meio essencial de
educação que abrange as atividades dos alunos e de seus professores. Assim, currículo
tem um significado duplo, referindo-se às atividades realizadas e aos produtos
apresentados. (...)
...aquele instrumento de trabalho que seleciona as aprendizagens e
conseqüentes experiências consideradas básicas e fundamentais para todos os alunos
porque elas derivam-se das fontes propulsoras e sociais que formarão os membros
participantes da sociedade democrática”. (Martins, 1968).
Nessas definições, nota-se a influência da concepção de currículo da escola
nova, largamente adotada no Brasil nos anos 60-70, ou seja, o currículo como
experiência ou currículo por atividades. Mais tarde, já na vigência da Lei 5.692/71,
circulam os livros de Taba (publicado nos EUA em 1962, na Argentina em 1974), Tyler
(1974), Fleming (1970)entre outros. É interessante mencionar o livro de Dalila Sperb,
Problemas Gerais de Currículo (1966), bastante utilizado nos cursos de formação de
professores à época. Esses livros traziam o entendimento clás sico de currículo como
toda a aprendizagem planejada e guiada pela escola e, portanto, supunha uma
ênfase no planejamento curricular como atividade racional formada por três
elementos: objetivos, conteúdos ou matéria e métodos ou processos. Essa linha
consolidou-se com os livros de Bloom, Mager, Gagné, entre outros, que acabaram por
marcar a tendência em currículo cunhada entre nós de tecnicismo educacional.
A recepção no Brasil dessa noção globalizante, isto é, currículo como soma
total de experiências dos alunos planejadas pela escola incluindo processos de ensino
e a própria organização da escola, tem a ver com uma relação de continuidade entre
a corrente progressivista de Dewey e a abordagem sistêmica/comportamentalista no
pensamento educacional brasileiro dos anos 60-70, conforme sugeri em outro lugar
(Libâneo, 1990). No Brasil, essa noção de currículo, obviamente inclui a didática, mas
como área subordinada, uma variável curricular encarregada dos métodos e material
didático. A didática fica reduzida ao seu caráter instrumental, e as funções
tradicionalmente inscritas no seu âmbito teórico - o que, como, para quem etc. -
passam para o currículo.
Com estas últimas considerações, quero ressaltar que os estudos sobre
currículo que se consolidam a partir dos anos 60 têm uma óbvia origem norteamericana
e é nessa linha que se desenvolveu boa parte da mentalidade do
professorado sobre currículo e didática9. Devido provavelmente à forte estruturação
8 Sobre isso, é útil consultar o livro Currículo, conhecimento e suas representações (Pedra, 1997). Pedra
também faz um interessante histórico das representações do termo “currículo” em vários autores aqui
citados.
9 Vários autores fizeram a história da introdução dos estudos sobre currículo no Brasil, entre outros,
Domingues (1986), Moreira (1990), Silva (1992), Moreira e Silva (1994), Pedra (1997), onde são
apresentadas as várias tendências e correntes.
90
disciplinar dos currículos de formação, pouco se questionou sobre a presença das
duas disciplinas, com temáticas bastante parecidas. A diferenciação começou a
ocorrer com a introdução e incorporação no Brasil das teorias reprodutivistas
(segunda metade dos anos 70), da Nova Sociologia da Educação, da teoria crítica (por
volta de 1988), que possibilitaram o questionamento da concepção tecnicista e
eficientista do currículo e a formulação de um corpo teórico para a teoria curricular
crítica (Moreira, 1977; Silva, 1992).
Todavia, a tendência que foi ganhando mais destaque foi a sociologia crítica
do currículo que passa a desenvolver um corpo de idéias inteiramente distinto
daquelas convencionais anteriormente mencionadas. Tudo parece inverter-se, as
categorias ganham outros significados. Vendo essa tendência de fora, fica-se com a
sensação de que construiu-se muito mais uma sociologia do currículo do que uma
teoria crítica do currículo para uso dos professores, como propunham, por exemplo,
Stenhouse ou Gimeno Sacristán, que assumiam o currículo como um conceito
integrador da teoria e da prática educativa e principal instrumento de inovação e
mudança educativas.
Presentemente outras influências vêm se agregando à teoria crítica do
currículo, destacando-se o pós-estruturalismo, os estudos culturais, a psicanálise,
embora alguns autores admitam um momento de crise dessa tendência, inclusive por
certo ecletismo do discurso crítico em educação (Moreira, 1997).
O percurso da didática
O termo didática adquire significado no pensamento pedagógico com Comênio
com a publicação de sua Didacta Magna em 1632, portanto, na mesma época do
aparecimento do uso do termo currículo. Desde as definições etimológicas (do grego
didaskein, didaktikós) até à sistematização dos elementos constitutivos da didática,
mantém-se a idéia de que o didático liga-se à necessidade de produção e reprodução
da vida social conexa ao processo educativo intencional, por onde se caracteriza
como arte e ciência do ensino.
Comênio institui o metodológico no cerne dos objetivos educativos,
instaurando a fase da didática naturalista-essencialista. Mas Comênio não foi um
mero difusor de um método universal único, como alguns afirmam. Sua didática
assenta-se em fundamentos filosóficos, ou seja, é uma teoria da educação e não uma
prescrição instrumental. Rousseau, Pestalozzi e Herbart, embora com diferentes
marcas, incluem-se na fase da didática psicológica, sucedida pelo desenvolvimento
da didática científico-experimental, já no final do séc. IX e início do séc. XX, em que
os problemas educativos são submetidos à experimentação psicológica, viabilizando
uma didática experimental. Essas fases acabam convivendo juntas ao longo dos anos,
às quais foram se agregando outras tendências e correntes, quase sempre mantendo
dependência da psicologia.(Libâneo, 1990). Esse quadro se modifica apenas quando
se revigora o pensamento social de esquerda quando a didática abre-se para
influências da filosofia, sociologia, política.
No Brasil, por volta dos anos 80, inicia-se uma revisão histórica e conceitual,
reinterpretando o papel das correntes pedagógicas para a prática escolar à base de
teorias denominadas genericamente como “críticas”. A partir daí, tanto quanto o
currículo, a didática foi passando por resignificações. Não pretendo reconstituir aqui
a história desse movimento, esse trabalho já foi feito por vários autores (entre
outros, Libâneo, 1985, 1990; Candau, 1984; Veiga, 1989). Uma minuciosa
investigação sobre posições teóricas a partir dessa década foi publicada por Oliveira
(1992, 1995, 1996). Apenas menciono algumas polarizações conhecidas que
demarcam o desenvolvimento histórico da disciplina.
91
Há um núcleo forte do didático que não se abala ao longo da história da
pedagogia que são as categorias historicamente construídas. São os conhecidos
elementos do didático: o para quê ensinar, o que ensinar, quem ensina, quem
aprende, como se ensina, em que condições se ensina. Mas a relação e a articulação
entre esses elementos variam conforme as concepções conhecidas. Ora a dimensão
normativa converte-se em prescrições apriorísticas para a prática, ora privilegia-se a
prática. Ora a referência predominante é o ensino ora a aprendizagem. É comum
apresentar a didática tradicional como interessada nos meios e a didática moderna
no processo de aprender. Entretanto, a mudança mais visível na orientação teórica
dos estudos em didática é a superação do seu anterior caráter meramente prescritivo
e técnico quando assume, como seu objeto de investigação, os processos de
condução ou orientação da aprendizagem, embora sem abrir mão do componente
normativo.
O movimento de valorização e redefinição da Didática dos anos 80 teve um
forte tom crítico, mas não abandonou a especificidade das suas questões nucleares.
Os vários pesquisadores que compartilharam esse movimento marcaram sua produção
pelo esforço de resignificação da didática buscando articular suas dimensões política
e técnica, teórica e prática, explicativa e normativa. Em 1984 eu escrevia para a
revista da Ande o artigo denominado “Didática e prática histórico-social” onde fazia
as seguintes perguntas na introdução: Qual é a natureza do trabalho docente? Como
se articulam, de um lado, seu caráter especifico enquanto realização de uma
atividade técnico-didática e, de outro, sua multiplicidade, enquanto determinado e
envolvido por condicionantes econômicos, socioculturais, históricos? Que elementos
metodológicos ajudariam o professor a situar o trabalho docente na trilha dos
movimentos concretos da prática social, tendentes à transformação da sociedade?
(Libâneo, 1984).
Na verdade, a maioria dos pesquisadores da didática que realizaram suas
investigações dentro do marco de referência crítico orientou seus estudos para a
construção de uma teoria da práxis docente, proporcionando elementos para análise
das exigências da prática. A relação teoria-prática é vista hoje com mais clareza,
destacando-se a idéia da construção da teoria a partir da prática. Posições antigas
construídas a partir do conceito marxista de práxis se revigoram, ou seja, unir uma
prática teórica a uma teoria prática e agregar os tradicionais elementos da didática
às condições concretas em que essa relação ocorre ou. como preferem outros, aos
contextos institucionais em que essa relação ocorre.
Esse caráter teórico-prático da didática consiste em entendê-la como
disciplina explicativa e normativa em relação aos processos de ensino e
aprendizagem O termo “normativo” aparece com o sentido de intencionalidade
presente nos processos de relação e comunicação intencional que caracterizam a
didática (Gimeno Sacristán e Perez Gómes, 1994; Benedito, 1996; Contreras, 1990).
Também nesses autores as definições de didática são bastante claras ao acentuar
como objeto de estudo o processo de ensino e aprendizagem, seu caráter de
disciplina prática. Menciono três definições que expressam bem o caminho que vem
trilhando nas últimas décadas.
“A didática é - está a caminho de ser - uma ciência e tecnologia que se
constrói, a partir da teoria e da prática, em ambientes organizados de relação e
comunicação intencional, em que se desenvolvem processos de ens ino e aprendizagem
para a formação do aluno”(Benedito, 1996).
“Entendo a didática como disciplina reflexivo-aplicativa que se ocupa dos
processos de formação e desenvolvimento pessoal em contextos intencionalmente
organizados” (La Torre, 1993).
“A didática, como disciplina prática, consistiria em processos de teorização
sobre os problemas que gera a prática institucional da educação. É, portanto, uma
92
prática teórica, que deve dar conta de sua produção dentro das tradições de
elaboração de conhecimento público, mas que não renuncia a ser um conhecimento
prático que aspira a conectar com os processos de pensamento e experiência dos
profissionais da educação, trazendo elementos para o enriquecimento e reconstrução
de seu conhecimento profissional” (Contreras, 1996).
A posição de Contreras adianta uma nova maneira de reconceitualizar a
didática: tomá-la como conhecimento teórico com intenção prática e, ao mesmo
tempo, estabelecer uma relação mais estreita entre o conhecimento teórico e o
conhecimento profissional do professorado. As duas idéias se fincam no
entendimento da didática como prática social e como disciplina prática.
A idéia-chave de ensino como prática social é a do trabalho docente como
atividade transformadora da realidade, tomada em suas relações. A realidade é o
aluno, ser social e historicamente determinado, sujeito ativo do próprio
conhecimento, inserido em contextos sociais determinados em que vigoram
significados e intenções sociais (Pimenta, 1966, 1997; Oliveira, 1997). Este
entendimento, na verdade, vem sendo construído há mais de uma década por vários
pesquisadores da área. Todavia, essa formulação ganha hoje outros contornos.
Provavelmente, boa parte desses pesquisadores concordaria que trabalhávamos com
uma definição mais teórica que prática. Não que desconhecêssemos a unidade teoriaprática.
Mas tínhamos, a meu ver, um apego maior à teoria, no sentido até de
conscientizar os professores para realizar um trabalho crítico, eu diria até mais, de
induzir os professores a tomarem o conhecimento como instrumento de ação
A aproximação mais direta entre didática e formação de professores, a partir
da prática crítico-reflexiva, realça tipos de investigação que buscam saber como os
professores aprendem a ensinar no seu cotidiano de sala de aula e como pode ser
ajudado a refletir sobre sua prática e construir sua identidade profissional. O
professor também pode produzir teoria:
“Com o conceito de ensino reflexivo, os formadores de professores têm a
obrigação de ajudar os futuros professores a interiorizarem, durante a formação
inicial, a disposição e a capacidade de estudarem a maneira como ensinam e de a
melhorar com o tempo, responsabilizando-se pelo seu próprio desenvolvimento
profissional (Zeichner, 1993).
Em síntese, parece não haver substantivas divergências quanto ao núcleo do
didático, isto é, os processos de ensino e aprendizagem. A didática ocupa-se dos
processos de ensino e aprendizagem na sua globalidade, na sua interseção ou
interação, com a finalidade de orientar o trabalho do professor. Portanto, ensino
como atividade prática, melhor dizendo, práxis, que é, também, fonte de
investigação, estimulando o próprio professor a descobrir suas possibilidades de ação.
Com esse entendimento, a didática se apropria das teorias de aprendizagem, das
teorias do conhecimento, da teoria da educação, da teoria curricular, e as reordena,
as reestrutura, em teorias do ensino. Ou seja, pretensiosamente ou não, opera-se
com essas disciplinas uma projeção didática. Não se trata meramente de transpor
essas teorias para a prática didática, mas submetê-las a um critério didático, que é
verificar se atendem a exigências da teoria do ensino. Neste sentido, o currículo
seria um campo de projeção da didática, por mais discutível que possa ser essa
afirmação.
As diferentes tradições culturais
O desenvolvimento histórico das temáticas do currículo e da didática mostra
coincidências em seus objetos de investigação, mas é necessário destacar que campo
tem origem em diferentes tradições culturais e teóricas. Basta percorrer as obras
mais clássicas de autores das duas áreas para logo se concluir a ligação da didática
93
com a tradição cultural européia (especialmente alemã) e a do currículo com a
tradição cultural anglo-saxã. No Brasil, por exemplo, os estudos específicos sobre
currículo foram introduzidos inicialmente pela influência norte-americana, ao passo
que a didática aparece por influência européia (em boa parte pela pedagogia
católica).
Pode-se afirmar que se trata, também, de tradições teóricas diferentes na sua
origem, por mais que os dois termos venham sendo atualmente resignificados,
principalmente pelo impacto das teorias críticas no pensamento pedagógico. Como se
sabe, foi nos países anglo -saxônicos que se desenvolveu uma forte tradição positivista
e é aí que floresce o conceito mais usual de currículo (La Torre, 1993). Na
perspectiva do positivismo, não se aceitam objetivos de ensino fora do âmbito do
cientificamente proposto. Foi assim que, em nome da ciência objetiva, postulou-se a
eliminação do campo educacional de toda consideração referente aos fins e valores
em favor de uma ciência educativa descritiva que se ocuparia da educação realmente
existente e não de sua valoração. A meu ver, estaria aí a origem das concepções de
currículo, especialmente daquelas em que prevalece o caráter prescritivo-formal,
técnico-científico10. Já em boa parte dos países europeus, desenvolveu-se uma
tradição racionalista, de cunho humanista, embora esta afirmação não possa ser
absolutizada. Ora, justamente o tom da pedagogia européia era seu caráter éticonormativo,
jogando peso considerável nas finalidades, nos objetivos, nos valores.
Com efeito, a obra escrita de autores como Comênio, Herbart, Pestalozzi, para não
mencionar a pedagogia jesuítica, é toda ela impregnada de ingredientes valorativos.
Sendo assim, é certo que a didática e o currículo, em suas acepções clássicas,
acabam por incorporar concepções dominantes em seus berços de nascimento, visto
que esses campos de investigação, por mais que se pretendam “técnicos” ou
“aplicados” não escapam de fins e objetivos sempre lastreados por elementos
filosóficos, ideológicos, políticos.
Seria temerário afirmar que a teoria curricular crítica manteria seu viés
positivista por causa da ocorrência dessa tradição nos estudos de currículo. Na
verdade, é justamente contra a sociologia positivista que se insurge a Nova Sociologia
da Educação, movimento deslanchado na Inglaterra por volta de 1971. Mas é certo
que ficou dessa tradição o conceito panteísta de currículo, isto é, a teoria curricular
como sucedânea da teoria educacional, abrangendo toda a atividade educativa
formalizada ou como se costuma dizer: a soma das experiências educacionais
providas pela escola. Em relação à didática, pode-se dizer que ela manteve seu
vínculo com a pedagogia, entendida como teoria e prática da educação, conceito,
neste caso, mais abrangente que o de currículo.
A partir dos anos 80, ao menos no Brasil, foram ocorrendo mutações nos focos
de investigação no interior dos dois campos, sugerindo um intercruzamento entre as
tradições teóricas. O currículo, liberando-se de sua originária marca de planificação
dos conteúdos, foi se orientando para a explicitação e crítica de propósitos e
intenções pedagógicas e, em alguns casos, estendendo suas preocupações para a
prática. A didática, antes presa a uma tradição de centrar-se nos métodos e técnicas
de ensino (e vista assim por outras áreas), foi se descolando dessa tradição para
constituir -se numa efetiva teoria dos processos de ensino e aprendizagem, com forte
referência à prática.
É possível apontar, ainda, outros desdobramentos a partir dessa constatação.
Alguns teóricos críticos do currículo, por exemplo, a par da apropriação de elementos
10 Não é casual, também, o fato de a crítica ao modelo positivista de currículo ter-se desenvolvido,
inicialmente, na Inglaterra depois nos Estados Unidos, com a Nova Sociologia da Educação (Sarup, 1985)
e a sociologia do currículo, fontes teóricas de boa parte da teoria crítica do currículo.
94
da teoria social crítica, mantêm a aposta numa pedagogia “inspirada por um projeto
político que vincula a criação de cidadãos com o desenvolvimento de uma
democracia crítica” (Giroux, 1993). Com isso, uma teoria crítica do currículo
pretenderia nada mais nada menos que recuperar a dimensão pedagógica, pedagogia
no sentido de intencionalidade política e social. Giroux e Simon (1994), fazem uma
interessante observação:
“No discurso dominante, a pedagogia é simplesmente a metodologia
mensurável e justificável usada para transmitir o conteúdo de um curso. Não é um
elemento reciprocamente determinante na construção do conhecimento e da
aprendizagem, mas uma pós-intervenção reduzida à categoria técnico-instrumental.
(...) deprecia a pedagogia enquanto forma de produção cultural. (...) A pedagogia é
um esforço deliberado para influenciar os tipos e os processos de produção de
conhecimentos e identidades em meio a determinados conjuntos de relações sociais e
entre eles. (...) uma prática pela qual as pessoas são incitadas a adquirir determinado
‘caráter moral’. (...) tem preocupações que abrangem a integração, na prática, de
certo conteúdo e modelo de organização curricular, estratégias e técnicas didáticas
(...) determina qual tipo de conhecimento vale mais, para qual direção deveríamos
voltar nossos desejos, o que significa saber alguma coisa e, finalmente, como
poderíamos formular representações de nós mesmos, dos outros e de nosso ambiente
físico e social” (p.97-98).
A citação não deixa dúvidas, primeiro, do caráter de intencionalidade que
recobre o currículo, segundo, de uma não diferenciação substantiva entre teoria
curricular e teoria pedagógica. Os autores, nesse caso, estariam argumentando
contra uma noção autonomizada de currículo e preservando sua dimensão ética11.
Ainda assim, minha sugestão é de que a teoria curricular crítica, a partir da
sociologia crítica do currículo, mantém a tradição cultural e acadêmica anglosaxã
que, no geral, concebe o currículo como a totalidade das experiências educacionais
providas pela escola. O currículo fica, pois, com o status de uma ampla área de
conhecimento à qual subordinam-se os demais conceitos educacionais,
transformando-se num campo integrador da teoria e da prática educativa e principal
instrumento de inovação e mudança educativas12.
Na atualidade, seguidores da sociologia crítica do currículo vêm se
envolvendo, também, com alguns posicionamentos pós-modernos e pósestruturalistas,
nos quais se destacam temas como a subjetividade, práticas
discursivas, relações de poder, desconstrucionismo, multiculturalismo etc. (Giroux,
1993; McLaren, 1993; Silva, 1994; Veiga-Neto, 1994, 1997; Moreira, 1997). O
conjunto de pesquisadores que grosso modo gravitam em torno da sociologia crítica
do currículo parece hoje distribuir-se em várias divisões e subdivisões do movimento,
o que torna difícil a formulação de um referencial teórico comum.
A didática, por sua vez, avançou bastante na explicitação do seu objeto de
estudo, na sua vinculação com marcos políticos, sociais e institucionais e na busca de
seus fundamentos na prática. A maioria dos estudos realizados a partir dos anos 80
manteve, de certa forma, sua vinculação à tradição teórica européia - basicamente,
11 Em texto de 1993 eu escrevia: “Existe uma idéia corrente em nosso meio de que pedagogia é a
maneira como se ensina; o pedagógico seria o metodológico, o modo de fazer, o modo de ensinar a
matéria. Esta idéia, no entanto, refere-se a apenas uma parte da pedagogia. Tenho um entendimento
mais amplo, mais global, pelo qual a pedagogia é um campo de conhecimentos sobre a problemática
educativa em sua totalidade e historicidade e, ao mesmo tempo, uma diretriz orientadora da ação
educativa.(...) A pedagogia lida com o fenômeno educativo enquanto expressão de interesses sociai s em
conflito na sociedade em que vivemos. É por isso que ela expressa finalidades sócio-políticas, ou seja,
uma direção explícita da ação educativa” (1993, p.112).
12 Esse entendimento está na base de todas as concepções curriculares desenvolvidas desde o início do
século a partir dos EUA, ou seja, (1) o currículo como soma de exigências acadêmicas, (2) o currículo
como experiências de aprendizagem, (3) o currículo de tipo tecnológico e eficientista e (4) o currículo
como configurador da prática, segundo o esboço proposto por Gimeno Sacristán (1989).
95
de vincular a didática à pedagogia (entendendo-se esta como uma das ciências da
educação) - mas adotando uma orientação crítica de cunho marcadamente marxista
(Oliveira, 1995,1996). Mas há, também, estudos influenciados por outras orientações
teóricas como teoria crítica, fenomenologia, sociologia crítica do currículo, teoria da
ação comunicativa, psicanálise, teorias cognitivas. Por outro lado, apesar das
perplexidades que têm assolado os educadores em face da problemática teórica
contemporânea (para simplificar, a chamada “crise dos paradigmas”) há indícios de
estar se desenvolvendo na didática um movimento em quatro direções articuladas
entre si.
A primeira vai no rumo de se reafirmar a pedagogia como campo mais amplo
de investigação da prática educativa. Retoma-se os já assumidos entendimentos de
educação como prática social, o caráter de pedagogia como ciência prática e a
intencionalidade educativa. Um dos autores que reforça esse ponto de vista diz que
“a pedagogia busca juntar a teoria e a prática a partir de sua própria ação e é nessa
produção específica da relação teoria-prática que ela tem sua origem, se inventa e
se renova” (Houssaye, 1995). Pimenta (1997) recorre a esse mesmo autor francês
para dizer que lidar pedagogicamente com algo é tomar como ponto de partida a
prática docente contextualizada. E que as ciências da educação serão, realmente,
“da educação” se deixarem de partir de diferentes saberes constituídos e começarem
a tomar a prática dos professores como o ponto de partida (e de chegada). Quanto à
intencionalidade, não se trata de partir de objetivos pré -fixados por critérios
ideológicos ou metafísicos nem de objetivos mensuráveis em termos de produtos
quantificáveis, mas de qualidades a serem construídas no processo mediante o
posicionamento crítico-reflexivo de professores e alunos.
A segunda direção é a de dar mais precisão e coerência à idéia da didática
como disciplina prática, obviamente não no sentido de técnica, mas de tomar como
objeto o ensino em situação, voltado intencionalmente para a aprendizagem dos
alunos. A construção teórica da didática a partir da prática é um tema que, há mais
de dez anos, vem fazendo parte da reflexão de pesquisadores de afiliação marxista.
O que temos hoje é a agregação de novas contribuições teóricas, maior refinamento
conceitual e, sem dúvida, mais clareza em enraizar a investigação nas demandas da
realidade escolar e nos problemas concretos enfrentados pelos professores. Vários
autores estão empenhados nessa direção (Carr e Kemmis, 1988; Oliveira, 1993;
André, 1994; Contreras, 1997; Pimenta, 1997, entre outros).
A terceira refere-se à crescente adesão às propostas que concebem a prática
docente como um processo de investigação, tendência a que aderem cada vez mais
os adeptos de uma teoria crítica do ensino ou didática critica. Neste sentido, há uma
evidente aproximação com teóricos do currículo (por exemplo, Stenhouse, Elliot,
Carr e Kemmis) e com autores que vêm desenvolvendo estudos da linha do professor
crítico-reflexivo (Schon, Zeichner, Perez Gomez). Esta posição acentua aquela que
mencionamos antes, i.e., a de assumir a natureza prática dos problemas da docência,
impregnados, no entanto, com ingredientes intencionais e críticos. Está-se, também,
diante da proposta de que os próprios professores construam a teoria do ensino por
meio da reflexão crítica sobre seus próprios conhecimentos e práticas.Convém
alertar para não se desvincular a concepção do professor crítico-reflexivo de uma
crítica social, permanecendo no âmbito psicológico, como parece indicar a
concepção de Shon (1992) uma vez que há questões da prática que ultrapassam as
possibilidades de ação profissional do professor e que referem-se a circunstâncias
políticas, históricas e sociais.
Uma quarta direção diz respeito a uma crescente influência na didática de
estudos de sociologia da educação, de variada procedência teórica (teoria critica,
fenomenologia, nova sociologia da educação, etnometodologia, teoria social pós96
moderna, pós-estruturalismo) relacionados com temas típicos como as relações entre
escola e cultura, representações sociais, cotidiano escolar, subjetividade, linguagem,
etc) por onde o pensamento e a investigação em didática pode estabelecer
importante interloculação com os especialistas da teoria curricular crítica (que mais
têm incorporado esses estudos). (Candau, 1997; Libâneo, 1966).
Essas linhas de investigação e de ação prática indicam, apesar das
divergências, possibilidades de convergência e colaboração mútua entre os dois
campos, como se verá a seguir.
2. EXPLORANDO CONVERGÊNCIAS E ADMITINDO DIFERENÇAS... HÁ POSSIBILIDADES DE
COLABORAÇÃO MÚTUA ENTRE A DIDÁTICA E O CURRÍCULO?
As considerações feitas até aqui provavelmente dão margem mais a
pessimismo do que a otimismo em relação às possibilidades de aproximação temática
dos dois campos. Minha posição pode ser delineada nos seguintes termos:
· Há suficiente base para alimentar a convicção de que currículo e didática
ocupam-se dos mesmos fenômenos e processos: objetivos, conteúdos, métodos,
organização do ensino. Portanto, disputam as mesmas problemáticas teóricas e
profissionais. Em decorrência disso, numa posição extrema, onde houver currículo a
didática será dispensável e vice-versa. Não há nenhum indício de que as duas áreas
estejam dispostas a renunciar ao caráter mais abrangente que cada uma julga ter. Ou
seja, do ponto de vista da didática, o currículo é um conceito subordinado; do ponto
de vista do currículo o didático é que é subordinado. E não parece haver razão sólida
para crer que a didática e a teoria do currículo tenham mudado essas características
que, de resto, correspondem às suas diferentes origens culturais e teóricas.
As tradições teóricas e acadêmicas são, de fato, bastante distintas e essa
constatação não parece modificar-se quando as duas áreas buscam fundamentar-se
em teorias sociais críticas. Os temas da didática continuam movendo-se no âmbito da
investigação pedagógica (pedagogia como uma das ciências da educação e não no
sentido “metodológico”) e, assim, vinculada explicitamente aos ideais da
modernidade, como a razão, a autonomia do sujeito que pode construir-se como
sujeito, o valor do conhecimento como possibilidade de emancipação (Libâneo,
1997). Os temas do currículo, tal como o temos caracterizado em sua acepção
crítica, tendem a mover-se nos quadros de referência teóricos da sociologia da
educação (de tradição anglosaxã)13, destacando o discurso das culturas particulares,
da diferença, da linguagem, com forte tendência em minimizar as pretensões da
razão e mesmo a formação científica, em desencorajar as possibilidades de formação
do sujeito autônomo e em minimizar a importância das questões psicológicas e
cognitivas no processo de ensino e aprendizagem14. No extremo, os curriculistas
críticos mostram pouco entusiasmo pelo que a escola pública possa fazer em termos
emancipatórios, mesmo porque são pouco confiantes no papel do Estado, mesmo
modificado. Os teóricos do currículo estão bem mais tendentes a dar um peso forte
às culturas locais, à linguagem, mais do que a questões como estrutura social e modo
de produção ou interpretação social dos fatos. É verdade que estas posições estas
posições não podem ser absolutizadas e excludentes; o que quero dizer é que elas
demarcam campos de priorização de temáticas.
· A teoria curricular crítica, no sentido mais convencional de teoria curricular
que tentei explicitar atrás, ainda está em construção. O que sabemos do seu
13 Mencione-se, todavia, as contribuições incorporadas por especialistas da sociologia do currículo
provenientes do pós -estruturalismo francês, nomeadamente, Derrida, Foucault, Deleuze, assim como de
estudos do pensamento social pós-moderno .
14 Moreira (1997) menciona dois autores inglêses, Cole e Hill, para os quais “qualquer tentativa de
integrar teoria crítica e pensamento pós-moderno liquidaria o projeto educacional moderno,
invalidando, por consequência, a teorização educacional crítica”.
97
percurso no Brasil - feito pelos seus próprios pesquisadores - permite afirmar que
trata-se mais de uma teoria sociológica da educação. Não há indícios suficientes para
se ver o currículo como campo de aplicação, voltado explicitamente para a ação
docente concreta, embora obviamente haja exceções. Na minha visão, o discurso
sobre currículo está distanciado da sala de aula e o máximo que se consegue dos
professores é levá-los à “sociologização” do trabalho escolar.
Não estou sozinho nessa crítica. Contreras (1990) analisa criticamente seis
correntes teóricas no currículo 15, das quais destaco duas: (a) teorias que propõem só
a explicação-investigação do currículo e (b) teorias que expressam uma visão crítica
do currículo. No primeiro caso, estão as teorias preocupadas em descrever e explicar
os fenômenos curriculares tal como ocorrem na prática, às vezes numa linha
interpretativa, deixando a outros a aplicação das idéias na prática. Embora Contreras
reconheça o valor destes estudos (inclusive porque põe em questão a concepção
positivista de currículo), ele aponta dois problemas: primeiro, acabam por assumir
posições de valor apenas para dizer aos outros o que devem fazer; segundo, o
descrever o funcionamento real do currículo não é suficiente como teoria do
currículo, entendida como teoria que se pergunta pelo quê e como ensinar. No
segundo caso, estão os reconceptualistas que partem da crítica à tendência
tecnológica e à prática de currículo vigente nas escolas. Sem desconsiderar a
importância da crítica aos valores e à ideologia e prática política que se escondem
atrás das práticas curriculares, Contreras aponta como principal problema dessa
corrente o de não propor respostas práticas para favorecer a emancipação que
propõe, ficando só na descrição e na crítica, além de expressar certo pessimismo em
relação às possibilidades de transformação do currículo.
Há boas razões para a justificação dessa postura. A visão sociológica crítica
enfatiza a natureza política do currículo, como atua, que repercussão tem na cabeça
e na prática dos professores, o papel de controle do currículo, etc. Portanto, fazer a
crítica do currículo é criticar a cultura dominante, a ideologia subjacente. A cultura
dominante expressa sistemas de poder, portanto, não há como fazer propostas.
Propor um currículo é compactuar com a ordem social vigente. É daí que surge a
dificuldade de propor uma visão resignificada da proposta curricular, como
contraponto à visão instrumental, para atuação nas escolas e salas de aulas. Esta
parece ser a ambigüidade principal que obstaculiza a elaboração de uma teoria
curricular crítica, para além de uma sociologia da educação16.
Em síntese, as diferenças são bastante claras e estamos frente a dois campos
bem distintos de investigação. Não é casual que os adeptos tanto da sociologia crítica
quanto do pós-estruturalismo recusem a didática, como teoria do ensino. Por todas
as razões que já mencionei, penso que essa recusa é teoricamente correta. De fato,
a didática crítica parte de premissas diferentes, de modo que ela própria não se
reconhece nessas posições, o que não significa que rejeite enfoques pós-modernos no
15 As seis correntes são as seguintes: 1- teorias que fazem uma opção normativa pelo ensino; 2- teorias
que propõem um procedimento técnico cientificamente fundamentado; 3- teorias que propõem somente
a explicação-investigação do currículo; 4- teorias que expressam uma visão crítica do currículo; 5- a
linguagem prática como forma de tratar o currículo; 6- teorias que concebem a prática do currículo
como um processo de investigação (Contreras, 1990).
16 Não tenho expectativa de que os teóricos críticos do currículo se voltem para a prática docente no
sentido prescritivo. O que me incomoda é que, com o discurso da crítica, proponham-se a influenciar os
professores a reduzir seu papel docente a uma função digamos “politizadora”. Eles diriam aos
professores mais ou menos o seguinte: se vocês compreenderem como funciona a situação educativa,
como os conteúdos expressam interesses dominantes, como a linguagem é portadora de significados
preestabelecidos etc., seu trabalho ficará melhor, você será um educador mais autêntico. Aí os
professores perguntam: mas como é que eu faço isso na sala de aula? Como trabalho minha disciplina?
Como ajudo cognitivamente os alunos a serem críticos dos conteúdos e das práticas curriculares?
98
quadro de uma outra configuração epistemológica. Em resumo, apenas no âmbito da
prática os dois campos seriam conciliáveis (o que já é bastante), no terreno teórico
não. Mesmo assim, será possível estabelecer um território de colaboração? É possível
estabelecer pontos de referência comuns? Quais as condições para uma relação
cooperativa entre os dois campos?
Buscando convergências...
Alguns pontos de convergência são claros. Curriculistas e didatas postulam
uma educação crítica, democrática, emancipadora, ainda que possa não haver
consenso em torno do conceito de educação emancipadora. Ambos recusam a
mentalidade tecnicista em que uns desenvolvem o conhecimento básico e elaboram
projetos curriculares enquanto outros cumprem na prática esses projetos, o professor
virando um consumidor passivo de inovações. Também recusam uma pedagogia que
silencia sobre o mundo vivido dos grupos sociais e particulares, que pretendem a
homogeneização cultural e educativa e que reproduz valores dominantes e
desigualdades sociais; estes foram é ainda são pontos insustentáveis da pedagogia
liberal.
Outros pontos de convergência:
· Atribuição do caráter de intencionalidade da prática educativa, ou seja, a
investigação e a prática educativa envolvem um compromisso moral voltado para a
emancipação política.
· Investigação, tanto do currículo quanto do ensino, numa perspectiva histórica, ou
seja, considerados como construção social e histórica. Tal como se põe hoje a
questão curricular - de atrelar sua investigação aos vínculos do conhecimento com
a política -, também a didática vê a necessidade de se considerar a cultura
institucional e modos de controle a que está submetida a práticas docente, i.e.,
determinantes externos e internos que condicionam as práticas docente no
sistema educativo.
· Consideração dos professores como sujeitos de seus conhecimentos e
experiências, capazes de atitude crítico-reflexiva em relação ao seu trabalho e
gestores de sua própria atuação, submetendo sua prática à análise crítica.
· Preocupação com as questões da produção e difusão do conhecimento,
especialmente a transformação do saber científico em saber escolar.
· Inclusão da cultura escolar, a cultura do professor - que se reflete na questão do
projeto pedagógico, na autonomia da escola, na construção do currículo e da
didática.
Explicitando as divergências...
A busca das diferenças ou das divergências entre posições críticas na didática
e no currículo, requer um estudo de mais profundidade. Aponto para apenas algumas
delas, remetendo-me a outro texto sobre temas da teoria social crítica e do
pensamento pós-moderno e sua repercussão na didática (Libâneo, 1996).
· A contestação que alguns curriculistas fazem ao estabelecimento de ideais e
objetivos orientadores da ação educativa podem induzir a um relativismo ético. Se é
verdade que os tempos atuais não comportam mais certezas absolutizadas, também é
pernicioso excluir da prática docente marcos teóricos, ideológicos morais.
Diferentemente de sociólogo s, economistas, historiadores, os pedagogos se põem
cotidianamente opções sobre o destino humano dos alunos, objetivos de formação,
futuro da sociedade, demandas éticas. Os pedagogos precisam, de fato, colocar em
questão certas utopias universalizantes, mas ter algumas certezas, algumas utopias,
é crucial, especialmente as relacionadas com a existência material e espiritual da
99
humanidade, tais como a resistência à exploração social, à opressão, à dominação, à
injustiça.
· Os teóricos críticos do currículo são, em geral, céticos quanto à importância
dos conteúdos escolares. Quando a teoria curricular crítica buscou reconceitualizar o
campo do currículo, centrou suas análises nas relações entre conhecimento e poder,
o saber escolar e a ideologia, o currículo oculto. Constatada uma origem obscura
desse saber escolar, por causa de seus vínculos com o poder, propugnou-se um
currículo centrado na cultura dos alunos, nas vozes dos alunos, nas narrativas dos
atores da comunidade escolar. Será, todavia, possível um ensino sem os conteúdos
organizados da cultura e da ciência? Se se trata de buscar outros conteúdos, como a
cultura local e o mundo vivido dos alunos transformam-se em conteúdos? O que
salvar do conhecimento sistematizado? Os curriculistas críticos precisariam
empenhar-se mais em dar operacionalidade às suas propostas ao invés de criticar os
didatas por tentar fazê -lo.
Obviamente, ao argumentar em favor dos conteúdos, não os tomo como
absolutos, estáticos, ahistóricos, etc., ao contrário, o que tenho afirmado há anos é
sua abordagem crítico-social, o que significa submetê-los ao crivo dos seus
determinantes históricos e sociais. É claro que é preciso associar saber e poder,
considerar a cultura dos alunos e os sentidos que atribuem à sua experiência, analisar
a ideologia embutida nas disciplinas escolares e nas práticas escolares17. Entretanto,
num país tomado pelas desigualdades sociais, especialmente quanto ao acesso à
cultura e à ciência, com uma população desescolarizada, com professores muitas
vezes semi-analfabetos, não há como negar valor ao desenvolvimento das
capacidades cognoscitivas e operativas dos alunos, através do domínio ativo dos
conteúdos escolares; alunos pensam com ciências, com matemática, com história,
etc. Para mim, o mundo da escola continua sendo o mundo do saber: saber ciência,
saber cultura, saber experiência, saber modos de agir, saber estratégias cognitivas,
saber sentir. O que me parece é que a questão não é diminuir o valor do saber
sistematizado e a aquisição de conhecimentos, mas instrumentalizar os alunos a
lidarem criticamente com eles, inclusive ligando-os ao seu mundo vivido, como tenho
escrito reiteradamente.
· Aos teóricos do currículo faltaria, a meu ver, uma análise mais
contextualizada para caracterizar o segmento social do professorado. Teriam uma
posição muito fatalista em relação aos aspectos institucionais do ensino e da
profissão de professor ao presumir uma grande competência do Estado em controlar
o sistema de ensino e os docentes, em vista de interesses centralizados. Por um lado,
não há como ignorar que o país assume o papel de estabelecer diretrizes educativas e
indicações curriculares e que os professores são utilizadas para regular o
ordenamento político em função de interesses políticos, sociais, econômicos
vigentes. Por outro lado, é possível questionar o peso atribuído aos ditames e
decisões oficiais; não só os governos nem sempre são competentes para fazer isso
com eficiência como também os professores podem resistir às várias formas de
subordinação.
17 Estou de acordo com críticas segundo as quais a pedagogia crítico-social prendeu-se demasidamente
aos conteúdos “científicos”, mesmo a despeito dessa corrente insistir no confronto entre o saber
sistematizado e a experiência sócio-cultural concreta dos alunos. Hoje penso que são relevantes os
estudos que associam cultura e escola, ou seja, que na escola convivem diferentes culturas e que elas
integram os conteúdos escolares. Concordo, assim, que “as disciplinas escolares não contêm todo o
conhecimento. (...) Os conhecimentos que pelo currículo são selecionados, sistematizados, distribuídos
e avaliados de uma cultura concreta (...) trazem, por serem culturais, representações do que pode ser
considerado conhecimento válido e não-conhecimento. Transmitem, assim, para além do ‘conhecimento
científico’, um modo de ver e classificar ‘o mundo vivido’ (Pedra, 1997).
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· A rejeição da razão universal como critério de orientação da conduta
humana e um dos temas mais presentes nos pós-modernistas. Junto com isso vem a
crítica da noção de subjetividade e da possibilidade de uma consciência individual
autônoma, assim como da idéia de conscientização política, caras às pedagogias de
esquerda (Silva, 1994). Não é que ignorem a razão; o que propõem é tomá-la como
construção histórica, isto é, produzida em circunstâncias localizadas, particulares,
mediante a linguagem. Questiona-se que os indivíduos possam ser capazes de
autodeterminar seu destino e pautar sua vida através da compreensão racional das
coisas. Argumenta-se, também, que a razão deve ser considerada junto com outras
dimensões como as afetivas, estéticas etc.
É possível acatar muitas das críticas à idéia de uma razão universal,
especialmente aquela proveniente do discurso liberal em que a razão instrumental
visa estabelecer os meios de dominação técnica do mundo natural e social. Mas, se
é verdade que a racionalidade da modernidade produziu, em nome da razão,
injustiças, desigualdades, exclusão social, é momento de resgatar sua dívida
mediante a crítica da razão instrumental e a recuperação da razão crítica como
meio insubstituível do conhecer. É, também, procedente a insistência dos críticos de
uma razão que desconhece a sensibilidade. Estamos já suficientemente alertados
para a relevância da dimensão afetiva no processo do conhecimento e na
organização escolar, destacando o lado subjetivo no desenvolvimento intelectual. Os
teóricos da teoria crítico-emancipatória dizem que a razão que produz o saber tem
dimensões emocionais, afetivas, irracionais e é produzido no jogo das relações
objetivas e subjetivas que envolvem o indivíduo e a sociedade ao mesmo tempo. Mas
continuo concordando com Rouanet que diz o seguinte: “o homem não é somente um
ser pensante, e a consciência neo-moderna sabe que o homem integral é uma
unidade de razão e sensibilidade; mas se quiser conhecer, não tem outro
instrumento que a razão”(1986).
· Há outros temas fortes na reflexão crítica sobre currículo tais como a
relação entre cultura, poder e currículo; a ideologia, o currículo oculto, a linguagem.
Há uma idéia subjacente a esses temas que é a seguinte: os fatores sociais e culturais
atuam decisivamente sobre a construção dos conhecimentos não para identificar
elementos determinantes, causais, mas para se buscar o sentido dos fatos, dos
processos. Os textos dos autores sobre currículo gostam de perguntar assim: como
são constituídos os saberes escolares? O que os saberes de grupos particulares
expressam? Como as práticas curriculares induzem maneiras de agir, de pensar,
sentir, falar e ver o mundo? Em resumo, são essas práticas discursivas que produzem
os sujeitos em relação com as questões de poder. É verdade que a didática crítica
não pode perder estas contribuições, mesmo porque abrir espaço aos saberes e
experiências dos estudantes não é novidade nessa área. O que ocorre, a meu ver, é
que o viés sociológico leva a afastar as questões de aprendizagem, desenvolvimento,
processos cognitivos, metodologia de ensino. A meu ver, a crítica das relações de
poder, da ideologia, da cultura, não seriam incompatíveis com a necessidade da
mediação cognitiva.
Além disso, não conviria, dentro de uma abordagem critica do ensino, reduzir
a realidade aos discursos e à análise dos discursos. A pedagogia escolar é um campo
prático, ela lida com a prática e portanto é uma ação intencional implicando valores
que não podem ser cingidos ao mundo cotidiano dos pequenos grupos, das culturas
particulares. Recorro a um porta-voz qualificado da sociologia crítica do currículo
sobre o pensamento pós-moderno:
(...) precisamos preservar uma noção de totalidade que privilegie formas de
análise nas quais seja possível tornar visíveis aquelas mediações, inter-relações e
interdependências que dão forma e poder aos sistemas sociais e políticos mais amplos.
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· Algumas posições em currículo sustentam a idéia de que o modo adequado
de lidar com o currículo e a didática não é pela via da teoria mas somente pela
prática. Trata-se de uma recusa in limine da teoria, com o argumento de que
questões sobre o que e como ensinar decorrem de situações concretas de tempo,
lugar, condições etc. Não é que a didática não seja uma questão de prática, pois, de
fato, ela é uma disciplina prática. A questão é que é ilusório que se possa trabalhar
nas escolas sem teoria, sem justificação das opções assumidas e sem requisitos para
a ação, como se os professores fossem capazes de extrair lições da prática e
reelaborá-las reflexivamente, por intuição. Além do mais, muitos dos que defendem
a linguagem da prática como forma de pensar sobre o trabalho docente mostram uma
visão um tanto romantizada das condições reais das escolas e dos professores. Tudo
isso pode levar a um praticismo que não avança em qualidade e eficácia, correndo o
risco de reforçar o quadro vigente de uma prática educativa pouco exigente.
Sugerindo algumas condições de cooperação...
Talvez uma primeira condição seria a busca comum de uma resignificação da
pedagogia como um conjunto lógico-sistemático de conceitos, de modo que sem
grandes traumas tanto o didático como o curricular se subordinassem a categorias
mais amplas de abordagem científica da educação. Mas, para isso, os especialistas do
currículo teriam que abrir mão do conceito panteísta de currículo e a didática, por
sua vez, à sua postulação de constituir-se como disciplina-síntese no tratamento das
questões do ensino. Não creio, todavia, que as duas áreas estejam dispostas a isso.
Mesmo teóricos do currículo que admitem a pedagogia como parceira do currículo, a
tomam como área paralela, tomando-a como metodologia da prática escolar
(Moreira, 1997).
Outra possibilidade seria delimitar fronteiras de cooperação através da
explicitação do objeto de estudo e da problemática de cada área. Teríamos a
possibilidade de uma integração interdisciplinar. Mas, como operar a diferenciação
do currículo e didática se ambas disputam a mesma problemática? O currículo estaria
disposto a cingir seu campo de investigação aos objetivos e conteúdos ou a limitar
suas analises à abordagem sociológica, dentro de um posicionamento interdisciplinar?
O currículo admitiria transferir a temática relacionada com o ensino à didática? Sobre
isso, um autor da área de currículo, Johnson, dist ingue tarefas do currículo e tarefas
do ensino. Para ele o currículo estabelece metas, a didática os caminhos a seguir
depois. Creio que esta separação não funciona, porque é difícil separar fins e meios.
Principalmente porque o principal usuário da didática e do currículo é o professor,
que precisa unir finalidades com o processo metodológico e as atividades do ensino.
O professor lida, ao mesmo tempo com o que se ensina e com o como se ensina
Mas talvez valesse a pena investir na delimitação de fronteiras
epistemológicas dos dois campos. Tenho reiterado, em outros textos, que a discussão
em torno das ciências da educação depende de que cada uma busque sempre mais
clareza na explicitação de seu objeto de investigação de modo que, analisado em sua
globalidade vão sendo encontradas relações, abrindo as portas para a integração
interdisciplinar. Mas, como já mencionei, seria necessário admitir a pedagogia como
campo integrador, já que ela faria a aproximação intencional e globalizante do
fenômeno educativo.
A delimitação de fronteiras e a cooperação entre campos do conhecimento
dependem de como lidamos com a relação entre a diferenciação e a integração das
ciências. A busca de integração não suprime a diferenciação, o que é a mesma coisa
que dizer que a interdisciplinaridade não dispensa a disciplinaridade. Nos dois casos,
trata-se de um movimento em que os termos se intensificam e se imbricam num
processo unificado. Nesse sentido, o requisito para a integração é que as áreas de
conhecimento busquem uma estrutura interna de conceitos e métodos de
102
investigação suficientemente diferenciada para aí selecionar contribuições das
demais áreas e até formular novos problemas. A idéia é que a fecundação mútua
entre as ciências expressam ao mesmo tempo a diferenciação e a integração, de
onde surge a possibilidade de cooperação, de superação dos limites de uma
especialização e, até, de aparecimento de novas disciplinas. É preciso reconhecer
que estamos longe de chegar a esse entendimento e isto explica em parte as
dificuldades de uma abordagem interdisciplinar em educação.
Outra condição de cooperação vem se concretizando com rapidez: centrar a
didática e o currículo de formação de professores nas demandas da prática. Mais do
que um conjunto de proposições, o conhecimento profissional estaria na
compreensão e atuação profissional, em que se integrariam aspectos cognitivos,
emotivos, afetivos e morais, fazendo interagir na prática o conhecimento e a ação. É
assim que se propõe uma nova maneira de conceber a relação entre conhecimento
didático (conhecimento teórico de origem acadêmica) e conhecimento profissional do
professor.
A didática crítica tem avançado nesse ponto. Ela propõe-se a ajudar os
professores a decidir por si próprios o que fazer com os alunos e no seu trabalho,
enquanto profissionais do ensino. Nisto está o cerne do que já se mencionou sobre a
didática como disciplina prática. Não se trata de extrair da didática regras práticas
para serem aplicadas na prática. Trata-se de um conhecimento que permita ao
professor flexibilidade para empregar métodos e procedimentos a situações
particulares especificas, “conhecimento teórico com intenção prática”, na expressão
de Contreras. Segundo esse autor, “necessitamos buscar um conhecimento
acadêmico que ofereça perspectivas de maior integração entre o que supõem o
conhecimento e a ação no contexto das prática educativa”, ou seja, atender às
demandas da prática. O conhecimento didático acadêmico deve permitir a contínua
reelaboração da experiência profissional, dotando os docentes de recursos para
pensar sobre sua ação e possibilitando pôr em prática o conhecimento pessoal e
prático. Trata-se, enfim, de integrar conhecimento e ação na prática de construção
do conhecimento.
Por outro, sabemos que efetivamente o grau de cultura do professorado é
precário, maior até que sua capacidade de resistência às inovações. É necessário,
sim, compreender o ponto de vista dos implicados sobre sua atividade profissional,
conhecer o pensamento dos professores, tal como recomendam os autores que vêm
tratando dos temas da profissionalidade do magistério. Mas temos informações sobre
a realidade suficientes para constatar que o professor não tem uma cultura
profissional de base nem para serem executores das diretrizes técnicas oficiais vindas
de cima, quanto mais para tornar-se um profissional reflexivo. É preciso pensar em
programas de recuperação de uma cultura profissional de base que requerem
metodologias cognitivas. Isto naturalmente pode ser associado a práticas de
pesquisa-ação ou similares, tais como as que investigam a prática docente a partir do
professorado, de como os professores entendem a si próprios e o seu trabalho.
PARA CONCLUIR: SERÁ VIÁVEL INVESTIR NUMA PAUTA COMUM?
As dificuldades de acertos conceituais entre os campos do currículo e da
didática são manifestas, ainda que os objetos de estudo sejam coincidentes. Todavia,
conforme mencionei no início, o desafio dos campos de investigação em educação é o
de servir ao aprimoramento da prática docente e da qualidade de ensino, a partir de
objetivos emancipatórios. As carências de formação do professorado, as condições de
vida, as condições de aprendizagem, que penalizam a maioria das crianças e jovens
brasileiros, não permitem o luxo de deixar permanecer as discussões apenas no
âmbito da discussão acadêmica. Os estudos e as pesquisas precisam chegar aos
professores, retraduzidas em função das demandas da prática. Além disso, penso ter
103
dado a devida importância ao fato de que as duas áreas dispõem de um rico acervo
de contribuições teóricas que possibilitam não só reorientar a teoria pedagógica e a
investigação mas também enriquecer a formação inicial e continuada de professores.
Essas razões animam a formulação de pautas ou balizas que poderiam
demarcar possibilidades de entendimento entre educadores no âmbito da prática
escolar, especialmente no direção de promover a aproximação entre o projeto
emancipatório moderno e a teoria pós-moderna, de modo a extrair deles os seus
elementos críticos (Moreira, 1977; Libâneo, 1996). Seria desejável reavaliar e
enriquecer ideais da modernidade que ainda não se esgotaram - a idéia de sujeito da
história, sujeito como agente da ação e mudança, a necessidade da razão crítica, a
importância do conhecimento - e algumas indicações do pensamento pós-moderno
como a valorização das culturas particulares, o peso da linguagem na atribuição de
significados, a relativização das metanarrativas inclusive a ciência.
· Acreditar na possibilidade de mudança da sociedade, na capacidade de
iniciativa dos sujeitos - o sujeito como agente transformador na sala de aula, na
política, nos movimentos sociais, sujeito que não é apenas o indivíduo, mas o grupo.
Desse posicionamento, resulta uma aposta nas potencialidades de uma razão
emancipadora assegurada pela competência comunicativa, pelo diálogo, pela
intersubjetividade - ou seja, uma relação ética - quero dizer, uma ética ativa que
busca solidariedade, respeito às opções dos outros, dissolução de formas de poder
policiadoras, cerceadoras da subjetividade18. Tudo isso, certamente, conjugando o
princípio da autonomia e da liberdade das pessoas com os interesses coletivos.
Giddens aponta como uma das mudanças contemporâneas a expansão da
reflexividade social - a possibilidade de todas as pessoas usufruírem da informação e,
ao mesmo tempo, de se capacitarem a filtrar as informações relevantes para sua vida
cotidiana. “O potencial da democracia dialógica está presente na difusão da
reflexividade social como uma condição tanto das atividades diárias como da
persistência de formas mais amplas de organização coletiva”(Giddens, 1996).
Habermas fala da criação de contextos comunicativos em que as pessoas expressam
seus desejos, sua compreensão, seus significados das coisas, em que exercitam
buscas de consenso pelo uso da racionalidade.
· Articular as questões relacionadas com o poder, a cultura, a linguagem, com
práticas efetivas de ampliação das possibilidades de aprendizagem dos alunos. Os
especialistas em currículo costumam perguntar: como as práticas discursivas se
relacionam com formas de dominação? De donde as pessoas retiram os “sentidos”
que dão aos fatos, ao cotidiano? Qual é o papel das escolas nisso? Como podem os
professores compreender em que grau o currículo, as matérias, as relações sociais na
sala de aula estão impregnadas das relações de poder? São perguntas pertinentes mas
convém perguntar também: a partir daí, como os professores ajudam seus alunos a
aprender? Que fazer para dar mais qualidade cognitiva aos processos de ensinar e
aprender? De que forma o ensino atua como fator de inclusão e não de exclusão
social?
Isso condiz com a noção de ensino como mediação na relação ativa do sujeito
com os objetos de estudo, visando a autonomia do aluno, o sujeito epistêmico e
considerando o ensino em seus marcos institucionais, sociais, políticos, culturais, isto
é, como prática social contextualizada. A idéia de mediação valoriza o ensino como
garantia do processo de conhecimento do aluno com a ajuda pedagógica do
professor.
18 Sobre essas questões e para uma reavaliação da pedagogia crítica, ver interessante texto de Ayuste,
1997.
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· Investir com decisão na formação ética, implicando a explicitação de
situações de aprendizagem intencionalmente dirigidas para esse objetivo. Os valores,
as atitudes, precisam ser assumidas como procedimentos educativos, ou seja,
precisam ser explicitados, vividos, perpassando as atividades de ensino mediante o
diálogo, a auto-reflexão, os debates éticos. O pensar sobre atitudes e valores, tem
um peso substantivo na formação. A todo momento o meio social, a escola, os
professores, o ambiente escolar, passam valores, como parte do currículo oculto e,
justamente por isso, a equipe escolar precisa explicitar valores, partindo da busca de
sentidos de sua própria experiência, das ações cotidianas. A formação ética não
significa inculcar valores, fazer doutrinação religiosa ou política, mas “propiciar aos
alunos conhecimentos, estratégias e procedimentos de pensar sobre valores e
critérios de modos de decidir e agir”(Santos, 1966).
Não se trata de absolutizar as verdades nem as metanarrativas, mas também
não se pode renunciar à busca de uma verdade consensual, intersubjetiva. Em outras
palavras, não é o caso de se ater a princípios universais externos, fixos e
descontextualizados nem de negá-los, mas de reconstruí-los a partir dos significados
das ações cotidianas na comunidade, no grupo de professores e alunos. Mclaren
(1993) diz que hoje em dia certo relativismo é inevitável em razão de que o
conhecimento é sempre contingente e contextual, mas não convém manter a
polarização entre valores universais e valores particulares e tomá-los como
mutuamente excludentes. Não se quer sustentar um universalismo abstrato, mas ver
em cada indivíduo a presença do universal e do particular. Touraine (1996) propõe
quatro idéias para uma proposta de esquerda: a solidariedade - estar ao lado dos
excluídos e combater os efeitos das desigualdades sociais; a liberdade de sujeitos
capazes de fazer opções e respeitar a dos outros; criar a diversidade, i.e.,
reconhecer o Outro, descobrir nos outros o esforço de subjetivação, de se
constituírem como sujeitos na sua individualidade e na sua identidade cultural; saber
conviver com as diferenças.
Tais considerações são familiares ao discurso dos teóricos do currículo que
pede respeitar o mundo vivido das pessoas e grupos e os textos em que atuam, ouvir
narrativas e vozes de diferentes culturas e grupos sociais. Todavia, não se pode
tratar o respeito à diferença de forma reducionista. Por um lado, corre-se o risco de
uma demasiada psicologização da diferença. Por outro, pode levar ao ocultamento do
fato de que a nossa sociedade, além de diversa, é desigual e que a desigualdade
social não é mera diferença, ela é histórica. Nesse sentido, o reconhecimento da
diferença não pode significar a aceitação de currículos empobrecidos ou níveis de
escolarização muito diferenciados.
· Valorizar a formulação coletiva do projeto pedagógico como expressão de
propósitos e práticas que se criam e se desenvolvem na escola e nas salas de aula.
Isso significa articular o currículo e a didática à organização do trabalho escolar. O
projeto pedagógico mediante a participação coletiva é uma exigência ligada à própria
natureza da ação pedagógica. Assim entendido, é um ingrediente do potencial
formativo das situações de trabalho. Os profissionais (direção, coordenação,
professores, funcionários) aprendem através da organização, do ambiente de trabalho.
Por sua vez, as organizações também aprendem, mudando junto com seus profissionais.
Todos podemos aprender a fazer do exercício do trabalho um objeto de reflexão e
pesquisa. Os indivíduos e os grupos mudam mudando o próprio contexto em que
trabalham.
· Compor uma frente ampla de educadores interessados na formulação de
propostas assertivas para a escola brasileira e para a formação de professores.
Moreira propõe como via de superação da crise da teoria crítica de currículo a
centralidade da prática. Para isso, quer que os curriculistas “atuem nas diferentes
105
instâncias da prática curricular, participando da elaboração de políticas públicas de
currículo, acompanhando a implementação das propostas e realizando estudos nas
escolas para avaliar essa implementação. Propõe, também, que desenvolvam
investigações da prática curricular, com os que nela atuam, de modo a subsidiar a
formulação de políticas de currículo, favorecer a renovação da prática e promover o
avanço da teoria (1997).
Oliveira propõe como principal desafio da didática, hoje, “aproximar-se cada
vez mais da realidade do ensino, no interior das escolas no país e, mais
particularmente, no interior das salas de aula, à luz das transformações por que vem
passando a formação social brasileira”. Para isso, a autora sugere a articulação entre
concepções e ações didáticas, de modo que as práticas de ensino e de pesquisa
“busquem a construção de categorias intermediárias normativas sobre o fenômeno de
ensino” para orientações práticas aos professores. Sugere, também, entender o
ensino como prática social reflexiva, para além da consideração dos elementos
didáticos (objetivos, avaliação, conteúdos), sem subestimar a importância dos
aspectos teleológicos dessa prática (o ensino e suas relações com a sociedade).
A concordância de teóricos da didática e do currículo em torno de alguns
pontos comuns relacionados com a prática docente, ainda que não anulem
divergências teóricas, concorre para evitar posições imobilistas. Há alguns anos, em
parte da década de 80, os educadores viveram o período do reprodutivismo que, ao
lado do seu poder de crítica à escola capitalista, provocou também um grande
imobilismo e uma grande descrença no trabalho escolar. Não é desconhecido o
vínculo de autores da sociologia crítica do currículo com as teorias reprodutivistas e,
mais recentemente, com o pós-estruturalismo. Tanto um movimento quanto outro
pretendem o desmonte das práticas discursivas de pedagogos e educadores e, a meu
ver, trazem um risco real de retorno do imobilismo profissional do professorado dos
anos 80. Nesse caso, os teóricos e pesquisadores não ajudam os professores e fazem
mais: retiram-lhes o pequeno potencial de ação e iniciativa que ainda podem ter.
Em síntese, uma pauta comum de ação e reflexão é a de continuar apostando
na escola e no ensino. Apostar explicitamente na idéia de que a escola e a sala de
aula continuam sendo lugares privilegiados e especiais de luta contra as
desigualdades sociais, a exclusão social, racial e de gênero. Lugares em que os alunos
aprendem a razão crítica, desenvolvem competências comunicativas, criam e recriam
as bases da formação cultural para que aprendam a atribuir significado pessoal à
informação e aos aportes culturais que vivenciam fora da escola19; lugares, também,
de produção da informação (alunos como produtores culturais, como diriam os
curriculistas) e intercâmbio de significados e experiências.
Giroux e Mclaren afirmavam em artigo de 1994, que os educadores de
esquerda não estavam sabendo aproveitar as possibilidades teóricas para repensar as
alternativas democráticas e incentivar novos ideais emancipatórios. E diziam que
esse fracasso se devia à incapacidade deles de dar um passo além da linguagem da
crítica, na direção de uma linguagem da possibilidade. É preciso que os
pesquisadores do currículo e da didática apostem na superação desse fracasso e
comecem a teorizar menos sobre as escolas e mais para as escolas, como pedem
aqueles autores.
19 Tenho trabalhado com o conceito de escola como “espaço de síntese”, que realiza a necessária
síntese doadora de sentido e de razão crítica de todas as mensagens-informação acumuladas de forma
diversa e autônoma através dos meios de comunicação e informação. A escola seria, assim, mais uma
estrutura possibilitadora de significado do que de informação (Cañellas, 1994).
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110

CAPÍTULO XI

AS TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES

A imagem não é uma coisa: é um ato de
consciência.
Jean-Paul Sartre
A questão principal que envolve este tema são as relações entre a virtualidade
e a educação, que serão abordadas do ponto de vista da pedagogia. Numa sociedade
repleta das novas tecnologias da comunicação e da informação, nenhum educador
hoje pode ignorar a presença das mídias, seu papel, sua utilização em sala de aula.
Em função disso, os professores precisam preparar-se para serem consumidores
críticos das mídias, e para ajudar os seus alunos a se relacionarem criticamente com
elas. Inicialmente, é apresentado um breve quadro das transformações econômicas,
sociais e culturais que dão contorno à revolução informacional. Em seguida, são
sugeridas indicações de como isso repercute na educação, no mundo da escola e do
trabalho de professor.
A sociedade do conhecimento e da informação
O mundo contemporâneo vem se caracterizando por intensas transformações
econômicas, políticas, sociais, geográficas, culturais. Elas dizem respeito a quatro
fenômenos associados, - os avanços científicos e tecnológicos, a globalização
econômica e política, o novo paradigma produto e as políticas neoliberais – que
repercutem no sistema de produção e no aparato político-cultural da sociedade,
afetando as escolas de várias formas. É inegável que estamos diante de um novo
paradigma produtivo – também chamado de reestruturação produtiva – que combina
o emprego maciço de novas tecnologias e a produção flexível – gerando mudanças no
processo de produção, na organização do trabalho, no perfil de trabalhador
necessário, com conseqüências evidentes para o sistema de qualificação profissional.
É daí que se chega às escolas.
Do ponto de vista cultural, desenvolve-se a crítica aos fundamentos da
modernidade, gerando a teoria social pós-moderna, cujos temas mais marcantes são
a rejeição dos sistemas totalizantes, o questionamento da razão e da consciência
autônoma, o relativismo ético, a desconfiança na política, a fragmentação de
culturas e identidades. A condição pós-moderna põe à educação escolar problemas e
desafios muito concretos, de modo que a pedagogia e a didática não podem ficar à
margem dessas questões devido, pelo menos, às suas implicações com a produção de
conhecimentos e constituição do conhecimento escolar.
Pode-se discutir se o pensamento e a cultura pós-modernas provocam uma
ruptura com a modernidade ou se vivemos num momento de transição, em
continuidade com o mundo moderno. Mas uma coisa é certa: não é possível negar as
mudanças. Todos nós, de alguma forma, já temos familiaridade com a revolução
tecnológica – que aparece na comunicação instantânea pela TV, nos computadores,
nas redes de informação, no telefone celular, na automação industrial, nas várias
mídias. E todos sabemos como isso afeta as escolas e os professores.
Na economia, o fenômeno mais visível é a globalização da sociedade, a
internacionalização dos mercados, com forte peso da informação intensa e
instantânea. O processo de globalização é regido pela economia neoliberal em que o
funcionamento da sociedade é regulado pelo mercado. A globalização econômica e
111
política apresenta-se como uma nova fase do capitalismo internacional, o da
acumulação flexível. É a aplicação dos avanços científicos e tecnológicos na produção
e organização do trabalho, especialmente avanços na comunicação, na informática,
que intervêm na várias esferas da vida social e, obviamente, na educacional.
O professor Milton Santos faz uma síntese deste momento histórico designando
o meio geográfico de hoje como meio técnico-científico-informacional, no qual
predomina o aparato da ciência e da tecnologia mediante forte presença dos meios
informacionais, justamente para a difusão da informação a serviço do sistema
produtivo, especialmente do mercado global. Para esse autor, a informação é alma
da globalização. Vigora a cultura do consumo, da propaganda, a propaganda não se
dirige mais ao cidadão a convencer racionalmente mas ao consumidor a ser seduzido
emocionalmente.
A ampla difusão da informação provoca uma divisão entre realidade e
imagem, entre o real e a representação técnica do real. A notícia vira espetáculo, as
coisas viram signos. Os meios de comunicação passam a exercer domínio sobre as
representações, os discursos, o imaginário das pessoas. Quem domina as mídias
acaba por dominar as cabeças, as emoções, os sentimentos, as decisões das pessoas,
como pode ser sentido por cada um de nós na televisão, nas campanhas políticas, na
propaganda. A opinião pública acaba sendo fortemente modelada pela mídia.
Com isso, ocorre também uma globalização cultural. Há uma universalização
dos gostos, da alimentação, dos hábitos de consumo, do lazer, dos modelos de vida
social. Essa universalização é uma padronização de objetos de consumo, como
também uma padronização estética. A publicidade toma conta dos nossos gostos e
desejos. Hoje a propaganda não nos informa para podermos optar livremente pelo
produto; ela manipula nossos desejos, nosso paladar, nosso gosto, apelando para
referências como dinheiro, poder, prestigio, sexo. Nossos filhos comem a imagem
McDonald não o sanduíche. Ou seja, a informação cria a democracia do mercado, o
sujeito-cliente, não a democracia do sujeito-cidadão. O consumidor, portanto,
substitui o cidadão. Nesse sentido, os meios de comunicação social vão assumindo um
papel fundamental na globalização e internacionalização da economia.

VANTAGENS E DESVANTAGENS DAS NOVAS TECNOLOGIAS

O tema em questão é a virtualidade e a educação. A virtualidade, como
sabemos, é o mundo da imagem, da representação técnica do real. Do ponto de vista
pedagógico, a questão é saber qual o papel das imagens na formação intelectual, no
desenvolvimento do pensamento, como ajudam na conquista do conhecimento, como
pode contribuir para a formação de sujeitos pensantes. Que benefícios e que riscos
as novas tecnologias da comunicação e informação podem trazer para os processos
formativos?
Essas tecnologias são, obviamente, um beneficio. A virtualidade, a
representação técnica do real, permite traduzir tudo em imagens. A imagem virtual
pode tornar visível um pensamento abstrato, um projeto, um conceito, um modelo
matemático ou física, como as formulas matemáticas, demonstração de fenômenos.
Tanto o que não existe na realidade quanto o que ainda não existe, inclusive aquilo
que não existirá jamais. Permite desenvolver um raciocínio, compreender fenômenos
complexos, difundir o conhecimento. Em síntese, a virtualidade nos põe informados.
Mas as mídias trazem, também, uma série de riscos, alguns deles bastante
evidentes, que podem ser sentidos na nossa vida cotidiana. A mídia provoca uma
abstração e desumanização das relações sociais, em boa parte porque tudo vira
espetáculo. As mazelas humanas aparecem na telinha e não parecem ser de verdade.
As imagens passam a impressão de coisa ilusória, pode ser pode não ser. Basta
lembrar cenas marcantes da TV como a queda de um edifício no Rio de Janeiro por
112
uso de material de construção inadequado, o assassinato de um índio em Brasília
quando jovens lhe atearam fogo, o atentado às torres de Nova York por terroristas.
Com isso, ela não favorece a recepção do outro, a apreensão da diferença. Será que
as novas tecnologias facilitam uma educação para o outro? A mídia, obviamente,
exerce um domínio das vontades, ao fazer a cabeça para o consumo.
Podemos dizer também que as mídias podem aumentar o isolamento das
pessoas. A pessoa está interagindo com as imagens mas, na verdade, ela está só
consigo mesma. Isso pode ser juntado com uma evidente despolitização da
sociedade. Não é difícil verificar isso. Vem diminuindo na sociedade a crença da ação
pública na solução dos problemas, descrença nas formas convencionais de
representação política, aumento do individualismo, da insensibilidade social. Tais
características levam a novas formas de fazer política, destacando novos movimentos
sociais, novas formas de organização que mostram novos caminhos de controle
público sobre o Estado. Esses fatos lançam novas perspectivas sobre o sentido da
formação da cidadania, uma vez que se faz necessário educar para a participação
social, para o reconhecimento das diferenças entre os vários grupos sociais, para a
diversidade cultural, para os valores e direitos humanos.
Muitos entusiastas da Internet (redes de informação conectadas
internacionalmente) falam de uma democratização do acesso às informações. Talvez,
em parte, isso seja verdade, mas é fácil contar os excluídos da rede, os sem-
Internet. Uma das novidades mais excitantes na economia internacional são as
transações comerciais via rede Internet, chamadas de comércio eletrônico ou virtual.
Mas estará ela atingindo os 3 bilhões de pessoas no mundo que vivem com menos de 2
dólares por dia, metade da população mundial? Pode-se afirmar que a tecnologia da
informação, apesar de provocar mudanças nos modos de vida e nas percepções das
pessoas, amplia a distância entre os que estão no cume da montanha e os que não
saem do sopé.
A tecnologia da informação promove um fenômeno sumamente segregador
para a população de baixa renda, com baixa escolarização, com baixíssima
capacidade crítica frente à avalanche informativa vinda especialmente pela
televisão. Número grande de trabalhadores apenas vê televisão e só recebe imagens
pré -fabricadas. Na classe média, adultos e adolescentes utilizam as mídias,
computadores, Internet etc., mas têm em relação a elas uma atitude eminentemente
passiva, com baixa capacidade de leitura crítica da informação recebida. Ou seja, a
revolução tecnológica atinge a todos, mas de modo diferente. As mesmas pessoas
que estão à margem da economia, também estão à margem das tecnologias.
Revolução tecnológica e escola
Como fica a educação, a escola, em relação a essas questões? A meu ver, não
se trata de fazer guerra contra a tecnologia e a informação, mas de resistir a formas
de desumanização e de domínio provocadas pelo aparato informacional. O avanço
tecnológico criou as novas tecnologias da comunicação e da informação provocando
uma reviravolta nos modos mais convencionais de educar e ensinar.
Mas convém não identificar os termos informação e conhecimento, eles
andam juntos mas não se eqüivalem. A informação é um caminho de acesso ao
conhecimento, é um instrumento de aquisição de conhecimento. Mas, por si só, ela
não propicia o saber, não leva as pessoas ao mundo do conhecimento, ela precisa ser
analisada, interpretada, retrabalhada. Podemos resistir ao domínio da informação, à
colonização da informação, pelo conhecimento, pelo pensamento. “A tecnologia a
que estamos submetidos, a tecnologia da realidade virtual, da TV interativa,
representam idéias e conceitos que combatem outras idéias e outros conceitos já
existentes" (P. Virilio, Folha de S.Paulo, 9.2.97). Ou, nas palavras de Sartre, “ a
imagem não é uma coisa: é um ato de consciência”. Então, é a apropriação do
113
conhecimento, dos conceitos, das categorias que possibilita a leitura crítica da
informação, caminho para a liberdade intelectual e política.
Precisamos, pois, apostar nos sistemas de resistência da subjetividade, as
pessoas não estão condenadas a submeter-se irreversivelmente ao domínio da
informação midiática. As pessoas podem tomar consciência dos seus problemas, dos
problemas da vida cotidiana, da globalização, da biosfera. Isso depende da escola, da
formação científica e cultural, depende da competência dos professores e de seu
posicionamento crítico.
Isso significa, também, que menor ou maior acesso à educação escolar e a
outros bens culturais, determina a qualidade da capacidade reflexiva das pessoas,
inclusive a participação popular nos processos decisórios existentes na sociedade
civil.
Há, assim, um papel insubstituível da educação e das escolas de prover as
condições intelectuais de avaliação crítica das condições de produção e da difusão do
saber científico e da informação. Como, então, encarar as relações entre a educação
e as novas tecnologias da comunicação e informação? Apresento alguns pontos que
podem ajudar a uma tomada de posição sobre a questão.
1. O educador, o professor, o pai, a mãe, o supervisor de trabalho, os
comunicadores....todos são pedagogos quando visam objetivos de formação
humana.
Qual é o sentido de se dizer que não só os professores mas, também, muitos
especialistas ligados aos meios de comunicação são, em sentido amplo, pedagogos?
Que significa fazer uma leitura pedagógica de fatos, estruturas, processos? Leitura
pedagógica ou posicionamento pedagógico significa dar uma direção de sentido às
práticas educativas tendo como critérios um posicionamento político e ético. Fazer
uma leitura pedagógica dos meios de comunicação é verificar a intencionalidade dos
processos comunicativos (política, ética, psicologia, didática) presentes nas novas
tecnologias da comunicação e da informação e nas formas de intervenção
metodológica e organizativa. O que levanta a questão dos objetivos sócio-políticos e
a discussão, pelos educadores, de uma proposta educacional, de um projeto cultural
e educativo que tenha origem num projeto de gestão da sociedade.
Nesse sentido, educação escolar significa prover os meios de compreender o
mundo, compreender a realidade, e de transformá-la. É isso que caracteriza a
educação. Se temos clareza sobre isso, fica mais fácil pensarmos no papel das
mídias, das imagens. Que quer dizer, na prática, compreender o mundo e
transformá-lo? Proponho três objetivos:
· Desenvolver a razão crítica, a capacidade de pensar a realidade e intervir nela,
que é o domínio da cultura, da ciência, da arte.
· Aprender a pensar, a lidar praticamente com os conceitos, transformá-los em
ferramentas de leitura da realidade e do momento histórico que é o domínio de
competências cognitivas.
· Atender à diversidade cultural, à diferença, uma educação para a presença, que
é uma educação para o outro, a empatia à diferença, visando a ajudar as pessoas
a constituírem sua subjetividade.
2. A informática e os meios de comunicação não substituem a escola, mas integram
o contexto escolar.
Há opiniões de que numa sociedade caracterizada pela multiplicidade de meios
de comunicação e informação não haveria mais lugar para a escola convencional.
Obviamente, não se trata de negar os avanços tecnológicos, o uso mais ampliado de
114
mídias e multimídias e os centros especializados de informação. Entretanto, quantas
crianças e jovens podem usufruir destas condições? Sabemos que há um número
imenso de crianças brasileiras que precisam da escola, que não dispõem dos aparatos
informacionais. As escolas respondem em boa parte pela superação da desigualdade
social, porque ela cumpre funções que não são providas por nenhuma outra instância.
Mas, se a curto prazo, essas funções referem-se ao suprimento da formação geral,
capacidade de ler, escrever, e formação científica básica e estética, a longo prazo é
preciso pensar a escola convertendo-se num “espaço de síntese”.
Por “espaço de síntese” quero entender uma escola que seja o lugar de
síntese entre a cultura experienciada que acontece nas mídias, na cidade, na rua, no
cotidiano da cultura, e a cultura formal. Ou seja, um lugar onde os alunos aprendem
a razão crítica para poderem atribuir significados às mensagens e informações
recebidas das mídias, multimídias e formas de intervenção educativa urbana. Várias
pesquisas têm mostrado a fragmentação dos programas de TV, dos vídeos, da
propaganda, que propiciam uma cultura em mosaico. À escola cabe prover as
condições cognitivas e afetivas para o aluno poder re -ordenar e re-estruturar essa
cultura, tornando-se, propiciando aos alunos os meios de buscá-la, analisá-la, para
darem-lhe significado pessoal e produzir conhecimento.
Para isso são necessários os professores. A tecnologização do ensino cria a
crença de que o computador e outras mídias podem substituir a relação pedagógica
convencional. Difunde-se, com isso, uma ilusão tecno-informacional de que é possível
a aprendizagem completa com a presença do aluno frente aos equipamentos
informáticos, sem necessidade dos professores. Essa idéia está obviamente associada
a um determinado paradigma de qualidade da educação em que importaria mais o
saber fazer e o saber usar do que uma formação cultural sólida. Ou seja, o pensar
eficientemente seria uma questão de “saber como se faz algo”. A aprendizagem não
seria mais que o domínio de comportamentos práticos que transformem o aluno num
sujeito competente em técnicas e habilidades.
Diferentemente desse paradigma tecnicista de aprendizagem, o paradigma
sócio-cognitivista focaliza os processos internos de elaboração do conhecimento,
envolvendo a aprendizagem significativa, as formas de ajudar o aluno a desenvolver
um pensamento autônomo, critico, criativo, a ativação de processos mais complexos
de pensamento e desenvolvimento cognitivo, em contextos sócioculturais. Na
verdade, as habilidades cognitivas não seriam ações finalistas mas mediadoras do
processo de aprender. Tais estratégias cognitivas, uma vez internalizadas pelo aluno,
favoreceriam organizar seu raciocínio para lidar com a informação, fazer relações
entre conteúdos, enfim, tornar a informação conhecimento significativo, levar a uma
generalização cognitiva em outras situações e momentos de aprendizagem do
indivíduo. Daí a importância hoje do ensinar a pensar, do ensinar a aprender, e da
necessidade de os professores também aprenderem a se tornar sujeitos pensantes,
como condição para poderem a orientar a atividade cognitiva do aluno, isto é,
orientar os alunos naquilo que fazem, fazê-los perceber o processo mental que estão
aplicando naquela tarefa, ensiná-los a enfrentar o fracasso como passos para o
aprender a pensar e a aprender.
Portanto, descaracterizar o sentido da aprendizagem escolar em decorrência
da presença das inovações tecnológicas é obviamente um equivoco. O valor da
aprendizagem escolar está, precisamente, em introduzir os alunos nos significados da
cultura e da ciência através de mediações cognitivas e interacionais que supõem a
relação docente.
115
3. As tecnologias da comunicação e informação põem novas tarefas para a formação
de professores
É sabido que professores e pedagogos tendem a resistir à inovação
tecnológica, e expressam dificuldade em assumir, teórica e praticamente, disposição
favorável a uma formação tecnológica. Há razões culturais, políticas, sociais para
essa resistência, que geram atitudes difusas e ambivalentes. Por um lado, é verdade
que, em nosso país, a associação entre educação e desenvolvimento tecnológico foi
propiciada por uma visão tecnicista, no quadro da ditadura militar, gerando uma
resistência de natureza política ao mundo da tecnologia. Mas há, também, razões
culturais e sociais como certo temor pela máquina e equipamentos eletrônicos, os
educadores temeriam a despersonalizarão, a sua substituição pelo computador,
ameaça ao emprego. Tais resistências precisam ser trabalhadas na formação inicial e
continuada de professores através de disciplinas que possibilitem a reflexão crítica
sobre o mundo informacional, da integração das tecnologias da informação e da
comunicação nos currículos, de desenvolvimento de habilidades cognitivas e
operativas para o uso das mídias e da formação de atitudes favoráveis ao seu
emprego e à inovação tecnológica em geral.
Para isso, é preciso superar a idéia de que essas tecnologias servem
meramente como “recursos didáticos” ou como um elemento a mais dos “recursos
audiovisuais”. Não basta que os professores disponham, na escola, dos meios de
comunicação e da informática ou apenas saberem usá-los. É preciso que aprendam a
elaborar e a intervir no processo comunicacional que se realiza entre professores e
alunos através de mídias (Rezende e Fusari, 1996). Contra uma idéia linear e
mecânica sobre o uso das mídias, é preciso que professores e alunos elaborem e
transformem idéias, sentimentos, atitudes, valores, utilizando articuladamente
múltiplas mídias, escolares e não-escolares.
4. As tecnologias e meios de comunicação cumprem três funções pedagógicas
articuladas: comunicar conteúdos, desenvolver habilidades e atitudes profissionais,
constituir-se em meios de comunicação docente.
O grande objetivo a ser atingido com a integração das tecnologias da
informação e comunicação nas escolas é o de contribuir para a democratização de
saberes socialmente significativos e desenvolvimento de capacidades intelectuais e
afetivas, tendo em vista a formação de cidadãos contemporâneos. Mais
precisamente, contribuir para aprimoramento das capacidades cognitivas, estéticas e
operativas dos alunos, ou seja, favorecer domínio de estratégias de aprendizagem,
capacidade de transferência e comunicação do aprendido, análise e solução de
problemas, capacidade de pensar criticamente etc.
A partir disso, as tecnologias da informação e comunicação, assumem, do
ponto de vista pedagógico, três formas:
a) Como veículos de conteúdos escolares ligados às várias disciplinas do currículo,
portanto, portadoras de informação, idéias, emoções, valores. A justificativa
dessa funcionalidade das tecnologias da informação e comunicação é de que os
meios de comunicação social, isto é, as mídias e multimídias, fazem parte
mediações culturais que caracterizam o ensino. Como intermediações culturais,
são portadoras de idéias, emoções, atitudes, habilidades, e, portanto, traduzemse
em objetivos, conteúdos, métodos de ensino. Essa função de mediação, tanto
quanto as demais mediações do ensino, atua no sentido de prover condições e
modos de assegurar a relação cognitiva e interativa dos alunos com os vários tipos
de conteúdos (conceitos, habilidades, valores).
Incluem-se, portanto, entre os elementos didáticos propiciadores e
mobilizadores das interações dos alunos com os conhecimentos, habilidades,
116
atitudes e valores da cultura organizada. Na sala de aula, acontece uma trama
comunicacional de cultura existente na vida escolar, em que as comunicações
sobre as pessoas e suas vidas veiculadas na televisão, vídeo, rádio, telas de
computador, livros, jornais, revistas etc. entrecruzam-se com as concepções de
mundo e as práticas comunicadas por educadores e educandos na sala de aula
através do quadro-de-giz, das falas, dos livros, cadernos, ilustrações, vídeos,
computadores etc. (Rezende e Fusari, 1994,p.11).
b) como competências e atitudes profissionais. Aqui, as tecnologias da
informação e comunicação cumprem o papel de propiciar preparação tecnológica
comunicacional, no sentido de desenvolver competências, habilidades e atitudes
para viver num mundo que se “informatiza” cada vez mais.
c) como meios tecnológicos de comunicação humana (visuais, cênicos, verbais,
sonoros, audiovisuais) dirigidos para o ensinar a pensar, ensinar a aprender a
aprender, implicando, portanto, efeitos didáticos como: desenvolvimento de
pensamento autônomo, estratégias cognitivas, autonomia para organizar e dirigir
seu próprio processo de aprendizagem, facilidade de análise e resolução de
problemas etc.
Há muitas outras questões que envolvem o tema da educação e dos meios de
comunicação como a pesquisa, a avaliação pedagógica dos programas informáticos,
os efeitos psico-cognitivos e atitudinais dos programas, o caráter político-ideológico
dos meios de comunicação social. Há muita pesquisa e informação disponível sobre
aplicações das mídias no ensino. Há também o papel dos produtores e criadores de
mídias, especialmente as de cunho diretamente educativos. Creio que é comum esses
profissionais preocuparem-se com os meios e esquecerem-se das mediações culturais
e educacionais. Ou seja, o fascínio pela apresentação visual, pela imagem, pelo som,
pela tecnologia, deixa em segundo plano o fator pedagógico, ético, psico-cognitivo,
didático. Ou seja, descuida-se dos objetivos, dos valores, da veracidade, precisão e
integridade da informação.
São temas bastante novos, especialmente para os educadores escolares, que
precisam ser urgentemente incluídos na formação inicial e na formação continuada
de educadores escolares.
Minha intenção foi apresentar alguns pontos que a nós, pedagogos, nos
parecem cruciais. A didática contemporânea não pode mais ignorar esse importante
conteúdo que são as tecnologias da comunicação e da informação, tanto como
conteúdo escolar quanto meios educativos. É na escola que se pode fazer,
professores e alunos juntos, a leitura crítica das informações e familiarizá-los no uso
das mídias e multimídias. A luta contra a exclusão social e por uma sociedade justa,
uma sociedade que inclua todos, passa fundamentalmente pela escola, passa pelo
nosso trabalho de professores. A escola é o mundo do conhecimento, e é o
conhecimento que possibilita leitura crítica da informação. Ela continua sendo a
principal oportunidade das crianças das camadas populares usufruírem do
conhecimento como condição de liberdade intelectual e política.
Referências b ibliográficas
COLOM CAÑELAS, Antonio J. La educación como comunicación. In: CASTILLEJO, José
Luís et alii. Teoría de la educación. Madrid, Taurus Universitária, 1994.
117
LIBÂNEO, José C. Adeus professor, adeus professora? Novas exigências educacionais e
profissão docente. S. Paulo, Cortez, 2000.
REZENDE E FUSARI, Maria F. TV, recepção e comunicação na formação inicial de
professores em cursos de pedagogia. Anais do VIII ENDIPE –. Florianópolis, 1996.
REZENDE E FUSARI, Maria F. Multimídias e formação de professores e alunos: por uma
produção social da comunicação escolar de cultura. Anais do VII ENDIPE- Encontro
Nacional de Didática e Prática de Ensino. Goiânia, 1994.
118
CAPITULO XIV
A DIMENSÃO PEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA: QUESTÕES DIDÁTICAS E
EPISTEMOLÓGICAS ( *
O objetivo deste texto é sugerir um ponto de vista pedagógico em relação à
educação física. A pedagogia e a educação física têm muito a oferecer uma à outra
porque se há uma dimensão física da educação, há uma dimensão pedagógica da
educação física. Quando falamos de uma educação física, a primeira idéia que
aparece é de uma atividade educativa referente a um aspecto da personalidade
humana, o desenvolvimento físico. A teoria educacional atual concebe o ser humano
como uma unidade na qual se realizam as dimensões física, cognitiva, afetiva, social,
moral, estética, ambiental, todas elas envolvendo a personalidade humana. A
dimensão física integra tudo o que diz respeito à motricidade humana, ao dominio do
espaço, aos gestos e expressões do corpo, dando origem à educação física e à prática
pedagógica da educação física.
Por outro lado, falamos de uma dimensão pedagógica quando se trata da
prática de atividades físicas de caráter psicomotor, lúdico, higiênico, estético,
esportivo, de modo a que os indivíduos desenvolvam seu potencial de saúde e de
atividades físicas. Temos, aí, uma prática pedagógica que propicia a educação geral
de pessoas no âmbito das at ividades físicas e esportivas.
As relações entre a pedagogia e a educação física são abordadas neste texto
em três tópicos:
· A dimensão física da educação humana;
· A dimensão pedagógica da educação física e a prática pedagógica em
educação física;
· processo investigativo da educação física e o “modo de pensar e agir” que
lhe corresponde como referência para a prática pedagógica em educação
física ou de como o modo de compreender pedagogicamente a educação
física depende do como de compreendê-la epistemologicamente.
1. A dimensão física da educação
Do ponto de vista da teoria educacional, a dimensão física da educação
corresponde a um dos caminhos para se alcançar o desenvolvimento do conjunto da
personalidade humana. Sabemos hoje que podemos distinguir conceitualmente entre
educação física, a prática esportiva e o adestramento corporal, mas o que se acentua
aqui é o papel das atividades físicas na formação geral.
O estudo do campo investigativo da educação física tem sido feito por muitos
especialistas da área que propõem um ou outro dos seguintes objetos de estudo:
motricidade humana, movimento corporal, corporeidade, cultura corporal. A meu
ver, a explicitação do objeto é imprescindível para a discussão dos aspectos
pedagógicos de um campo de estudos. Clarificar o objeto da educação física é
condição para se formular uma fundamentação epistemológica e metodológica da
pedagogia da educação física. Como não se fará neste texto uma discussão de cunho
epistemológico, vou escolher um daqueles objetos de estudo mencionados - o
movimento corporal - apenas para ilustrar minha argumentação sobre a dimensão
pedagógica da educação física.
( * ) Comunicação apresentada no XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, Caxambu, outubro de
2001.
119
O movimento, nesse caso, é o objeto da ação educativa física e, ao mesmo
tempo, o meio de se obter a dimensão física da educação, isto é, a educação dos
indivíduos através do movimento corporal. A educação física seria, assim,
compreendida como conjunto de saberes, métodos e técnicas centradas no corpo e
no movimento enquanto meios para formar a personalidade do aluno tanto do ponto
de vista pessoal como social.
Em que consiste a prática educativa através do movimento corporal? Dentro
do interesse da teoria da educação, a educação física diz respeito ao corpo, talvez
melhor, ao movimento do corpo, portanto à ação educativa através do corpo visando
a educação completa das pessoas. E o modo de compreender isso pedagogicamente
coincide com os processos de investigação próprios da educação física, ou seja, a
apreensão, a compreensão, do movimento. As perguntas seriam: como captamos os
movimentos, como observamos os movimentos, como funcionam e como sentimos os
movimentos corporais? Como captamos o movimento no seu aspecto interno, como
atividade vital e no seu aspecto de expressão da capacidade corporal nas suas formas
culturais e pessoais?
Essas perguntas são postas aos pesquisadores do campo teórico da educação
física e os resultados de sua investigação ajudam os pedagogos a compreenderem a
dimensão física da educação, a configuração do objeto de estudo desse campo e a
identificação dos processos e procedimentos metodológicos de acessar esse objeto.
Temos, assim, o ponto de partida para pensarmos a dimensão pedagógica da
educação física.
2. A dimensão pedagógica da educação física
Antes de considerarmos os ingredientes pedagógicos da educação física será
útil esclarecer o que é a pedagogia, o que é a dimensão pedagógica de alguma coisa.
Muitos professores compreendem pedagogia apenas como o modo de ensinar,
as técnicas de ensino, o uso de melhores meios e recursos para que os alunos
aprendam. Em parte pedagogia é isso, mas penso que ela tem um significado mais
amplo. Ela é um campo de conhecimentos sobre a realidade da educação em vários
contextos, cuja responsabilidade é formular objetivos sócio-politicos e formas
metodológicas e organizativas da ação educativa, visando a formação humana. Numa
fórmula mais simples, dizemos que a pedagogia é a teoria e a prática da educação,
portanto, o pedagogo é uma pessoa que lida com práticas educativas. Mas, então, o
que é a educação, o que são as práticas educativas?
A idéia mais comum que temos de educação é de que ela é uma prática social
pela qual os seres humanos adquirem aquelas características humanas e sociais
necessárias para a vida em sociedade. A educação é o conjunto de ações, influências,
processos, estruturas, que atuam no desenvolvimento humano de indivíduos e grupos
em suas capacidades físicas, cognitivas, espirituais, morais, estéticas, num
determinado contexto sóciocultural e político. Está claro que essa definição pode ser
resumida em duas palavras: formação humana, ou seja, educamos as pessoas para
que incorporem características do ser humano para viver em sociedade, interpretála,
participar dela e, inclusive, transformá-la. Pode-se dizer mais um pouco da ação
educativa: ela inclui saberes e modos de agir como conceitos, teorias, habilidades,
técnicas, procedimentos, estratégias, atitudes, crenças, valores, preferências,
adesões, que precisam ser comunicados como condição de continuidade da sociedade
e produção de outros saberes e modos de agir.
Sendo assim, a educação atua, basicamente, através da comunicação e
vivência da experiência humana acumulada ao longo da história, isto é, da
comunicação dos saberes e modos de agir como habilidades, técnicas, valores,
atitudes, modos de fazer as coisas, existentes no meio sociocultural. Adquirindo
120
esses saberes e modos de agir, os indivíduos ganham um patamar necessário para
produzir outros saberes, técnicas, valores etc. É intrínseco ao ato educativo seu
caráter de mediação pela qual se favorece o desenvolvimento dos indivíduos na
dinâmica sociocultural de seu grupo, sendo que o conteúdo dessa mediação são os
saberes e modos de ação, isto é, a cultura que vai se convertendo em patrimônio de
cada ser humano. Nesse caso as escolas, e outras agências educativas não-escolares
seriam o lugar da mediação cultural entre as práticas socioculturais e o
desenvolvimento cognitivo e operativo (saber pensar, saber fazer, saber agir) dos
educandos.
Sabemos que são muitas as práticas educativas e elas acontecem em vários
lugares: no trabalho, na rua, na família, nos consultórios médicos, nas fábricas, na
lavoura, nos meios de comunicação, nas academias de ginástica, nos clubes e, claro,
também nas escolas. Falamos, pois, de práticas educativas no plural, de modo que
não podemos reduzir a pedagogia à educação escolar. Por conseqüência, se há uma
diversidade de práticas educativas, há também várias pedagogias: a pedagogia
familiar, a pedagogia sindical, a pedagogia dos meios de comunicação, etc., e
também a pedagogia escolar. E, por que não, uma pedagogia da educação física nos
vários contextos em que ela acontece?
E o que faz pedagogia? A pedagogia é a reflexão sistemática sobre os objetivos
e os modos de realizar as práticas educativas, implicando vários agentes, sob várias
modalidades e em vários lugares sociais. Além dos agentes educativos convencionais –
a família, a escola – tem-se uma multiplicidade de outros agentes como os meios de
comunicação, as instituições sociais, culturais, recreativas, os grupos sociais
organizados, inclusive a cidade e os equipamentos urbanos, que atuam em vários
lugares. Falamos também das modalidades informais, não-formais e formais da
educação e dos vários lugares em que ela se realiza (Libâneo, 2000).
Resumindo: a educação, as práticas educativas, é a ação, os processos de
formação das pessoas, a pedagogia é a reflexão sobre essa ação para definir
objetivos e formas de realizar o trabalho educativo. Como a educação refere-se a
assimilação e reconstrução da cultura, a pedagogia lida com tudo o que diz respeito à
transmissão e assimilação de saberes e modos de ação, como são os conceitos, os
códigos, as técnicas, as habilidades, as atitudes, os valores. Se temos saberes, modos
de agir, modos de fazer, atitudes em relação à motricidade, ao corpo, ao
desenvolvimento físico, a serem internalizados pelas pessoas, então posso falar de
uma educação física e de uma pedagogia da educação física ou da dimensão
pedagógica da educação física.
Mas é preciso introduzir mais algumas considerações. As práticas educativas
vão se modificando conforme tempos e lugares, devido à sua natureza
eminentemente social. Sendo prática social, ela acontece em meio a relações sociais
entre grupos, classes, gerações, etnias, crenças. Numa sociedade em que as essas
relações se dão entre grupos sociais antagônicos, com diferentes interesses, em
relações de exploração de uns sobre outros, a educação só pode ser crítica, pois a
humanização plena implica a transformação dessas relações. Isso significa que a
pedagogia lida com o fenômeno educativo enquanto expressão de interesses sociais
em conflito na sociedade em que vivemos. É por isso que a pedagogia expressa
finalidades sócio-politicas, ou seja, uma direção explícita da ação educativa
relacionada com um projeto de gestão social e política da sociedade. Então, dizer do
caráter pedagógico das práticas educativas é dizer que a pedagogia, a par de sua
característica de cuidar dos objetivos e formas metodológicas e organizativas de
transmissão de saberes e modos de ação em função da construção humana, refere-se,
explicitamente, a objetivos éticos e a projetos políticos de gestão social. Esse
121
entendimento do “pedagógico” indica intencionalidade, determinação,
sistematização, controle de objetivos, contra formas espontaneístas de educar.
Podemos, agora, relacionar mais diretamente esses conceitos com a educação
física. A educação física, uma dimensão da educação ao lado de outras como a
cognitiva, a emocional, a estética, a moral, ocupa-se de processos intencionais de
comunicação e internalização de saberes – saberes de conhecimentos, saberes de
experiências, saberes de habilidades, saberes de valores, obviamente relacionados
com a motricidade humana. A pedagogia viabiliza objetivos e formas metodológicas e
organizativas das práticas da educação física. A dimensão pedagógica da educação
física consiste em formular objetivos sociais, políticos e pedagógicos que orientam a
internalização de conceitos, procedimentos, atitudes, valores, sob a forma de
esquemas mentais e modos de proceder habitualmente. Isto implica a atividade
docente, o uso de métodos e procedimentos, as formas pelas quais os alunos
desenvolvem competências do aprender, do pensar, do agir, do ponto de vista físico,
motriz.
A pedagogia precisa ser, ao mesmo tempo, teoria e prática. O pedagogo
francês Jean Houssaye escreve que a pedagogia busca unir a teoria e a prática a
partir de sua própria ação, e é nesta produção especifica da relação teoria-prática
em educação que ela tem sua origem, se inventa e se renova. Sendo assim, a
dimensão pedagógica da educação física refere-se à teoria e à prática da construção
no ser humano das suas características físicas e corporais, implicando objetivos,
processos e meios dessa formação no âmbito físico num determinado contexto
sociocultural de tempo e espaço. O pedagógico aparece na educação física pelo
menos três vezes: como finalidade social e pedagógica, como processo de
desenvolvimento da dimensão física e como resultado de um aluno “fisicamente ou
motrizmente” educado. A educação física é uma das dimensões da educação,
portanto, é matéria pedagógica, cabendo ao pedagogo apropriar-se da teoria da
educação física para poder fazer uma reflexão sistemática sobre a dimensão física da
educação, seus processos educativos e sua realização pedagógica onde quer que seja
ensinada e aprendida. Tem-se aí uma necessária complementaridade .entre a
investigação pedagógica e a investigação específica no campo da educação física.
3. A dimensão pedagógica se realiza pela internalização, pelos sujeitos, de um modo
de pensar e atuar “físico”, “motor”
Conforme tentamos esclarecer, a dimensão pedagógica da educação física
refere-se à assimilação e reconstrução de saberes da cultura, visando a formação dos
alunos para a vida familiar, política, cultural, que é o podemos chamar de formação
geral ou formação para a cidadania. Ocorre ai um triplo processo: transmissão,
assimilação, reconstrução da cultura, cujo resultado é o desenvolvimento das
capacidades cognitivas e operativas dos aprendizes – capacidade de pensar, julgar,
agir – e o domínio dos conteúdos culturais e científicos (conhecimentos, habilidades,
valores).
Então, o produto esperado da educação física é o desenvolvimento de
capacidades e competências do pensar e agir em torno dos conteúdos e processos da
educação física. Posso dizer isso de uma forma mais prática: um aluno que passa
pelas aulas e/ou atividades de educação física, em qualquer lugar em que se
considere a atividade física como educativa, precisa demonstrar:
· que sabe transformar conteúdos específicos tais como teorias, conceitos, regras,
métodos em instrumentos conceituais de análise e solução de problemas e
dilemas da realidade;
· que domina um conjunto de habilidades básicas relacionadas com a motricidade
humana;
122
· que sabe atribuir ao conhecimento e habilidades internalizados um caráter ético,
valorativo, ou seja, que tem uma postura ética e política.
Ora, se se aceita que a dimensão pedagógica da educação física tem a ver
com esses produtos de aluno, o conteúdo do ensino da educação física supõe ao
menos três elementos:
· Os saberes “físicos” , digamos, saberes da motricidade humana, em sua relação e
em sua complexidade, ligados à experiência sociocultural dos alunos;
· Os esquemas mentais e as ferramentas conceituais que os alunos incorporam para
compreender e transformar a realidade do ponto de vista da motricidade
humana;
· As ações que os alunos praticam em decorrência dos conteúdos e processos
mentais que internalizam, em termos de conhecimentos, habilidades, atitudes e
valores.
Em resumo, o que impulsiona o desenvolvimento das capacidades de
pensamento e ação dos alunos são os conteúdos e as capacidades intelectuais e
físicas que decorrem de um modo de pensar próprios da construção do objeto da
educação física, a motricidade humana. O desafio, portanto, que caracteriza a
prática pedagógica na educação física é captar o percurso da investigação sobre o
movimento corporal (motricidade humana) e descobrir o caminho metodológico pelo
qual os alunos internalizam esse percurso, para assim, pensar e agir autonomamente
em relação às práticas corporais. A dimensão pedagógica da educação física
consistiria de três elementos:
· Formular os objetivos sócio-políticos e pedagógicos e os conteúdos
correspondentes;
· Captar os processo de investigação da realidade ou o modo de pensar que
caracteriza os saberes da motricidade humana, ou seja, a aprendizagem e
dominio prático do processo metodológico que corresponde às ciências que
estudam a motricidade humana;
· As formas de aplicar conceitos e processos de pensamento e de atuação na
análise de problemas e situações concretas da atividade física, inclusive,
habilidades e hábitos específicos relacionados à saúde e eficiência física.
Em que consiste esse modo de pensar “físico” no processo de ensino e
aprendizagem da educação física? Considerando-se que o campo disciplinar da
educação física é o movimento corporal, qual é o modo de pensar que lhe é próprio,
qual é o caminho metodológico ao qual recorre? Em outras palavras: em que consiste
o pensar e o agir “motorizmente” ou “corporalmente”? Quais são as competências
cognitivas e operativas requeridas de um aluno “educação-fisicamente” bem
formado?
São questões que somente o especialista em educação física pode responder e
é claro que as respostas a elas levarão à constituição dos conteúdos de ensino. Mas,
principalmente, essas respostas serão o ponto de partida para se orientar
pedagogicamente o ensino reflexivo de educação física. Este modo de compreender
a dimensão pedagógica da educação física apoia-se na idéia de que a escola é um
lugar em que os alunos aprendem a desenvolver a razão crítica e a se construírem
como sujeitos autônomos e críticos. Escrevi recentemente:
A escolarização básica obrigatória tem um significado educativo, político e
social, implicando o direito de todos, em condições iguais de oportunidades, ao
acesso aos bens culturais, ao desenvolvimento das capacidades individuais e sociais,
à formação da cidadania, à conquista da dignidade humana e da liberdade intelectual
123
e política. Este princípio se baseia na crença do poder da educação para propiciar o
desenvolvimento da razão critica pelo exercício da racionalidade, a melhoria da
qualidade da vida, o desenvolvimento da subjetividade e da sensibilidade, a
compreensão e a solidariedade entre os seres humanos, a inserção no trabalho e na
vida social (Libâneo, 2001).
A compreensão da escola como um dos lugares de desenvolvimento da razão
crítica implica que todas as disciplinas e atividades curriculares devem buscar a
educação reflexiva, isto é, a educação para o pensar, para o aprender a pensar - uma
educação que estimula a capacidade de raciocínio, análise e julgamento.
Com efeito, há, presentemente, três linhas da mudança de paradigma na
educação: investigações sobre a inteligência, o novo conceito de aprendizagem e as
experiências educativas articuladas com os contextos socioculturais.
A inteligência está relacionada com a aquisição de conhecimentos e
habilidades mas, principalmente, é vista hoje como capacidade a ser aplicada e
explorada pelos indivíduos. As recentes investigações destacam a forma de utilização
da inteligência, i.e., as estratégias que se utilizam para aplicar efetivamente a
inteligência. A aprendizagem é uma tarefa do ser ativo, que constrói seu
conhecimento e sua personalidade, de modo que torna-se muito importante o ensino
do pensar e do aprender a aprender, como meios de as pessoas alcançarem
responsabilidade e autonomia. O desenvolvimento da inteligência e da
aprendizagem, por sua vez, compreendem a inserção dos alunos num meio
sociocultural. É através das interações com esse meio que os alunos aprendem os
instrumentos cognitivos e comunicativos de sua cultura. Segundo Vigotski, as funções
mentais aparecem em dois planos da vida de um sujeito, primeiro no plano social e,
em seguida, no plano psicológico.
Em síntese, as investigações atuais destacam a relevância da aprendizagem, o
papel do ensino enquanto propiciador da aprendizagem e da atividade cognitiva do
aluno, i.e., ensinar a pensar. A idéia é a de que o aluno internaliza conceitos,
habilidades, mediante o modo de pensar a que a ciência recorre. A psicologia da
cognição tem investigado os fatores internos da aprendizagem – os processos internos
que ocorrem na mente do estudante durante uma experiência de aprendizagem
(Beltrán Llhera, 1993).
A aprendizagem seria o resultado ou efeito do pensamento que processa os
materiais informativos. Este processo inclui os movimentos, fases ou funções do
pensamento no ato de aprender. Ensinar, ajudar a aprender, consiste em ensinar a
pensar ou ajudar a desenvolver as distintas funções do pensamento e não só de
armazenar conteúdos. Trata-se de ensinar a pensar dentro do ensino formal do
currículo. A meu ver, também o ensino da educação física insere-se nesta linha de
investigação da psicologia e da pedagogia.
Em conclusão:
1. Pedagogia é uma reflexão sobre o educativo, é uma orientação para a prática
educativa, é uma direção de sentido das práticas de formação humana a partir de
objetivos e valores que se põem à humanização das pessoas numa sociedade
concreta. Ela se refere não apenas ao “como se faz”, mas, principalmente, ao “por
que se faz”, de modo a orientar o trabalho educativo para as finalidades sociais e
políticas almejadas pelo grupo de educadores. Uma visão crítica da Pedagogia
assume que ter uma atitude pedagógica é dar uma direção de sentido, um rumo, às
práticas educativas, de modo que a toda modalidade de prática educativa
corresponda uma pedagogia. Se a educação física não tiver esse caráter pedagógico
ela é inútil como prática educativa.
124
Trata-se, portanto, de entender a pedagogia como prática cultural, forma de
trabalho cultural, que envolve uma prática intencional de produção e internalização
de significados. É esse caráter de mediação cultural da pedagogia que faz viabilizar
várias modalidades e formas institucionais de educação, entre elas a educação
escolar. Todo educador físico, onde quer que esteja e seja qual for sua modalidade
de trabalho e de militância, é um pedagogo.
2. Pedagogizar a ciência significa fazer transposição didática. Transposição didática é
a conseqüência prática da pedagogização da ciência. Transposição didática significa
que temos o saber sábio que reúne os conteúdos científicos e culturais da educação
física e temos o saber selecionado e organizado para ser ensinado, para ser
apresentado aos alunos. Em resumo, transposição didática significa a ciência
transformada em matéria de estudo para ser aprendida e reconstruída pelos alunos.
Na condição de pedagogos, de professores, não podemos tomar a disciplina, a
ciência, formulada na ótica dos especialistas e despejar isso aos alunos. Fazendo
assim, não estamos fazendo “educação” física.
Isso significa que um saber da educação física, para se tornar acessível, para
ser incorporado pelos alunos e virar regra de conduta, precisa passar por princípios e
procedimentos didáticos. Obviamente não se trata de regras fixas de ensinar, modos
estereotipados de executar, pois transposição didática não é simplificação, não é
vulgarização. Trata-se de uma forma de ensinar que leve o aluno a atribuir
significado pessoal ao que aprende, que contextualize e de sentido pratico ao que
aprende.
3. Práticas educativas intencionais supõem conteúdos, processos do pensar,
capacidades e habilidades que propiciam o dominio de instrumentos conceituais. Os
processos formais do pensamento e os processos da ação prática supõem a formação
dos conteúdos do pensamento em conexão com o desenvolvimento de habilidades
cognitivas e operativas referentes a uma determinada área de estudo. O pensar e o
agir supõe, portanto, o dominio do próprio processo de pensar e raciocinar referente
ao campo cientifico ou cultural que se estuda.
4. As práticas educativas acontecem em muitos lugares sociais, o que significa dizer
que há uma dimensão pedagógica da educação física em todos os lugares em que ela
acontece: nas escolas, nos clubes esportivos, nas academias de ginástica, no turismo
etc. Tais atividades físicas e esportivas implicam uma ação pedagógica: na
explicitação de objetivos sóciopolíticos e pedagógicos, na condução pedagógica da
formação física, no sucesso escolar que os alunos demonstram nas atividades físicas.
As questões aqui consideradas podem fornecer uma pista para princípios
pedagógicos da educação física, a partir dos resultados das pesquisas da área e das
exigências pedagógicas das práticas educativas nas escolas. Tais princípios valeriam
para as práticas formais, não-formais e informais de educação física, já que em todos
os lugares onde se ensinam práticas corporais também se educa, também se realiza
uma ação pedagógica.
A busca da dimensão pedagógica da educação física não é uma mera questão
de métodos e procedimentos para se ensinar educação física. Se pensarmos a
educação física como atividade curricular com forte influência no conjunto das
outras disciplinas e atividades e com potencial inestimável de fortalecer a educação
da personalidade dos alunos, é preciso que se continue investigando os fundamentos
epistemológicos e metodológicos da pedagogia da educação física.
125
Referências bibliográficas
BELTRÁN LLERA, Jesús A . Procesos, estrategias y técnicas de aprendizaje. Madrid,
Editorial Síntesis, 1993.
LIBÂNEO, José C. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo, Cortez, 2000.
LIBÂNEO, José C. Organização e gestão da escola – Teoria e prática. Goiânia,
Alternativa, 2001.
LIPMAN, Matthew. Natasha - Diálogos vygotskianos. Porto Alegre, Artes Médicas,
1997.
VÁZQUEZ GÓMEZ, Gonzalo. La educación física. In:CASTILLEJO, José L. e outros.
Teoría de la educación. Madrid, Taurus, 1994.
126
CAPITULO XV
A PRÁTICA PEDAGÓGICA, OS CONTEÚDOS E A ESCOLHA DOS LIVROS ESCOLARES (·)
Meus cumprimentos aos professores que me ouvem neste momento nas
escolas. Meus cumprimentos, também, à categoria do professorado paulista que tem
lutado bravamente pela qualidade de ensino da escola pública e pelas suas condições
de trabalho intelectuais e materiais.
A partir da próxima semana os professores serão solicitados pela
Secretaria da Educação a fazerem escolhas de livros didáticos e dos módulos
paradidáticos para suas disciplinas. Não seria preciso ser eu a dizer-lhes sobre a
responsabilidade dessa escolha. Porque vocês sabem, tanto quanto eu, que o livro
didático e o paradidático são parte importante do processo de ensino e
aprendizagem e tem muito a ver com o trabalho do professor e com o rendimento
escolar dos alunos.
O livro didático é um companheiro do professor e um valioso recurso
didático para o aluno. Nele encontra-se organizado e sequenciado o conteúdo
científico da matéria supostamente correto. Através dele o professor continua
aprendendo, ganhando mais segurança para o trabalho na sala de aula. Para o aluno
é uma fonte de informação imprescindível por conter o saber sistematizado da
matéria escolar, além de ser meio para o estudo individual, revisão e consolidação da
matéria. Se bem utilizado pelo professor, o livro didático ajudará os alunos a lidar
com a informação, a formar conceitos, a desenvolver habilidades intelectuais e
estratégias cognitivas, que são os objetivos de um ensino adequado para o nosso
tempo.
Alguns educadores não são muito favoráveis ao livro didático, outros o
toleram. De fato, os livros didáticos têm problemas, há livros de má qualidade, há
livros muito caros, livros inadequados para as séries para as quais são escritos, etc.
Problemas, de fato, existem. Por exemplo, recentemente uma comissão designada
pelo MEC analisou 500 livros adotados pela FAE, - Fundação de Assistência ao
Estudante. Como já aconteceu em outras análises desse tipo, constatou-se que
muitos livros contêm erros científicos e que boa parte deles tratam os conteúdos de
forma simplista e preconceituosa, por exemplo, em relação ao negro, ao índio, à
mulher.
Apesar disso, meu ponto de vista é totalmente favorável à
existência e ao uso do livro didático. Por isso sinto-me à vontade para oferecer aos
colegas professores algumas considerações, algumas reflexões, sobre a escolha do
livro didático.
Minha exposição está organizada em 3 tópicos:
1. Livro didático e Didática
2. Critérios gerais para escolha do livro didático
3. O livro didático e as novas atitudes docentes para o ensinar a
aprender a aprender.
( · ) Texto de teleconferência apresentado na TV Cultura, São Paulo, Programa da FDE-Fundação para o
Desenvolvimento Educacional/Secretaria da Educação do Estado de S.Paulo, maio de 1996.
127

1. Livro Didático e Didática
Qual é a importância do livro didático? Naturalmente, em primeiro
lugar, tem uma importância pedagógica por ser parte do processo da educação e do
ensino. Ele sistematiza o conhecimento científico, transforma o saber científico em
saber escolar, em saber para ser ensinado na escola. O livro didático, em certo
sentido, operacionaliza objetivos do ensino, define o que deve ser ensinad o e o que
deve ser aprendido tem, assim, um papel pedagógico-didático fundamental como
apoio ao professor e ajuda no desempenho escolar dos alunos. Basicamente porque
ele se encontra no meio da relação entre o professor e o aluno. Além de ser um
veículo da cultura elaborada e, também, um prolongamento da ajuda pedagógica do
professor.
Em segundo lugar, tem importância política e cultural. Política, porque
o livro didático transmite valores e atitudes, isto é, modos de pensar e agir, idéias,
opiniões, modos de ver as coisas, preconceitos que podem estar expressando o ponto
de vista de determinados grupos sociais econômicamente privilegiados. Ele podem
passar o ponto de vista dos governos que nem sempre corresponde ao ponto de vista
dos vários segmentos da sociedade. Tem, também, importância cultural porque
possibilita a passagem da cultura oral à cultura escrita. Talvez, por isso, o livro pode
ser a forma pela qual se dá o primeiro contato das pessoas com a cultura elaborada.
Inclusive, muitos professores e a maioria dos alunos consideram o livro didático como
uma bíblia, há uma idéia de que tudo o que está escrito é verdade. Hoje em dia,
quando queremos dar peso de verdade a uma informação, a gente diz: deu na
televisão. Da mesma é tratado o livro: está escrito, é verdade. Mas sabemos que as
coisas não são bem assim.
Finalmente, é preciso falar da importância econômica. Não podemos
ser ingênuos, o livro didático é um negócio, e um bom negócio. A própria distribuição
de livros pela FAE representa uma disputa de interesses entre editoras de livros. Mas
temos que ver, também, o lado positivo. A produção de livros didáticos, assim como
a produção cultural em geral, é um setor da economia cujo crescimento é benéfico
para a sociedade. O que é preciso é uma atuação do Estado de propor a política do
livro didático, dentro de uma política educacional.
Trabalho docente como mediação
Qual o lugar do livro didático no processo de ensino? Primeiramente
gostaria de explicitar, brevemente, o que caracteriza o ensino. Hoje em dia há
alguns princípios didáticos que quase nenhuma corrente pedagógica contesta. Um
deles é o papel do ensino como mediação. Em que sentido se diz que o ensino é uma
mediação?
Mediação significa que o trabalho do professor é viabilizar a relação
ativa do aluno com a matéria de estudo, através de objetivos, conteúdos, métodos e
formas organizativas do ensino.
Relação ativa significa: uma relação cognitiva em que o aluno põe em
ação suas capacidades intelectuais e afetivas para lidar com os objetos de
conhecimento, com a ajuda do professor. Mediar é, portanto, fazer uma articulação
entre o papel de condução pedagógica do professor e a autoatividade do aluno,
através do desenvolvimento de suas habilidades cognitivas, o que acontece quando se
estudam os conteúdos da matéria. O trabalho do professor é ajudar o aluno a
reelaborar os conhecimentos com os seus próprios meios. Em outras palavras, o
ensino é o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos através da
assimilação consciente e ativa dos conteúdos, com a ajuda pedagógica do professor.
Essa idéia de interligação entre o ensino e a aprendizagem é o que tem sido chamado
128
de pedagogia crítico-social dos conteúdos, abordada numa perspectiva sócioconstrutivista.
Diz-se sócio porque a situação de ensino é uma atividade conjunta,
compartilhada, do professor e dos alunos, ou seja, concebe-se o.ensino como uma
relação social entre professor e alunos frente ao saber escolar. É construtivista
porque o aluno constrói, elabora, com a ajuda do saber sistematizado, seus
conhecimentos, suas estratégias de estudo, sua afetividade. O professor está
presente aí como parceiro mais experiente, interagindo com a experiência do aluno,
ajudando no desenvolvimento de atividades cognitivas tais como o raciocínio, a
atenção, a observação, a comparação e a classificação de fenômenos, a formulação
de hipóteses, a análise, etc. Como se vê, esta proposta valoriza, ao mesmo tempo, a
atividade construtiva do aluno, a influência educativa do professor e a aprendizagem
dos conteúdos.
É nesse quadro - da mediação didática através de objetivos, conteúdos
e métodos - que aparece o livro didático. Está claro que o livro didático diz respeito,
mais diretamente, ao tópico métodos e procedimentos, porque métodos é uma
palavra que engloba tudo o que é meio para, ou seja, os métodos de ensino, os
procedimentos, os recursos de ensino. O livro didático é um meio de ensino, ele é
um recurso didático.
Mas eu diria que é um recurso didático especial, porque nele aparecem
esses elementos interligados do ato didático que são os objetivos, os conteúdos e os
métodos e procedimentos. A função básica dos métodos e procedimentos é
promover, mobilizar, a atividade cognoscitiva dos alunos. Pois bem, essa é também a
função do livro didático. As perguntas fundamentais que devemos nos fazer ao
escolhermos um livro didático deverão ser: Este livro contribuirá para prover a
atividade mental dos meus alunos? Ajudará meus alunos a desenvolverem um
pensamento autônomo, crítico, criativo? Ensina a aprender a aprender? Desenvolve
atividades cognitivas como observação, comparação, análise, raciocínio indutivo e
dedutivo? Passemos, agora, ao segundo tópico da exposição.
2. Critérios gerais de escolha do livro didático
Se estão acompanhando meu raciocínio, fica fácil compreenderem os
critérios de seleção do livro escolar que irei propor. Considerem esses critérios como
sugestões. Juntem esses critérios com aqueles que vocês próprios já estabeleceram a
partir do seu conhecimento e de sua experiência. Vou apontar sete, poderiam ser
mais, poderiam ser menos.
Cientificidade e sistematicidade dos conteúdos
Certamente, o primeiro critério é este: os conhecimentos escolares
devem estar de acordo com o desenvolvimento da ciência e com os métodos dessa
ciência ensinada. É preciso, portanto, verificar se as definições são precisas, se há
uma lógica na organização dos temas que ajude os alunos a formar conceitos
científicos corretos, se possibilita aos alunos expressar corretamente as definições e
termos utilizados na matéria ensinada. Além disso, há necessidade de se verificar,
também, se a forma de apresentação dos assuntos contemplam os métodos da
ciência ensinada. Por exemplo, um livro de ciências deve estar elaborado em
correspondência com o método científico da Física, da Química, da Biologia. Um livro
de História deve possibilitar ao aluno desenvolver o raciocínio histórico, a habilidade
de pensar os fatos e os processos com o critério da historicidade, assim como o de
Geografia de desenvolver o raciocínio geográfico, etc.
Sistematicidade quer dizer uma exposição e uma ordenação dos
conhecimentos que tenham uma clara definição de objetivos, sequência lógica
conforme as séries a que destina.
129
Acessibilidade ao aluno
Todo livro didático tem por tarefa transformar a ciência em matéria de
ensino. Essa é a principal razão para dizer que os conteúdos do livro didático
precisam ser acessíveis. É o contraponto da cientificidade. Ser acessível não quer
dizer facilitado. Significa que deve ser adequado ao nível de desenvolvimento mental
dos alunos, à sua idade, ao seu interesse. Acessibilidade quer dizer: relação entre as
exigências de conhecimento posta pela escola e pelo professor e a atual capacidade
de rendimento escolar dos alunos. Repito que não se trata de escolher livro mais
fácil, mas escolher livro mais adequado às idades dos alunos. Ao organizar os
conteúdos, o professor levará em conta o limite superior das possibilidades dos
alunos, a fim de estar sempre ajudando a elevar essas possibilidades.
Desse ponto de vista, bom livro é aquele está um pouco acima do nível
dos alunos, de modo que os alunos possam estudá-lo com certo esforço, a fim de
elevar sua capacidade de rendimento escolar.
Acessibilidade diz respeito, também, à linguagem utilizada no texto
que deve estar adequada ao nível de compreensão e assimilação dos alunos aos quais
se destina.
Relevância social ou ligação do conteúdo com a vida
Um bom livro didático deve atender ao princípio da unidade entre o
conhecimento e a prática. Em qualquer matéria, é importante que os conhecimentos
tragam uma relação com a experiência de vida dos alunos, com os problemas e
desafios da realidade não só local, como também global. Os conteúdos precisam
ajudar os alunos a colocarem cientificamente as questões da vida prática, dar
respostas cientificas aos problemas do cotidiano, aplicar a teoria, aprender a
observar a realidade.
Em resumo, os conceitos, o uso dos príncipios básicos da matéria, o
domínio dos métodos para aplicá-los, precisam estar articulados com as ações
práticas dos alunos, de modo que estas ajudem à assimilação ativa dos conteúdos.
Criticidade
Este é um dos critérios mais importantes. Criticidade significa,
basicamente, verificar em que grau os conhecimentos expressam interesses s de
determinados grupos sociais. Todo professor sabe que um livro passa idéias, opiniões,
valores, visão de mundo, mensagens morais, políticas e sociais. A forma de
exposição dos conteúdos tanto pode ajudar os alunos a analisarem o fato, o objeto
de estudo, de diferentes ângulos , estabelecendo todas as relações possíveis de um
objeto com outros, quanto pode dar uma visão falsa da realidade.
Mas vejam bem. Não devemos esperar que o livro traga a crítica
pronta. Dificilmente teremos livros que denunciem as injustiças, que mostrem a
realidade social. Digo mais: isto nem sempre é possível e nem mesmo desejável..
Além disso, se os livros didáticos tivessem que ser obrigatóriamente críticos, correrse-
ia o risco de encontrarmos afirmações dogmáticas, político-partidárias que, no
meu modo de ver,. não seria correto. Seja como for, é preciso verificar se o livro traz
afirmações preconceituosas, discriminadoras, em relação a raça, sexo, religião,
profissão etc. Isso vale para todas as matérias, mas convém prestar mais atenção nos
livros de história, de geografia e, nos de português, especialmente os textos
literários apresentados.
Vocês sabem que é difícil encontrar o livro “crítico” ideal. Daí que eu
deduzo que a melhor condição para realizar um trabalho crítico com o livro didático
é seu caráter científico, do qual já falei. O resto é com o professor. Minha opinião é
de que um texto didático de história, de ciências, de geografia, de literatura, nunca
130
dão conta de esgotar sua dimensão de criticidade. Um autor, quando trata um tema
como água, ar, solo, moradia, demografia, democracia, etc., pode chegar perto dos
significados sociais desses conteúdos, das suas implicações para a vida humana, mas
a reflexão crítica, globalizante, desse conteúdo, acontece na situação concreta
daquela escola, daquela classe, daqueles alunos.
A saída, portanto, é um bom domínio de conteúdo pelo professor, um
bom domínio de métodos e de procedimentos didáticos para dialogar com os alunos,
e sua capacidade de fazer uma leitura crítica dos textos didáticos a fim de poder
ajudar os alunos a fazerem o mesmo.
Capacidade de mobilizar as capacidades e habilidades intelectuais dos alunos
Trata-se de um critério indispensável. Como venho insistindo, o ensino
e o professor existem para promover a autoatividade do aluno. O livro didático
precisa trazer os elementos conceituais e metodológicos para ajudar os alunos a
pensarem autonomamente, organizar uma visão de mundo e aplicar criativamente
seus conhecimentos na prática. Para isso, convém verificar a linguagem do texto, a
argumentação lógica, os desafios cognitivos propostos nos exercícios, nas perguntas.
Em relação a este critério, as perguntas a fazer sobre o livro didático são: este livro
está escrito de um modo que aguça o pensamento do aluno? Ajuda o aluno a aprender
independentemente, a aprender criticamente? Os exercícios colocam problemas,
desafios cognitivos aos alunos? O texto provoca dúvidas, curiosidade? Estimula e
orienta o estudo independente?
Atualidade
Um livro didático que cumpre o requisito de cientificidade preciasa
ser, também, um livro atual, que incorpora os resultados mais recentes das
pesquisas. Mas, além de estar atualizado com as descobertas da ciência, é preciso
estar em dia com temas mais amplos da sociedade, temas políticos, sociais,
econômicos, ecológicos.
Não importa se você é professor de matemática, português ou ciências.
Há temas de hoje que não podem estar ausentes do livro didático. Vou apontar
alguns desses temas.
· ecologia e movimentos ecológicos, a consciência ambiental. Ecologia que envolve
questões do meio ambiente, das relações sociais e a subjetividade humana.
· abordagem da diversidade cultural. Hoje há uma preocupação muito grande com
novos sujeitos sociais, a criança,.a mulher, o negro, os homosexuais e outros. Um
livro didático precisa lidar de modo ético e democrático com as diferenças de
raça, etnia, gênero.
· tensão entre o regional e o global.
· questões éticas não só nas relações entre as pessoas, os políticos, os profissionais,
mas na própria ciência.
· a aceleração da difusão e consumo da informação.
Adequação entre o conteúdo do livro e a proposta de trabalho da escola e do
professor
Quero ressaltar bastante este critério. O trabalho na escola ‘é um
trabalho conjunto dos especialistas, dos professores, alunos e funcionários. Não se
admite mais hoje em dia o trabalho isolado do professor na sala de aula. Por essa
razão, cresce em importância o projeto pedagógico da escola. O projeto pedagógico
131
estabelece objetivos comuns, intenções comuns, uma proposta curricular comum e
práticas escolares também decididas coletivamente. Uma de suas contribuições é a
de garantir uma unidade de ação dos profissionais da escola.
Não estou falando de uniformidade. Estou falando da possibilidade de
uma negociação entre os profissionais da escola de uma pauta comum de pensamento
e ação em torno de objetivos e práticas escolares. Essa pauta implica um mínimo de
consenso em torno de assuntos como: as funções sociais da escola, expectativas
quanto à formação dos alunos, os objetivos do ensino nesta escola, a função dos
conteúdos, métodos e avaliação, as formas de gestão.
Obviamente tudo isto tem a ver com a livro didático. Penso que os
critérios de escolha do livro didático devem ser estabelecidos pelo grupo de
professores e especialistas da escola, dentro dos princípios e objetivos definidos no
projeto pedagógico da escola.
Em resumo: trata-se de verificar no livro didático se a concepção da
matéria, a estruturação do conteúdo, abordagem de conceitos e temas e atividades
estão próximos à visão que os professores têm da matéria que ensinam.
OUTRAS RECOMENDAÇÕES
Sugeri sete critérios como princípios orientadores da escolha do livro
didático. Vou acrescentar mais algumas recomendações, a maioria delas de bom
senso, que servem apenas de lembretes. Penso que o livro didático deve:
1. Conter propostas de atividades para o estudo independente dos alunos. As
propostas incluem: exercícios de vários tipos, estudo dirigido individual, pesquisas,
testes, questões de dissertação. Todas destinadas ao estudo independente do aluno.
Atenção: não estou me referindo ao livro descartável em que os alunos preenchem o
caderno de exercícios na base de cruzinhas. Penso que esse tipo de livro não serve
mais para uma proposta de ensino mais contemporânea. O que sugiro observar nos
livros é a presença de atividades de estudo que valorizem o trabalho pessoal, o
desenvolvimento de habilidades cognitivas, a compreensão do assunto, a discussão, o
pensamento autônomo. Em resumo, o objetivo das atividades de estudo
independente deve ser o enriquecimento de processos mentais e a estruturação
interna do conhecimento.
2. Trazer ilustrações, gráficos, fotografias, etc. A importância das ilustrações no livro
didático não é nenhuma novidade. O que é importante é que as ilustrações, os
gráficos, os diagramas, além de aperfeiçoar a comunicação com o leitor, estejam
associados ao conteúdo e ao desenvolvimento de estratégias cognitivas, de
habilidades de pensamento. Mas, atenção: não confundir o uso de recursos gráficos
com história em quadrinhos. Prestem atenção se o autor não disfarça o estudo em
brincadeira, a tarefa em joguinhos. Estudo prazeiroso não quer dizer transformar o
trabalho de estudar em lazer e brincadeira.
3. Ser compatível o plano de ensino e com o projeto pedagógico da escola. Uma coisa
óbvia é a seguinte: o plano de ensino da matéria antece a escolha do livro didático.
O plano de ensino, por sua vez, deve estar conectado com o projeto pedagógico da
escola e com as orientações gerais da proposta curricular do Estado. Sendo assim, o
livro didático deve estar adequado ao plano de ensino, e não contrário. Para ser mais
claro: o desejado é que, primeiro, a equipe de docentes de uma disciplina elaborem
o plano de ensino e, depois, escolham o livro didático.
4. Ter correspondência com as convicções e propostas do professor. Não aceitar, sem
mais nem menos, a persuasão das editoras. É claro que ninguém pode proibir a
propaganda. Mas não podemos nos esquecer de que o livro didático, junto com seu
valor de uso, é um artigo de venda, um negócio para editoras. Para isso existe a
132
sedução e o lobby das editoras e livrarias. Devo acreditar que os professores têm
suficiente autonomia para fazer uma escolha isenta, pautada por critérios científicos,
metodológicos, técnicos.
5. Apresentar qualidade gráfica, apresentação estética e condições que garantam a
durabilidade. Verificar o acabamento, textura do papel, tamanho da letra, capa,
costura da lombada, etc. Em muitos casos, para ter um custo baixo, as editoras
colocam papel ruim, impressão mal-acabada, ausência de ilustrações, letra muito
pequena. Precisamos estar alertas para que o livro dos alunos carentes não seja
também um livro carente.
6. A última recomendação diz respeito à interdisciplinaridade. Estou entendo por
interdisciplinaridade o diálogo entre as matérias para uma melhor compreensão de
temas ou problemas, de modo a se ter uma visão globalizada sobre o assunto. É
juntar vários ramos de conhecimento ou noções de várias disciploinas para
compreender melhor um assunto ou ver globalmente um problema da realidade.
Acredito que os módulos paradidáticos podem ter um papel importante porque
oferecem livros informativos e textos literários que ampliam a compreensão de
tópicos de estudo e possibilitam tratar os conteúdos sob diferent es ângulos. Temas
de geografia interagem com os de história, textos literários podem ser úteis para a
geografia e história, as ciências também compartilham temas de história e assim por
diante.
3. Conclusão: O livro didático e novas atitudes docentes
Para finalizar, gostaria de fazer algumas considerações finais sobre
novas atitudes docentes no mundo de hoje.
Certamente os professores sabem que o livro didático não resolve
todos os problemas do ensino. Ele vem junto com outras condições, certamente bem
mais importantes. A primeira delas é o próprio professor com sua formação, sua
profissionalização e condições de trabalho. Depois vem a cultura da escola, o
ambiente de trabalho da escola, outros meios e recursos didáticos. Convém dizer,
também, que é bastante recomendável que o professor possa utilizar vários outros
textos, daí a importância de vocês terem a opção de escolha dos módulos
paradidáticos.
Além disso, o livro didático é parte de uma questão maior que é a
produção cultural e literária voltada para as crianças e adolescentes. Junto com o
livro há que considerar os para-didáticos, obras literárias, o cinema, as revistas, o
jornal, o vídeo, as artes plásticas etc.
Eu gostaria de falar, brevemente, sobre algumas tendências do ensino
de hoje que afeta o trabalho do professor. O mundo contemporâneo está em
ebulição. Vivemos novas realidades econômicas, políticas, sociais, geográficas.
Estamos numa época de questionamento das grandes verdades. Estamos frente a uma
revolução nos meios de comunicação e na informática, a mudanças nas formas de
produção, na organização do trabalho, no sistema de formação dos indivíduos. Essas
transformações afetam diretamente o exercício da profissão de professor. O que de
mais moderno ou pós-moderno os autores tem dito sobre o ensino e aprendizagem?
Vou destacar algumas idéias:
1) Relação entre a condução pedagógica do professor e a
aprendizagem ativa do aluno. Aquele ensino exclusivamente verbalista não subsiste
mais. Não quero dizer que deve sumir a aula expositiva. A aula expositiva precisa
assumir outra função, ao lado de diversas artividades de classe. O professor precisa
fazer o possível para ensinar o aluno a aprender de forma autônoma e crítica. Quer
dizer, colocar a cabeça do aluno em ação, ensinar a pensar. O professor tem que
colocar problemas, fazer perguntas, tem que dialogar bastante, ouvir mais os alunos,
133
abrir espaço ao aluno para expressar-se e trazer para a sala de aula sua realidade
vivida..
2) Ensinar a pensar criticamente implica a ajuda pedagógica do
professor no desenvolvimento de habilidades cognitivas, de estratégias de
pensamento, hábitos de estudo, de formação de conceitos, para auxiliar o aluno a
interpretar o mundo de forma crítica. Vejam bem, é insuficiente fazer o aluno
memorizar definições. Formação de conceitos diz respeito à capacidade que os
alunos podem adquirir de trabalhar mentalmente com conhecimentos, habilidades,
ou seja, com princípios básicos, com hipóteses. Na verdade, formar conceitos diz
respeito muito a aumentar a capacidade de raciocínio. Os conceitos são o alimento
do raciocínio.
3) Ensinar a aprender a aprender tem a ver com a atitude sócioconstrutivista
de que falei no início. Tem a ver com a sócio-construção do
conhecimento. A idéia aqui é de que a criança e o adolescente tenham um papel
ativo na construção do seu conhecimento, baseado numa interação viva da criança
com seu meio (meio esse que são as pessoas, os objetos, a organização escolar, a
organização da sala de aula e, naturalmente, o próprio livro didático).
4) Prestar atenção ao impacto dos meios de comunicação (tv, vídeo,
games, etc.) na sala de aula. A escola vai continuar ainda muito tempo do jeito que
está: sala de aula, lousa, giz, cadernos, lápis. Mas as alterações tecnológicas serão
cada vez mais familiares nela. Os professores não podem mais ignorar a televisão, o
vídeo-cassete, o computador, o fax, que são veículos de informação, de
comunicação, de aprendizagem, de lazer. Isso acaba trazendo mudanças no papel da
escola e do professor. O professor não é mais a principal fonte do conhecimento. O
livro didático não supre mais sozinho as informações e os conteúdos necessários. A
fala oral já é insuficiente. Professores, alunos, pais, todos precisamos aprender a ler
sons, imagens, movimentos.
Como escreve a Profa. Vani Kenski, estamos numa fase transitória
entre a concretude do texto impresso e a imaterialidade do texto eletrônico. Quer
dizer, a tendência é a diminuição gradativa do livro para o uso generalizado de
textos eletrônicos, que juntam palavras, sons, imagens. Muitos dos nossos alunos já
vivem estas experiências, estão acostumados a aprender através dos sons, das cores,
das imagens, nos programas de televisão, nos filmes, nos games, em que o real é
substituido pelo virtual.
Minha intenção é, apenas, alertar para os novos desafios da profissão
docente. Insistir numa preocupação maior com a comunicação em sala de aula, com
o ouvir mais os alunos. Lembrar os professores para quando pensarem em
procedimentos didáticos, que procurem aproveitar a riqueza de conhecimentos,
imagens, sons e emoções trazidas pelos meios de comunicação.
5) Atender à diversidade cultural e as diferenças no contexto da escola
e da sala de aula. Isso diz respeito à nossa preocupação em juntar o trabalho que se
faz na sala de aula com as vidas que os alunos levam fora da escola. Falar da
diversidade cultural é falar da realidade concreta da diferença e da vida cotidiana. É
levar em conta as experiências do cotidiano que alunos têm enquanto brancos,
negros, homem, mulher, homosexuais, pobres, remediados. Coisas que não
encontramos diretamente nos livros didáticos.
6) Domínio e utilização de novos recursos auxiliares de ensino;
7) Aprender a pensar e a criar o próprio saber;
134
8) Desenvolver comportamento ético e saber orientar os alunos em
valores e atitudes em relação à vida , ao ambiente, a si próprios, às relações
humanas.
o0o
Prezados professores, desejo que vocês continuem fazendo um bom
trabalho em suas escolas, um trabalho solidário, cooperativo, participativo,
responsável. Que não desanimem na exigência de melhores condições salariais, de
trabalho e de formação profissional em serviço. E que tenham sorte na escolha do
livro didático.